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domingo, outubro 31, 2010

Fotografia/4x4: Do Farol Capão da Marca à Lagoa do Peixe



A costa sul do Rio Grande do Sul exerce sobre mim grande fascinação, em especial a isolada região situada na longa península de 250 Km que divide a Laguna dos Patos do Oceano Atlântico.

Em 1998 cruzei pela primeira vez esta restinga pela temível e nada saudosa Estrada do Inferno, um trecho da RST-101 que liga Capivari a São José do Norte, um verdadeiro inferno de lama, água e areia. Se por um lado demorei quase 3 dias para rodar 100 quilômetros em veículos 4x4, as paisagens de dunas, naufrágios, pássaros, restingas e faróis isolados deixou em mim sua marca indelével.

Ao longo dos anos tenho voltado para lá muitas vezes em busca de sossesso e imagens de natureza, em geral acompanhado por meu grupo de fotografia dentro do nosso projeto pessoal de registro dos faróis do Rio Grande do Sul.

Agora em outubro decidi revisitar o histórico Farol Capão da Marca, o mais antigo do Rio Grande do Sul, localizado à margem da Lagoa dos Patos, a sudoeste do Município de Tavares.

Este marco tem a forma de uma torre octogonal em armação de ferro importada da França, com lanterna e um cilindro central. Foi inaugurado em 1849 pelo próprio Imperador D. Pedro II (1840-1889) e está localizado a cerca de 13 km de Tavares, com acesso parte por estrada de areia e parte  por trilha 4x4 pela beira da Lagoa do Patos.

Apesar da idade está em boas condições de manutenção, pintado de branco, ao lado de um pequeno capão de Pinus eliotis. O farol possui 14 m de altura e emite sinais de luz vermelha com alcance de 13 milhas náuticas (24 km) para dentro da lagoa.

O Farol Capão da Marca, 1849. Lagoa dos Patos.
Pequeno visitante dentro da lanterna do farol...

Em todas as vezes que lá estive foi possível subir ao topo do farol por uma escada interna em caracol pois a sua porta de acesso, em ferro maciço, costuma estar destrancada. Desde a sacada que circunda a lanterna se vislubra uma belíssima vista de 270 º da Lagoa dos Patos e de grandes extensões de praias de areia branca e água doce onde eventualmente pontilham sambaquis, testemunhos da pré-histórica presença humana na região.

O local é deserto, à exceção de alguns poucos pescadores locais. Surpreende até que tanto isolamento e facilidade de acesso ao seu interior não tenha dado oportunidade à costumeira depredação do patrimônio público quando se encontra desguarnecido como no caso deste célebre farol.

Farol Cristóvão Pereira
O Capão da Marca está 28 Km ao sul do também histórico, o Farol Cristóvão Pereira, em atividade desde 1868 e que já foi objeto de postagem específica aqui mesmo no blog Terra Australis.

Nesta visita ao secular Capão da Marca pernoitei em Tavares, município com cerca de 5 mil habitantes, onde toda a vida social circula em torno da praça central, sobre a única avenida da cidade. Aos finais da tarde de finais de semana e feriados uma pequena multidão - proporcional à densidade demográfica da cidade - costuma se espalhar pelos bares da única avenida, com absoluta preponderância dos representantes do sexo masculino.

Me hospedei com João Batista Cardoso, grande conhecedor da região, dono do simpático Hotel Parque da Lagoa, sem dúvida a parada obrigatória em Tavares e redondeza. João Batista, conhecido de outras passagens por Tavares em explorações pela rota dos faróis e na Lagoa do Peixe, é quem disserta sobre a importância histórica do Farol Capão da Marca:


"(...) O primeiro Farol a ser construído na costa brasileira foi o da Barra do Rio Grande de São Pedro do Sul, na capitania do Rio Grande, hoje estado do Rio Grande do Sul. Em 1820, o Farol foi erguido sobre uma velha torre existente no local e de propriedade do capitão Mor, não chegou a ser aceso, pois foi destruído por uma forte chuva de granizo, no mesmo ano de sua construção. No período em que o Farol não havia sido reconstituído era deslocada uma balsa, que todas as noites acendia um fogacho para guiar os navegantes. Em janeiro de 1852 foi inaugurada uma torre de ferro encomendada da Inglaterra, acompanhada de um bom aparelho de luz, a velha torre, a Atalaia, com mais de um século, continua erguida.

"(...) Os Faróis são obras importantes, imponentes e históricas. As regiões de Tavares e Mostardas possuem o privilégio de contar com uma série de Faróis históricos. Algumas dessas obras, há mais de um século brilham para iluminar o navegante. Na Laguna dos Patos um dos faróis mais interessantes, mais alto e mais antigo é o Farol Cristóvão Pereira, inaugurado em 1886, hoje um pouco desestruturado, mas com uma arquitetura digna de um castelo, outro é o Farol Capão da Marca que se reveste de interesse histórico, uma vez que foi o primeiro farol da então Província, inaugurado pelo próprio Imperador D. Pedro II (1840- 1889), construído de metal e pintado inteiramente de branco.
"Todos os Faróis têm sua data de fundação ou inauguração, mas cabe lembrar que foram inaugurados com torres provisórias, sendo algumas de ferro outras de madeira. Entre as de ferro pode-se citar: Farol Mostardas, Sarita, Conceição. E de madeira: o Farol Capão da Marca, Cristóvão Pereira. Os registros mais antigos de Faróis de madeira estão no Rio Grande do Sul.
"Em 1849, foram construídos quatro Faróis de madeira: Capão da Marca, Bujuru, Barba Negra e Estreito. Todos foram custeados pela Província até 1852, quando passaram a pertencer ao Ministério da Marinha. Em 1858, foi construída também em madeira, a torre do Farol Cristóvão Pereira.

"Quando se fala do Capão da Marca e Cristóvão Pereira há conflitos de datas, o que ocorre é o seguinte: o Farol Capão da Marca é o mais antigo na sua construção em torre de madeira, foi custeado pela Província, em 1846. Já o Farol Cristóvão Pereira foi construído em madeira em 1858, mas nesta época já era administrado pelo Ministério da Marinha.
"Já em relação às torres atuais, ocorre que o Farol Cristóvão Pereira foi inaugurado em 1886 e o Farol Capão da Marca em 1894, mas seja qual for o mais antigo, o importante é que estes monumentos continuam aí, sendo testemunho do tempo, em pleno funcionamento e ainda servindo de belos pontos turísticos."
Também aproveitei a viagem a Tavares para voltar mais uma vez ao Parque Nacional da Lagoa do Peixe, parada imperdível para quem visita a região e abrigo de grandes concentrações de aves migratórias do Hemisfério Norte durante o verão e do Sul no inverno.

O tempo estava meio nublado, com nuvens e poucos momentos de sol, sem ajudar muito a tomada de fotografias, mas a Primavera fez a sua parte trazendo colorido à paisagem com grandes floradas nos pastos e nas dunas do parque.


A Primavera presente no Parque Nacional da Lagoa do Peixe
A presença dos flamingos, grande atração do unidade, também estava bastante tímida, tendo avistado somente um grupo de tamanho médio no trecho da Trilha do Talha-Mar.

Grupo de Flamingos na  Trilha do Talhamar
Percorri os três clássicos percursos do parque: A Trilha das Figueiras (1,5 Km), a Trilha do Talha-Mar (7 Km), a Trilha das Dunas (10 Km), mais um trecho pela praia até o acesso a Mostardas que atravessa trechos de banhados repletos de aves. A variedade de vida, como sempre, estava impressionante!

Garça. Trilha do Talha-Mar.
Biguá. Trilha do Talha-Mar.

Detalhe do João-Grande saboreando uma refeição.... Beira da RST-01.

Garça. Trilha do Talha-Mar


Corujinha ao final da tarde. Trilha das Figueiras.

Se você pensa que na Lagoa do Peixe se avistam somente aves migratórias, está muito enganado! É possível deparar-se também com emas, tatus, tuco-tucos, lebres, graxains e cotias, além de uma grande variedade de avifauna nativa.

Ema em meio ao campo na Trilha das Figueiras

Gavião nos acesso entre Mostardas e o mar

O setor do Parque Nacional da Lagoa do Peixe que abrange a zona de dunas e o litoral atlântico é uma atração à parte. Em um infímo espaço de trânsição entre os campos e o ambiente lacustre o cenário muda completamente, a começar pelos seus habitantes.

É uma outra estética, uma outra medida de tempo, onde o verde dos campos e charcos é substituído pelas variações entre múltiplos tons da areia constantemente desenhada pelo vento. Trata-se de um espaço dinâmico, em constante mutação, onde a trilha nunca está no mesmo lugar e há que se ter olhos para descobrir a delicada beleza escondida nos pequenos detalhes.

Margaridas. Trilha das Dunas.

Margaridas. Trilha as Dunas.

Trilha das Dunas. O caminho entre a lagoa e o mar troca constantemente de posição e há que ter cuidado para não atolar o carro. Para quem não está familiarizado com o local a orientação à noite ou com o terreno alagado pode ser difícil.




O trecho costeiro do parque comporta também variadíssimo número de aves marinhas. É normal encontrar-se na praia animais de grande porte mortos, como golfinhos, tartarugas, lobos e leões-marinhos e até baleias, boa parte deles trazidos pelas grandes redes de pesca de arrastão - encontradas às centenas na região - ou sufocados pelo lixo que flutua no oceano.

É muito o grande o número de tartarugas marinhas que morrem presa nas redesde pesca ou sufocada por sacos plásticos, confundidos com águas-vivas, um dos seus alimentos. Encontramos pelo menos sete animais mortos apenas entre o acesso à Trilha das Dunas e o acesso à Mostardas.
Desta vez tive uma bela surpresa. Durante o final de semana um grande mutirão de veículos 4x4 estava recolhendo o lixo da área litorânea do parque nacional, o qual foi reunido em uma enorme pilha para mais tarde ser retirada pela prefeitura. Vejam só o que foi encontrado em apenas alguns quilômetros de praia!


Os ventos constantes trocam as dunas de lugar e soterram os pequenos abrigos dos pescadores locais.
Em compensação, colírio para os fotógrafos e visitantes, na beira-mar a variedade de avifauna é enorme!












O trajeto total entre Porto Alegre e Tavares, via Capivari, incluindo trechos de asfalto, terra consolidada e trilhas somou 550 Km, ida e volta, fazendo valer a visita em qualquer época do ano. Veja abaixo as dicas do passeio.

FOTOGRAFIAS:

- As imagens foram captadas com uma câmera Canon EOS-1D Mk II e um conjunto de lentes zoom variando entre 28 e 300 mm da mesma marca. Todas as fotos são de autoria de João Paulo Lucena, sendo proibida a reprodução desautorizada.

SOBRE O FAROL CAPÃO DA MARCA:

- Localização Tavares, Rio Grande do Sul, Brasil
- Coordenadas 31° 18′ S 51° 9′ W
- Inauguração 1849
- Altura 14 m
- Altitude 19 m
- Alcance luminoso 13 milhas náuticas
- Características Luz: LFl W 10s
- № Nacional 4472/№ internacional G-0631.2/№ da NGA 18957/№ da ARLHS BRA-127
 
ONDE FICAR:

Mostardas.
- Em Tavares recomendo o Hotel Parque da Lagoa.

- Em Mostardas a Pousada Pouso Alegre. Nesta pequena e folclórica cidadezinha de cultura açoriana há outras opções de hospedagem e é uma boa opção de pouso para que visitar a região.

ONDE COMER:

- Em Tavares existem algumas poucas opções de pequenos bares, uma padaria, um café e uma pizzaria ao longo da única avenida.

Ed Mundo´s, em Mostardas
- Em Mostardas a parada obrigatória é no Ed Mundo´s, onde 10 entre 10 expedições à região param para se reabastecer. Serve a la carte durante a semana e buffet aos domingos. Especialidade em peixes da região. Rua Bento Gonçalves (a do Posto Ipiranga), 906 Tel.(51) 3673-1969


POSTAGENS RELACIONADAS AQUI NO BLOG TERRA AUSTRALIS:

- 20/02/2011 - Náutica/Vela: De Rio Grande ao Bujurú
- 09/03/2010 - Fotografia/4x4: O Farol Cristóvão Pereira

SITES DE REFERÊNCIA:

- Bemtevi Brasil - do fotógrafo de natureza Renato Grimm
- Restinga do Litoral Sul do RGS - Palmares do Sul - Mostardas - Tavares
- Parque Nacional da Lagoa do Peixe
- Praticagem da Lagoa dos Patos - Monitoramento de Sinais
- O Farol Cristóvão Pereira

COMO CHEGAR:
 
Parque Nacional da Lagoa do Peixe - Mapa

terça-feira, março 09, 2010

Fotografia/4x4: O Farol Cristóvão Pereira


Farol Cristóvão Pereira na costa leste da Lagoa dos Patos/RS

Um dos meus lugares preferidos para recarregar as baterias isolado de telefone e internet, interagir com a natureza e fotografar é o farol Cristóvão Pereira, à margem leste da Lagoa dos Patos/RS.

Sendo o segundo mais antigo farol do sul do Brasil (o primeiro é o Farol Capão da Marca, de 1849) e distante 25 Km do município açoriano de Mostardas, foi inaugurado em 1886 e permanece ativo até hoje, agora automatizado e desguarnecido (sem faroleiro).

Em meio a uma paisagem de rara beleza e onde se avistam muitas das aves migratórias que constituem o cartão postal do quase vizinho Parque Nacional da Lagoa do Peixe, o local só é acessível por veículos 4x4 ou embarcações pesqueiras e de recreio que a ele chegam via Lagoa dos Patos.

Foto Ana Karina Belegantt
Foto Ana Karina Belegantt
Foto Ana Karina Belegantt
Nas minhas tantas visitas ao farol na última década, em diferentes épocas do ano, já tive oportunidade de encontrar emas, capivaras, lebres, tatus e aves como a ema, garça, joão-grande, quero-quero, joão-de-barro, coruja, gavião, andorinha, cisne-de-pescoço preto e até flamingos.

As águas ali rasas da Lagoa dos Patos são transparentes e piscosas, servindo de berçário para uma variedade de peixes, camarões e moluscos, que por sua vez atraem os siris da casca azulada que neles encontram sua principal fonte de alimentação.




A dificuldade de acesso ao local garante um espaço de calma e isolamento, que propicia a reflexão, o descanso, a contemplação da natureza e o usufruto de alguns valores da vida simples que o turbilhão urbano muito rápido nos faz esquecer da existência.


A simplicidade de um final de semana longe das atribulações da vida urbana, onde o menos é verdadeiramente o mais.

Há tempos tenho a certeza de que o prazer de estar ao pé de uma fogueira, sob um céu de estrelas e dormir em meio ao silêncio de um bosque supera em muito os confortos civilizados do mais luxuoso hotel cinco estrelas.

Todavia, não esqueço: tudo isto só tem valor quando compartilhado com uma boa companhia, de amigos ou da pessoa amada, quando então este prazer será por muitas vezes multiplicado.




Pescadores são as raras presenças humanas no Rincão do Farol. Cercado por acres e acres de florestamento de pinus, charcos, campos, lamaçais e dunas, este inóspito entorno torna deserta uma extensão de muitos quilômetros de praias de areias brancas banhadas pelas cristalinas águas da Lagoa dos Patos.



Desde que o vi este farol pela primeira vez passei a me interessar pela história da região, buscando literatura a respeito e, principalmente, os testemunhos e imagens disponibilizados no Popa.Com, o site náutico conduzido com maestria pelo amigo Danilo Chagas Ribeiro.

Dali me permiti reproduzir algumas das fotografias históricas que seguem neste post e que em mais nenhum outro lugar poderiam ser encontradas.

O farol foi construído em alvenaria, em forma de planta quadrada e se eleva a uma altura de trinta metros. O seu lampejo é de coloração branca com uma freqüência de dez segundos, plano focal de 30 metros (98 ft) e alcance de treze milhas náuticas.

Atualmente são estes os seus dados oficiais:

Localização: Mostardas/RS
Coordenadas: 31 03,72S / 51 09,89W

Inauguração: 1887
Altura: 28 m
Altitude: 30 mAlcance: 13 milhas náuticas
Lampejo: Branco a cada 10 segundos
Nº nacional: 4480
Nº internacional: G-0631-4
Nº da NGA: 18946.9
Nº da ARLHS: BRA-131

Consta que o primeiro farol consistiria de uma simples torre de madeira encimada por um lampião. Em 1861, foi inaugurada a atual torre de alvenaria de 28 metros e equipada com um aparelho de luz catóptrico de luz fixa, com 12 milhas de alcance, substituído em 1904 por um dióptrico de 5ª ordem BBT, de acordo com as informações do site Faróis Brasileiros.

Segundo Carlos Altmayer Gonçalves (o Comandante Manotaço, do Clube Veleiros do Sul - Porto Alegre) em registro enviado ao Popa.Com, o Farol Cristóvão Pereira foi construído na mesma época que o da Ponta Alegre, na Lagoa Mirim, e Bujuru, mais ao sul na Lagoa dos Patos, sendo 1858 o ano de início das suas obras. Pesquisador da história da navegação no Rio Guaíba e na Lagoa dos Patos, o Comandante Manotaço encontrou também o seguinte registro da edificação deste monumento histórico:

"....escavou-se o terreno à uma profundidade a encontrar bastante água, estacou-se com 84 moirôes de lay toda a superfície, sobre os quaes engradou-se com vigas de ley na distância de tres palmos de uma a outra, e depois de incavilhadas encheu-se os entrevallos de pedra secca bem calcada: sobre este engradamento levantou-se a sapata de pedra e cal até 10 palmos, e sobre esta levantarão se as paredes da torre e as das meios águas seguindo sempre com a planta em vista. Acha-se presente esta obra com os arcos fechados do 2º pavimento e a receber o respectivo madeiramento, e a 45 palmos de altura acima do terreno...."

(Correspondência do Intendente do Estado para o Vice-Rei no Rio de Janeiro, no seu relatório de atividades de 9/março/1859; 1 palmo = 21cm)
O nome homenageia uma figura de grande importância histórica no Rio Grande do Sul, antigo proprietário da sesmaria onde foi contruído o farol. Cristóvão Pereira de Abreu foi um dos responsáveis, dentre tantos outros fatos relevantes, pela ligação terrestre entre o sul do Brasil e a cidade paulista de Sorocaba que veio a se tornar importantíssima rota dos tropeiros. Foi também um dos responsáveis pela fundação de Rio Grande e Porto Alegre.

Também em uma sesmaria de sua propriedade e um pouco mais ao sul do Farol Cristóvão Pereira, foi construído em 1849 o Farol Capão da Marcaum dos mais importantes sinalizadores da Lagoa dos Patos.

Por muitas décadas o farol abrigou um faroleiro e sua família, isolados em meio às solitárias paragens da costa leste da Lagoa dos Patos conforme registram algumas belas imagens das décadas de 1940 e 1950  (Excursão do Umuarama - Diário de bordo dos anos 40. Texto: Jorge Gross, Transcrição e comentários: Carlos Altmayer Gonçalves "Manotaço". Originalmente publicado na Revista Yachting Brasileiro nº 22, Agosto – 1946. Fotografia reproduzida do site www.popa.com.br)



Fotografias enviadas pelo Comandante Emílio Opitz, de Tapes, para o Popa.Com

Fonte: Revista Digital Hermomt
Uma curiosidade é que o antigo Farol do Bujurú (20 metros) foi construído junto com os faróis de Itapuã, Cristóvão Pereira e Ponta Alegre (este na Lagoa Mirim). O Dr. Hugo Altmayer, pai do Comandante Manotaço, fotografou o Farol do Bujuru em meados da década de 50, pouco antes do seu desabamento. O também histórico farol hoje não passa de uma ilhota a cerca 100 m da praia (vide Popa.Com).


O que resta hoje, em meio à água, do outrora sólido e imponente Farol do Bujurú. Será este o mesmo f uturo do Farol Cristóvão Pereira?


(Mapa replicado do Popa.Com)

Nos dias atuais o Farol Cristóvão Pereira foi automatizado e, em um verdadeiro atentado ao patrimônio e à memória histórica que somente os labirínticos meandros da burocracia estatal podem tentar explicar, em 1992 a Marinha, responsável pela manutenção dos faróis brasileiros, demoliu as dependências domésticas destinados ao faroleiro, ao mesmo tempo em que as portas e janelas da construção foram seladas com tijolos para evitar visitantes e depredações.

A partir daí algumas trabalhos de manutenção e contenção da erosão foram feitos, inclusive de forma voluntária por eventuais navegadores visitantes do farol.

(Trabalhos de manutenção do farol efetuados pela Marinha Brasileira em Maio de 2006. Fonte: Popa.Com)

vista a partir do topo do Cristóvão Pereira durante os trabalhos de manutenção do farol pela Marinha Brasileira. Maio de 2006. Fonte: Popa.Com)
Um grupo de velejadores consertando o farol com a reconexão da placa solar durante uma visita em 2004. Fonte: Popa.Com
Em janeiro de 2006 encontrei o Farol aberto na base, com uma abertura quebrada na base e ninguém ou qualquer material de manutenção presente, o que me fez afastar a possibilidade de que estivesse em obras de manutenção. Mais provável que fosse ação de vândalos como demonstram a seguir as últimas imagens que fiz do seu interior:

Janeiro de 2006. Ação de vândalos?
No piso o que sobrou da estrutura interna e escadarias de madeira, assim como o vão da antiga porta principal, testemunho da espessura e solidez das paredes do velho farol.
Sob a laje de concreto que isolou os andares superiores da estrutura ainda se vêem o que restou estrutura de madeira original que formavam os pisos e as escadarias do Farol.
Em torno da torre do farol, onde antes haviam as instalações do faroleiro e absurdamente demolidas pela Marinha do Brasil em 1992, ainda encontram-se resquícios da sua ocupação centenária, como cacos de louça, pregos e ossos.

Por curiosidade vê-se que tanto o Farol Cristóvão Pereira quanto o caído Bujurú são muito parecidos em estilo construtivo com o antigo Farol Atalaia, de São José do Norte,o primeiro construído no sul do país no já longínquo ano de 1820, utilizando-se cal feito de conchas oriundas de sambaquis.

A sua iluminação era feita por uma fogueira acessa no topo e ele ainda está de pé, próximo ao farol que o substituiu em 1896. Restos da estrutura interna ainda são visíveis e, como é praxe com estes valiosos monumentos históricos, encontra-se em péssimo estado de conservação.

Em São José do Norte o antigo Farol Atalaia, de 1820, substituído pelo "novo", inaugurado em 1896.
Vista para o alto dos restos do madeirame interno do Farol Atalaia, de 1820, como se encontrava em visita feita no ano 2006, e que deve ser muito semelhante ao que seriam as estruturas dos Faróis Cristóvão Pereira e Bujurú. 

O avanço das águas da lagoa sobre o farol é impressionante e a cada visita que faço são visíveis os estragos na estrutura de proteção deste imponente marco que, a continuar assim, não tardará em ruir com um enorme prejuízo à memória náutica da região e ao patrimônio histórico nacional.

Esta é a conclusão óbvia quando comparamos as antigas imagens onde se vê a torre em meio a dunas e figueiras com o seu estado atual. Em 2004 foi construído um dique de contenção pela Marinha, mas de duvidosa eficiência pois não tem sido capaz de protegê-lo da erosão das ondas e tempestades.

As imagens que captei do Farol neste verão de 2010 são reveladoras, mostrando o monumento já ilhado pelas águas, num prenúncio de repetição do que aconteceu com o seu já tombado co-irmão, o Farol de Bojurú.

Foto de Geraldo Knippling em 23-12-1998, enviada pelo Comandante Manotaço ao Popa.Com

O contínuo assoreamento da margem leste da Lagoa dos Patos dificulta enormemente o trânsito pela região, o que em certos pontos só é possível à pé ou em veículos  4x4.


De qualquer forma fica este registro de um dos mais aprazíveis locais da nossa Costa Doce, como são também chamadas as praias da Lagoa dos Patos.




EM TEMPO: Cristóvão Pereira de Abreu foi coronel das forças portuguesas nascido em 1680. No início do século XVI esteve na Colônia do Sacramento e por mais de 50 anos cruzou o Rio Grande do Sul levando tropas de gado, mulas e cavalos para Sorocaba, também prestando serviços ao Reino de Portugal. Alguns historiadores entendem que teria sido um dos pioneiros na povoação do Rio Grande do Sul. Foi o primeiro homem a atravessar, pelo interior, o território entre o Rio Grande do Sul e São Paulo, inaugurando o ciclo comercial e o movimento tropeiro na região sulina. Requereu e ganhou uma sesmaria na área que ficou conhecida como Rincão do Cristóvão Pereira, onde estabeleceu estância de criação de gado apesar de nunca a ter habitado.

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EQUIPAMENTO: Desta vez eu estava preguiçoso e não quis levar a costumeira tralha fotográfica. As imagens sem indicação de fonte são de minha autoria e, dentro do espírito da simplicidade que norteou o final de semana, utilizei somente a valorosa Canon G9 e um tripé. Afinal, às vezes, a filosofia minimalista do less is more vale também para a fotografia ...

DICA DE VIAGEM: Em Mostardas/RS a boa é o Restaurante Ed Mundo´s, atendido pelo proprietário Edmundo Luz, aberto das 11h00 às 15h30 e à noite das 19h00 até o último cliente sair... Serve buffet e a la carte, especializado em frutos do mar e cordeiro. Fica na Rua Bento Gonçalves, 906. Preços bons, comida honesta e ambiente acolhedor. Informações nos fones (51)3673-1969 e (51)9861-5554.


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Polêmica Histórica - Carta mudaria marco fundador do Estado - Artigo Jornal Zero Hora 20/10/2011