Mostrando postagens com marcador Navegação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Navegação. Mostrar todas as postagens

terça-feira, janeiro 12, 2010

ESPECIAL - Livros/Náutica/Fotografia: Shackleton, Hurley e a inacreditável saga do Endurance!


"Do ponto de vista sentimental, esta é a última grande jornada polar que pode ser feita."
(Sir Ernest Shackleton, Expedition Prospectus)
Não há navegador ou interessado em história das explorações que não conheça o nome de Sir Ernest Shackleton (1874-1922), e nem de estudioso da fotografia que alguma vez não tenha se deliciado com as imagens em chapa de vidro captadas pelo fotógrafo da expedição, o australiano Frank Hurley (1885-1962).

Apesar de muito já ter sido escrito sobre estes fatos, dada a temática deste blog e como aficcionado tanto da fotografia quanto da navegação, eu não poderia deixar de fazer especialmente meus apontamentos sobre a incrível viagem do Endurance e as fascinantes personalidades de Ernest Shackleton e Frank Hurley.

Era o ano de 1914 e os pólos da Terra já haviam sido conquistados - o norte por Amundsen em dezembro de 1911 e o sul por Scott em janeiro de 1912. Sobrevivente de duas tentativas sem sucesso de chegar ao ponto central da Antártida, Shackleton participara da expedição de Scott em 1901-1904 e chefiara a sua própria no biênio 1908-1909, chegando a apenas 150 km do Pólo Sul.

Assim como muitas outras construções históricas preservadas pelo frio antártico, o abrigo polar construído por Shackleton durante a Expedição Ninrod em janeiro de 1908 ainda hoje existe em Cape Royds.



Enquanto iam esgotando os grandes desafios exploratórios do homem e ao ribombar dos primeiros canhões da I Guerra Mundial, a Expedição Imperial Transantártida, liderada por Sir Ernest Shackleton e com autorização do próprio Churchill, partiu da Inglaterra para tentar a primeira travessia à pé do continente branco cruzando o pólo sul, num total de 2000 milhas de percurso.

Embora Shackleton tenha restado longe de atingir seu objetivo, os feitos que se seguiram à sua chegada ao Continente Branco são mais surpreedentes e importantes do que aquele originalmente pretendido. A audácia, a engenhosidade, a técnica, o despreendimento, a tenacidade, a inteligência, a força física e moral, a capacidade de resistir à fúria dos elementos naturais e a incomparável liderança o colocam dentre os modelos a serem admirados pelos seus contemporâneos e pelas gerações que o seguiram.

O aviso de recrutamento para a expedição polar distribuído por Shackleton era de uma honestidade brutal, exatamente esta a sua intenção:
"Men wanted for hazardous journey. Small wages. Bitter cold. Long months of complete darkness. Constant danger. Safe return doubtful. Honour and recognition in case of success."
("Necessita-se homens para jornada arriscada. Salários baixos. Frio implacável. Longos meses de completa escuridão. Perigo constante. Retorno seguro duvidoso. Honra e reconhecimento em caso de sucesso." - tradução livre)
Após recrutar a sua tripulação na Inglaterra e preparar o navio polar Endurance, além dos 28 membros da expedição seguiam também cães destinados à tração de trenós e uma grande quantidade de equipamentos a serem usados na travessia. Navegaram até as ilhas Georgia do Sul onde aportaram na estação baleeira Stomness e dali direto ao ponto onde deveriam desembarcar no continente antártico.

Todavia, em pleno Mar de Weddell e a apenas um dia de navegação do Continente Antártico, "como uma amêndoa num chocolate" o Endurance ficou preso no gelo solidificado.



Sem muito mais a fazer além de aguardar a reabertura do mar no final da estação, os membros da expedição prepararam-se para invernar, primeiro instalando os cães em pequenos iglus fora do navio e depois ocupando-se com atividades de leitura, fainas do barco, pesquisas, apresentações teatrais, jogos e longas caminhadas sobre o gelo.

Entretanto, ao contrário do esperado, no início da primavera o casco do navio não resistiu à pressão dos imensos blocos de gelo que iniciavam a movimentar-se e o sonho de conquistar a Antártida submergiu esmagado junto com o Endurance, iniciando ali uma das maiores sagas em busca da vida já registradas pela história da navegação.

Em suas memórias de viagem ("Sul"), o próprio Shackleton diagramou o esfacelamento do navio pelo gelo antártico:


Os tripulantes do Endurance retiraram tudo o que lhes poderia ser útil dos destroços do navio, inclusive trenós e três pequenas embarcações de apoio (uma delas, o James Caird, viria a entrar nos anais da história náutica junto com o Endurance pelos feitos que se seguiram).

______

ATUALIZAÇÃO ESPECIAL: Em 09/03/2022 foi mundialmente noticiada a descoberta do naufrágio do Endurance a 3.008 m de profundidade no Mar de Weddell e excepcional estado de conservação. Veja postagem relacionada AQUI!
______

Acamparam então sobre o gelo, caçando pinguins e focas para complementar a alimentação dos homens e dos cães e deles obter gordura para produção de calor e luz. Derivaram assim sobre a imensa banquisa de gelo durante seis meses, tempo durante o qual os cães precisaram ser sacrificados e os marinheiros foram obrigados a movimentar continuamente seu acampamento em função do fracionamento do gelo que começava a derreter.

Um destes locais foi chamado por Shackleton de "Ocean Camp" e dali moveram-se para um segundo local batizado de “Patience Camp”. Na imagem abaixo Frank Hurley e Shackleton (à direita) ao lado de um fogão alimentado com gordura de focas e pinguins no Patience Camp.

Na medida em que as condições da banquisa começaram a ficar bastante perigosas, Shackleton determinou que seus homens preparassem os escaleres para serem utilizados a qualquer momento, sempre acompanhando as mudanças de local dos acampamentos sobre o gelo.

Quando as condições de desfazimento da camada de gelo tornaram-se extremas os homens enfim lançaram-se ao Atlântico Sul nos três pequenos botes recuperados do naufrágio. Numa desesperada busca por terra firme e enfrentando com enormes sacrifícios os mares mais tempestuosos do planeta, terminaram por aportar na desabitada Ilha Elephant, no ponto mais ao norte da Península Antártica.


Pela primeira vez em terra firme depois de quase um ano e meio no mar mas ainda sem esperanças de serem encontrados, Shackleton decidiu reforçar um dos escaleres - o James Caird e, com cinco dos seus melhores homens, partiu duas semanas depois para tentar alcançar as ilhas Georgia do Sul, onde poderiam encontrar ajuda nas estações baleeiras.

Os emocionantes momentos da despedida foram captados por Hurley, que ficou com os demais na depositando todas as esperanças de sobrevivência no grupo que partia:


A velejada entre Elephant e as Geórgias do Sul levou à prova não só a construção do James Caird, mas igualmente a resistência fisica e moral e as habilidades como navegadores dos seus tripulantes.

Em condições marítimas permanentemente tempestuosas somadas ao frio e ao gelo, o piloto Frank Worley tinha prejudicadas suas medições de navegação astronômica e pelo sol em função do movimento incessante das vagas e dos constantes nevoeiros, além de interferências na bússola pela proximidade de um dos pólos magnéticos da Terra.



Esta jornada que por si só é considerada um dos grandes feitos de navegação da história náutica (vide The Voyage of the James Caird) já inspirou tentativas de reprodução em tempos modernos, todavia sem qualquer sucesso.

O escaler James Caird foi recolhido e preservado e está hoje em exibição no Dulwhich College, em Londres, onde Shackleton estudou.

No dia 8 de maio de 1916, dezesseis dias depois de ter deixado 22 homens da sua tripulação isolados na Ilha Elephant, finalmente o James Caird aportou em uma praia isolada das Geórgias do Sul com a sua tripulação exausta mas com vida, embora no lado oposto onde estava a estação baleeira de Stromness e dela separados por uma cordilheira coberta de gelo e neve.



Exaustos com a jornada marítima, Shackleton dividiu novamente sua equipe e com mais dois homens e os poucos recursos que ainda restavam emprendeu uma travessia ininterrupta de 36 horas para enfim encontrar socorro em Stromness conforme se vê do diagrama abaixo, desenhado por ele próprio em suas memórias:



Entretanto, apesar do retorno ao contato com o mundo civilizado, o destino ainda tinha reservado para Shackleton outro desafio: resgatar os componentes da sua tripulação isolados na Ilha Elephant. Sem o apoio da Inglaterra envolvida com os esforços da I Guerra Mundial, Shackleton emitiu incessantes pedidos de resgate para os países geograficamente mais próximos - Argentina, Chile e Uruguai, o que lhe consumiu em pouco tempo muito da vitalidade e da aparência física conforme relatam aqueles que com ele conviveram.

Finalmente, depois de três meses de angústia o rebocador militar chileno Yelcho, em outra heróica jornada náutica, encontrando passagem dentre o gelo fundeou ao largo da Elephant Island por volta das 13:10 do dia 30 de agosto de 1916. Mais de dois anos depois da partida do Endurance da Inglaterra foram resgatados com vida todos os homens da tripulação, sem dúvida o maior mérito da liderança de Shackleton!



O mérito deste resgate é dividido com o comandante do Yelcho, Piloto Luís Pardo Villalón, uma vez que tratou-se de feito de grande coragem e perícia pois a embarcação não estava aparelhada para a missão, sem dotação de qualquer sistema de aquecimento, energia elétrica ou casco duplo próprio para os mares polares.

A chegada a Punta Arenas do Yelcho com Shackleton e sua tripulação incólume, propositalmente ainda sujos, desgrenhados, por barbear e com as roupas originais da expedição impregnadas de gordura de fuligem foi uma festa memorável, acompanhada por toda a população local e pelo governador chileno. E isto não foi nada comparado à recepção do Yelcho e Shackleton em Valparaíso em 27 de setembro, quando mais de 30 mil pessoas ocuparam o porto e as ruas vizinhas.



No seu retorno o Comandante Villalón foi imediatamente promovido e a façanha foi anotada com honra e mérito na sua folha de serviços, sendo lida na ordem do dia de todos os navios e repartições da Armada Chilena. Em complementação, recebeu ainda homenagem dos governos chileno e britânico e um abono equivalente a 10 anos de serviços concedido por lei especial do ano de 1918. Villalón e Shackleton tornaram-se grandes amigos.

O Yelcho por sua vez permaneceu em serviço ativo até o ano de 1958, quando foi desmanchado como sucata. A proa desta famosa embarcação foi preservada e hoje faz parte de um monumento em Puerto Willians em Isla Navarino, às margens do Canal de Beagle.


Voltando à Inglaterra e assim como vários dos seus companheiros expedicionários, Shackleton serviu na I Guerra Mundial e logo do seu término outra vez começou os preparativos para uma expedição antártica.

Entretanto sua missão com a humanidade já estava cumprida. Acometido de um ataque cardíaco faleceu a caminho da Antártica, nas Georgias do Sul, onde foi sepultado em 5 de janeiro de 1922. Tinha apenas 47 anos de idade.

Seu túmulo é hoje um local de homenagem e peregrinação obrigatória por todos os viajantes que se aventuram por aquelas latitudes.


Apesar da sua grandiosidade esta história permaneceu durante muito tempo à sombra da dramática conquista do pólo sul pela expedição antártica de Robert F. Scott. Com muita justiça foi resgatada em 1951 por Alfred Lansing a partir de documentos e testemunhos colhidos dos sobreviventes e publicada no livro "Endurance: A Incrível Viagem de Shackleton".





Mas se os méritos da liderança são de Shackleton, muito certamente toda a dramaticidade desta história não teria chegado até nós se não fosse o surpreendente trabalho de documentação produzido por Frank Hurley cujas fotos e filmes imortalizaram a saga do navio Endurance.

De forma tão fantástica quanto à sobrevivência do grupo, estas imagens foram preservadas por Hurley, que precisou jogar ao mar o seu equipamento profissional e selecionar algumas das melhores fotos e filmes, as quais milagrosamente protegeu seladas dentro de uma caixa de chumbo através de mares tempestuosos até o final da viagem.

Todas em preto-e-branco, ressaltam ainda mais a austeridade daqueles dias e resumem com fidelidade um inóspito ambiente que, quanto à cor, não possuía mais que variações de cinza e um branco infinito para oferecer às lentes do fotógrafo.

Captando também incríveis fotografias noturnas que deram ao Endurance uma fantasmagórica aparência, assim Hurley registrou parte de sua técnica:

“During night take flashlight of ship beset by pressure. This necessitated some 20 flashes, one behind each salient pressure hummock, no less than 10 of the flashes being required to satisfactory illuminate the ship herself. Half blinded after the successive flashes, I lost my bearings amidst the hummocks, bumping shins against projecting ice points and stumbling into deep snow drifts.”
Além das viagens de Hurley à Antártica, foi fotógrafo oficial durante a I e a II Guerra Mundial; viajando ainda pelo Oriente Médio, Egito e Nova Guiné, além da Austrália, sua terra natal.

A Biblioteca Nacional da Austrália guarda hoje uma coleção de 11 mil imagens captadas por Hurley entre 1910 e 1962, a Frank Hurley Negative Collection, as quais já estão em sua quase totalidade catalogadas e digitalizadas, estando integralmente disponíveis via internet.

Em complemento às belíssimas imagens postadas neste blog, na totalidade disponíveis na internet e na grande maioria com crédito de Frank Hurley, confira também alguns trechos dos filmes históricos sobre a Expedição Transantártica e algumas das cenas captadas pelo fotógrafo australiano:


A partir da obra de Alfred Lansing a literatura e a mídia debruçaram-se generosamente sobre o tema.

Poucos anos atrás e em conjunto com uma exposição permanente do American Museum of Natural History de Nova Iorque (http://www.amnh.org/exhibitions/shackleton/caird.html), foi publicado por Caroline Alexander o belo livro "Endurance - A Lendária Expedição de Shackleton à Antártida", disponível no Brasil em cuidadosa edição da editora Companhia das Letras, trazendo como ponto alto 140 das preciosas reproduções de Hurley, entremeadas por trechos dos diários da tripulação, numa emocionante reconstituição daqueles heróicos dias.

Com certeza o livro de Caroline Alexander não se sobrepõe à tradicional narrativa de Lansing, mas sim a completa sobremaneira, numa emocionante e delicada homenagem àqueles que encerraram com honra e coragem a era das grandes expedições marítimas.

Em 1994 a James Caird Society estabeleceu-se com o objetivo de preservar a memória das façanhas de Shackleton e teve como primeiro presidente vitalício o seu filho mais novo.

A história também já foi objeto de documentários e séries de televisão, uma delas estrelada por Kenneth Branagh.



POSTAGENS RELACIONADA NESTE BLOG: Se você gostou deste assunto, veja também a continuação em 

PARA SABER MAIS:

- New York Times - Veja a matéria sobre a viagem do Endurance originalmente pulicado em 16 de junho de 1916

Bibliografia (parcial):

- Endurance - a lendária expedição de Shackleton à Antártida, Alexander, Caroline. São Paulo, Cia. das Letras, 1999.

- A Incrível Viagem de Shackleton, Lansing, Alfred. São Paulo, Ed. Sextante, 2ª ed., 2009, ISBN: 8575421387

 - Sul - A Fantástica Viagem do Endurance. Shackleton, ErnestSão Paulo, Ed. Alegro, 2002, ISBN: 8587122363 ou em e-book disponível na internet: www.ibiblio.org/ebooks/Shackleton/South/South.htm

- Polar Castaways: The Ross Sea Party Of Sir Ernest Shackleton, 1914-17 de Richard McElrea (McGill-Queen's University Press, 2004) ISBN 0-7735-2825-3

- Shackleton, de Roland Huntford. 2nd edition 1996, Abacus History, London. 774pp ISBN 0-349-10744-0

- Shackleton's Forgotten Expedition: The Voyage of the Nimrod, de Beau Riffenburgh (Bloomsbury USA, 2004) ISBN 1-58234-488-4

- South with Endurance: Shackleton's Antarctic Expedition, 1914-1917 de Frank Hurley (Simon & Schuster, 2001) ISBN 0-7432-2292-X

- Shackleton's Forgotten Men: The Untold Tale of an Antarctic Tragedy, de Lennard Bickel, Rt. Hon. Lord Shackleton (Thunder's Mouth Press, 2000) ISBN 1-56025-256-1

- Leading at the Edge: Leadership Lessons from the Extraordinary Saga of Shackleton's Antarctic Expedition de Dennis N. T. Perkins, Margaret P. Holtman, Paul R. Kessler, Catherine McCarthy (American Management Association, 2000) ISBN 0-8144-0543-6

- The Endurance: Shackleton's Legendary Antarctic Expedition de Caroline Alexander (Knopf, 1998) ISBN 0-375-40403-1

- Ernest Shackleton, 1957, de James Fisher Sir Ernest shackleton, 2004, de Brigitte Lozerec'h


Bibliografia publicada por Ernest Shackleton:

- The Heart of the Antarctic: The Story of the British Antarctic Expedition 1907-1909, por Sir Ernest Shackleton (Collins) ISBN 1-903464-28-5

- Shackleton: The Polar Journeys: Incorporating the "Heart of the Antarctic" and "South" por Sir Ernest Shackleton (Collins, 2002) ISBN 1-903464-26-9

- South: Journals of His Last Expedition to Antarctica por Sir Ernest Shackleton (Robson Books, 1999) ISBN 1-86105-279-0

- South: The Story of Shackleton's Last Expedition, 1914-17 por Sir Ernest Shackleton (Ebury Press, 1991) ISBN 0-7126-3927-6

- Endurance: Shackletons Incredible Voyage por Ernest Henry, Sir Shackleton, Christopher Ralling (Peter Bedrick Books, 1986) ISBN 0-87226-082-8

- Aurora Australis por Sir Ernest Shackleton (Paradigm Press, 1986) ISBN 0-948285-07-9

- South: The Story of Shackleton's Last Expedition, 1914-17 por Sir Ernest Shackleton (Heinemann, 1970) ISBN 0-434-69500-9

Imagens em DVD:

- Shackleton - The Greatest Survival Story of All Time, com Kenneth Branagh (A&E Home Video, 2002) ISBN B000063TON

- The Endurance - Shackleton's Legendary Antarctic Expedition, narrada por Liam Neeson (Columbia Tristar, 2000) ISBN B0000A7W16

domingo, janeiro 11, 2009

Livros/Náutica: Nathaniel Philbrick e a Saga do Essex - O Caso que Inspirou "Moby Dick"


O livro "No Coração do Mar", de Nathaniel Philbrick (Cia. das Letras, 2000, ISBN 8535900705), foi considerado uma das melhores obras do gênero editadas no final de século XX nos Estados Unidos. Nela o autor nos conta a história real na qual um cachalote de 26 metros abalroa e afunda o Essex, um velho navio baleeiro americano em pleno Oceano Pacífico, no ano de 1821. A semelhança com o drama de "Moby Dick", não é mera coincidência, pois foi neste fato, amplamente noticiado pelos meios de comunicação da época, que Hermann Melville inspirou-se para escrever o livro que se tornou um dos maiores clássicos da literatura marítima.

No rastro deste sucesso, Philbrick escreveu "Mar de Glória" (Cia. das Letras, 2005, ISBN 8535906347) que trata da conflituosa primeira expedição exploratória oceânica empreendida pelos Estados Unidos entre 1838-1842 e, por enquanto sem tradução no Brasil, "Mayflower: A Story of Courage, Community, and War" (2008), tratando da saga dos pioneiros na colonização dos EUA.

A partir do caderno de notas de um dos tripulantes do Essex aliado a uma minuciosa pesquisa, Philbrick retraça com detalhes a vida dos homens baleeiros de então: de onde vinham, como construíam seus navios, como escolhiam a tripulação, as características e o comportamento das baleias, a industrialização dos seus produtos derivados e inúmeros outros detalhes que vêm a compor com perfeição a vida marinheira na época.

Todavia, enquanto o ponto final do livro de Melville é o afundamento do navio Pequod pela famosa baleia branca, este fato por si só inacreditável é apenas o início de "No Coração do Mar", cuja linha mestra é a trágica odisséia dos tripulantes do Essex que se seguiu ao ataque do cachalote, os quais restaram três meses confinados em botes à deriva no Pacífico, entre a loucura e a morte e por fim recorrendo ao canibalismo como medida extrema de sobrevivência.

Um livro eletrizante que imortaliza uma das raras ocasiões em que a imaginação humana foi de longe superada pela realidade.

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Livros/Náutica: O Capitão Slocum e a Viagem do "Liberdade"

Remexendo em temas náuticos, anos atrás encontrei rara pérola em uma livraria no Uruguai: "El Viaje del 'Liberdade'", de Joshua Slocum (1844-1909), o mesmo autor do conhecidíssimo "Velejando Solitário ao Redor do Mundo" (Porto Alegre: Mercado Aberto, 1991, ISBN 8528001709), um dos grandes clássicos da literatura náutica.

Poucos sabem que Slocum, o primeiro homem a circunavegar o mundo velejando em solitário, antes da sua histórica proeza naufragou no litoral do Paraná, no ano de 1887.

Em fevereiro de 1886 o Capitão Slocum comandava o Aquidneck e partiu em viagem comercial de Nova York rumo ao Uruguai, trazendo consigo a esposa os filhos, Victor e Garfield, de 14 e 5 anos.

Ocorre que o Aquidneck naufragou na Baía de Paranaguá, no Brasil, no Natal de 1887.

Com a perda total do navio mercante que comandava, sem meios financeiros e completamente isolado,  com a família abrigada na cidade de Paranaguá, Joshua Slocum construiu com as próprias mãos e a duríssimas penas o Liberdade, pouco mais do que uma canoa de 11 metros, a qual foi lançada ao mar no dia da liberação dos escravos no Brasil.

Com ela transportou a esposa e seus filhos em uma viagem de 5.000 milhas e 55 dias de volta aos Estados Unidos. O feito foi tamanho que o Liberdade foi entregue ao Smithsonian Institution, onde ficou exposto e foi visitado por milhares de pessoas.

O Liberdade, fruto da mescla de várias técnicas de construção náutica

A tripulação do Liberdade: Joshua Slocum e a sua pequena família

Completamente arruinado depois da perda do seu barco, o Capitão Slocum publicou este livro em 1890 mas não obteve muito sucesso junto ao público, obrigando-o a trabalhar em arsenais e estaleiros até que ganhasse de um amigo o Spray, o pequeno veleiro com o qual realizou em 1906 a primeira circunavegação em solitário do globo, aos 54 anos de idade, um dos maiores feitos individuais que sem tem notícia na história da navegação.

Mais tarde Slocum construiu o Spray, no qual foi o primeiro homem a circunavegar o globo em solitário
 Para a felicidade dos leitores brasileiros as curiosas (des)venturas do Capitão Slocum no Brasil, as suas dificuldades com as autoridades, as lutas contra motins, o cólera e a varíola a bordo foram publicadas no mercado nacional e pode ser encontrada nas boas livrarias do ramo (SLOCUM, Joshua, "A Viagem do Liberdade". São Paulo: Ed. Planeta, 2004 - ISBN 857665010x).

Se estiver difícil encontrar, vale uma conferida na ótima Livraria Moana  especializada em temas náuticos, viagens e aventuras e que possui uma edição especial em português de lavra da Aventura Editorial.

Para quem ainda quiser complementar seu conhecimento sobre o assunto sugiro ler a interessante crônica "Guaraqueçaba, o Comandante Slocum e a Proeza do Barco "Liberdade", de Newton Carneiro, garipada pelo Danilo do site popa.com.br e que relata alguns aspectos folclóricos da passagem do grande capitão Joshua pelo Brasil.

sábado, outubro 18, 2008

Náutica: O Resgate do HMS Beagle


E já que falei em Darwin, li outro dia que depois de 130 anos de mistério historiadores marítimos ingleses anunciaram a localização em Essex dos despojos do HMS Beagle, o navio com o qual foram realizadas as viagens pelo mundo que o inspiraram a formular a Teoria da Seleção Natural.

Os famosos diários do Beagle, comandado pelo Capitão FitzRoy, constituem uma história tão especial que no futuro merecerá um comentário específico.

Com a ajuda de um radar submarino o navio foi encontrado debaixo de seis metros de lodo nos pântanos do Condado de Essex, ao sul de Londres. Os pesquisadores se valeram de recenseamentos que listavam familiares ainda vivos de tripulantes do Beagle e de velhos mapas para rastrearem o famoso navio.


A ironia é que desconheceu Darwin até o seu falecimento em 1882 na propriedade familiar do Condado de Kent, que seu antigo navio estava repousando tão perto do seu mais ilustre tripulante.

Mas a notícia mais interessante é que está sendo construída uma réplica do Beagle para os festejos dos 200 anos do nascimento de Darwin em 2009. Diferente do seu modelo original, o novo HMS Beagle terá motores auxiliares diesel, radar, GPS, comunicação por satélite e modernos equipamentos de segurança. Vamos aguardar.



PARA SABER MAIS:

Evolution of radar points to HMS Beagle's resting place. Disponível em 18-09-2008 em http://www.guardian.co.uk/science/2004/feb/15/sciencenews.science

The HMS Beagle Project. Disponível em 18-09-2008 em www.thebeagleproject.com/links.html

sexta-feira, setembro 12, 2008

ConeSul/Cadernos da Patagônia: Uma Viagem ao Fim do Mundo

Parque Nacional de Torres del Paine - Chile

"Havia na sala de jantar de minha avó, um armário com porta de vidro e, dentro dele, um pedaço de pele. Não passava de um pedacinho, mas era espesso, áspero, com chumaços de um pêlo avermelhado e grosso. Estava pregado a um cartão por um alfinete enferrujado. No cartão, havia algo escrito com tinta negra, esmaecida, mas eu era então criança demais para ler.

- O que é isso?- Um pedaço de brontossauro. (...) 

Aquele brontossauro específico vivera na Patagônia, uma região da América do Sul, no outro extremo do mundo. Há milhares de anos, caíra dentro de uma geleira, deslocara-se montanha abaixo numa prisão de gelo azul e chegara em perfeitas condições ao sopé. Foi lá que o primo de minha avó, Charley Milward, o Marinheiro, o encontrou."

Quando li com imenso prazer este livro pela primeira vez (fui obrigado a deliciar-me com suas páginas em mais de uma oportunidade...), retrilhar os passos do seu autor, Bruce Chatwin, torno-se não somente um sonho mas uma obsessão da qual somente considerei-me curado quando ncontrei, anos mais tarde, numa escura vitrine do Museu Salesiano de Punta Arenas, Chile, um pequenino retalho de uma pele espessa, áspera, com chumaços de um "pelo avermelhado e grosso" ...

E antes que o leitor pergunte, explico: na verdade o brontossauro de Chatwin (sim, a história é verdadeira!) era um Milodonte, uma espécie de preguiça gigante cujos restos conservados em um solo especialmente composto foram encontrados em uma caverna perto de Puerto Natales, extremo sul do Chile, conhecido ponto de visitação nos dias de hoje.

Paul Theroux, famoso pelos seus livros de viagens, vê a América do Sul com a forma de um funil, sendo a Patagônia o final onde todos os trota-mundos cedo ou tarde acabam se encontrando. Mas antes que a ponta de um funil, melhor visualizá-la como uma imensa pradaria cujas ondas cor de trigo mesclam-se, às margens do Estreito de Magalhães, com aquela cor de chumbo, do mar verdadeiro, austral, gelado, varrido pelos williwas, ventos com força de furacão, 3.000 quilômetros ao sul de Buenos Aires.


Estreito de Magalhães - Punta Arenas - Chile
Este enorme canal em cujas margens repousam antigas carcaças do que outrora foram garbosos veleiros, é tradicionalmente conhecido pelos marinheiros como um cemitério de navios. Ora assassinados pelo mar tempestuoso, ora propositalmente largados à morte por capitães mais interessados em apólices do seguro, estes enormes esqueletos de metal oxidado e madeira carcomida assustam os caminhantes com seus fantasmas e mascarões de proa, invocando visões de tempos passados em que estas rotas de navegação eram um tesouro secretamente guardado por reis e piratas.

Sugiro um plano ao leitor: uma rápida viagem à Patagônia descendo pela costa atlântica até a Terra do Fogo. Dali retornaremos pelo coração do continente ombro a ombro com a Cordilheira dos Andes.

O primeiro passo é levantar âncoras da poltrona. Pouquíssima bagagem: apenas aquilo que puder carregar consigo, um bom guia de viagem e, talvez, uma câmera fotográfica. Passando Buenos Aires, cruze as imensas planuras do Pampa rumo sul, observando as baleias e orcas da Península Valdez, visitando os vilarejos gauleses de Gaiman e Trelew e um pernoite para descanso em Puerto Deseado, frente à enseada onde Darwin e o capitão Fitzroy ancoraram o Beagle em 1833.


Capela gaulesa em Trelew - Argentina

Na pracinha desta cidade encontra-se estacionado um histórico vagão de trem - hoje um simpático posto de informações turísticas - mas que foi nos anos 20 o quartel-general do Coronel Héctor Varela, líder das tropas que reprimiram a rebelião anarquista de 21 e do massacre de trabalhadores na Estancia La Anita, onde executou com suas próprias mãos o célebre gaúcho Facón Grande.

Continuando pela costa em direção ao sul, passe por Rio Gallegos - uma cidade que só não foi levada pelo vento devido às suas profundíssimas raízes coloniais - e, em seguida, atravesse de ferry o Estreito de Magalhães até a Isla Grande de Tierra del Fuego. Repartida ao meio entre Chile e Argentina, conta o cronista Antonio Pigafetta que Fernão de Magalhães assim a batizou em 1520 quando avistou, desde o seu navio, uma infinita constelação de fogueiras permanentemente acesas pelos indígenas a fim de afugentarem o frio inclemente.
A partir de então os europeus não pararam mais de chegar, sentenciando à morte os donos daquela terra.

Considerados um dos povos mais primitivos da terra, os Alacalufes habitavam os canais fueguinos e sobreviviam da pesca com arpão a partir de toscas canoas de cortiça, da coleta de mariscos, fungos e carne das focas e baleias que eventualmente chegavam à praia. O contato com os navegantes e os loberos, caçadores de focas vindos desde a Ilha de Chiloé, minou a saúde deste povo com o álcool e as doenças da civilização. Em nossos dias apenas aqueles que embarcarem no navio que uma vez por semana liga Puerto Montt a Punta Arenas, atravessando a miríade de pequenas ilhas e fiordes que entornam esta rota marítima, com alguma sorte talvez veja a última família Alacalufe sobrevivendo da venda de canoas de brinquedo às embarcações que param para abastecer a pequena estação meteorológica de Puerto Éden.


Outros povos não tiveram mais sorte. Os Selk'nam, Yamanas e Tehuelches foram dizimados pelos garimpeiros e colonos que chegavam para ocupar as pastagens com os seus rebanhos de ovelhas, sendo literalmente caçados pelo exército e pelos novos senhores da terra. Sabe-se que grandes donatários chegavam a pagar por cada orelha recebida e é famosa a foto em que o romeno Julius Popper aparece com seus milicianos caçando os índios desnudos. Talvez por esquecimento ou honra ao (de)mérito, hoje Popper virou nome de loja em Ushuaia. Um pouco mais a oeste o Lago Roca tem como homônimo o sobrenome do general que conduziu a partir de 1879 a campanha de extermínio dos índios Tehuelches, eufemisticamente chamada de Conquista del Desierto....

Mas voltemos a temas mais brandos. Considerada a cidade mais austral do mundo, Ushuaia é o vértice da nossa viagem. Guardiã do Canal de Beagle e cercada de montanhas permanentemente nevadas é ponto de parada obrigatório para os navios que seguem para a Antártida e os grandes transatlânticos que circunavegam a América do Sul. Belíssima estada, não esqueça de provar o cozido de centolla, o caranguejo gigante dos mares gelados, e visitar a Baía de Lapataia, ponto final da Rodovia Panamericana que vem desde o Alaska através da espinha dorsal do continente americano, desvanecendo-se em uma pequena praia de águas geladas e transparentes, em meio ao Parque Nacional de la Tierra del Fuego.


Baía de Ushuaia - Terra do Fogo - Argentina

Estância Maria Behety - Terra do Fogo - Argentina
Hora de partir. Destino: Punta Arenas, Chile. Tomando rumo noroeste pare nesta cidade que já foi a mais rica do sul, num tempo em que era porto seguro para os cargueiros que vinham buscar a lã destinada às tecelagens inglesas que impulsionavam a Europa da Revolução Industrial. Poderosas elites regionais como as artistocráticas famílias Braun, Menéndez e Behety ali floreceram, explorando com a mesma avidez o negócio da lã e o labor do imigrante. Seu ocaso foi a abertura do Canal do Panamá em 1914, o qual tornou muito mais curtas e econômicas as rotas comerciais entre o Pacífico e o Atlântico, deixando às cracas e pinguins aquele ventoso porto chileno. Mas a cidade sobreviveu e hoje é o ponto mais urbanizado da Patagônia, onde figuram ricos exemplares de um passado colonial e formidáveis museus sobre a história da região.

Dali subimos para Puerto Natales, passagem certa de aventureiros e considerada o portal para Torres del Paine, um dos mais belos parques que já visitei e cuja caminhada de entorno pode ser feita em 10 dias, atravessando quatro regiões distintas: savana, deserto, montanha e floresta.

Um pouco mais ao Norte, já do lado argentino da fronteira, paramos em Calafate, região de extensas e coloridas planuras onde ainda em nossos dias obtém-se a melhor lã do mundo. 

Não por outro motivo Luciano Benetton é o maior proprietário de estâncias da Patagônia... Estas terras que hoje parecem tão bucólicas já foram esconderijo para ninguém menos do que Butch Cassidy, Sundance Kid e Etta Place, que ali se refugiaram num lugarejo chamado Cholila depois do grande roubo ao First National Bank of Winnemucca em 1900. Perseguidos desde os Estados Unidos pela implacável agência de detetives Pinkerton, conta a história que após um assalto ao banco de Rio Gallegos fugiram para a Bolívia, onde teriam sido mortos em um tiroteio com o exército...



Lenda ou realidade, este não é o atrativo da Calafate, mas sim o grande Glaciar de Perito Moreno, uma língua de gelo que desce desde o cimo da cordilheira até planície, dividindo em dois um braço do Lago Argentino, permanentemente pontilhado de icebergs.


Glaciar Perito Moreno - Calafate - Argentina
E já no caminho de casa encontram-se as duas últimas paradas: El Chaltén, onde está o Cerro Fitz Roy (3.405 m), carinhosamente apelidado de Rouba-Dedos pelos montanhistas e uma das mais difíceis escaladas da Patagônia e, logo depois, a não menos famosa San Carlos de Bariloche, com árduos e prazeirosos afazeres para todos os gostos...

Assim, depois deste rápido périplo pelo Cone Sul voltamos à nossa poltrona para merecido repouso... Mas apenas pelo tempo necessário para planejar a viagem de retorno...
Chile ou Argentina, tanto faz. O certo é que a simples menção da palavra Patagônia funciona como um irresistível imã a atrair aventureiros com vontade de ferro provindos de todos os confins do globo. Aliás, esta parece ser a qualidade obrigatória para adquirir a nacionalidade patagônica e, além do espírito livre, melhor ainda pertencer a algum clã de easy riders sem destino ou rumo certo. E se por acaso o candidato for garimpeiro, órfão, marinheiro, missionário, foragido ou escritor, ótimo, considere já carimbado o seu passaporte para esta terra de ventos de furacão, inacreditáveis histórias e horizontes infinitos.


x - x - x - x - x

IMAGENS: Todas as fotografias sem indicação específica de crédito são de minha autoria. Copyright©João Paulo Lucena 2000

quarta-feira, setembro 10, 2008

Por que este blog se chama Terra Australis?


(Orontius Finaeus, 1531)

Nos antigos mapas europeus do século XV a Terra Australis aparecia como um continente hipotético, imaginário, tendo como tradução do latim o significado de "Terra do Sul". Em outras cartas era também referida como Terra Australis Incognita e, em sua essência, referia-se ao desconhecido e misterioso espaço vazio que tanto atraía quanto atemorizava a imaginação dos antigos navegantes. Poucos sabem que dentre variados nomes até mesmo como Brasiliae Australis esta parte imaginária do mundo chegou a ser batizada.

As primeiras noções desta Terra Australis são encontradas em Aristoteles e foram difundidas por Ptolomeu a partir do século I, que acreditava haver terra firme ao sul do Oceano Índico como forma de manter o equilíbrio do mundo com as terras então conhecidas no hemisfério norte.

No topo deste texto está o famoso mapa o matemático italiano Oronzio Fineo, a qual mostra o hipotético continente claramente separado da América do Sul pelo Estreito de Magalhães. A superposição da carta com os limites do hoje conhecido Continente Antártico é bastante interessante como se vê abaixo:


Fonte: Wikipedia

Já durante a Renascença, Ptolomeu foi uma das principais fontes para os cartógrafos europeus e este território lendário começou a aparecer em alguns mapas como um continente de linhas indefinidas ao redor do pólo sul, mas muito maior que a atual Antártida.

Mapas do século XVI elaborados por Dieppe enfatizam a existência do misterioso continente, em especial a partir do forte interesse europeu pela região após a descoberta do Brasil em 1500 e do estabelecimento da colônia França Antártica na América do Sul em 1555.


(Rumold Mercator, 1587)

(Jacques de Vaux, 1583)

Jacob Le Maire e Willem Schouten contornaram o Cabo Horn em 1615 e concluíram que a Terra do Fogo era na verdade uma ilha relativamente pequena, separada da Terra Australis que deveria existir mais ao sul. Jacob, com seu irmão Isaac, chegou a constituir a Companhia Australiana (Australische Compagnie) para comerciar com a Terra Australis, a qual era por eles referida como "Australia".

(Jodocus Hondius, 1608)

Evidências da existência de terras ao sul descobertas por navegadores como Abel Tasman, o primeiro ocidental a avistar a Nova Zelândia em 1642, foram tidas como parte da Terra Australis, assim como a Australia e o sul da África.

A procura pelo continente perdido ainda encontra referências em Juan Fernandez, que declarou tê-lo descoberto em navegação feita a partir do Chile em 1576 e que, aceita na década de 1760 pelo Governo Britânico, motivou a ordem para que James Cook conduzisse o HMS Endeavour na busca de novos territórios tanto ao Sul quanto ao Oeste do Tahiti.


(Jan Janssonius, 1657)

Durante a primeira circunavegação da Nova Zelândia por volta de 1770 foi demonstrado por Cook que esta não fazia parte de um continente maior e, na sua segunda navegação de volta ao mundo, chegou a cruzar o círculo polar antártico, trazendo notícias de que poderiam haver terras com clima temperado mais ao sul e além das regiões geladas que avistou.

O certo é que a Terra Australis Incognita sempre foi sinônimo de mistério e fascinação, inspirando navegantes, exploradores, aventureiros a partir para os confins do globo e muito além das fronteiras até então conhecidas.

(Abrahan Ortelius, cerca de 1570)

Por este motivo, mas sem tanta pretensão, o nome deste blog e do site que o precedeu foi assim escolhido, traduzindo o espírito intrínseco da curiosidade humana de buscar o novo e partir rumo ao desconhecido.

Se nos dias de hoje isto pode ser feito a partir de uma confortável poltrona em frente ao computador, dentro da segurança do lar ao invés do rústico convés de uma nau ou uma caravela, tanto melhor!

Mas, com absoluta certeza, o prazer de deixar levar-se pela imaginação ao navegar pela web ou pelas páginas de um livro instigante não será muito diferente daquela que inspirou os antigos descobridores e lançarem-se aos 7 mares em busca da lendária Terra Australis...

Bom proveito!


POSTAGENS RELACIONADAS NESTE BLOG:



PARA SABER MAIS:

sexta-feira, julho 06, 2007

Nasce o Blog Terra Australis!



Cueva de Las Manos - Patagônia Argentina
Fonte: Wikipedia

Desde garoto sempre fui fascinado pelo Sul e por todo o significado que se esconde por trás desta pequena palavra de três letras. Sul assim mesmo, com a letra "S" maiúscula, sinônimo de vento, de frio, de terras inóspitas e horizontes longínquos, de pradarias, de pampa e de cordilheiras.

Sul é palavra pequena que transcende a rosa dos ventos, traduzindo uma terra de mistérios, por séculos inexplorada, de onde os viajantes que voltaram contavam histórias de gigantes e mares tempestuosos.

Exploradores como Magalhães, Drake, Cavendish, Shackleton, Scott, Amundsen, Darwin, Fitzroy, Alberto D´Agostini, Saint Hilaire sempre povoaram minha imaginação e os relatos clássicos e modernos como os de Lucas Bridges, Neruda, Bruce Chatwin, Paul Theroux, Jean Raspail, Luis Sepulveda, Osvaldo Bayer e tantos outros tem seu lugar especial nas prateleiras da minha biblioteca.

Comentários de viagens, sugestões de livros, música, notícias e fotografias de perambulações por esta América é que me proponho a trazer para o blog, reunindo assim, de forma mais dinâmica e interativa, escritos novos e antigos espalhados por este mundo sem horizontes da internet.

Um pouco deste espírito inspirou Fernando Solanas a escrever a letra deste inesquecível tango musicado por Astor Piazzolla...

"Vuelvo al Sur,
Como se vuelve siempre al amor,
Vuelvo a vos, con mi deseo, con mi temor.
Llevo el Sur, como un destino del corazón,
Te quiero Sur, Sur, te quiero..." Siento el Sur, como tu cuerpo en la intimidad. Quiero al Sur, su buena gente, su dignidad, Busco el Sur, el tiempo abierto, y su después. Sueño el Sur, inmensa luna, cielo al reves, Soy del Sur, como los aires del bandoneón.

Pois bem, esta será a nova cara do site 
TERRA AUSTRALIS, que em 2008 completou uma década de vida desde que foi concebido em 1998 por Renato Cukier no pioneiro portal Webventure, para divulgação da expedição de escalada ao Monte Aconcágua, na Argentina, em janeiro do ano seguinte. 

Agora sob o formato de blog, com artigos, comentários e informações revistas e atualizadas mais seguidamente, ele permitirá uma interação muito mais próxima e dinâmica com os leitores.

Sejam muito bem-vindos e deixem aqui os seus comentários!

Um grande abraço,

João Paulo Lucena
Porto Alegre - Novembro de 2007


P.S: Se você gostou da letra do tango acima, então veja aqui a belíssima versão musical do grupo franco-argentino Gotan Project:




POSTAGENS RELACIONADAS NESTE BLOG: