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sexta-feira, dezembro 27, 2019

Veraneando em Torres: De fortins, espigões e cães na beira da praia

Vila das Torres e Capela de São Domingos vista do Morro do Farol, com vista para a serra e a Lagoa do Violão. Debret, início do século XIX. Fonte: Wikipedia

Os registros fotográficos da família mostram meu primeiro veraneio em Torres lá pelo verão de 66, na casa dos meus tios-avós Raul e Sílvia, em um acolhedor chalé de madeira em estilo serrano na então tranquilíssima Praia da Cal, uma das quatro que compõem este balneário gaúcho. Do saudoso chalé só resta a memória, há muito deu lugar a um edifício de apartamentos e a Praia da Cal hoje pouco lembra a tranquilidade daqueles tempos de infância.

Desde então voltei a Torres muitas vezes nos anos seguintes, o que faço até hoje tanto no verão quanto nas demais estações do ano, testemunhando a evolução dos costumes praianos e, com bastante temor, o avanço destruidor da especulação imobiliária e de um turismo descontrolado em áreas de grande valor ambiental e comprovado patrimônio histórico, arqueológico e cultural.

Diferente de outras localidades do litoral gaúcho, a exceção da cidade de Rio Grande fundada em 1737, as três formações basálticas que deram nome à praia constituem afloramento rochoso único na costa sul do Brasil e desde o século XVI já eram ponto de referência para navegantes, piratas, jesuítas, bandeirantes, viajantes e colonizadores.

As falésias de Torres já constituíam ponto de referência para os navegantes desde o século XVI, conforme vistas desde o mar por Debret no início do século XIX. (Fonte: Wikipedia)

Pouca gente sabe que o entorno das três grandes torres basálticas já era habitado por indígenas muito antes da colonização do Brasil, os quais deixaram registros de sua passagem em diversos e importantes sambaquis formados ao longo de milhares de anos e cujos últimos resquícios foram destruídos em anos relativamente recentes nas terraplanagens imobiliárias no entorno da Praia da Guarita e à margem sul Rio Mampituba, como bem registra o Desembargador Ruy Ruben Ruschel, um dos grandes historiadores da memória local (Torres tem História. Porto Alegre: EST, 2004).

Travessia do Rio Mampituba no início do século XIX, por Debret. (Fonte: Wikipedia)

A chamada Torre Norte, ou Morro do Farol, já abrigou o Forte São Diogo construído em 1777 dada a importância estratégica do local, visto que em função das florestas, dunas e banhados existentes na época, um pequeno trecho entre esta elevação e a hoje chamada Lagoa do Violão constituía a única passagem por onde se dava todo o trânsito terrestre entre os territórios portugueses do sul e o resto do Brasil. Ali foi construída a primeira casa de Torres, ainda existente, onde consta terem passado diversas personalidades da nossa história, incluindo os Imperadores Dom Pedro I, Dom Pedro II, Garibaldi e viajantes como Debret, Wendroth e Saint Hilaire, dentre tantos outros.

A importância ambiental não é menor do que a histórica, dado existirem em Torres nada menos do que quatro áreas de preservação ambiental, sendo três parques estaduais e uma reserva ambiental federal, esta última para proteger a única ilha do litoral do Rio Grande do Sul e ponto de descanso e reprodução de lobos marinhos.
Parque Estadual da Guarita, localizado entre as Torres Sul e do Meio. (Fonte: Wikipedia)

Todo este patrimônio tem estado sob grande pressão ambiental em função da ocupação desordenada do solo, do rápido avanço da urbanização, do desmatamento, da poluição, da destruição do ambiente natural decorrente da pesca e da caça predatórias e, em especial, do impacto das crescentes massas de veranistas e visitantes durante os meses de calor.

Longe aqui fazer um libelo contra os veranistas e turistas, dentre os quais também me enquadro, mas sim registrar um alerta e a minha inconformidade quanto ao descaso com o qual tem sido tratado este importantíssimo patrimônio público, histórico e cultural pelas autoridades e administradores, com ênfase total nas últimas décadas. Se o crescimento populacional é um dado concreto, assim como o direito de todos de frequentar e ocupar as belas paragens do nosso planeta, impõe-se a proteção e regulação do impacto que as crescentes massas humanas exercem sobre reservas que são de todo finitas e insubstituíveis.

O próprio verbete destinado à Torres na enciclopédia digital Wikipedia registra que José Lutzenberger, o grande ecologista brasileiro, denunciou em carta aberta à população no ano de 2000 a existência de cartéis formados por empresas imobiliárias e setores do poder público, que sem preocupação com o impacto urbanístico de seus espigões desfiguram rapidamente a fisionomia urbana e a estética da cidade, fazendo com que ela perca seus últimos elementos de tipicidade e originalidade. De fato, já existem diversos espigões na cidade cuja altura ultrapassa a dos seus característicos morros de basalto. 

Segue ainda a mesma fonte alertando quanto às outras estruturas que também interferem na paisagem e desviam a atenção do olhar para si, em demérito do panorama natural pelo qual a praia se tornou famosa. Sobre o Morro do Farol existem altas torres de telecomunicação que transformaram o morro em um mero pedestal para si mesmas.

O avanço urbano sobre o patrimônio publico como se vê pelas construções que sobem a encosta do Morro do Farol (Torre Norte) e as antenas de empresas privadas que desfiguram o seu cimo. (Fonte: Wikipedia)

Se falta conscientização aos moradores, veranistas e visitantes, nada justifica a omissão e incompetência histórica das autoridades na proteção de um patrimônio que não só é comum, mas também pertence às futuras gerações, privilegiando o coletivo em detrimento do individual.

Descendo à prática, quem pode explicar a construção de um prédio residencial de 30 andares em meio a quarteirões residenciais, um verdadeiro pombal sob a forma de arranha-céu? Ou ainda o trânsito incessante de automóveis diuturnamente em uma praia exclusiva para banhistas pedestres?

E que tal o incessante desfilar de cães de estimação em meio aos banhistas, sabidamente responsáveis pela proliferação de doenças cutâneas e em flagrante violação à legislação municipal? Cá entre nós, adoro cães e já tive quase duas dezenas destes fantásticos animais. Mas, cada um no seu quadrado, vamos respeitar a coletividade.

Passar alguns dias nesta maravilhosa praia, além de tantos prazeres, pode trazer também algumas preocupações como estas ao visitante mais atento. Voltarei a esses assuntos.

quinta-feira, fevereiro 06, 2014

História: Arqueólogos descobrem vestígios pré-coloniais no centro de Porto Alegre

Trabalhos de prospeção arqueológicas na Avenida Edvaldo Pereira Paiva.
Fonte: Arqueologia em Porto Alegre

Tenho especial predileção e interesse por temas ligados à história e arqueologia e a notícia da descoberta de novos vestígios pré-coloniais indígenas no centro de Porto Alegre me fascinou ao abrir o jornal hoje pela manhã.

Porto Alegre foi fundada por casais de açorianos no século XVI à margem do Guaíba e consta que anteriormente a região já era habitada desde 11 000 anos atrás por índios tapuias, mais tarde expulsos por povos do tronco linguístico tupi provenientes da Amazônia. 

Depois da assinatura do Tratado de Madrid  em 1750, o rei de Portugal determinou o povoamento do sul do Brasil por açorianos e cerca de mil casais se espalharam pelo litoral entre Osório e Rio Grande, e um pouco pelo interior. Cerca de 500 pessoas se fixaram em 1752 à beira do lago Guaíba, no chamado Porto de Viamão, o primeiro nome da futura Porto Alegre. Conheça mais sobre a história da cidade AQUI.

Trabalhos de arqueologia urbana no centro histórico de Porto Alegre/RS.
Fonte: Jornal Zero Hora
O ineditismo das atuais descobertas se refere à probabilidade de que grupos indígenas provenientes da região da serra gaúcha tenham também ocupado a zona onde está hoje o centro da cidade, dando indícios de deslocamentos humanos em grandes distâncias ainda na época pré-colonial.

As escavações feitas em um trecho da obra de duplicação da Avenida Edvaldo Pereira Paiva ainda estão revelando vestígios de edificações posteriores à chegada dos colonos europeus e construídas entre 1830 e 1820.

Por coincidência, ontem mesmo visitei na web o site Arqueologia de Porto Alegre, onde mais notícias e imagens sobre o tema poderão ser encontradas.

Veja a íntegra da notícia publicada hoje no Jornal Zero Hora, em matéria da repórter Débora Ely.


06 de fevereiro de 2014 | N° 17696

SÍTIO ARQUEOLÓGICO

História indígena sob solo urbano

Trabalho na região da Avenida Beira-Rio revela materiais pré-coloniais

Fonte: Jornal Zero Hora
Ao procurar vestígios de casas construídas no século 19 na região da Praça Brigadeiro Sampaio, o arqueólogo Alberto Tavares descobriu que o buraco ficava, literalmente, mais embaixo: desvendou, também, materiais indígenas do período pré-colonial. A presença de cerâmicas e flechas características de povos do Planalto no subsolo ainda reforça a tese de que não foram os guaranis a única população a usufruir das águas do Guaíba.

Enquanto a definição da polêmica envolvendo o corte de árvores para a duplicação do chamado trecho quatro da Avenida Edvaldo Pereira Paiva não chega ao fim, escavações arqueológicas estão sendo executadas desde o ano passado na área já conhecida pela sua riqueza histórica.

Na primeira camada da trincheira aberta junto à Avenida Presidente João Goulart, foram encontrados escombros de casarões que existiram entre os anos 1830 e 1920. Mais abaixo, estão fragmentos de louças que, apesar de ainda não terem passado por análise laboratorial, dão indícios de pertencer aos primeiros portugueses que chegaram a Porto Alegre. Mas foi somente o último estrato, onde estavam itens anteriores a 1700, que surpreendeu o grupo responsável pelas escavações.

– Ainda estamos na etapa de campo, ou seja, precisamos analisar todo o material para fazer afirmações. Mesmo assim, encontrar no centro de Porto Alegre vestígios da ocupação pré-colonial é uma surpresa muito grande, ainda mais por se tratarem de itens característicos de populações que viviam nas áreas mais altas do Estado, onde hoje chamamos de Serra. Esse povo possui um tipo específico de decoração das cerâmicas, diferente dos guaranis. É um material menor e com muitos pontilhados – explica Tavares.

O arqueólogo compara o terreno à ponta de um iceberg, já que se sabe da existência de um rico sítio arqueológico nas imediações. Após a análise, os objetos serão levados ao acervo do Museu Joaquim José Felizardo para servirem como fonte de pesquisa. Para o coordenador da Memória Cultural da Secretaria Municipal da Cultura, Luiz Antônio Custódio, o trabalho demonstra o potencial histórico existente sob o solo da Capital.

– Só se tinha registro, em Porto Alegre, da tradição guarani. Agora, esses achados arqueológicos dos habitantes do Planalto, que tradicionalmente não se encontravam na cidade, demonstram a mobilidade da população do passado, ou seja, que eles também circulavam por outros nichos, como nas praias e nos estuários – avalia.

Também durante os trabalhos de duplicação da avenida, em agosto de 2013, foram encontrados alicerces da Casa de Correção – antiga cadeia do município.

debora.ely@zerohora.com.br



RELEMBRE
Descobertas arqueológicas na capital do Estado
- Por volta de 1996, na localidade da Rua General Portinho, arqueólogos localizaram muros da antiga Praça da Harmonia, inaugurada após a Guerra do Paraguai em comemoração à paz que deveria reinar entre os países da Bacia do Prata.
- Nos anos 2000, próximo à Usina do Gasômetro, foi localizada pela primeira vez a estrutura da antiga Casa de Correção e alguns vestígios da antiga usina termelétrica, responsável pelo fornecimento de energia a Porto Alegre durante escavações para implantação de rede de gás na região.
- Entre 2010 e 2011, obras da CEEE no sítio arqueológico revelaram resquícios da cadeia e da usina termelétrica, além de casas, outros paredões da Praça da Harmonia e uma lixeira do século 20.
- Em agosto de 2013, a equipe do arqueólogo Alberto Tavares deu início ao acompanhamento das obras de duplicação da Avenida Edvaldo Pereira Paiva nas imediações da Usina do Gasômetro. Na metade do mês, encontraram outras estruturas da antiga cadeia. Já em dezembro, localizaram os primeiros materiais pré-coloniais existentes na área.

terça-feira, abril 23, 2013

Cone Sul: Exposição "12 Mil Anos de História - Arqueologia e Pré-história do Rio Grande do Sul"

Fonte: Museu da UFRGS

Para quem gosta de história e arqueologia, e eu me incluso nesta lista, segue a notícia de abertura de uma exposição sobre a arqueologia e a pré-história no sul do Brasil organizada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, enfocando a ocupação humana antes da chegada dos colonizadores europeus na região.


A ocupação humana do território hoje definido pelo Estado do Rio Grande do Sul iniciou há cerca de 11 mil anos com a chegada de grupos de caçadores-coletores vindos do norte, seguida por uma segunda onda migratória há dois mil anos, composta por índios guaranis oriundos da Amazônia.

Sendo um povo mais forte e mais organizado, submeteram praticamente todos os antigos habitantes, introduzindo também a agricultura e aperfeiçoando a cerâmica.

Quando o Brasil foi "descoberto", em 1500, quase todos os índios do Estado, que somavam de 100 mil a 150 mil na estimativa dos estudiosos, já eram guaranis ou estavam misturados a eles e habitavam a região há pelo menos 11.500 anos da chegada dos europeus.

A exposição é pequena em tamanho mas interessantíssima em conteúdo, destacando as descobertas arqueológicas como fio condutor da pré-história gaúcha.

Belas peças líticas podem ser vistas, assim como grandes ilustrações sobre o modo do vida dos primeiros habitantes do sul do país. Uma impressionante escultura (zoólito) de um tubarão é para mim um dos destaques da mostra e foi encontrada no litoral do Rio Grande do Sul, na região de Capão da Canoa.





Toda esta saga pode ser conferida na exposição 12 Mil Anos de História: Arqueologia e Pré-história do Rio Grande do Sul aberta para visitação até o dia 14/03/2014 no Museu da UFRGS, situado na Av.  Oswaldo Aranha, 277, no Campus Central da universidade, em Porto Alegre/RS.

A entrada é gratuita e o horário de funcionamento é de segunda a sexta-feira, das 9h00 às 18h00, bem como no último sábado de cada mês das 9h00 às 13h00.

O evento possui apoio da Sociedade Brasileira de Arqueologia, do Ministério da Cultura e do Instituto Histórico e Artístico Nacional, e patrocínio da Petrobrás.

Segue a notícia publicada no Jornal Zero Hora de hoje:


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Zero Hora - Porto Alegre - 23 de abril de 2013 | N° 17411
Museu da UFRGS mostra pré-história

O Museu da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e o Núcleo de Pesquisa Arqueológica (NuPArq) do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas promovem a exposição 12 Mil Anos de História: Arqueologia e Pré-história do Rio Grande do Sul.

Inaugurada ontem, a exposição segue até 14 de março do ano que vem.

Inspirada no ofício do arqueólogo, a mostra apresentará a História pré-colonial do Rio Grande do Sul, que pode ser contada por meio das sucessivas migrações humanas para o nosso território, das relações destes migrantes com os grupos já existentes, dos novos padrões culturais adotados como respostas adaptativas aos diversos ambientes.

Com o objetivo de aproximar o público do ofício do arqueólogo e do patrimônio arqueológico, bem como proporcionar uma maior aproximação com noções de preservação, o museu oferecerá oficinas, visitas mediadas, cursos para professores da rede pública, entre outras atividades.

Interessados podem agendar visitas de grupos, mediadas por alunos de diferentes cursos de graduação da UFRGS. Com curadoria de Silvia Copé, doutora em pré-história e coordenadora técnica do NuPArq, o evento tem apoio da Sociedade Brasileira de Arqueologia, do Ministério da Cultura e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e patrocínio da Petrobras.

Exposição conta objetos como pontas de flecha

A exposição ilustra as ondas migratórias que ajudaram a formar a população do Rio Grande do Sul. São recriados ambientes que mostram como viviam os grupos em casas subterrâneas na Serra, em sambaquis no Litoral, em cavernas próximas do Rio Ibicuí e em casas dos homens do Planalto das Araucárias.

Também são expostas pontas de flecha, boleadeiras, machados e instrumentos de caça diversos, urnas e vasos de cerâmica e zoólitos (pedras com representação de animais).