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quarta-feira, setembro 22, 2010

Lugarzinhos/Serra Gaúcha: Canela, um camping ao velho estilo

 
Vai aqui uma dica de cocheira, daquelas que o tratador do cavalo de corrida passa em segredo só para o seu apostador de confiança...

Aproveitando o feriadão de 20 de Setembro, data em que os gaúchos celebram a Revolução Farroupilha - cuja importância local supera, em muito, o 7 de Setembro - saí em busca de paz e sossego rumo à cidade serrana de Canela, a 120 Km de Porto Alegre.

Precisava de folga, sombra e água fresca. Desta vez, nada de camping selvagem ou extenuantes atividades outdoor, afinal, ninguém é de ferro.

Se os hotéis e pousadas já estavam há muito com as reservas lotadas em face da temporada de inverno, isto pouco me importou pois levei na camionete minha casa inteira: barraca, saco de dormir, laterna, apetrechos de cozinha, um bom livro e uma garrafa de vinho.

A tiracolo, minha esposa, enteada e amigos chamados a dedo. Pronto, o feriado estava garantido!

O local escolhido foi o tranquilíssimo camping de Canela/RS, pertencente à rede do antigo Camping Clube do Brasil, o CCB.

Conheci o CCB - Canela quando acampava com meus pais, ainda criança, então localizado no que hoje é a área do Parque Estadual do Caracol. Com a readequação no parque nos anos 80 o camping foi transferido para um local próximo, exatamente onde está até hoje.

Depois de tanto tempo eu o redescobri no ano passado, meio por acaso, sobrevivendo valente em meio ao turismo de massa estilo CVC e à avalanche da arquitetura kitsh que assola com seus duentes e papais-noéis de fibra de vidro as cidades de Gramado e Canela. Ali, nesta Disneworld germano-tupiniquim onde há muito o Natal dura os 12 meses do ano, tudo gira em torno do comércio turístico, os preços são absurdos, com pouquíssimas alternativas de atividade para quem busca um convívio mais puro com a natureza.

Nesta minha nova fase "contemporânea" de usufruto do local, diferente do grande movimento nos anos 80 que ainda guardo na memória, a surpresa foi enorme: Carnaval 2009 - 5 famílias; Páscoa 2009 - 3 famílias; Feriado Farroupilha 2010 - 1 família (a minha)!

Longe de ser um incômodo, esta é a garantia de sossego em um lugar de 10 hectares absolutamente aprazível, repleto de largos gramados em meio à sombra de um bosque de araucárias e semi-circundado por um riacho de águas cristalinas.

Apesar da estrutura física estar implorando por uma reforma, o camping conta com instalações-padrão do Camping Clube do Brasil, energia elétrica 220v, dois pavillhões de banheiros (01 desativado) com tanques, pias e chuveiros quentes à gás, campo de futebol gramado, pavilhão de lazer com churrasqueira, mesas, freezer horizontal e fogo de chão (apesar de estar sendo utilizado como garagem de carros), cancha de bocha, playground, churrasqueiras cobertas, bosque de araucárias, riacho e piscina natural.


Sendo cada vez mais raros os lugares onde se pode usufruir do campismo puro como atividade de lazer, sem o bate-estaca de rádios automotivos, confesso que fiquei em dúvida entre divulgar esta barbada ou guardar egoisticamente a carta na manga, só para mim e para os amigos de fé.

Todavia, temeroso que um dia seja fechado por absoluta falta de viabilidade econômica e consciente de que outros como eu também podem estar procurando um bom e velho camping à moda antiga, entendi que mais vale ter vários - e comportados - vizinhos na volta do que perder a oportunidade de frequentar este raro local.

Então fica aí esta dica para vocês!





Para chegar basta seguir até Canela/RS e tomar a RS-01, a estrada que segue para o Parque Estadual do Caracol. O camping está a 6 Km do centro da cidade e o acesso possui apenas 1 Km de estrada não asfaltada, transitável por qualquer tipo de veículo.

O camping está aberto durante todo o ano e os contatos podem ser feitos com o guarda-camping Mello ou com o zelador Volnei. Não precisa reservar antes.

Como sempre, tratando-se de clima serrano, com possibilidade de frio inclusive nas noites de verão, não esqueça de levar agasalhos e repelente de mosquitos, bastante abundantes em tempo quente por conta da proximidade com a mata e o curso d´água.

Abaixo o mapa de acesso e bom proveito para vocês!


(Fonte: CCB)

Coordenadas para GPS: S29.32112 W50.84534

Telefone para contato: (54) 3278-3321

Veja outras informações aqui.

Todas as fotografias desta postagem são de autoria de João Paulo Lucena, com direitos autorais reservados, à exceção da imagem do Mini-Mundo de Gramado/RS, livremente disponibilizada na Wikipédia.

terça-feira, março 09, 2010

Fotografia/4x4: O Farol Cristóvão Pereira


Farol Cristóvão Pereira na costa leste da Lagoa dos Patos/RS

Um dos meus lugares preferidos para recarregar as baterias isolado de telefone e internet, interagir com a natureza e fotografar é o farol Cristóvão Pereira, à margem leste da Lagoa dos Patos/RS.

Sendo o segundo mais antigo farol do sul do Brasil (o primeiro é o Farol Capão da Marca, de 1849) e distante 25 Km do município açoriano de Mostardas, foi inaugurado em 1886 e permanece ativo até hoje, agora automatizado e desguarnecido (sem faroleiro).

Em meio a uma paisagem de rara beleza e onde se avistam muitas das aves migratórias que constituem o cartão postal do quase vizinho Parque Nacional da Lagoa do Peixe, o local só é acessível por veículos 4x4 ou embarcações pesqueiras e de recreio que a ele chegam via Lagoa dos Patos.

Foto Ana Karina Belegantt
Foto Ana Karina Belegantt
Foto Ana Karina Belegantt
Nas minhas tantas visitas ao farol na última década, em diferentes épocas do ano, já tive oportunidade de encontrar emas, capivaras, lebres, tatus e aves como a ema, garça, joão-grande, quero-quero, joão-de-barro, coruja, gavião, andorinha, cisne-de-pescoço preto e até flamingos.

As águas ali rasas da Lagoa dos Patos são transparentes e piscosas, servindo de berçário para uma variedade de peixes, camarões e moluscos, que por sua vez atraem os siris da casca azulada que neles encontram sua principal fonte de alimentação.




A dificuldade de acesso ao local garante um espaço de calma e isolamento, que propicia a reflexão, o descanso, a contemplação da natureza e o usufruto de alguns valores da vida simples que o turbilhão urbano muito rápido nos faz esquecer da existência.


A simplicidade de um final de semana longe das atribulações da vida urbana, onde o menos é verdadeiramente o mais.

Há tempos tenho a certeza de que o prazer de estar ao pé de uma fogueira, sob um céu de estrelas e dormir em meio ao silêncio de um bosque supera em muito os confortos civilizados do mais luxuoso hotel cinco estrelas.

Todavia, não esqueço: tudo isto só tem valor quando compartilhado com uma boa companhia, de amigos ou da pessoa amada, quando então este prazer será por muitas vezes multiplicado.




Pescadores são as raras presenças humanas no Rincão do Farol. Cercado por acres e acres de florestamento de pinus, charcos, campos, lamaçais e dunas, este inóspito entorno torna deserta uma extensão de muitos quilômetros de praias de areias brancas banhadas pelas cristalinas águas da Lagoa dos Patos.



Desde que o vi este farol pela primeira vez passei a me interessar pela história da região, buscando literatura a respeito e, principalmente, os testemunhos e imagens disponibilizados no Popa.Com, o site náutico conduzido com maestria pelo amigo Danilo Chagas Ribeiro.

Dali me permiti reproduzir algumas das fotografias históricas que seguem neste post e que em mais nenhum outro lugar poderiam ser encontradas.

O farol foi construído em alvenaria, em forma de planta quadrada e se eleva a uma altura de trinta metros. O seu lampejo é de coloração branca com uma freqüência de dez segundos, plano focal de 30 metros (98 ft) e alcance de treze milhas náuticas.

Atualmente são estes os seus dados oficiais:

Localização: Mostardas/RS
Coordenadas: 31 03,72S / 51 09,89W

Inauguração: 1887
Altura: 28 m
Altitude: 30 mAlcance: 13 milhas náuticas
Lampejo: Branco a cada 10 segundos
Nº nacional: 4480
Nº internacional: G-0631-4
Nº da NGA: 18946.9
Nº da ARLHS: BRA-131

Consta que o primeiro farol consistiria de uma simples torre de madeira encimada por um lampião. Em 1861, foi inaugurada a atual torre de alvenaria de 28 metros e equipada com um aparelho de luz catóptrico de luz fixa, com 12 milhas de alcance, substituído em 1904 por um dióptrico de 5ª ordem BBT, de acordo com as informações do site Faróis Brasileiros.

Segundo Carlos Altmayer Gonçalves (o Comandante Manotaço, do Clube Veleiros do Sul - Porto Alegre) em registro enviado ao Popa.Com, o Farol Cristóvão Pereira foi construído na mesma época que o da Ponta Alegre, na Lagoa Mirim, e Bujuru, mais ao sul na Lagoa dos Patos, sendo 1858 o ano de início das suas obras. Pesquisador da história da navegação no Rio Guaíba e na Lagoa dos Patos, o Comandante Manotaço encontrou também o seguinte registro da edificação deste monumento histórico:

"....escavou-se o terreno à uma profundidade a encontrar bastante água, estacou-se com 84 moirôes de lay toda a superfície, sobre os quaes engradou-se com vigas de ley na distância de tres palmos de uma a outra, e depois de incavilhadas encheu-se os entrevallos de pedra secca bem calcada: sobre este engradamento levantou-se a sapata de pedra e cal até 10 palmos, e sobre esta levantarão se as paredes da torre e as das meios águas seguindo sempre com a planta em vista. Acha-se presente esta obra com os arcos fechados do 2º pavimento e a receber o respectivo madeiramento, e a 45 palmos de altura acima do terreno...."

(Correspondência do Intendente do Estado para o Vice-Rei no Rio de Janeiro, no seu relatório de atividades de 9/março/1859; 1 palmo = 21cm)
O nome homenageia uma figura de grande importância histórica no Rio Grande do Sul, antigo proprietário da sesmaria onde foi contruído o farol. Cristóvão Pereira de Abreu foi um dos responsáveis, dentre tantos outros fatos relevantes, pela ligação terrestre entre o sul do Brasil e a cidade paulista de Sorocaba que veio a se tornar importantíssima rota dos tropeiros. Foi também um dos responsáveis pela fundação de Rio Grande e Porto Alegre.

Também em uma sesmaria de sua propriedade e um pouco mais ao sul do Farol Cristóvão Pereira, foi construído em 1849 o Farol Capão da Marcaum dos mais importantes sinalizadores da Lagoa dos Patos.

Por muitas décadas o farol abrigou um faroleiro e sua família, isolados em meio às solitárias paragens da costa leste da Lagoa dos Patos conforme registram algumas belas imagens das décadas de 1940 e 1950  (Excursão do Umuarama - Diário de bordo dos anos 40. Texto: Jorge Gross, Transcrição e comentários: Carlos Altmayer Gonçalves "Manotaço". Originalmente publicado na Revista Yachting Brasileiro nº 22, Agosto – 1946. Fotografia reproduzida do site www.popa.com.br)



Fotografias enviadas pelo Comandante Emílio Opitz, de Tapes, para o Popa.Com

Fonte: Revista Digital Hermomt
Uma curiosidade é que o antigo Farol do Bujurú (20 metros) foi construído junto com os faróis de Itapuã, Cristóvão Pereira e Ponta Alegre (este na Lagoa Mirim). O Dr. Hugo Altmayer, pai do Comandante Manotaço, fotografou o Farol do Bujuru em meados da década de 50, pouco antes do seu desabamento. O também histórico farol hoje não passa de uma ilhota a cerca 100 m da praia (vide Popa.Com).


O que resta hoje, em meio à água, do outrora sólido e imponente Farol do Bujurú. Será este o mesmo f uturo do Farol Cristóvão Pereira?


(Mapa replicado do Popa.Com)

Nos dias atuais o Farol Cristóvão Pereira foi automatizado e, em um verdadeiro atentado ao patrimônio e à memória histórica que somente os labirínticos meandros da burocracia estatal podem tentar explicar, em 1992 a Marinha, responsável pela manutenção dos faróis brasileiros, demoliu as dependências domésticas destinados ao faroleiro, ao mesmo tempo em que as portas e janelas da construção foram seladas com tijolos para evitar visitantes e depredações.

A partir daí algumas trabalhos de manutenção e contenção da erosão foram feitos, inclusive de forma voluntária por eventuais navegadores visitantes do farol.

(Trabalhos de manutenção do farol efetuados pela Marinha Brasileira em Maio de 2006. Fonte: Popa.Com)

vista a partir do topo do Cristóvão Pereira durante os trabalhos de manutenção do farol pela Marinha Brasileira. Maio de 2006. Fonte: Popa.Com)
Um grupo de velejadores consertando o farol com a reconexão da placa solar durante uma visita em 2004. Fonte: Popa.Com
Em janeiro de 2006 encontrei o Farol aberto na base, com uma abertura quebrada na base e ninguém ou qualquer material de manutenção presente, o que me fez afastar a possibilidade de que estivesse em obras de manutenção. Mais provável que fosse ação de vândalos como demonstram a seguir as últimas imagens que fiz do seu interior:

Janeiro de 2006. Ação de vândalos?
No piso o que sobrou da estrutura interna e escadarias de madeira, assim como o vão da antiga porta principal, testemunho da espessura e solidez das paredes do velho farol.
Sob a laje de concreto que isolou os andares superiores da estrutura ainda se vêem o que restou estrutura de madeira original que formavam os pisos e as escadarias do Farol.
Em torno da torre do farol, onde antes haviam as instalações do faroleiro e absurdamente demolidas pela Marinha do Brasil em 1992, ainda encontram-se resquícios da sua ocupação centenária, como cacos de louça, pregos e ossos.

Por curiosidade vê-se que tanto o Farol Cristóvão Pereira quanto o caído Bujurú são muito parecidos em estilo construtivo com o antigo Farol Atalaia, de São José do Norte,o primeiro construído no sul do país no já longínquo ano de 1820, utilizando-se cal feito de conchas oriundas de sambaquis.

A sua iluminação era feita por uma fogueira acessa no topo e ele ainda está de pé, próximo ao farol que o substituiu em 1896. Restos da estrutura interna ainda são visíveis e, como é praxe com estes valiosos monumentos históricos, encontra-se em péssimo estado de conservação.

Em São José do Norte o antigo Farol Atalaia, de 1820, substituído pelo "novo", inaugurado em 1896.
Vista para o alto dos restos do madeirame interno do Farol Atalaia, de 1820, como se encontrava em visita feita no ano 2006, e que deve ser muito semelhante ao que seriam as estruturas dos Faróis Cristóvão Pereira e Bujurú. 

O avanço das águas da lagoa sobre o farol é impressionante e a cada visita que faço são visíveis os estragos na estrutura de proteção deste imponente marco que, a continuar assim, não tardará em ruir com um enorme prejuízo à memória náutica da região e ao patrimônio histórico nacional.

Esta é a conclusão óbvia quando comparamos as antigas imagens onde se vê a torre em meio a dunas e figueiras com o seu estado atual. Em 2004 foi construído um dique de contenção pela Marinha, mas de duvidosa eficiência pois não tem sido capaz de protegê-lo da erosão das ondas e tempestades.

As imagens que captei do Farol neste verão de 2010 são reveladoras, mostrando o monumento já ilhado pelas águas, num prenúncio de repetição do que aconteceu com o seu já tombado co-irmão, o Farol de Bojurú.

Foto de Geraldo Knippling em 23-12-1998, enviada pelo Comandante Manotaço ao Popa.Com

O contínuo assoreamento da margem leste da Lagoa dos Patos dificulta enormemente o trânsito pela região, o que em certos pontos só é possível à pé ou em veículos  4x4.


De qualquer forma fica este registro de um dos mais aprazíveis locais da nossa Costa Doce, como são também chamadas as praias da Lagoa dos Patos.




EM TEMPO: Cristóvão Pereira de Abreu foi coronel das forças portuguesas nascido em 1680. No início do século XVI esteve na Colônia do Sacramento e por mais de 50 anos cruzou o Rio Grande do Sul levando tropas de gado, mulas e cavalos para Sorocaba, também prestando serviços ao Reino de Portugal. Alguns historiadores entendem que teria sido um dos pioneiros na povoação do Rio Grande do Sul. Foi o primeiro homem a atravessar, pelo interior, o território entre o Rio Grande do Sul e São Paulo, inaugurando o ciclo comercial e o movimento tropeiro na região sulina. Requereu e ganhou uma sesmaria na área que ficou conhecida como Rincão do Cristóvão Pereira, onde estabeleceu estância de criação de gado apesar de nunca a ter habitado.

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EQUIPAMENTO: Desta vez eu estava preguiçoso e não quis levar a costumeira tralha fotográfica. As imagens sem indicação de fonte são de minha autoria e, dentro do espírito da simplicidade que norteou o final de semana, utilizei somente a valorosa Canon G9 e um tripé. Afinal, às vezes, a filosofia minimalista do less is more vale também para a fotografia ...

DICA DE VIAGEM: Em Mostardas/RS a boa é o Restaurante Ed Mundo´s, atendido pelo proprietário Edmundo Luz, aberto das 11h00 às 15h30 e à noite das 19h00 até o último cliente sair... Serve buffet e a la carte, especializado em frutos do mar e cordeiro. Fica na Rua Bento Gonçalves, 906. Preços bons, comida honesta e ambiente acolhedor. Informações nos fones (51)3673-1969 e (51)9861-5554.


Popa.Com - o maior site náutico do Brasil
Do Farol Capão da Marca à Lagoa do Peixe - postagem deste blog
Efemérides Hidrográficas
Polêmica Histórica - Carta mudaria marco fundador do Estado - Artigo Jornal Zero Hora 20/10/2011

segunda-feira, maio 18, 2009

Canionismo: Aparados da Serra, de Pai para Filho (Ou: acampando com crianças!)


Vista desde o vértice pricipal do Cânion Malacara - PNSG

No último final de semana a oportunidade foi única: uma permissão especial do Instituto Chico Mendes para acesso ao Cânion Malacara, que divide com o Cânion Fortaleza a condição de principal atração do Parque Nacional da Serra Geral - PNSG, divisa dos Estados do Rio Grande do Sul com Santa Catarina.

O motivo: a condução de uma equipe do Programa Adrenalina para a produção de um documentário sobre canionismo para o Canal Futura, da TV Globo Internacional, mostrando uma travessia completa do famoso e complexo Cânion Malacara.

Numa sexta-feira à noite partimos de Porto Alegre rumo ao município de Cambará do Sul/RS, onde está situada a parte alta do parque, em pleno altiplano riograndense, para lá encontrar a equipe de produção do programa, a qual seria conduzida por outro caminho, à pé e valendo-se de cavalos para o transporte do equipamento mais pesado.

Em uma sexta-feira à noite partimos de Porto Alegre. No destaque o saudoso Zé Brambilla, parceiro insubstituível de várias aventuras nos Aparados da Serra.

Por volta da meia-noite o caminho regular terminou. Então, montar acampamento e descansar antes dos trabalhos do dia seguinte.

Alguns dormiram confortavelmente...

...como se estivessem em casa.

Outros, por opção...

...preferiram bivacar ao relento, na boa companhia dos demais habitantes nativos.

Alguns anos depois de ter participado da equipe de levantamento que coletou dados topográficos e geológicos relacionados à prática de canionismo e que integraram o Plano de Manejo do PNSG, voltamos à carga com todo o ânimo.

O desafio era encontrar um antigo caminho que o desuso decorrente da criação do parque nacional fez com que desaparecesse em meio a capoeiras, plantações de pinus e propriedades particulares contíguas ao parque nacional.


   
O uso combinado de cartas topográficas, tracklogs e imagens satelitais sobrepostos foi essencial para a localização de estradas há muito desaparecidas.
Redescobrindo antigos caminhos com mais de meio século que a natureza retomou...


Com fotos de satélite, tracklogs de GPS coletados em levantamentos passados e cartas topográficas, todos sobrepostos no aplicativo OziExplorer, fomos navegando em 4x4 por entre coxilhas, charcos, vossorocas e capões de araucárias, atingindo com trabalho em equipe e muito esforço o objetivo final.

Atravessando as fazendas vizinhas ao Parque Nacional da Serra Geral com o auxílio de mapas antigos, imagens de satélites e tracklogs de GPS
Ao final da tarde chegamos ao vértice principal do Cânion Malacara.

O prêmio é pródigo, principalmente para mim que estou de aniversário: um dia maravilhoso, límpido, com aquela luz outonal, meio atravessada, perfeita para quem gosta de jogar com sombras na fotografia. A atmosfera foi lavada da nebulosidade por uma chuva forte acompanhada de queda brusca de temperatura a 0ºC.

Nada de melhor poderia desejar alguém em busca das condições ideais para foto e filme!



Quem acha que acampar é sinônimo de sofrer está muito enganado!

Até porque convidados VIP tem direito a quibe crú, molho de alho, pão árabe e suco de uva servido pelo mais esforçado dos cozinheiros: Neytão "Montanha" Reis, que não por acaso é o melhor guia para os cânions do sul do país!!

A noite é fria, muito fria, com temperaturas abaixo de zero. Ao amanhecer um vento forte penteia os campos de cima da serra e anuncia o raiar do dia. Quem vai descer o Cânion Malacara com a equipe de gravações levantou ainda de madrugada e está lutando para vestir as gélidas roupas de neoprene. Da minha barraca só escuto gemidos e resmungos daqueles que vão para o front...

Como responsável pela logística 4x4 já fiz minha parte e não vou entrar no cânion desta vez, também porque acompanho as crianças. E, como sou aniversariante, me dou o prazeroso luxo de virar para o lado e curtir a preguiça no saco de dormir até que o sol bata na barraca e, pelo menos, derreta a geada...


Quem diz que em pleno vértice do Cânion Malacara não tem tele-entrega do jornal do dia?

Para animar a galera antes de pular na água gelada vale tudo, até a dança do sirí!

Os gêmeos entram no  clima com Ana Karina Belegantt, do Programa Adrenalina. Futuros canionistas?

Cânion Malacara, em segundo plano o município catarinense de Praia Grande e, ao fundo, a praia de Torres/RS.


Embaixo, ao sopé da serra, o município catarinense de Praia Grande e, bem ao fundo, a praia gaúcha de Torres.

A atração irresistível que sinto por esta região vem de anos.

A minha primeira travessia de cânion foi a do Itaimbezinho, hoje proibida, por volta de 1980, quando não existia qualquer tipo de restrição para quem quisesse aventurar-se por esta enorme garganta, palco de muitos acidentes e gente extraviada.

Depois dela nunca mais deixei de retornar aos Aparados da Serra, culminando com a militância voluntária na ONG Associação Cânions da Serra Geral - Acaserge desde 1998. A grande diferença é que desta vez não voltei aos Aparados sozinho, mas trouxe para a primeira aventura verdadeira meus filhos gêmeos, com 7 anos de idade.

No acampamento em área selvagem, dentro do parque nacional tudo é diversão. A emoção e o entusiasmo não poderiam ser maiores, a inocência da idade relembrando ao pai o be-a-bá das lições mais elementares:

"- Papai, o que é um Parque Nacional?
- Onde estão os animais?
- Porque o cânion é tão fundo?
- Porque faz tanto frio?
- Tem urso aqui? E tigre?
- Lá embaixo é a praia de Torres?
- Dá prá beber essa água? 
- Vamos tomar banho no rio?
- Onde eu faço cocô?..."



Vista do Cânion Malacara a partir da sua escarpa direita.



Matinha nebular, típica dos paredões dos Aparados da Serra.


Pelo lado paterno reza a história familiar que meu bisavô Januário foi tropeiro nos Campos de Cima da Serra, estabelecido em Cazuza Ferreira, distrito de São Francisco de Paula/RS. Baixava a serra em mulas e cavalos rumo ao litoral levando charque, queijos e embutidos e voltava com farinha, melado e rapadura.

Do lado materno, a herança italiana nascida em Antonio Prado também fincou raízes em São Chico, onde meu avô materno elegeu-se prefeito nos anos 50.

A carga genética fez então valer toda a sua força, transmitindo mais uma vez, de pai para filho, de geração para geração, a seiva de araucária nas veias e uma incondicional paixão pelos Campos de Cima da Serra...


O diário da aventura na ótica de JPL, 7 anos...
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Assista aqui o episódio do Programa Adrenalina gravado durante as atividades descritas nesta postagem!


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OUTRAS POSTAGENS RELACIONADAS AQUI NO TERRA AUSTRALIS:

- 30/09/2010 - Trekking/Aparados da Serra: Do Cânion Fortaleza ao Malacara - Parque Nacional da Serra Geral

- 10/01/2011 - Aparados da Serra/Canionismo: Mistério - Corpo é encontrado no Cânion Itaimbezinho