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sábado, dezembro 27, 2014

Familia Rodante rumo Chile 4: Roteiro da viagem. Partiu! (Km zero)

Foto João Paulo Lucena
Porto Alegre, 6h00.
Temperatura 22o C.
Clima: Muito vento, chuvas, e trovoadas pelos próximos dias.
Ânimo e moral da tropa: 100%.

Partiu Família Rodante!

ROTEIRO BÁSICO DA VIAGEM:

Brasil

27/12 - Km 0000 - Porto Alegre (início)
27/12 - Km 0110 - Pantano Grande
27/12 - Km 0386 - Rosário do Sul
27/12 - Km 0640 - Uruguaiana

Argentina

28/12 - Km 0976 - Federal
28/12 - Km 1130 - Santa Fe
28/12 - Km 1271 - San Francisco
28/12 - Km 1433 - Villa Maria
28/12 - Km 1567 - Río Cuarto
28/12 - Km 1730 - Villa Mercedes
29/12 - Km 1795 - San Luis
30/12 - Km 2085 - Mendoza
30/12 - Km 2155 - Vallecitos
1o/12 - Km 2292 - Uspallata
1o/12 - Km 2374 - Las Cuevas

Chile
1o/01 - Km 2358 - Rio Blanco
1o/01 - Km 2730 - El Ingenio, Cajón del Maipo
03/01 - Km 2760 - Las Melosas, Cajón del Maipo
06/01 - Km 2778 - Santiago del Chile
08/01 - Km 2920 - Valparaíso
10/01 - Km 2936 - Viña del Mar
10/01 - Km 2964 - Olmué
10/01 - Km xxxx - Sierra de La Campana
10/01 - Km 3168 - Santiago
11/01 - Km 3228 - Las Vertientes, Cajón del Maipo
14/01 - Km 3474 - Los Vilos
14/01 - Km 3678 - Tongoy
14/01 - Km 3686 - Guanaqueros
14/01 - Km 3734 - La Serena
14/01 - Km 3842 - Vicuña
14/01 - Km 3884 - Pisco Elqui
15/01 - Km 3894 - Monte Grande
15/01 - Km 4062 - Paso Internacional Agua Negra

Argentina

16/01 - Km 4189 - Rodeo
17/01 - Km 4230 - San Jose de Jáchal
17/01 - Km xxxx - Parques Nacionais de Ishigualasto e Talampaya
17/01 - Km 4490 - Patquia
17/01 - Km 4560 - Chamical
17/01 - Km 4785 - La Cumbre
17/01 - Km 4794 - Casa Grande, Córdoba
17/01 - Km 4990 - San Francisco
18/01 - Km 5265 - Parana
18/01 - Km 5550 - Concordia

Uruguai

18/01 - Km 5590 - Salto
18/01 - Km 5772 - Artigas

Brasil

19/01 - Km 5773 - Quaraí
19/01 - Km 5914 - Alegrete
20/01 - Km 6005 - Rosário do Sul
20/01 - Km 6173 - Cachoeira do Sul
20/01 - Km 6387 - Porto Alegre

Post João Paulo


quinta-feira, novembro 27, 2014

Família Rodante rumo Chile 2: Planejamento

Foto João Paulo Lucena


Há muito tempo, para não dizer há anos, que estamos planejando uma longa viagem terrestre para o exterior com as crianças. Porém, nossa maior dúvida sempre foi quanto à permanência dos três filhos no banco traseiro, em um espaço restrito e com extensos períodos de convivência dentro do carro. 

Eu e o JP já viajamos bastante de carro para outros países e nossa maior curtição, além da viagem em si, é o planejamento e o livre rodar pelas estradas. Conhecer novos locais, novas culturas, novas geografias e aproveitar cada momento registrado num clic de fotografia ou numa imagem em video gera tanto prazer quanto chegar ao próprio destino desejado.

Então, há dois meses decidimos: vamos ao Chile! Combinamos com uma amiga chilena a reserva na agenda para o período das férias escolares, de forma que pudéssemos juntar as nossas crianças com os seus sobrinhos da mesma idade. Nada melhor do que uma experiência multicultural com pequenos guias locais compartilhando a mesma visão de mundo da faixa etária dos 08 aos 12 anos.

Para o Cone Sul e dentro do nosso estilo de viajar, considerando que a conexão com a web seria eventual, optamos por guias atualizados da Lonely Planet - Argentina e Chile (edições em português por R$ 65,00 cada na Livraria Cultura). Com os guias, mapas das estradas atuais e antigos e rotas traçadas no GPS em andanças anteriores, escolhemos nosso percurso entre Porto Alegre e Santiago do Chile, com paradas em 5 pontos estratégicos: Uruguaiana(RS/Brasil), Santa Fe, San Luis, Mendoza e Vallecitos (Argentina). Nessas paradas com pernoites, optamos por dormir em campings, hostels (rede de albergues da juventude) e abrigos de montanha. Fizemos as pesquisas pela internet e as devidas reservas pelo portal Booking.com.

E como fazer para as crianças se interessarem também ao longo destes dias pela longa estrada que atravessará o pampa, o deserto e as montanhas? - Bem, vamos colocá-los nas pesquisas! Passamos uma tarefa para cada um: estudar e apresentar uma pequena fala sobre uma das cidades que passaríamos. O Gabriel ficou com Mendoza, o Pepê com Santiago e a Katharina com Valparaíso. Foi uma festa e no dia da apresentação até as vizinhas e amigas do condomínio onde moramos vieram assistir!

Nossa maior aventura e desafio foi proporcionar e incentivar o gosto da criançada também pelo percurso de uma estrada até chegar ao destino escolhido. Para isso muito planejamento, organização, conhecimento mínimo de equipamentos e acessórios, e depois deixar que a curiosidade e o aprendizado façam parte de suas vidas. 

Assim, quem sabe, poderão ser mordidos pelo "mosquitinho do pé na estrada" e aproveitarão cada segundo dentro de um carro apertado e desconfortável na ótica infantil... Mas isso só pode acontecer se nós, pais, dermos o primeiro passo: viajar em família!

Post Ana Karina

segunda-feira, novembro 24, 2014

Família Rodante rumo Chile 1: Viajando (muito) com crianças


Foto João Paulo Lucena

A tradição familiar é antiga e remonta a mais de 50 anos de paixão pela vida ao ar livre e os acampamentos junto à natureza como atividade lúdica e prazerosa. Coisa que, confesso, para muita gente é algo impensável, excêntrico e, até, de outro mundo.

Com meus pais saí a primeira vez para acampar ainda com 6 meses de idade, bem instalado em uma grosseira barraca militar, de lona e armação de ferro, sem piso, tendo a porta fechada por laços no lugar de zíperes. Dentro, camas de lona com armação de madeira, cobertores ao invés dos hoje indispensáveis sacos de dormir e, claro, muita formiga e mosquito.

O tempo passou, as barracas evoluíram, surgiram os trailers e motorhomes. Em família fomos acompanhando a mudança dos tempos, desbravando caminhos pelo Brasil e pelas rotas castelhanas do Cone Sul, opção facilitada pela proximidade dos Rio Grande do Sul com o Uruguai, o Paraguai, a Argentina e o próprio Chile, a pouco mais de dois dias de viagemininterrupta por terra. De minha parte a paixão pela vida simples e o contato direto com o mundo outdoor só potencializou-se conforme fui crescendo e conquistando independência e a experiência de viajar sozinho.

A grana curta dos tempos de estudante nunca impediu o sonhar com novas viagens, que a cada vez se superavam em desafios e dificuldades. Com uma mochila nas costas fui aos poucos conhecendo os caminhos do meu estado, depois do país, das Américas e da Europa. Pela proximidade geográfica, a identificação cultural e mais algum misterioso componente genético, a paixão maior sempre foimesmo pelo sul da América Latina, onde comecei a explorar com meus pais nos anos 70 e nunca mais consegui parar.

Agora, reavivando o espírito das antigas férias familiares, o desafio e a adrenalina são diferentes: ir por terra de Porto Alegre a Valparaíso, no Chile, com 3 crianças entre 8 e 12 anos no banco traseiro do carro, através de 6 mil Km e passando por 4 países diferentes. E, depois de tudo, sobreviver e retornar a casa com pleno domínio de todas faculdades mentais...

É pouco? Então somem a isso saber que não ficamos em hotéis, resorts ou pousadas de luxo mas, no melhor clima easy rider, por opção os pernoites foram exclusivamente em hostels, campings, cabanas, refúgios de montanha e, eventualmente, recebidos por amigos queridos colecionados ao longo de anos e anos percorrendo os caminhos da América do Sul.

Feita a apresentação, vamos contar aqui no blog como se faz para aventurar-se assim com crianças, relatando a nossa viagem e, tomara, estimulando outros a descobrir que a desconexão não só é possível mas pode esconder surpresas incríveis no prazer das coisas simples, onde, como gosto de lembrar, o menos é mais.

Não é tão difícil. Basta uma boa dose de desprendimento, força de vontade e espírito de aventura. O resto se descobre - e se resolve - pelo caminho.

Viajamos durante 25 dias e a idéia era ir postando aqui o relato da viagem conforme possível, eventualmente escrito por um ou outro dos tripulantes, cada um no seu estilo e com a própria visão dos acontecimentos. Todavia, a inexistência de acesso contínuo à rede wi-fi aliada ao cansaço no final de cada dia, ao avançado das horas e, mais que nada, a uma irresistível vontade de ficar longe do notebook durante a viagem, nos trouxe à realidade e, portanto, estas postagens foram feitas logo do nosso retorno ao Brasil.

Então nós, a partir de agora a Família Rodante, convidamos todos a nos acompanhar nesta aventura!

João Paulo, Karina, Gabriel, João Pedro e Katharina


domingo, dezembro 23, 2012

O Natal de 72: um milagre na montanha!

Local do acidente na Cordilheira dos Andes - Imagem atual no verão
Fonte: Viven!

O texto que segue foi publicado originalmente neste blog em 27 de dezembro de 2011, quando o escrevi na praia de Torres/RS depois de ter lido, algum tempo antes, o livro La Sociedad de la Nieve.

Em função do espaço na mídia que foi reocupado pelo tema em função do aniversário de 4 décadas deste fato, e dada a impressionante mensagem de vida que ele nos trás, resolvi republicá-lo na íntegra aqui no Terra Australis, atualizando unicamente a data do aniversário, que no ano passado, quando escrito, contava com 39 anos.

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Há exatamente 40 anos um grupo de dezesseis cavalheiros se reúne a cada noite de 23 de dezembro para cumprir um sagrado pacto. O local uma acolhedora sala de madeira, pedra e lareira em uma casa de Montevidéu, Uruguai. Como motivo o encontro anual da Sociedade da Neve para a celebração do milagre do seu reencontro com a vida.

Engenheiros, agrônomos, empresários, médicos, pouco importa a profissão, o credo ou a origem, pois em comum partilham uma memória do passado e a coincidência de serem todos homens. Se hoje é o fogo que os reúne, há quase quatro décadas foi de gelo a têmpera que forjou para sempre um inquebrantável vínculo de aço.

José Pedro, Roberto Canessa, Roberto François, Alfredo, Daniel, Roy, José Luis, Alvaro, Javier, Carlitos, Fernando, Ramón, Adolfo, Eduardo, Antonio e Gustavo. Todos na faixa dos 60 anos são os dezesseis uruguaios que sobreviveram ao acidente do tristemente célebre Vôo 571 da Força Aérea Uruguaia, que os aprisionou sem qualquer recurso por 73 dias no coração da Cordilheira dos Andes.

O ACIDENTE

A história é bem conhecida. Em outubro de 1972 quarenta e cinco passageiros, na sua maioria jovens na faixa dos 20 anos de idade e integrantes de um time colegial de rugby, embarcaram em um vôo fretado em Montevideo rumo a Santiago do Chile. Durante a travessia dos Andes uma tempestade e erros de navegação levaram a aeronave Fairchild a chocar-se contra o pico de uma montanha, perdendo as asas e a cauda e deslizando por uma encosta recoberta de neve até um vale isolado na cordilheira.

Fotos originais captadas pelos sobreviventes em 1972
Fonte: La Sociedad de la Nieve
Apesar de 30 passageiros terem milagrosamente sobrevivido ao choque imediato, tecnicamente uma verdadeira façanha, foram ainda obrigados a resistir sem qualquer preparo, comida e medicamentos a temperaturas abaixo dos 30 graus negativos trajando apenas leves roupas de verão. Dez dias após um pequeno rádio de pilhas trouxe a desesperadora notícia de que as operações de resgate haviam sido oficialmente encerradas, deixando os sobreviventes à sua própria sorte.

A absoluta falta de comida, o instinto de sobrevivência e um esforço enorme para vencerem barreiras pessoais e religiosas ínsitas à cultura humana universal, além de uma visceral repugnância física ao canibalismo, fez com que recorressem aos corpos dos amigos falecidos como fonte de alimento. Como se isto fosse pouco, os ferimentos do acidente e uma grande avalanche reduziram outra vez o grupo aos seus atuais 16 integrantes.

Fotos originais captadas pelos sobreviventes em 1972
Fonte: La Sociedad de la Nieve
Após dois meses isolados na montanha e com a perspectiva de morrerem por inanição, em uma heroica jornada de dez dias sem qualquer conhecimento de técnicas de montanhismo, Nando Parrado e Roberto Canessa conseguiram chegar à localidade de Los Maitenes, no Chile e contatar as forças de socorro.

Foi então que no dia 23 de dezembro de 1972, véspera das celebrações de Natal em todo o planeta, quando o último dos 16 sobreviventes foi resgatado da montanha pelos helicópteros nasceu a Sociedade da Neve.


Imagem captada a partir do helicoptero de resgate - 1972
Fonte: La Sociedad de la Nieve

UMA GRANDE FAÇANHA

A National Geographic qualificou a jornada de autoresgate dos uruguaios como um dos grandes épicos do século XX, motivo suficiente para ser rememorada, estudada e celebrada como um verdadeiro triunfo do espírito humano sobre as adversidades e forças da natureza que então pareciam invencíveis.

Se simplesmente resistir ao acidente com o Fairchild foi um desafio à lei das probabilidades, tudo o que sucedeu a partir daí até a retirada do último passageiro da montanha foi também fruto da coragem, inteligência, engenhosidade, união, fé e do espírito de grupo dos acidentados, vários deles pouco mais do que adolescentes recém egressos da escola e acostumados com a tranquila vida da classe média alta de Montevideo.

O time de rugby. Fonte: La Sociedad de la Nieve
E se para os olhos da sociedade de 1972 a necessidade de recorrerem ao canibalismo foi a violação de um autêntico tabu, hoje o caso é admirado e revisitado sob os enfoques da medicina, da psicologia e da administração, assim como pelo estudo das técnicas de sobrevivência em situações extremas tendo em conta o acerto das decisões tomadas pelo grupo.

Fotos originais captadas pelos sobreviventes em 1972
Fonte: La Sociedad de la Nieve

Fotos originais captadas pelos sobreviventes em 1972
Fonte: La Sociedad de la Nieve

Passados os anos, o Vôo 571 do Fairchild assumiu uma certa aura cult. O que antes era um ponto isolado na montanha hoje pode ser visitado por meio de expedições especiais até os destroços do avião. Livros foram escritos e produzidos filmes sobre o caso. A cultura superconsumista do Século XXI, ávida de novidades efêmeras, requentou seu interesse sobre o acidente e os integrantes da Sociedade da Neve, esquecidos por quase duas décadas, hoje ministram palestras por todo o mundo e mantêm uma fundação que auxilia comunidades carentes. Tudo a favor, ponto para eles!

LITERATURA E CINEMA

Em 74 foi lançado internacionalmente o livro com o relato da história a partir das entrevistas feitas pelo britânico Piers Paul Read, No Brasil recebeu o título de “Os Sobreviventes” (Alive), um best seller constantemente reeditado no mundo.

Com farta divulgação do caso na mídia e apesar dos meus pais terem escondido o livro por tratar-se uma leitura muito “forte” para mim, aproveitei a distração em um final de semana de férias na praia Paraíso (RS) e encontrei o livro na mesa de cabeceira. Com a limitada compreensão de uma criança de apenas 9 anos mas já com o espírito de um futuro devorador de livros, avancei o que pude sobre suas páginas e fotografias antes que fosse descoberto. Mas meus pais tinham razão. O conteúdo crú do relato fez com que até hoje eu relembre perfeitamente estes ingênuos e distantes momentos de ilícito infantil.

Com o passar do tempo o assunto voltou às manchetes com a bem produzida versão cinematográfica de "Vivos!" (Alive, 1993), narrado por ninguém menos do que John Malkovich. Terminei por reler com olhos maduros o ainda excelente e detalhado relato original de Piers Paul Read e também as versões de Nando Parrado (Milagre nos Andes, São Paulo: Objetiva, 2006) e de Carlitos Paez (Despúes del Día 10, Alienta, ISBN 9788493521264, 2007), esta sem tradução no Brasil.

Há pouco ganhei de presente e literalmente degustei “La Sociedad de la Nieve”, de Pablo Vierci (Sudamericana, ISBN 9789500729758, 2008), tido como o livro definitivo sobre esta epopeia. Nele os 16 sobreviventes, já estabelecidos na vida, pais de família e avôs, com parte dos seus fantasmas exorcizados, apresentam suas reflexões depois de 35 anos do acidente, alguns saindo do retiro pela primeira vez desde os anos 70. O autor acompanhou os sobreviventes e seus filhos em uma visita ao local de acidente em 2006, dando origem ao livro e também a um tocante documentário ("La Sociedad de la Nieve" / Stranded", de Gonzalo Arijón, 2008).

Apesar de já ter lido muitas obras do gênero e me achar calejado com relatos de situações extremas, não pude deixar de me emocionar com as impressões individuais dos 16 coautores, cada uma delas com um enfoque tocante, original e de todo diferente dos demais. O livro, que comecei a ler meio desconfiado de ser uma estratégia caça-níqueis sobre o tema, foi uma gratíssima surpresa e lamento que tanto ele quanto o documentário com o mesmo nome não tenham tido no nosso país a divulgação que merecem.


Se nestes dias de Natal somos levados a direcionar nossos pensamentos para ideais de paz e fraternidade, independente de credo ou convicção, vale saber, e lembrar, que na última noite do dia 23 de dezembro, assim como o farão a cada ano enquanto viverem, os 16 membros da Sociedade da Neve estiveram reunidos com seus amigos e familiares para celebrar o milagre daquele longínquo Natal de 1972.

Testemunhos verdadeiros desta inacreditável vitória diante da adversidade extrema, em que somente a coesão como grupo lhes permitiu o reencontro com a vida, eles nos fazem lembrar com humildade que, em um tempo em que Gaia se revolta contra os séculos de desmesurada agressão humana, diante dos elementos da natureza somos ínfimos e somente a união, a fraternidade e a fortaleza de espírito nos fazem todos sobreviventes neste planeta que nos serve de lar.

Um Feliz Natal e um grande 2013 para todos nós!

(** Nota do Autor: Existirem fotografias originais da época como documento dos dias de isolamento dos sobreviventes na montanha é algo extremamente raro e importante. Me fez lembrar as fantásticas imagens em chapa de vidro captadas pelo australiano Frank Hurley na expedição de Shackleton à Antártida e que hoje, um século depois, constituem um registro histórico de valor absolutamente inigualável.)

Sobreviventes e familiares das vítimas formaram a Fundación Viven. Em pé (da esq. para a direita): Roberto François, Carlos Páez, Alfredo Delgado, Fernando Parrado, Gustavo Zerbino, Antonio Vizintín, Adolfo Strauch, Javier Methol, Ramón Sabella, Eduardo Strauch. Sentados (da esq. para a direita): Álvaro Mangino, José Luis Inciarte, Roy Harley, Pedro Algorta, Roberto Canessa e Daniel Fernández Strauch. Foto Jornal Zero Hora, 23/12/2012

PARA SABER MAIS:

- Viven! – Site oficial da Sociedade da Neve
- La Sociedad de la Nieve (la película) trailer
- La Sociedad de la Nieve - Site da produção do filme, com excelentes imagens da época e da produção
- Alive movie trailer - HD
- Alive Survivors Look Back – National Geographic Adventure
- Nando Parrado – Site oficial
- Perfil de Nando Parrado no Facebook
- Carlitos Paez – Site oficial
- Antonio Vizintin – Site oficial


ALGUMAS IMAGENS DO DOCUMENTÁRIO "LA SOCIEDAD DE LA NIEVE" - Fotografias de César Charlone
















* - *  - * - * - * - *

O Jornal Zero Hora, de Porto Alegre/RS, publicou na sua edição de 23/12/2012 também uma matéria marcando os 40 anos do acidente do Fairchild de 1972. Segue o texto (clique para ampliar):



terça-feira, outubro 20, 2009

Uruguai/Literatura: Mario Benedetti

Mario Benedetti (1920-2009) foi poeta, escritor e ensaísta. Considerado um dos principais autores do Uruguai, escreveu mais de 80 livros de poesia, romances, contos e ensaios, assim como roteiros para cinema.

Comecei a lê-lo por influência de minha querida amiga Mónica Villarroel durante um dos seus tantos périplos pelo Cone Sul. Em sua lembrança reproduzo um dos nossos textos favoritos.

Piedritas en la ventana

De vez en cuando la alegría
tira piedritas contra mi ventana
quiere avisarme que esta ahí esperando
pero me siento calmo
casi diría ecuánime
voy a guardar la angustia en un escondite
y luego a tenderme la cara al techo
que es una posición gallarda y cómoda
para filtrar noticias y creerlas
quien sabe donde quedan mis próximas huellas
ni cuando mi historia va a ser computada
quien sabe que consejos voy a inventar aun
y que atajo hallare para no seguirlos
esta bien no jugare al desahucio
no tatuare el recuerdo con olvidos
mucho queda por decir y callar
y también quedan uvas para llenar la boca
esta bien me doy por persuadido
que la alegría no tire mas piedras
abriré la ventana.

Mario Benedetti

Em complemento a este poema, assista ao video com uma coletânea de textos de Mario Benedetti:

terça-feira, fevereiro 24, 2009

Cone Sul/Cartografia - Parte II: GPS, Cartas e mais Mapas. Alguns Comentários.


Orientação terrestre com carta topográfica. Foto: João Paulo Lucena

A grande popularização dos aparelhos de GPS (Global Posicioning System) na última década abriu um horizonte ilimitado para quem gosta de aventurar-se por novos caminhos, muitos deles sequer mapeados.

Me lembro bem das dificuldades sair para alguma trilha a pé ou de 4x4 aqui mesmo no Brasil onde sequer os mapas comerciais eram detalhados. Viagens pelos Andes, Cone Sul e outros países latinoamericanos então, nem se fala.

Mas estas coisas têm evoluído a passos largos. Vejam a seguir...

MAPAS E CARTAS TOPOGRÁFICAS - No Brasil, até algum tempo atrás, na falta de mapas decentes a solução era recorrer às cartas topográficas produzidas pelo Serviço Geográfico do Exército, à venda nas Divisões de Levantamento (veja AQUI como solicitar) ou nas agências do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE.

Todavia, estas cartas, em escala 1:50.0000 e 1:100.000 (a versão 1:25.000 é restrita ao uso militar), incluindo relevo topográfico e muitíssimo mais detalhadas que os mapas convencionais estilo Quatro Rodas, apresentam algumas peculiaridades.

Primeiro, abrangem uma área muito menor do que os mapas normais (menos de 30 quilômetros na sua extensão maior no caso das cartas 1:50.0000), sendo necessário adquirir várias delas até mesmo para uma viagem rápida, o que acaba limitando o seu uso para trekkings ou off-road em percursos relativamente curtos.

Em segundo, veja-se como exemplo as cartas topográficas militares MI-2955/2 e MI-2956/1 que abrangem os Parques Nacionais de Aparados e Serra Geral na divisa do RS com SC, baseadas em levantamento aerofotográfico realizado nos anos 60, com primeira impressão em 1980 e algumas atualizações em 1995.


Logo, a exemplo destas, muitas cartas topográficas já apresentam pelo menos 50 anos passados desde o início da sua elaboração e estão carentes de uma atualização acurada, apesar de revestirem-se de utilidade inestimável face à riqueza de detalhes e informações de relevo geográfico nelas contidas.

Há algum tempo as cartas topográficas impressas passaram a ser disponibilizadas também em versão digital, na ordem de R$ 120,00 cada uma (o dobro da versão impressa), facilitando bastante o uso em aplicativos de navegação terrestre, em especial quando combinados com aparelhos do tipo GPS.

APARELHOS GPS - Os primeiros GPS´s causaram uma verdadeira revolução, pois enquanto com as cartas topográficas era necessário um conhecimento mínimo de topografia, navegação terrestre e a tomada de notas o tempo todo para traçar o percurso percorrido, o GPS passou a fazer este trabalho automaticamente, inclusive gravando os caminhos percorridos (tracklogs) e pontos de importância para o usuário (waypoints), fornecendo de imediato as coordenadas de sua localização na face da Terra com uma insignificante margem de erro.

Estas coordenadas associadas ao uso de uma carta topográfica ou náutica deram grande impulso à popularização do GPS na medida em que dispensaram o usuário de dominar a utilização de bússolas, sextantes, compassos, esquadros, transferidores e cálculos de declinação magnética quando em regiões desconhecidas ou carentes de pontos de orientação, como por exemplo, no mar ou em terra sob condições de neblina cerrada.

Os primeiros GPS´s, entretanto, não possuíam mapas em seus bancos de dados. Na sequência passaram a ser fornecidos com algumas versões de mapas muito grosseiros e pouco detalhados.

Hoje já temos o melhor dos dois mundos: a alta capacidade de localização e processamento do GPS com a possibilidade de uso de mapas digitais de ótima qualidade carregáveis na sua base de dados, inclusive disponíveis gratuitamente na internet.

É claro que, na medida em que o GPS surge como uma ferramenta maravilhosa, também pode "emburrecer" o usuário pois o dispensa dos conhecimentos técnicos básicos de orientação, aumentando a sua responsabilidade em caso de defeito do aparelho ou falta de bateria...


Pessoalmente já utilizei diversos modelos a partir de 1997, todos eles da Garmin, de longe a marca mais popular e, portanto, com maior rede de assistência técnica e disponibilidade de mapas - inclusive gratuitos na internet.

Nesta esteira evolutiva e conforme o uso náutico e/ou terrestre, experimentei os aparelhos II Plus, Etrex Summit, Rhino, Map 76S, Map 76CSX, Map 276C e Zumo 550.

Dentre todos destaco para uso misto náutico/terrestre as linhas 76CSX e 276C, este último um chart plotter com tela maior e excelentes recursos técnicos para usuários mais avançados.

A linha Zumo 550, apesar de pertencer a última geração de GPS´s, com recursos de touch screen, antena quadrihelix de alta sensibilidade e mapas em 3 D, decepcionou-me bastante em função dos bugs de projeto que apresenta. Este modelo em certas ocasiões somente reinicializa se a bateria for retirada e recolocada, algo inadmissível para um equipamento de segurança em navegação náutica e terrestre onde uma fração de segundo pode ensejar a perda de uma rota ou um acidente grave.


Também achei o Zumo excessivamente simples, com ferramentas muito restritas para o que poderia oferecer. Um usuário mais exigente e familiarizado ao uso mais técnico do equipamento não vai se conformar com um GPS que sequer grava os tracklogs percorridos, algo fundamental na hora do transferir as informações do aparelho para o banco de dados do seu computador.

Em função destes aspectos, preferi fazer um downgrade do Zumo 550 e atualmente estou utilizando um Map 276 C, de geração anterior e uso misto náutico e terrestre, mas com ótima relação custo/benefício, robustez, bateria de longa duração e todos os recursos que um usuário minimamente experiente classifica como fundamentais.

GOOGLE EARTH E FOTOS SATELITAIS - Alguns anos atrás, quando ainda se navegava somente com mapas e cartas impressos, o máximo era obter-se alguma foto satelital para visualização do terreno real. Então seria difícil imaginar o incrível e democrático recurso hoje disponibilizado pelo Google Earth, um impressionante mosaico global de fotos de satélite que reconstitui toda a superfície da Terra.

No Google Earth é possível visualizar e baixar imagens e mapas atualizados e detalhados, bem como combiná-los com aplicativos e com os próprios aparelhos de GPS, um recurso inestimável para navegação náutica e terrestre, especialmente se tratando de áreas remotas ou pouco cartografadas.

SOFTWARES PARA GERENCIAMENTO DE DADOS DO GPS E MAPAS DIGITAIS - Utilizo dois, o MapSource, software oficial da Garmin que permite o carregamento de mapas digitais e interação com o Google Earth, e o OziExplorer, que possibilita a sincronização com cartas topográficas ou náuticas digitais ou a partir de arquivos de imagens digitalizadas.

Os mapas podem ser comprados ou baixados gratuitamente na internet a partir de desenvolvedores que prestam um serviço de valor inestimável para a comunidade. Coletando dados de fontes públicas e privadas e de colaboradores do mundo inteiro, disponibilizam informações de excelente qualidade e em contínuo processo de atualização.

 

(Exemplo do uso do OziExplorer combinado com cartas topográficas militares digitalizadas)

Pessoalmente me valho de mapas do Brasil, rodovias e municípios, disponibilizados pelo Projeto TrackSource para Argentina, Chile e Uruguai os mapas podem ser baixados a partir do Proyecto Mapear ou no site Geored Conosur, este último bem mais detalhado no que tange ao Chile.

Em quaisquer dos casos, apesar da grande variedade de marcas de GPS hoje disponíveis no mercado, a quase totalidade dos mapas gratuitos disponíveis na internet é configurada para uso em aparelhos Garmin.


(Veja aqui a Parte I desta postagem)


PARA SABER MAIS:

- uma boa dica de informação é o blog MapForum, com cursos e notícias postadas por Ayr Müller, especialista em navegação terrestre.

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Cone Sul/Cartografia - Parte I: Estradas, Mapas e Guias de Viagem

Cone Sul durante o ano. Fotografia animada: Wikipedia

Alguns dos temas mais acessados no meu blog são os relativos à informações cartográficas, GPS e rotas pelos países do Cone Sul. Em função disto preparei uma síntese de informações que vai dividida em duas postagens.

Confiram aí!

INFORMAÇÕES SOBRE AS CONDIÇÕES DAS ESTRADAS NO CONE SUL - Embora não seja hábito dos brasileiros consultar informações prévias sobre as condições das estradas que vão percorrer no país, tal prevenção é indispensável para rodar na região andina e ao sul da Argentina e do Chile em função da possibilidade de bloqueio de estradas por condições climáticas extremas, especialmente devido à neve. Isto pode ocorrer em qualquer época do ano, inclusive no verão.

Em setembro de 2005 uma enorme tempestade de neve bloqueou todos os passos andinos entre o Chile e a Argentina e, com um grupo de amigos, fiquei bloqueado em San Pedro de Atacama sem poder voltar ao Brasil via Passo de Jama, em Salta. Tivemos que descer mais de 1.000 quilômetros até Santiago e aguardar que as máquinas abrissem a neve do passo que leva a Mendoza. Apesar de aumentar o curso da viagem, por muito pouco não tivemos que retornar ao Brasil de avião e deixar o jipe no Chile.

Para tanto, recomendo como a melhor fonte de informações sobre as estradas chilenas e passos transandinos o site da Dirección de Vialidad, do Ministério dos Transportes chileno, contendo também excelentes descrições das Rutas Costera, Interlagos, Andina e da Carretera Austral. Para a Argentina o site da Vialidad Nacional oferece informações semelhantes ao equivalente chileno e um outro site interessante é o Ruta Zero, também com informações sobre as condições rodoviárias deste país.

GUIAS DE VIAGEM IMPRESSOS E NA INTERNET - Para o Chile e Argentina considero como os melhores guias de viagem o Guia YPF e o seu equivalente chileno Guia Turística de Chile - Turistel Ambos são editados no estilo dos tradicionais guias europeus Michelin, anualmente atualizados e encontrados em bancas de revistas e postos de gasolina ao preço médio de US$ 10,00.

O meu complemento preferido são os guias Lonely Planet sendo disponíveis para o Cone Sul as edições temáticas Argentina, Argentina, Uruguay & Paraguay, Buenos Aires Encounter, Buenos Aires (City Guide), Chile; Easter Island, Trekking in the Patagonian Andes, Uruguay (Custon Guide), disponíveis em inglês e espanhol (alguns) e considerados no mundo todo como as melhores companhias para quem gosta de viajar de forma independente. Porém, na hora de comprar, muita atenção para procurar a última edição disponível pois algumas tiragens mais antigas estão bastante desatualizadas.

MAPAS IMPRESSOS - Os motoristas poderão encontrar ótimos mapas rodoviários na Argentina, também em postos de gasolina e bancas de revista. Peça por mapas carreteros da série AutoMapa, de capa vermelha e adquiridos conforme a região desejada. O de número 44 refere-se à Patagônia e Terra do Fogo em conjunto. Já vi estes mapas disponíveis em português aqui mesmo no Brasil e também pode ser encontrados em versão torrent pela internet.

MAPAS DIGITAIS PARA GPS - Como já registrei anteriormente, mapas digitais gratuitos de excelente qualidade especialmente desenvolvidos para GPS´s Garmin podem ser baixados no Projeto TrackSource no caso do Brasil. Para Argentina, Chile e Uruguai estão disponíveis no site do Proyecto Mapear ou no site Geored Conosur - conforme comentários bem mais detalhado para o Chile que o Mapear.

Em resumo é isto e espero que algumas destas dicas lhes possam ser úteis na próxima viagem ao Cone Sul...

P.S.: Leiam também a parte II deste post...

sexta-feira, outubro 10, 2008

Cone Sul/Uruguai: Pelas Calçadas de Sacramento

Colônia do Sacramento foi fundada pelos Portugueses em 1680 e depois de muitas disputas e negociações está hoje em território uruguaio. O Barrio Viejo foi declarado patrimônio da humanidade pela ONU e abriga históricas pousadas, pubs, restaurantes, lojas de artesanato e um charme incomparável.

Apenas sentar em uma de suas centenárias calçadas, sentir o tempo passar vagarosamente e degustar a calidez de um sol de inverno já mais do que compensa a visita. E se a fome apertar é só pedir uma Norteña de litro acompanhada pelos descomunais milanesas do Uruguai!

Esta imagem da Plaza Mayor foi captada em .raw com uma lente fixa de 20 mm, ISO 50, 1/200, f/9,0 em julho de 2007.