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segunda-feira, outubro 14, 2013

1º Festival Gaúcho de Esportes de Aventura

Foto: Divulgação do Festival



A pedido do meu amigo Leandro Bazotti divulgo a realização do 1º Festival Gaúcho de Esportes de Aventura a realizar-se nos dias 15, 16 e 17 de novembro, na localidade de Minas do Camaquã, a 70Km de Caçapava do Sul/RS, a cerca de 300Km de Porto Alegre, qualificado como o primeiro evento multi-esportivo de aventura do Rio Grande do Sul.
O evento já conta com a participação confirmada de 12 modalidades esportivas. Na programação, além da prática amadora das atividades, serão realizados campeonatos, mostras fotográficas e de equipamentos, oficinas técnicas e palestras, além da agenda cultural, que contará com a apresentação de varias bandas musicais. 
O encontro está sendo organizado pela operadora de Ecoturismo e Turismo de Aventura Minas Outdoor Sports, que oferece atividades como trilhas interpretativas, passeios de bicicleta, canoagem, rapel, escalada, arvorismo, tirolesa, quadriciclo e muito mais. 
Todas as atividades esportivas serão representadas por suas respectivas associações e federações. A programação pode ser confirmada AQUI, sendo que a inscrição garante vários benefícios aos participantes. 
A localidade de Minas do Camaquã conta com total infraestrutura, pousadas, restaurante, área de camping, banheiros e muito mais. 
Outras informações com a organização no seguinte contato:
E-mail: sec.executiva@minas.rs
Site: www.minas.rs
(55) 4052 9033 / (55) 9976 5682 
Equipe Minas Outdoor Sports

sábado, junho 16, 2012

Cinema/Montanhismo: Eliseu Frechou libera Dias de Tempestade na internet



Eliseu Frechou, um dos grandes espoentes da escalada brasileira acaba de liberar na internet o seu curta-metragem Dias de Tempestade, vencedor de três prêmios no tradicional Festival de Filmes de Montanha na sua edição de 2010.

O documentário dirigido pelo próprio escalador narra a escalada ao Monte Roraima recebeu os prêmios de melhor filme escolhido pelo juri oficial, melhor filme escolhido pelo juri popular e melhor fotografia.


“Receber o prêmio pelo júri oficial é uma honra, pois além de conquistar o publico com a emoção, conquistamos a parte técnica. Subimos com três câmeras de alta definição, sofremos cinco dias sem parar de tempestade. Foi um filme que surgiu aos poucos, sem roteiro”, registrou Eliseu à época do Festival.

A decisão de liberar o filme para livre acesso pelo público na internet é generosa, diferencia o seu autor da grande massa, democratiza o acesso à informação e potencializa ao infinito o marketing positivo da obra, ganhando a escalada brasileira e, principalmente, o público interessado.

Quer curtir Dias de Tempestade? Agradeça ao Eliseu e acesse abaixo!

terça-feira, abril 17, 2012

I Semana Brasileira de Montanhismo: Rio de Janeiro, 23/4 a 1/05


Recebi da Confederação Brasileira de Montanhismo e Escalada - CBME, capitaneada pelo meu velho amigo Silvério Nery, o release abaixo sobre a "1ª Semana Brasileira de Montanhismo" e faço aqui a minha parte para colaborar na divulgação do grande evento de comemoração dos 100 anos da atividade no Brasil.

A I Semana Brasileira de Montanhismo 2012 terá como sede o Bairro da Urca, no Rio de Janeiro/RJ e é uma realização da Confederação Brasileira de Montanhismo e Escalada (CBME), com organização da Federação de Montanhismo do Estado do Rio de Janeiro (Femerj), apoios do ICMBio, INEA, Riotur, e tem o portal Webventure como mídia oficial.

Além de reunir toda a comunidade de montanhistas e admiradores em geral, o evento visa também: (1) honrar o compromisso das entidades com a ética de montanha e a proteção do meio ambiente e (2) organizar o futuro do montanhismo e da escalada no Brasil.



"O maior evento do Montanhismo Brasileiro está sendo organizado com o objetivo de honrar nosso compromisso com a ética de montanha e a proteção do meio ambiente e organizar o futuro do montanhismo e da escalada no Brasil. É a 1ª Semana Brasileira de Montanhismo, a ser realizada no Rio de Janeiro entre 23/04 e 01/05.

Faça parte desse movimento!

APOIE A I SEMANA BRASILEIRA DE MONTANHISMO

Esse apoio permite a realização de TODOS os eventos da SBM, inclusive os gratuitos, como o Cine na Praça e a ATM. Sem esse apoio financeiro, a SBM terá que ser redimensionada e eventos terão que ser cortados.

Mesmo que você não participe das discussões e debates do congresso e cursos, colabore financeiramente para que esses aconteçam e garantam que o acesso às áreas de escalada e montanhismo permaneçam abertos. Você pode também fazer uma doação."

Dentro desta semana comemorativa, que tem como marco os 100 anos da conquista do pico Dedo de Deus em 1912, marco do montanhismo brasileiro, serão realizados os seguintes eventos:

  • 2º Congresso Brasileiro de Montanhismo e Escalada
  • 2º Encontro de Parques de Montanha do Brasil
  • Campeonato Brasileiro de Escalada Esportiva de Competição
  • Cursos e workshops de segurança em escalada
  • Cine Montanha na Praça
  • 25ª Abertura de Temporada em Montanhismo - ATM
  • Exposição "História do Montanhismo no Brasil"
  • I Encontro Científico sobre uso e conservação de montanhas
  • Curso de Acesso e Conservação em Áreas de Montanhismo
  • Palestras de Atletas

Vejam abaixo a agenda de programações e acesse o site http://www.semanademontanhismo.com.br/ para saber mais informações e como participar.


Para quem quer saber mais, o Dedo de Deus é um pico com 1 692 metros de altitude e cujo contorno se assemelha a uma mão apontando o dedo indicador para o céu. É um dos vários monumentos geológicos da Serra dos Órgãos, que fica localizada na Serra do Mar, entre as cidades de Petrópolis, Guapimirim e Teresópolis, no estado do Rio de Janeiro, no Brasil.

O pico encontra-se nos limites do Parque Nacional da Serra dos Órgãos, na área territorial de Guapimirim, sendo porém melhor avistado em Teresópolis, e com perfeição a partir do Mirante do Soberbo, localizado na BR-116, na entrada do município.

O montanhismo no Brasil está intimamente ligado à conquista do Dedo de Deus por José Teixeira Guimarães e pelos irmãos Américo de Oliveira (Acácio, Alexandre e Raul Carneiro) em 9 de abril de 1912. (Fonte: Wikipedia)

Dedo de Deus, Rio de Janeiro, 1930. Fonte: Web

domingo, abril 15, 2012

Argentina: V Vallecitos Ice Climbing Festival


Já está sendo divulgado o V Ice Climbing Festival, o concurso de escalada em cascatas congeladas organizado pelo guia de montanha Humberto Câmara Jr., brasileiro e gaúcho há vários anos estabelecido em Mendoza, Argentina.

A competição conta com participantes de várias partes do mundo e se dá em cascatas artificiais de gelo construídas no centro de ski e montanhismo de Vallecitos, na Cordilheira dos Andres, a aproximadamente 80 Km da cidade de Mendoza.

Mais informações em http://www.ventonegro.com.ar/

segunda-feira, abril 04, 2011

Montanhismo: Kika Bradford divulga nova manifestação sobre o acidente no Fitz Roy

Bernardo Collares e Kika Bradford. Fonte: ClicRBS

Em função os últimos acontecimentos no caso do acidente fatal havido em El Chaltén em janeiro deste ano, Kika Bradford, parceira do montanhista brasileiro Bernardo Collares na escalada ao Cerro Fitz Roy divulgou manifestação pública na sua página no Facebook expondo com detalhes a sua versão do aconteceu na montanha.

Confira o texto integral do seu depoimento divulgado no último dia 03/04/2010:


"AOS MEUS AMIGOS E PESSOAS DE BOA FÉ.


Ainda sob abalo emocional do acidente com o Bernardo, tenho acompanhado as dores da família Collares através do facebook e a sua luta por explicações e possibilidades de resgate do corpo que possam trazer alguma paz e conforto, dentro do possível, para todos.


Tenho também acompanhado as manifestações feitas no facebook do Bernardo por diversas pessoas alheias à família. Vejo com pesar, que, principalmente a partir do "7º Capítulo - PRIMEIROS MOVIMENTOS E A “OPERAÇÃO ABAFA” -Versão da família", postado no dia 21/03, tem havido um elevado número de mensagens, de algumas poucas pessoas, com afirmações que denotam desequilíbrio emocional e irracionalidade que agridem e ofendem gravemente, me atingindo naquilo que mais prezo como pessoa, a minha honra e os meus valores morais.


Momentos de alto estresse muitas vezes levam a atitudes impensadas, mas aqueles calcados em base sólida de caráter sabem respeitar limites e evitar deduções levianas e falsas que possam comprometer os valores morais e honra alheios.


Pela gravidade das opiniões emitidas, que mais parecem fruto de movimento articulado para me desestabilizar em prol da defesa da tese de que houve omissão de resgate, a qual não compartilho, achei necessário fazer uso do meu facebook para os esclarecimentos necessários e evitar a que ‘uma mentira contada muitas vezes se torne uma realidade’


Sobre a dúvida levantada a respeito da veracidade do meu relato, opto por ignorá-la pela insignificância das pessoas que levantam essa premissa e por se tratar de uma questão de credibilidade pessoal, a qual jamais foi questionada por alguém de boa fé, que realmente conhece a situação ou me conhece.


Aos questionamentos, acusações e/ou alegações de falta de solidariedade por abandono do Bernardo (sim, abandono, pois não encontro outra palavra para descrever suposições de que o Bernardo teve simplesmente um dedo da mão quebrado), de que eu relatei não ter examinado o Bernardo, falta de empenho em prol do resgate e contra o parecer da Comissão de Auxilio em El Chalten, falta de atenção à família Collares no devido tempo e falta de desmentido de diagnóstico publicado em algumas mídias, entre outras falsas premissas, eu respondo com os esclarecimentos e detalhamento abaixo.


Em nenhum momento, em nenhuma colocação minha, relatei APENAS um dedo quebrado. Em todos os relatos, chamei MUITA atenção para o fato principal: a dor incapacitante que o Berna sentia na região do quadril / coluna lombar, cóccix.


Em nenhum momento afirmei não ter realizado uma avaliação do estado do Bernardo. Durante as 4 horas que estive com ele, pude averiguar diversos sinais e sintomas, e todos foram relatados para a Dra. Carolina, família e, posteriormente, aos montanhistas no CEB.


O que relatei foi não ter concluído um exame físico minucioso no Bernardo por diversos motivos:


Num acidente com possibilidade de lesão na coluna vertebral, não se deve mover muito a pessoa. O trauma que Bernardo sofreu indicava uma grande possibilidade de lesão na espinha, ainda mais com a presença de fortes dores na região do quadril, lombar e cóccix.


Qualquer movimento mínimo do quadril para baixo, mesmo um toque quase imperceptível na região do quadril, causava uma dor absurda em Bernardo. Qualquer movimento acima do quadril era também sentido com muita dor, embora não tão grande quanto a inferior.


A temperatura baixa e condições climáticas adversas dificultava a movimentação, uma vez que qualquer peça de roupa removida para que eu chegasse a nível da pele deveria ser colocada de volta no mesmo lugar para prevenir a perda de calor.


Evidência de que a região da bacia e lombar também havia sido afetada com gravidade devido à sua dor e incapacidade de mover-se, e que provavelmente outras partes poderiam ter sido afetadas. Imaginei que qualquer que fosse o resultado de uma avaliação completa naquela situação não alteraria a condição paralisante do Berna e a gravidade da situação.


Partiu do próprio Bernardo a verbalização do que foi a melhor e única opção de ajuda para ele: que eu descesse sozinha para buscar ajuda e que necessitava que isso ocorresse naquele dia, com um helicóptero. Interpretei essa sua manifestação como uma confirmação da precariedade do seu estado físico e da urgência na adoção da única alternativa que representasse qualquer fio de esperança: a minha descida solo em busca de resgate.


O que segue também foi relatado para a Dra. Carolina, família e, posteriormente, mídia e montanhistas no CEB (aqui me restrinjo a descrever os sinais e sintomas que observei em Bernado, sem detalhar o acidente em si ou procedimentos técnicos):


Bernardo perdeu a consciência quando seu corpo bateu contra a pedra. Ficou desacordado por 1 a 2 minutos (tempo aproximado), completamente pendurado na corda.


Ao voltar a si, Bernardo se encontrou extremamente desorientado por mais de 40 minutos (tempo aproximado), a ponto de não saber onde se encontrava. Sabia seu nome e sabia quem eu era, e em um momento me disse que não tinha ideia da onde estava, e quando perguntei, me disse que não sabia nem que estava no Fitz Roy. Nesse período, fez diversas perguntas repetitivas: o que aconteceu? e me repetia a mesma coisa: acho que quebrei meu dedo.


Para realização de um procedimento técnico, enquanto ainda pendurado na corda, Bernardo conseguiu, com muito sacrifício e dor intensa, colocar seu peso em uma das pernas com o suporte da corda (que sustentava parte de seu peso).


Bernardo tinha muita dificuldade de olhar para baixo mexendo apenas o pescoço.


Quando eu consegui transferi-lo para o platô, Bernardo conseguiu se arrastar com os braços mais ou menos 0,40 cm. Não conseguiu ficar em pé, nem sentado, deitando-se imediatamente.


Bernardo deitou no chão e quando eu levei o isolante térmico dele, ele levantou o tronco, com muita dor, e eu coloquei o isolante embaixo dele. Imediatamente depois, Bernardo me diz: daqui eu não saio.


A partir desse momento, Bernardo não se moveu mais sozinho. Qualquer movimentação na região das pernas, eu deveria fazer para ele. Toda movimentação causava uma dor monumental, traduzidas em gritos e palavrões. Cabe ressaltar que estou falando de movimentos de menos de 10 cm, apenas para ajeitar o pé para um lado ou outro; ou colocar a mochila abaixo de seus pés para deixá-lo mais confortável e isolado do chão. (OBS - A mochila ficou nesse lugar: embaixo de suas pernas, sem estar totalmente fechada. Dentro dela, havia apenas algum lixo, e acho que um par de meias e não levamos papel e lápis. Ela estava praticamente vazia, uma vez que todo equipamento de bivaque – dormir – e escalada estavam sendo usados e Bernardo usava toda sua roupa).


Bernardo, nesse momento, conseguiu tomar água sozinho, segurando a própria garrafa e mexendo os braços. Não conseguiu comer.


Bernardo tremia incontrolavelmente nesse primeiro momento em que o deixei deitado.


Mais ou menos uma hora e meia depois disso….


10. Bernardo sabia onde estava e o que havia acontecido. Perguntou se eu havia conseguido buscar a corda, demonstrando mais lucidez.


11. Bernardo seguia incapacitado de mover suas pernas, nem que fossem centímetros. A dor estava mais forte. Pediu que mudasse a posição do seu pé (centímetros), o que ocasionou uma dor muito intensa.


12. Ao ajeitar algo a seu lado, encostei levemente, sem querer, na região da sua bacia, o que provocou uma dor excruciante


13. Bernardo me disse que não conseguia pegar a água que estava ao alcance de sua mão, ao lado de sua cabeça e que era para eu deixá-la dentro de seu saco de dormir.


14. Movi minimamente sua cabeça para colocar uma balaclava e nenhum ferimento me chamou a atenção nessa região. Esse movimento causou desconforto, mas não dor. Coloquei suas sapatilhas debaixo de sua cabeça para maior conforto (Bernardo estava calçado com as botas).


15. A dor não deixou que eu colocasse um segundo isolante térmico embaixo de Bernardo completamente. Coloquei-o o máximo que consegui embaixo de parte de seu tronco.


16. Bernardo me disse que não podia se mexer e que dali só sairia de helicóptero. Para quem não conhecia o Bernardo, isso pode significar quase nada. Quem o conhecia sabe da imensa força física, mental e espiritual que ele tinha. Bernardo não iria dizer isso se não fosse algo grave.


Levantar a suposição de que um dedo quebrado tenha sido o causador da trágica conseqüência é menosprezar esses atributos acima descritos.


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O acidente ocorreu dia 03/01 pela manhã, cerca de 9:30/10hs e comecei minha descida às 14hs. No mesmo dia 03, contrariando a previsão do tempo, o Fitz Roy ficou o dia inteiro por baixo das nuvens e começou a nevar no final do dia. No dia 04, o tempo piorou: nevou e ventou o dia inteiro. Dentro dessa conjuntura, Juan avisou a comissão de auxílio que ia subir para as montanhas com Luis e averiguar o que havia ocorrido, já movimentando um resgate. Ao avistarem uma pessoa vindo no glaciar, passaram um rádio para Chalten para avisar que havia apenas uma pessoa (ainda não sabiam quem era). Assim que conseguiram avisar a Chalten, desceram e me encontraram por volta das 5:30 da tarde.


Imediatamente após o meu resgate e obtenção de informações básicas, Luís passou um rádio para Chalten. Quando chegamos a Piedra del Fraile, um abrigo de montanha (mais ou menos 4 horas de caminhada do local onde eles me encontraram), nos encontramos com Marcela, da Comissão de Auxílio / Resgate de Chalten. Ela estava ali para falar diretamente comigo, sem intermediários, e obter as informações necessárias para o possível resgate do Bernardo. Eram, mais ou menos, 10 da noite.


Minha exaustão física e mental não me deixou continuar até Chalten nesse dia. Dormi em Piedra Del Fraile, onde não tem telefone, televisão, internet, etc, e que se encontra a 2 horas de caminhada da estrada + 40 minutos em carro de Chalten. Cheguei em Chalten às 11 da manhã do dia 05/01 e fui direto conversar com a Dra. Carolina. Foi quando recebi a informação de que o resgate era impossível.


A Comissão de Auxílio, coordenada pela Dra. Carolina, havia chegado a essa dolorosa conclusão por diversos fatores (conforme me foi informado por ela e por pessoas que participaram do processo de decisão), entre os quais: os sinais e sintomas de Bernardo, a localização do local na montanha (400 metros do cume e 1500 metros da base), as características da via Afanassief (muitas horizontais, muitas pedras soltas), a impossibilidade de, na melhor das hipóteses, uma equipe de resgatistas chegar ao local em que o Bernardo se encontrava antes da tarde do dia 06 ou manhã do dia 07, ou seja, 4 dias depois do ocorrido, a previsão de piora no clima para o dia 07/01, fatores esses que colocariam toda a equipe de resgate em alto perigo de vida. Sobre a alternativa de resgate aéreo, não havia disponibilidade de um helicóptero com equipamento específico, nem a presença de piloto e equipe experiente em resgate em paredes da proporção do Fitz Roy e com experiência em voos na Patagônia, com seus ventos...


Meu mundo desabou... foram dois dias lutando para buscar o resgate e esse não seria possível. Foi a notícia mais difícil que recebi na minha vida.


Dali, fomos falar com outros escaladores, entre eles o Sérgio Tartari, que me explicaram ainda mais o processo de decisão e o porque daquela decisão. Nessa hora, Sérgio me disse que, como ninguém tinha o telefone de nenhum parente do Bernardo, havia ligado para Cris Jorge para que ela avisasse a família e que a família assim já havia sido comunicada naquele mesmo dia 5, pela manhã, antes da minha chegada à Chalten.


No dia 06/01, apesar dos 10 dedos da mão em estado de congelamento, enviei um email para Leandro e Kátia (irmãos do Bernardo) explicando da minha dificuldade de digitar, passei meu telefone em El Chalten e me pus à disposição da família. Ambos me responderam que não haviam ligado por saber que eu estava “traumatizada de corpo e mente” (email da Katia). Leandro me agradeceu por fazer o que Bernardo me havia pedido e Katia me disse para ficar tranquila que havia um movimento para gerenciar o conteúdo na mídia. Nesse mesmo dia, falei com o André Ilha e relatei o acontecido, seguindo a linha acima descrita.


No dia 07/01, Érica (irmã do Bernardo) e Sblen (que foi a Chalten a pedido da família do Bernardo) chegaram a Chalten. Hugo, filho de Erica e sobrinho do Berna, chegou mais tarde. Durante toda a estadia dos Collares em Chalten, prestei assistência e apoio, junto com Juan, Mita, Sblen e Xande (meu irmão), não medindo esforços para ajudá-los no que necessitavam: encontros, reservas, comidas, hospedagem, etc.


Durante esse tempo em Chalten não me senti em condições emocionais de dar declarações e/ou entrevistas à mídia. Em nenhum momento, porem, essa minha atitude foi para com a família Collares. Pelo contrário, eles sempre tiveram todos meus contatos desde o primeiro momento: telefone, email e facebook.


Cheguei ao Rio de Janeiro, no dia 13/01, à 1:30AM, já com reunião agendada com toda a família do Bernardo, para aquele mesmo dia, na hora e local que eles escolheram. Durante 04 horas forneci todas as informações e me coloquei á disposição para novos esclarecimentos (por email, telefone ou novo encontro), inclusive para aqueles que não puderam estar presentes.


No dia 16/01, saiu uma entrevista no O Globo, com detalhes sobre o acidente e também uma matéria curta no Estadão. Ainda, num pedido da Go Outside, fiz um relato da minha experiência, em como eu vivi tudo (edição de março). Não tive o objetivo de descrever com detalhes o acidente, seguindo a linha editorial que me havia sido requisitada.


Fiz questão de falar também com os montanhistas sem restringir “aos amigos”. Marquei uma “palestra” no Clube Excursionista Brasileiro (CEB), no dia 18/01, que foi divulgada nas listas dos clubes de montanhismo, na lista da FEMERJ e para a família. Aqueles que participaram puderam ter uma visão mais realista do acontecido, uma vez que não se restringiram a informações oriundas de redes de noticias. Imagino que foram mais de 200 pessoas espremidas para escutar meu relato. Berna era querido.


Entre o dia do relato para a família e hoje, a família Collares me contatou 3 vezes, fora o nosso encontro no dia da homenagem ao Bernardo, na Urca. A primeira através de telefonema do Hugo, quando ofereci todas explicações que podia. A segunda foi pela Erica, via email do facebook, solicitando um encontro com urgência, que, a pedido, concordei em ser no dia 09/02, Quarta-feira de cinzas, mesmo em sacrifício do feriado e de compromisso já assumido, mas que foi por ela desmarcado em cima da hora sem justificativa plausível.


Posteriormente, nos dia 12 e 13/03, troquei emails com o Rodrigo a respeito de informações por ele solicitadas sobre a foto do platô onde Bernardo deveria estar e que foram prontamente respondidas.


Não me preocupei em desmentir qualquer publicação de diagnóstico de fratura de bacia, hemorragia interna, etc, a qualquer tempo, por achar que tal afirmativa em nada alteraria o relato da gravidade da ocorrência, inclusive a total incapacidade de locomoção do Bernardo, e que em nada contribuiria para amenizar a dor da família Collares e de todos os amigos.


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Reitero que minha indignação diz respeito a alguns poucos que tem sido responsáveis por muitas mensagens agressivas e ofensivas postadas no facebook do Bernardo. Foi confortante receber da família Collares mensagens no meu email pessoal contendo manifestações como:


“Estamos revoltados com a forma como tudo foi conduzido, mas você participou apenas da parte em que não se poderia fazer mais nada. Você fez o que estava ao seu alcance e nós temos plena consciência disto”.


“O que eu posso afirmar para você é que não existe nenhuma divergência com relação a você na família. Alias é um dos poucos pontos onde existe consenso. Você fez o que tinha que ser feito.”


Finalmente, não pretendo me pronunciar mais de forma aberta para responder a questionamentos injustos, incabíveis e/ou ofensivos, permanecendo à disposição da família Collares para ajudar, sempre que possível.


Kika Bradford"
No dia 04 de fevereiro a ESPN transmitiu um belo programa em homenagem ao Berna. Veja a íntegra no blog do Eliseu Frechou AQUI.


CONFIRA A COBERTURA COMPLETA FEITA PELO TERRA AUSTRALIS:

- 05/01/2011 - Argentina: Montanhismo brasileiro perde Bernardo Collares no Fitz Roy

- 06/01/2011 - Argentina/Montanhismo: Bernardo Collares, onde está o resgate? Falecimento do montanhista ainda não foi confirmado

- 07/01/2011 - Argentina/Montanhismo: Comunicado da FEMERJ sobre o acidente no Fitz Roy

- 07/01/2011- Argentina/Montanhismo: Condições de risco não permitem resgate no Fitz Roy

- 08/01/2011 - Argentina/Montanhismo: Resgate aguarda melhora do clima para busca de Bernardo

- 09/01/2011 - Argentina/Montanhismo: Autoridades poderão deixar andinista brasileiro na montanha

- 10/01/2011 - Argentina/Montanhismo: Fim da polêmica, família decide e Bernardo ficará no Fitz Roy

- 11/01/2011 - Montanhismo: Escaladores convocam homenagem a Bernardo Collares no próximo dia 15 no Rio de Janeiro

- 14/01/2011 - Montanhismo: Acidente no Fitz Roy. Um ponto final

- 16/01/2011 - Montanhismo: Escalada coletiva cobre a Urca em homenagem a Bernardo Collares

- 22/01/2011 - Escaladora relata com detalhes acidente na Patagônia
 
- 30/03/2011 - Corpo de montanhista brasileiro desaparece do local do acidente no Fitz Roy

quarta-feira, março 30, 2011

Argentina/Montanhismo: Corpo de montanhista brasileiro desapareceu do local do acidente no Fitz Roy

Bernardo e o local onde foi deixado supostamente à morte no Fitz Roy.
Fonte: Eliseu Frechou/ESPN/Estadão

O corpo do montanhista brasileiro Bernardo Collares desapareceu do lugar onde supostamente teria falecido no Monte Fitz Roy, na Argentina, conforme noticiou nesta madrugada o escalador Eliseu Frechou, a partir de uma carta da mãe de Berna - Heliane Collares, postada no Facebook.

Será que de fato ele estava à beira da morte quando autoridades e resgatistas argentinos qualificaram como inútil a sua busca?

Bernardo teria tentado salvar-se sozinho depois de inutilmente esperar pelo socorro?

Mantenho este blog desde 1997 e em 4 anos a minha postagem mais acessada até hoje foi justamente aquela de 06/01/2011 na qual questionei - como tantos outros - a ausência de sequer uma tentativa de resgate de Collares em seguida ao seu acidente.

Argentina/Montanhismo: Bernardo Collares, onde está o resgate? Falecimento do montanhista ainda não foi confirmado.

A mesma indação já havia feito no mesmíssimo dia em que a notícia circulou dentre os montanhistas ao inserir o primeiro post sobre o acidente aqui no Terra Australis, lembrando de casos referenciais de auto-resgate em situações extremas como Beck Weathers no Everest e Joe Simpson nos Andes, desejando que o mesmo pudesse acontecer ao escalador brasileiro.

Argentina: Montanhismo brasileiro perde Bernardo Collares no Fitz Roy

A manifestação da família de Bernardo diz tudo e nos faz imaginar um final ainda mais dramático para esta triste história. Agora é aguardar a reabertura do processo de investigação que está sendo solicitado aos meios diplomáticos do Itamaraty.

Confiram abaixo o a carta de Heliane Collares noticiada por Eliseu Frechou no Estadão Online/ESPN (confira a matéria AQUI):
"Após todo o sofrimento pelas tentativas frustradas de salvar o Bernardo, após tantos "nãos" para nossos apelos pelo resgate, recebemos a notícia de que o corpo do MEU FILHO não se encontra no local onde sua parceira o deixou VIVO, em 03/1/11.

Fotos tiradas em fevereiro constataram que, no local, só permanecem algumas barras de cereal, uma corda (identificada pela Kika como sendo a da ancoragem de Bernardo), o cantil, um bujão de gás para fogareiro, um stopper,uma piqueta e um par de sapatilhas de escalada.

Inexplicável!

Várias indagações podem ser feitas a partir desse fato.

Será que o estado de saúde de Bernardo não era tão ruim quanto as previsões pessimistas que o condenaram, e ele arrumou a mochila, abandonando alguns itens, tentando salvar-se, ante a demora do resgate, tendo queda fatal em outro lugar? Quanto tempo ele esperou? O que sofreu?

Será que saqueadores estiveram lá (onde nos diziam que ninguém conseguiria ir para ajudá-lo), levando o que tinha valor e empurrando o corpo no precipício?

Como, após tantos dias, barras de cereal permaneceram num lugar em que nos falaram de terríveis ventos que inviabilizavam vôos de helicópteros?

Como nos propusemos a falar somente do que podemos provar aqui nos limitamos a lançar as interrogações, que permanecem como facas nos nossos corações.

As fotos foram encaminhadas ao Itamaraty, com requerimento no sentido de que se reabra processo judicial que tramitou na Argentina, com novas investigações e resgate do corpo. Na carta, informamos, ainda, que, pelas informações preliminares recebidas dos montanhistas locais, o corpo deve se encontrar no glaciar, a 1000 metros abaixo, próximo à "grande canaleta", em local que pode ser atingido inclusive sem escalada e onde foram resgatadas duas pessoas no ano passado.

E agora, aqueles que nos falaram com tanta certeza de que Bernardo morrera nas primeiras horas do acidente, de hipotermia, teriam as respostas de que nós precisamos para dormir em paz?

E eles, será que têm a consciência livre da culpa por seu amadorismo ter concorrido para a morte de uma pessoa?

Heliane Damiano Collares (mãe do Bernardo)"

CONFIRA A COBERTURA COMPLETA FEITA PELO TERRA AUSTRALIS:
- 05/01/2011 - Argentina: Montanhismo brasileiro perde Bernardo Collares no Fitz Roy
- 06/01/2011 - Argentina/Montanhismo: Bernardo Collares, onde está o resgate? Falecimento do montanhista ainda não foi confirmado
- 07/01/2011 - Argentina/Montanhismo: Comunicado da FEMERJ sobre o acidente no Fitz Roy
- 07/01/2011- Argentina/Montanhismo: Condições de risco não permitem resgate no Fitz Roy
- 08/01/2011 - Argentina/Montanhismo: Resgate aguarda melhora do clima para busca de Bernardo
- 09/01/2011 - Argentina/Montanhismo: Autoridades poderão deixar andinista brasileiro na montanha
- 10/01/2011 - Argentina/Montanhismo: Fim da polêmica, família decide e Bernardo ficará no Fitz Roy
- 11/01/2011 - Montanhismo: Escaladores convocam homenagem a Bernardo Collares no próximo dia 15 no Rio de Janeiro
- 14/01/2011 - Montanhismo: Acidente no Fitz Roy. Um ponto final
- 16/01/2011 - Montanhismo: Escalada coletiva cobre a Urca em homenagem a Bernardo Collares
- 22/01/2011 - Escaladora relata com detalhes acidente na Patagônia

sábado, janeiro 22, 2011

Montanhismo: Escaladora relata com detalhes acidente na Patagônia

Renata "Kika" Bradford. Fonte: O Globo

Dando seguimento à serie de postagens que fiz aqui no blog com informações e opinião sobre o acidente fatal havido no início deste mês com Bernardo Collares em El Chaltén, Argentina, pela primeira vez desde o ocorrido a sua parceira de escalada, Renata Bradford, veio à público para dar uma versão mais detalhada dos fatos.

Do depoimento feito à imprensa e de todas as notícias já divulgadas, para mim ainda fica em aberto somente um ponto: - Por que os escaladores não estavam utilizando rádio ou qualquer outra espécie de comunicador para informar o acidente tão logo fosse possível?

Se o resgate poderia ou não chegar a Bernardo não é algo que pudesse ou devesse ser previsto ou avaliado no momento do acidente. O certo é que comunicadores e/ou sinalizadores de socorro são equipamentos de segurança imprescindíveis em uma escalada com o nível de dificuldade extrema como a do Cerro Fitz Roy.

Segue abaixo o relato integral feito para o Jornal O Globo, do Rio de Janeiro, onde Kika descreve o que aconteceu na escalada.


"RIO - A escaladora carioca Kika Bradfford relata o momento da despedida de Bernardo Collares no Monte Fitz Roy, na Patagônia argentina com emoção. Ao quebrar a bacia no Monte Fitz Roy, ele não pôde prosseguir a escalada no último dia 3 de janeiro. Collares, já sabendo que sua situação era bem crítica, mostrou-se muito preocupado com a amiga, que teve que descer sozinha uma montanha que mesmo os escaladores mais experientes preferem enfrentar com um parceiro ou uma equipe. Kika desceu com a esperança de conseguir um resgate a tempo para salvá-lo. Não foi possível. A família de Collares já o considera morto.

Durante esta entrevista, Kika detalha os últimos momentos que passou com o companheiro de escalada e a grandeza dele ao dizer adeus à amiga.

Como foi a última conversa com Bernardo?

KIKA BRADFFORD: No nosso último diálogo, ele me disse: "Kika, daqui eu só saio de helicóptero e você precisa descer sozinha e buscar ajuda. E se o helicóptero não vier hoje"... Ele não completou a frase. E eu respondi: "Berna não fala isso, porque hoje não vou conseguir chegar à base, vou tentar chegar amanhã". Com dores intensas, ele teve a grandeza de dizer: "Kika, você não teve culpa e, se alguém perguntar qualquer coisa, todas as decisões a gente tomou junto". Preparei as ultimas coisas, deixei mais água, botei mais roupas nele, a balaclava, lhe dei remédio e disse: "Estou indo".

Ele falou alguma coisa?

KIKA: Sim, me recomendou calma. "Vai com muita calma". Beijei a testa dele, disse "eu te amo" e desci. Saí de perto do Berna no dia 3 de janeiro, às 14h.

Conseguiu manter a calma?

KIKA: No início da descida, a sensação era de que eu não era eu, que era só um corpo e que esse corpo estava somente focado nos procedimentos. Eu tinha de descer o mais rápido possível para acionar o resgate. A única chance de o Berna sobreviver era eu chegar à base da montanha.

Como foi o início da escalada de vocês no Monte Fitz Roy?

KIKA: Começamos no dia 1º de janeiro. Às 14h30m, demos início à escalada. Nosso objetivo do dia era escalar cerca de 600 metros. Se conseguíssemos 300 metro, já estaríamos satisfeitos. O ritmo da escalada estava bom e, surpreendentemente, chegamos aos 300 metros, às 17h30m. E, como lá só escurece às 22h30m, seguimos para o nosso objetivo, chegando a 600 metros, às 21h. Estávamos ligados nas coisas técnicas, mas ficamos deslumbrados com a beleza do por do sol no Gelo Continental, que é a maior massa de gelo da face da terra, fora dos polos. Vimos montanhas lindas.

Como foi o acidente?

KIKA: No dia 2, começamos a escalar às 7h30m. O objetivo era subir uns mil metros no segundo dia de escalada, o que conseguimos às 22h. Foi quando começamos a questionar se iríamos continuar rumo ao cume.

Por quê?

KIKA: De madrugada, começou a nevar. A previsão era de 0,5 milímetros de precipitação à noite, mas o dia transcorreria sem precipitação alguma. Mas acordamos com uma realidade diferente: vento forte e, o pior, muita névoa. Resolvemos descer e abortar a missão.

O que ocorreu?

KIKA: A melhor opção para descer era subir mais cem metros e descer por uma outra via. Subimos 30 metros e não conseguimos visualizar mais por onde iríamos subir. Descemos pela via por onde havíamos subido. Fizemos quatro rapéis. Completei o quinto rapel e quando Berna fazia o mesmo, deu um grito. O meu reflexo foi agarrar a corda, que, por sorte, havia se prendido a uma pedra acima, o que impediu que ele caísse. Berna, porém, teve uma queda de cerca de 20 metros. Uma ancoragem dele havia se desprendido e, por isso, ele caiu. Comecei a criar ancoragens mais fortes para segurar bem a corda do Berna, quando ele despertou de um desmaio de dois minutos.

O que ele disse?

KIKA: Perguntou o que havia acontecido. Expliquei que a ancoragem dele havia saído. Ele começou a reclamar de fortes dores e inúmeras vezes perguntou o que tinha ocorrido e a afirmar que tinha quebrado o dedo da mão esquerda. Em seguida, afirmou: "Kika não estou entendo nada, não sei nem onde estou". Isso foi um choque para mim. Eu falei que a gente estava no Fitz. Apesar da dificuldade de concentração e da dor extrema, ele seguiu as instruções. Eu tirei a mochila dele e o levei ao platô. Botei um isolante térmico para proteger seu corpo da pedra e o saco de dormir. O nível da dor dele era imenso. Ele reclamava muito da dor no quadril, no cóccix e na coluna lombar. Mas eu assegurei o maior conforto possível e precisei buscar a corda que havia caído. Por sorte, ela estava num platô a 60 metros. Demorei uma hora. Quando voltei, Berna estava lúcido, mas sua dor aumentou. Ele perguntou se eu havia recuperado a corda. Já percebia tudo à sua volta.

Como você desceu?

KIKA: No dia 3 de janeiro, após me despedir de Berna, fiz rapéis das 14h às 22h40m. Jamais faria uma escalada dessas sozinha. Encontrei o mesmo platô, no qual a gente havia passado a primeira noite na montanha. Pela dificuldade de visualizar o caminho e a alta probabilidade de me perder, esperei o amanhecer no platô. O vento estava forte e havia começado a nevar. Eu tremia e pensava muito no Berna. Às 5h45m, reiniciei a descida.

E como foi?

KIKA: O vento continuava forte, mas a visibilidade tinha melhorado, embora estivesse nevando. Eu deveria estar a 400 metros da base. Continuei descendo e cheguei ao local a 300 metros da base. O cansaço físico e mental era grande, e os rapéis cada vez mais desconfortáveis. Mas a minha motivação grande era chegar e tentar o resgate.

Você correu mais riscos?

KIKA: Num dos rapéis, a corda se prendeu a uma pedra. Para soltá-la, precisaria subir mais 40 metros, com grau de dificuldade alto. Resolvi cortar a corda. Continuei a descida com uma corda de 60 metros e a outra cortada, com 17 metros. Num próximo rapel, a corda ainda prendeu três vezes, eu tive que cortá-la, ficando com cada vez menos corda. Entre esses vários rapéis, mais um susto. Na pressa de sair de um lugar exposto ao vento e à neve, passei a corda por duas ancoragens. Uma delas falhou, mas a outra segurou. O incidente aumentou a minha tensão.

Quando chegou à base?

KIKA: Cheguei no dia 4, 24 horas depois de eu haver deixado o Bernardo. Duas horas e meia depois, encontrei o meu namorado, Juan Manuel Sanchez, que mora em Chalten, e um amigo dele, Luiz. Passei ao Luiz todas as informações para que as transmitisse por rádio à coordenação de resgate. Foi o primeiro momento em que eu me permiti chorar e perder um pouco do controle. Caminhamos por quatro horas até um abrigo, onde encontrei uma pessoa da comissão de resgate. 

Quando soube da impossibilidade do resgate?

KIKA: Na noite do dia 4, a comissão de resgate e escaladores voluntários se reuniram. No dia seguinte, cheguei a Chalten, às 11h, e falei com a chefe da comissão de resgate para saber o que estava sendo feito. Ela disse que os riscos eram muito altos por causa do clima e que, infelizmente, nada poderiam fazer."
Fonte: Jornal O Globo, 17/01/2011

CONFIRA A COBERTURA FEITA PELO TERRA AUSTRALIS:


- 05/01/2011 - Argentina: Montanhismo brasileiro perde Bernardo Collares no Fitz Roy
- 06/01/2011 - Argentina/Montanhismo: Bernardo Collares, onde está o resgate? Falecimento do montanhista ainda não foi confirmado.
- 07/01/2011 - Argentina/Montanhismo: Comunicado da FEMERJ sobre o acidente no Fitz Roy
- 07/01/2011- Argentina/Montanhismo: Condições de risco não permitem resgate no Fitz Roy
- 08/01/2011 - Argentina/Montanhismo: Resgate aguarda melhora do clima para busca de Bernardo
- 09/01/2011 - Argentina/Montanhismo: Autoridades poderão deixar andinista brasileiro na montanha
- 10/01/2011 - Argentina/Montanhismo: Fim da polêmica, família decide e Bernardo ficará no Fitz Roy
- 11/01/2011 - Montanhismo: Escaladores convocam homenagem a Bernardo Collares no próximo dia 15 no Rio de Janeiro
- 14/01/2011 - Montanhismo: Acidente no Fitz Roy. Um ponto final.
- 16/01/2011 - Montanhismo: Escalada coletiva cobre a Urca em homenagem a Bernardo Collares

quinta-feira, janeiro 20, 2011

Montanhismo: A Declaração do Tirol - Ética, segurança e boas práticas na escalada e atividades outdoor

Cerro Aconcágua. Acampamento Cambio de Pendiente. Foto: João Paulo Lucena
O recente acidente fatal com Bernardo Collares no Cerro Fitz Roy, Argentina, trouxe à baila a discussão sobre os riscos inerentes à escalada e o suposto "direito" do escalador a um resgate obrigatório.

Não é bem assim...

A prática do montanhismo, ao contrário do que muitos podem pensar, não se resume unicamente à escaladas em gelo e rocha mas também engloba todas as atividades ao ar livre a ele relacionadas e praticadas em ambiente de montanha, não necessariamente em grandes altitudes.

Aconcágua. Acampamento Confluencia. Foto: João Paulo Lucena
Como exemplo podem ser citados o camping, o trekking, o ski, o canionismo, o snowboard, o paraglider, basejump e inúmeras outras.

O que importa é que, de forma geral, as atividades ao ar livre, comumente chamadas de outdoor, podem se revestir de determinados riscos, em especial quando praticadas em áreas remotas e de difícil acesso. Nestes casos o praticante estará exposto a tais riscos por vontade própria e deverá estar ciente que, em caso de necessidade, o socorro poderá demorar a chegar, chegar tarde demais ou, ainda, sequer existir.

Eventualmente acidentes ocorrem e pelos mais variados motivos. Falha dos praticantes, do material, reviravoltas no clima e tantas outras...

Além das óbvias e indesejáveis consequências humanas de um acidente grave, no seu rastro chegam também os frutos da repercussão junto ao público e às autoridades. Alguns de caráter positivo como o incremento da conscientização e prevenção de riscos, outros negativos como a exacerbação do caráter paternalista das autoridades ao restringir ou mesmo proibir a prática de certas atividades e acesso a determinados locais de prática.

Em outras palavras, seria o mesmo que proibir a escalada nas montanhas onde uma vez houveram acidentes graves ou fatais... Imaginem isto no Aconcágua, em El Cápitan, no McKinley, no Everest ou, para referir algo em nossa casa, nas vias da cidade do Rio de Janeiro.


Yosemite National Park - EUA. Foto: João Paulo Lucena

Tal raciocínio tolhe de plano a intrínseca liberdade do homem de locomover-se em áreas naturais e de suprir a sua inexorável vontade de superar limites e explorar os mais recôndidos recantos do planeta.

Para tanto, cada qual tem seus motivos e até hoje ainda não apareceu explicação de todo racional para a prática de atividades reconhecidamente de risco como fonte de satisfação e prazer do ser humano...
 
No que se refere à escalada e atividades afins, em foi aprovada a Declaração do Tirol sobre a Melhor Prática em Esportes de Montanha (The Tyrol Declaration), resultado da Conferência sobre o Futuro dos Esportes de Montanha em Innsbruck, em 8 de setembro de 2002.

Cerro Pequeña Ilusión, Bolívia.
Foto: João Paulo Lucena
E é a primeira diretriz da Declaração justamente aquela que trata sobre a responsabilidade pessoal e reconhecimento de riscos pelo praticante do montanhismo:

"Artigo 1 - Responsabilidade Individual - Montanhistas e escaladores praticam seus esportes em situações nas quais há risco de acidentes e em que a ajuda externa pode não estar disponível. Com isso em mente, eles se dedicam a essas atividades sob sua própria responsabilidade, sendo de sua conta sua própria segurança. As ações de um indivíduo não devem expor a perigo nem o próximo, nem o meio ambiente."

Ao que complementa o seu Artigo 6 - Emergências, Morbidez e Morte:
 
"Para estarem preparados para emergências e situações envolvendo acidentes sérios e morte, todos os praticantes de esportes de montanha devem entender claramente os riscos e perigos e a necessidade de se ter habilidades, conhecimentos e equipamentos adequados. Todos os praticantes precisam estar prontos para ajudar os outros no caso de uma emergência ou acidente, e também estar preparados para encarar as conseqüências de uma tragédia."

Embora não constitua uma norma de caráter cogente, de aplicação obrigatória, a Declaração do Tirol é composta por um conjunto de princíos e recomendações, servindo como baliza de orientação para o meio montanhista, representando o pensamento predominante no mundo de como deve ser o comportamento e o que se espera daquele que pratica o montanhismo ou qualquer uma das suas variações.

Recomendações sobre a prática responsável da atividade, mínimo impacto na natureza, reconhecimento de riscos, respeito às culturas locais, princípios éticos, acidentes e resgates são apenas alguns dos pontos abrangidos pela Declaração.

Vale conferir, divulgar e também aproveitar suas diretrizes quando da prática de qualquer espécie de atividade junto à natureza, envolvendo ou não riscos à vida e à saúde. Seguem as máximas da Declaração do Tirol de 2002:


* - * - * - * - *


DECLARAÇÃO DO TIROL SOBRE A MELHOR PRÁTICA EM ESPORTES DE MONTANHA (The Tyrol Declaration)

Conferência sobre o Futuro dos Esportes de Montanha - Innsbruck, Áustria - 08/09/2002


As Máximas e as Diretrizes da Declaração do Tirol:

Artigo 1 – Responsabilidade Individual

MÁXIMA

Montanhistas e escaladores praticam seus esportes em situações nas quais há risco de acidentes e em que a ajuda externa pode não estar disponível. Com isso em mente, eles se dedicam a essas atividades sob sua própria responsabilidade, sendo de sua conta sua própria segurança. As ações de um indivíduo não devem expor a perigo nem o próximo, nem o meio ambiente.

1. Nós escolhemos nossas metas de acordo com nossas reais habilidades ou com as da equipe e de acordo com as condições na montanha. Desistir da escalada deve ser uma opção válida.

2. Nós nos asseguramos de que temos o treinamento adequado para nosso objetivo, de que planejamos nossa escalada ou caminhada cuidadosamente, tendo providenciado as preparações necessárias.

3. Nós nos asseguramos de que estamos equipados apropriadamente em cada excursão e que sabemos como usar o equipamento.

Artigo 2 – Espírito de Equipe

MÁXIMA

Membros de uma equipe devem estar dispostos a fazer concessões para equilibrar os interesses e habilidades de todo o grupo.

1. Cada membro da equipe deve estimar seus companheiros de equipe e deve assumir responsabilidade pela segurança deles.

2. Nenhum membro de equipe deve ser deixado sozinho se isso colocar em risco seu bem-estar.

Artigo 3 – Comunidade de Escalada & Montanhismo

MÁXIMA

Nós devemos a todas as pessoas que encontramos nas montanhas ou nas rochas uma porção igual de respeito. Mesmo em condições isoladas e em situações estressantes, nós não devemos nos esquecer de tratar os outros da maneira como queremos que nos tratem.

1. Nós fazemos tudo o que podemos para não expor os outros a perigo e nós avisamos os outros sobre perigos em potencial.

2. Nós asseguramos que ninguém seja discriminado.

3. Como visitantes, nós respeitamos as regras locais.

4. Nós não atrapalhamos ou perturbamos os outros mais do que o necessário. Nós damos passagem a grupos mais velozes. Nós não ocupamos vias que outros estejam aguardando para fazer.

5. Nossos relatórios de escaladas refletem com veracidade os eventos reais em detalhe.

Artigo 4 – Visitando Países Estrangeiros

MÁXIMA

Como convidados em culturas estrangeiras, nós devemos sempre nos comportar de forma educada e com comedimento em relação aos nativos – nossos anfitriões. Nós vamos respeitar montanhas sagradas e outros lugares sagrados, ao mesmo tempo em que buscaremos beneficiar e ajudar a economia local e os nativos. Compreensão de culturas estrangeiras é parte de uma experiência completa de escalada.

1. Sempre trate as pessoas do país anfitrião com simpatia, tolerância e respeito.

2. Cumpra estritamente qualquer regulamento de escalada implementado pelo país anfitrião.

3. É aconselhável ler sobre a história, sociedade, estrutura política, arte e religião do país a ser visitado antes de embarcar na viagem para melhorar nosso entendimento sobre suas pessoas e seu ambiente. No caso de incerteza política, busque conselho oficial.

4. É sábio desenvolver algumas habilidades básicas na língua do país anfitrião: formas de saudação, por favor e obrigado, dias da semana, hora, números etc. É sempre impressionante ver como esse investimento tão pequeno melhora a qualidade da comunicação. Dessa forma, nós contribuímos para o entendimento entre as culturas.

5. Nunca deixe passar uma oportunidade de compartilhar suas habilidades de escalada com locais interessados. Expedições conjuntas com escaladores nativos são o melhor cenário para troca de experiências.

6. Nós evitamos a todo custo ofender os sentimentos religiosos de nossos anfitriões. Por exemplo, nós não devemos mostrar pele descoberta em lugares em que isso seja inaceitável por razões religiosas ou sociais. Se algumas expressões de outras religiões estão além de nossa compreensão, nós somos tolerantes e evitamos julgar.

7. Nós damos toda assistência possível a habitantes locais em necessidade. Um médico de expedição está sempre em posição de fazer uma diferença decisiva na vida de uma pessoa extremamente doente.

8. Para beneficiar economicamente as comunidades de montanha, nós compramos produtos regionais, se viável, e nos valemos dos serviços locais.

9. Nós somos encorajados a assistir comunidades de montanha iniciando e sustentando empreendimentos que favoreçam o desenvolvimento sustentável, como por exemplo os serviços de treinamento e educação ou iniciativas econômicas ecologicamente compatíveis.

Artigo 5 – Responsabilidades de Guias de Montanha e outros Líderes

MÁXIMA

Cada guia de montanha profissional, líder e membro de grupo deve entender seu respectivo papel e respeitar as liberdades e direitos de outros grupos e indivíduos. Para serem guias preparados, líderes e membros de grupos devem entender as demandas, os perigos e os riscos do objetivo, ter as habilidades necessárias, experiência e equipamento adequado, e checar o tempo e outras condições.

1. O guia ou líder informa o cliente ou o grupo sobre o risco inerente em uma escalada e sobre o nível real de perigo, e, se os participantes têm experiência suficiente, envolve-os no processo de tomada de decisão.

2. A via selecionada deve estar adequada à habilidade e à experiência do cliente ou do grupo de maneira a assegurar que a experiência seja agradável e enriquecedora.

3. Se necessário, o guia ou líder reconhece o limite de sua própria habilidade e, quando apropriado, indica colegas mais capazes para os clientes ou grupos. É responsabilidade dos muito grande e se o retorno ou opções alternativas devem ser seguidas.

4. Em circunstâncias como escaladas extremas e ascensões em alta montanha, guias e líderes devem informar com cuidado seus clientes e grupos para se certificarem de que todo mundo está totalmente alertado sobre os limites de suporte que guias e líderes podem prover.

5. Guias locais informam a colegas visitantes sobre as particularidades características de sua área e sobre as condições atuais.

Artigo 6 – Emergências, Morbidez e Morte

MÁXIMA

Para estarem preparados para emergências e situações envolvendo acidentes sérios e morte, todos os praticantes de esportes de montanha devem entender claramente os riscos e perigos e a necessidade de se ter habilidades, conhecimentos e equipamentos adequados. Todos os praticantes precisam estar prontos para ajudar os outros no caso de uma emergência ou acidente, e também estar preparados para encarar as conseqüências de uma tragédia.

1. O socorro a alguém em apuros tem absoluta prioridade sobre atingir objetivos que estipulamos para nós mesmos nas montanhas. Salvar uma vida ou reduzir o dano à saúde de uma pessoa ferida é muito mais valoroso do que a mais difícil de todas as conquistas.

2. Numa emergência, se ajuda externa não está disponível e nós estamos em posição de ajudar, devemos estar preparados para dar todo o suporte que podemos às pessoas em apuros, desde que seja viável sem nos expor ao perigo.

3. Deve ser proporcionado a quem esteja seriamente ferido ou moribundo todo conforto possível, bem como lhe deve ser oferecido suporte de preservação de vida.

4. Em uma área remota, se não for possível recuperar o corpo, deve ser registrada a localização da forma mais precisa possível, bem como quaisquer indicações da identidade do morto.

5. Objetos como câmera, diário, notebook, fotos, cartas e outros artefatos pessoais devem ser guardados e entregues aos familiares.

6. Sob nenhuma circunstância podem ser publicadas fotos do morto sem o consentimento prévio da família.

Artigo 7 – Acesso e Conservação

MÁXIMA

Nós acreditamos que a liberdade de acesso a montanhas e paredes de maneira responsável é um direito fundamental. Nós devemos sempre praticar nossas atividades de uma forma ambientalmente sensível e devemos ser proativos na preservação da natureza. Nós respeitamos restrições a acesso e regulamentos acordados entre escaladores e organizações de conservação de natureza e autoridades.

1. Nós respeitamos as medidas de preservação de ambientes de parede e montanha e da vida selvagem que eles sustentam, e nós encorajamos nossos companheiros escaladores a fazer o mesmo. Evitando fazer barulho, nós nos esforçamos na redução da perturbação da vida selvagem ao mínimo.

2. Se possível, nós nos locomovemos para nossos destinos usando transporte público ou outros transportes coletivos para minimizar o tráfico nas estradas.

3. Para evitar erosão e não perturbar a vida selvagem, nós permanecemos nas trilhas durante aproximações e descidas e, quando fora da trilha, escolhemos a rota menos agressiva ao ambiente.

4. Durante os períodos de acasalamento e nidificação de espécies que habitam as montanhas, nós respeitamos restrições sazonais de acesso. Logo que tomamos ciência de qualquer atividade de acasalamento, nós devemos passar adiante essa informação para outros escaladores e assegurar que eles fiquem fora da área de nidificação.

5. Durante conquistas, nós tomamos o cuidado de não ameaçar o biótopo de espécies raras de plantas e animais. Ao equipar ou reequipar vias, nós devemos tomar todas as precauções para minimizar seu impacto ambiental.

6. As conseqüências da popularização de áreas através de retrogrampeação devem ser cuidadosamente consideradas. O aumento de números pode causar problemas de acesso.

7. Nós minimizamos o dano à rocha por meio da utilização da técnica de proteção menos prejudicial.

8. Nós não apenas carregamos nosso próprio lixo de volta para a civilização, como também catamos qualquer detrito deixado por outros.

9. Na ausência de instalações sanitárias, nós mantemos uma distância adequada de casas, locais de acampamento, córregos, rios e lagos durante a defecação e tomamos todas as medidas necessárias para evitar dano ao ecossistema. Nós procuramos não agredir o senso estético das pessoas. Em áreas muito freqüentadas com um baixo nível de atividade biológica, os escaladores têm o encargo de carregar de volta suas fezes.

10. Nós mantemos o local de acampamento limpo, evitando gerar lixo tanto quanto possível ou dispondo dele adequadamente. Todos os materiais de escalada – cordas fixas, barracas e garrafas de oxigênio – devem ser removidos da montanha.

11. Nós mantemos o consumo de energia no mínimo. Especialmente em países com falta de lenha, nós evitamos ações que possam contribuir para a destruição das florestas. Em países com florestas ameaçadas, nós precisamos levar combustível suficiente para preparar comida para todos os participantes da expedição.

12. Turismo de helicóptero deve ser minimizado onde for prejudicial à natureza ou à cultura.

13. Em conflitos sobre matérias de acesso, proprietários de terra, autoridades e associações devem negociar soluções satisfatórias para todas as partes.

14. Nós temos papel ativo na implementação de regulamentos, especialmente dando publicidade a eles e implementando a infraestrutura necessária.

15. Ao lado de associações de montanhismo e outros grupos de conservação, nós somos proativos a nível político no que diz respeito à proteção de habitats naturais e do ambiente.

Artigo 8 – Estilo

MÁXIMA

A qualidade da experiência e a forma como resolvemos o problema é mais importante do que se o resolvemos. Nós nos esforçamos por não deixar rastros.

1. Nós almejamos preservar o caráter original de todas as escaladas, em especial aquelas com importância histórica. Isso significa que os escaladores não devem aumentar a quantidade de proteções fixas em vias existentes. A exceção é quando há um consenso local – incluindo a aprovação dos conquistadores – para mudar o nível de proteções fixas por meio da colocação de novas peças ou da remoção de proteções existentes.

2. Nós respeitamos a diversidade de tradições regionais e não tentaremos impor nosso ponto de vista a outras culturas de escalada – nem aceitaremos os valores de outros impostos sobre os nossos.

3. Rochas e montanhas são um recurso limitado para aventura que deve ser compartilhado por escaladores com os mais diversos interesses e por muitas gerações que virão. Nós entendemos que gerações futuras precisarão encontrar suas próprias NOVAS aventuras dentro desse limitado recurso. Nós tentamos desenvolver paredes ou montanhas de uma forma que não roube a oportunidade do futuro.

4. Em uma região em que grampos são aceitos, é desejável que sejam mantidas vias, seções de morros ou morros inteiros livres de grampos de maneira a preservar um refúgio para aventura e para mostrar respeito pelos diversos interesses de escalada.

5. Vias com proteções naturais podem ser tão divertidas e seguras para escaladores recreativos quanto vias grampeadas. A maior parte dos escaladores pode aprender a colocar proteção natural segura e todos devem ser educados para o fato de que isso proporciona aventura adicional e uma experiência rica e natural, com segurança comparável, uma vez aprendidas as técnicas.

6. Em caso de grupos com interesses conflitantes, os escaladores devem resolver suas diferenças através de diálogo e negociação para evitar que o acesso seja ameaçado.

7. Pressões comerciais nunca devem influenciar a ética de escalada de uma pessoa ou de uma região.

8. Bom estilo em alta montanha implica no não uso de corda fixas, drogas de aumento de performance ou oxigênio engarrafado.

Artigo 9 – Conquistas

MÁXIMA

A conquista de uma via ou de uma montanha é um ato de criação. Ela deve ser feita em bom estilo de acordo com as tradições da região e devem mostrar responsabilidade com a comunidade de escalada local e com as necessidades dos escaladores futuros.

1. Conquistas devem ser ambientalmente responsáveis e compatíveis com regulamentos locais, com as vontades dos proprietários dos terrenos e com os valores espirituais da população local.

2. Nós não vamos desfigurar a rocha por meio da quebra ou da adição de agarras.

3. Em regiões alpinas, as conquistas devem ser feitas exclusivamente guiando (sem peça pré-fixada acima).

4. Uma vez respeitadas as tradições locais, cabe ao conquistador determinar o nível de proteções fixas em suas vias (levando em consideração as sugestões do artigo 8).

5. Em áreas designadas como reservas selvagens ou naturais por administradores ou pelo comitê de acesso local, grampos devem ser limitados ao mínimo absoluto para preservação do acesso.

6. Cavar buracos e bater grampos durante a conquista de vias em artificial deve ser mantido em um mínimo (grampos devem ser evitados mesmo em ancoragens de paradas, a menos que sejam absolutamente necessários).

7. Vias de aventura devem ser deixadas tão naturais quanto possível, contando com proteção móvel sempre que viável e utilizando grampos apenas quando necessário e sempre sujeitando-se às tradições locais.

8. O caráter independente das vias adjacentes não deve ser comprometido.

9. No relatório de conquistas, é importante relatar os detalhes com a maior precisão possível. A honestidade e a integridade de um escalador serão presumidas a menos que haja evidência comprometedora.

10. Altas montanhas são um recurso limitado. Nós encorajamos os escladores a utilizarem o melhor estilo.

Artigo 10 – Patrocínio, Propaganda e Relações Públicas

MÁXIMA

A cooperação entre patrocinadores e atletas deve ser uma relação profissional que sirva aos melhores interesses dos esportes de montanha. É responsabilidade da comunidade de esportes de montanha, em todos os seus aspectos, educar e informar tanto a mídia como o público de uma maneira proativa.

1. Compreensão mútua entre o patrocinador e o atleta é necessária para a definição de objetivos em comum. As muitas facetas dos esportes de montanha requerem a identificação clara da especialização tanto do atleta quanto do patrocinador para maximizar as oportunidades.

2. Para manter e melhorar seus níveis de performance, escaladores são dependentes de um contínuo suporte de seus patrocinadores. Por esta razão, é importante que os patrocinadores mantenham a cobertura de seus parceiros mesmo após uma série de falhas. Sob nenhuma circunstância pode o patrocinador pressionar o escalador a obter resultados.

3. Para estabelecer uma presença permanente em toda as mídias, canais claros de comunicação devem ser organizados e mantidos.

4. Escaladores devem se esforçar em relatar suas atividades realisticamente. Um relatório preciso melhora não apenas a credibilidade do escalador, mas também a reputação pública de seu esporte.

5. O atleta é responsável em última instância por representar ao patrocinador e à mídia a ética, o estilo e a responsabilidade ambiental estatuída na Declaração do Tirol.

domingo, janeiro 16, 2011

Montanhismo: Escalada coletiva cobre a Urca em homenagem a Bernardo Collares

Fonte: Blog FotoBlocos
Pelos relatos foi emocionante a homenagem a Bernardo Collares realizada na Urca, Rio de Janeiro, no último sábado.

Não encontrei imagens na imprensa aberta e portanto me valho do importante documentário feito pelo Blog FotoBlocos, onde estão disponíveis diversas fotografias da grande reunião do meio montanhista em um dos mais importantes centros de escalada do país.

Na ocasião amigos e parentes do Bernardo proferiram palavras em sua memória e homenagem e uma caixa com registros, mensagens e fotografias foi entregue à família.

André ilha fala aos presentes. Ao fundo o monumento da Praça General Tibúrcio foi cercado de fotografias, mais tarde reunidas e entregues à família de Bernardo Collares. Fonte: FotoBlocos

Veja AQUI outras fotos da homenagem ao "Eterno Presidente", como era carinhosamente chamado pelos seus amigos esta figura tão querida pelos montanhistas e escaladores do Rio de Janeiro.

CONFIRA A COBERTURA FEITA PELO TERRA AUSTRALIS:

- 05/01/2011 - Argentina: Montanhismo brasileiro perde Bernardo Collares no Fitz Roy
- 06/01/2011 - Argentina/Montanhismo: Bernardo Collares, onde está o resgate? Falecimento do montanhista ainda não foi confirmado.
- 07/01/2011 - Argentina/Montanhismo: Comunicado da FEMERJ sobre o acidente no Fitz Roy
- 07/01/2011- Argentina/Montanhismo: Condições de risco não permitem resgate no Fitz Roy
- 08/01/2011 - Argentina/Montanhismo: Resgate aguarda melhora do clima para busca de Bernardo
- 09/01/2011 - Argentina/Montanhismo: Autoridades poderão deixar andinista brasileiro na montanha
- 10/01/2011 - Argentina/Montanhismo: Fim da polêmica, família decide e Bernardo ficará no Fitz Roy
- 11/01/2011 - Montanhismo: Escaladores convocam homenagem a Bernardo Collares no próximo dia 15 no Rio de Janeiro
- 14/01/2011 - Montanhismo: Acidente no Fitz Roy. Um ponto final. 
- 16/01/2011 - Montanhismo: Escalada coletiva cobre a Urca em homenagem a Bernardo Collares
- 22/01/2011 - Escaladora relata com detalhes acidente na Patagônia

sexta-feira, janeiro 14, 2011

Montanhismo: Acidente no Fitz Roy. Um ponto final.

Dizem por aí que bom senso e caldo de galinha não não fazem mal a ninguém.

Sobre o acidente com Bernardo Collares no Fitz Roy o depoimento a seguir, do montanhista carioca Maurício "ToNTo" Clauzet coloca com muito conhecimento, clareza e emoção um ponto final no assunto.

Maurício "ToNTo" Clauzet
Sem o que acrescentar, transcrevo na íntegra a impecável postagem do seu blog no dia 13/01/2011, inclusive com as fotos e gráficos para que possa ser bem compreendido. Veja aí:

"Berna, el Cabezzzzoooonnn
Conheci o Bernardo no Cerro Catedral na Argentina, era a primeira vez que ele estava lá.
Carinhosamente eu chamava ele de Cabezzzzzoooooooonnnnnnnn e ele me chamava de Cabeçããããããããããããooooooooo. Um dos motivos é o nosso diâmetro encefálico avantajado, digamos assim... e entre outros motivos, porque ele tinha um domínio do psicológico muito bom enquanto escalava, tendo a calma e tranquilidade de passar lances delicados e expostos.
Desde então encontrei com ele diversas vezes, escalamos juntos algumas vezes e sempre tivemos contato constante por email, inclusive muitos deles relacionados com FEMERJ, CBME, CTME do PNI.... enfim, o Bernardo era totalmente envolvido com a montanha, com a escalada e além disso com a organização e estruturação do nosso esporte.

Cabezzzoooooooooonnnnnnnnnn
 O Bernardo escalava de tudo, boulder, esportiva, parede, em móvel, enfim... o negócio dele era escalar, e se divertia mesmo escalando com alguém mais principante um simples quinto grau, a coisas mais comprometidas e difíceis. Repetiu diversas vias sinistras do Rio e era um apaixonado por Salinas.

Adorava correr na praia, e escalar antes de ir pro trabalho na Urca, depois ainda sacanear "Enton, acabei de chegar aqui no trampo... tava lá no Totem...". Ou ligar de algum cume de Salinas "e aeh, tá trabalhando? to aqui no cume do Pico Maior...".

Muito carismático, cheio de energia, sempre tratou todos de forma igual, dos casca grossa até o principiante.

Ponderado, mediador e negociador, ajudou a FEMERJ a fazer o que um dia já pareceu impossível, que foi agregar gregos e troianos do Rio sob o guarda chuva da FEMERJ.

Prestes a passar pelo "cú da galinha", na rota Normal da Torre Principal do Cerro Catedral - Argentina
Apaixonado pela Argentina, pois gosta muito da escalada em rocha em ambiente alpino e com proteção móvel. Foi a Arenales, diversas vezes ao Cerro Catedral, e algumas para Chaltén.

Uma vez ele quebrou o pé em uma vaca de mal jeito aí no Rio, e mesmo sem poder escalar por uns tempos continuou sempre super motivado, e quando voltou, voltou já a milhão. Impressionante, não se abalou nem fisicamente nem psicologicamente com o pé quebrado.

Era muito respeitado não só pelo seu posto de Presidente da FEMERJ e vice da CBME, mas ele acima de tudo era respeitado pelas suas posições consistentes e coerentes além de escalar pra caralho. Ninguém ousaria chamar ele de "cartola" em um sentido mais pejorativo, daquele que está na política do esporte mas não está dentro praticando... Ele escalava muito e muito forte, definitivamente entre os escaladores mais ativos dessa nossa geração no Brasil.

Cume da Torre Principal Cerro Catedral - Argentina
Era uma figura muito bem humorada, sempre pronto pra tirar um sarro e te sacanear, mas muito, muito querido entre os amigos. Em seu último aniversário, em 2010 recebeu dos amigos um presente muito legal e especial, que eu tenho certeza que foi uma demonstração clara de todo carinho que temos por ele.

Na via Objetivo Luna no Cohete Lunar, Cerro Catedral - Argentina
E a gente nunca espera, dá um tchau pro amigo que tá indo pra Chaltén já conversando de pendências pra volta... Todos super na vibe, pois Chaltén é um lugar muito mágico, e a temporada desse ano prometia, ano de El Niño que em tese é bom, oposto do ano passado, de La Niña, que a temporada não foi lá muito boa em termos climáticos.

Festival Internacional de Filmes de Montanha do Rio de Janeiro - Cine Odeon
E dia 5 de Janeiro tenho a notícia, ainda sem detalhes, que já lá em cima com a Kika, o Bernardo havia sofrido uma queda no Fitz a 35 rapéis do chão, quebrado a bacia e com hemorragia interna. A Kika conseguiu descer com perrengue, e só conseguiu avisar alguém 2 dias depois. E o tempo estava ruim...

Nesse momento entendi a gravidade da situação e sabendo onde ele estava, já soube que um resgate seria um milagre. E se passaram mais dias... e pra mim a certeza que o Cabezon tinha voltado para o lado de Lá.

Escalando no Pão de Açúcar
Muito foda de aceitar, e nessa hora a gente entende como a família tinha esperança dele vivo até hoje 13 de janeiro, mesmo o acidente tendo acontecido dia 02 ou 03 de janeiro, não sei precisar. É simplesmente muito difícil de aceitar. Ainda mais sabendo da vitalidade, energia e amor à vida do Bernardo.
Escalando no Pão de Açúcar
Para agravar, começo a ver a forma com que a imprensa apresentou o acidente, e o posicionamento de alguns poucos colegas escaladores mas que com certeza não entendem o quão "longe" é estar perto do cume do Fitz, o quão complicado é um resgate...

Vejo que na maioria das vezes que a imprensa e até alguns colegas escaladores falam de "um resgate", muitas vezes indignados, mas é visível que não tem um completo entendimento do ambiente lá, das condições e da sua dinâmica.

Com Cris Jorge e Silvério Nery escalando no Pico da Tijuca.
Já estive lá, conheço a área, e além de outras escaladas/tentativas em agulhas menores e menos comprometidas. Em 2006 fiz com a Roberta e com o Dalinho uma tentativa no Fitz, pela Franco-Argentina (em tese a mais curta e mais fácil das vias) e não fomos longe, nem além da Brecha de los Italianos. Em ano anterior, a Rober escalou entre 60 e 75% da Afanassief com Jose Pereira e posteriormente o Ed o Val e mais um argentino repetiram em 2006, temporada que eu estava lá, essa via na íntegra, depois de mais de 20 anos sem repetição desde a sua conquista. Já vi muitas fotos da via e conversei com eles, então apesar de nunca ter ido lá propriamente, tenho uma boa idéia da via e do seu acesso.
Descendo o Totem do Pão de Açúcar.

Fonte: PataClimb.com, observe a rota 17, que é a Afanasieff (clique para aumentar a foto)
 A via Afanasieff tem aproximadamente 1500m de escalada, é uma das mais longas do Fitz. Sobe pela linha mais natural da Aresta Sudoeste do Fitz. Foi conquistada em 1976 pelos franceses Jean e Michel Afanasieff, Guy Abert e Jean Fabre. Tiveram ainda no grupo um cameraman, e fizeram um filme desta aventura. Na primeira ascensão levaram 4 dias para subir e 2 dias para descer de rapel.

A aproximação para o pé da via pode ser feito de duas formas. A mais usada é pelo vale elétrico ao Paso Cuadrado e depois cruzando o Glaciar Norte do Fitz. A outra alternativa é pelo vale do Cerro Torre e depois pelo Filo del Hombre Sentado. Ambos são longos e em uma situação normal leva seguramente 2 dias de caminhada a partir de Chaltén.

Ela passou muitos anos sem uma repetição na sua íntegra. Que eu tenha notícia, só depois de 30 anos, em 2006 o trio de escaladores Ed Padilha, Wal Machado (do Brasil) e Gabriel Otero (argentino). Antes disso Jose Pereira e Roberta Nunes (brasileira) escalaram algo entre 60 e 75% da extensão da via.

Sobre a descida, observe o que o PataClimb.com, de Rolo Gariboti, fala:

A descent along the route would be treacherous because of bad belays and endless blocks and flakes. Climbing up and over the summit to descend the Franco-Argentine is recommended.

Tradução livre: uma descida pela rota pode ser traiçoeiro por conta de ancoragens ruins e um sem fim de blocos e lacas. Escalar até o cume e descer pelo outro lado pela via Franco-Argentina é aconselhado.
Nas Lacas do Pão de Açúcar.
Assim, imaginando que eles estavam próximos do cume no acidente, deviam estar a cerca de 3000m de altitude (o Fitz tem 3405m). Na Patagônia, e depois de uma tempestade, mesmo para uma pessoa gozando de total saúde seria difícil sobreviver a mais de 2 noites exposto na parede nessa altitude. Assim, eu não acredito que o Bernardo esteja ainda vivo esperando por um resgate. A Kika, além de uma escaladora super experiente, é instrutora da NOLS e assim já teve que fazer no mínimo 2 cursos de primeiros socorros em áreas remotas, o Wildernes First Responder e o Wilderness First Atendant. Eu já fiz o Wilderness First Responder, o mais básico, que é um curso excelente. O First Responder é mais aprofundado ainda e com carga horária maior, e assim, quando a Kika fala de bacia quebrada e hemorragia interna eu estou seguro de que ela sabe do que está falando. Nessa condição, sobreviver 2 noites lá já seria um milagre, quanto mais uma semana. Assim, eu considero que não há nem a mais remota possibilidade do Bernardo estar lá com vida.

Partindo desse pressuposto, considero totalmente irracional pensar em um resgate do corpo em algum lugar da parede do Fitz. Recentemente, quando estive no Ama Dablam, um helicóptero foi resgatar 2 escaladores presos na parede e se estabacou, morreram os 2 tripulantes mais um dos escaladores. E além das pessoas mortas, agora está lá um monte de lixo na encosta/gelo da montanha, inclusive com combustível e outros materiais tóxicos. Os 2 únicos piloto e engenheiro do Nepal, que tinham sido treinados na Suíça para resgate em montanha, morreram e assim o Nepal também perdeu um enorme capital humano. Tirar alguém da parede do Fitz de helicóptero é tão ou mais perigoso que ir lá escalar. Ir lá escalar por sua escolha é uma coisa, ir lá em uma missão atrás de um corpo é outra. O Fitz é vertical e açoitado por ventos fortíssimos e em rajadas, criando todo tipo de confusão, zonas de alta e baixa pressão, rotores e vortex. Ele é o ponto mais alto que separa de um lado a alta pressão do Oceano Pacífico e o Hielo Continental Sur, e do outro lado as estepes secas e planas e o Oceano Atlântico. O clima patagônico é ímpar e famoso por isso. Eu considero suícidio chegar de helicóptero perto da parede lá a não ser que não haja vento nenhum, algo praticamente impossível por lá como sabemos. Mesmo em uma janela boa para escalar, não acho que seja boa o suficiente para chegar de helicóptero na parede com um resgatista pendurado por cabo embaixo. Apesar de não ter o problema da altitude do Ama Dablam, considero o Fitz muito mais arriscado. Ouvi comentários inclusive falando de pousar no cume e descer de rapel... Um helicóptero já pousou no cume do vizinho Cerro Torre nas filmagens do Scream of Stone do Herzog (no Brasil se chama "No Coração da Montanha"). Mas o Fitz não é como um Half Dome ou um El Captain... O cume é gigantesco, fragmentado, com gelo... as pessoas sobem pela via Franco-Argentina e depois tem dificuldade de achar o rapel pra descer por ela mesma. O que dizer de achar o rapel de uma via que passou 20 anos sem repetição? É praticamente impossível achar onde começar o rapel pra chegar precisamente ao local do acidente, é como uma agulha no palheiro. Assim, não vejo o menor sentido em se gerar toda essa revolta por não quererem ir lá de helicóptero resgatar o corpo. Eu apoio os resgatistas que não querem ir lá. Entendo que isso seja difícil de aceitar, principalmente para os familiares próximos, mas é a realidade da situação.

A única coisa que poderia ter feito a diferença acredito que seria eles terem um rádio HT VHF e conseguissem comunicar o Parque assim que ocorreu o acidente, mas isso também poderia ser um tiro pela culatra, pois nesse caso a Kika poderia ter ficado lá esperando um resgate que eventualmente não chegaria, e aí seriam 2 e não 1. Ademais, nas escaladas Patagônicas extremas como essa, cada grama de peso é de se avaliar, e eu também não teria levado um rádio, mesmo se tivesse, para escalar a Afanasieff.

Nós escaladores, temos que entender muito bem o significado da palavra comprometimento. Existem escaladas onde realmente estamos "pondo o nosso na reta", e se algo der errado, as consequencias podem ser as piores. O complicado, são casos como o das expedições comerciais ao Everest e cia, onde os "clientes" tem uma falsa sensação de segurança e não conseguem ver a exposição aos riscos e o comprometimento. Tanto o Berna como a Kika tinham consciência de onde estavam se metendo. Escalar lá é realmente se projetar profundamente no remoto, no wild, no never never land. A sensação é que você está longe, muuuuito longe, e já considero um milagre a Kika ter conseguido descer de lá sozinha. A Kika é uma puta guerreira, quase inacreditável. Qualquer um que questione a decisão dela de descer ao invés de ficar, de duas uma, ou não tem a menor noção de onde eles estavam e das condições, ou é uma besta, e em ambos casos deveria ficar quieto. A Kika merece todo nosso respeito e acima de tudo nosso apoio, pois se doi na gente aqui e estamos tristes, eu não consigo nem imaginar a condição emocional dela depois de todo esse processo. Processo mesmo, pois não foi só tomar as decisões, descer sozinha e chegar no chão com um toco de corda, voltar tudo... todo esse pós chegar em Chaltén também não está sendo fácil. Temos que dar todo nosso apoio e carinho a ela.

Assim, aproveito pra dizer, que se um dia eu ficar pela montanha, me deixem por lá por favor.

Tenho certeza que o Bernardo ao entender que ia ficar por lá, passou para o lado de Lá em Paz, com a tranquilidade que só uma pessoa com o seu desapego e tendo vivido tanto a vida como ele conseguiria ter nessa hora.

Como já dito, o melhor que temos a fazer é lutar pro trabalho/legado do Berna não se perca, que cada um de nós tenha a vitalidade e a energia que ele punha na sua própria vida. Que seja uma inspiração de trabalho pelo montanhismo e também como pessoa e brother, que é tão querido não é a toa.

Buenas olas

Maurício "ToNTo" Clauzet"