sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Explorações/Antártida: As bases polares de Shackleton e Scott - A preservação de monumentos em condições extremas

Pesquisando informações sobre a conquista do Continente Branco para a minha última postagem sobre Ernest Shackleton (vide http://terra-australis-br.blogspot.com/2010/01/livrosnautica-sackleton-e-o-endurance.html), achei interessantíssimo saber que vários abrigos polares contruídos e ocupados pelos primeiros exploradores do Pólo Sul ainda encontram-se preservados pelo frio nas mesmas condições em que foram deixados há aproximadamente um século atrás. Alguns ainda com alimentos sobre a mesa e roupas estendidas, como se seus donos fossem retornar a qualquer momento.

(Área de cozinha no abrigo Discovery, 1901)

Apesar da combinação de frio e isolamento extremos ter possibilitado a preservação destes abrigos, considerados hoje monumentos históricos pela Unesco, alguns outros fatores como a salinidade vêm causando a sua deterioração, principal objeto de preocupação de uma instituição chamada Antartic Heritage Trust (http://www.heritage-antarctica.org/aht.htm).

(antes e depois do trabalho de restauração no abrigo polar de Scott)

Os projetos de preservação do patrimônio mantidos pela Antartic Heritage se dão durante todo o ano polar e são especialmente focados nos remanescentes da "Era Heróica" das explorações, compreendida entre 1895 e 1917.

Apenas a Inglaterra apoiou pelo menos cinco grandes expedições, também conhecidas pelo nome dos navios que as conduziram à Antártida:

  • British Antarctic Expedition, 1898-1900 (Southern Cross)
  • British National Antarctic Expedition, 1901-04 (Discovery)
  • British Antarctic Expedition, 1907-1909 (Ninrod)
  • British Antarctic Expedition, 1910-1913 (Terra Nova)
  • Imperial Trans-Antarctic Expedition, 1914-16 (Endurance)

Foi neste período que expedicionários de várias nações competiram entre si para serem os primeiros a atingir o Pólo Sul, finalmente conquistado pelo norueguês Roald Amundsen em 1911. Amundsen foi seguido em um mês pelo britânico Robert Falcon Scott, cuja foto abre esta postagem e que, com toda a sua equipe, sucumbiu ao frio e à fome no caminho de retorno e a apenas 17 quilômetros de um depósito de comida.

Além de chegar ao pólo as expedições da Era Eróica também objetivavam a coleta de dados científicos e o pioneirismo na exploração interna do continente antártico, descobrindo platôs, vulcões e espaços onde jamais outro ser humano havia estado antes. Nestes casos era usual que cada expedição construísse pelo menos um abrigo polar para que lhe servisse de base de apoio e refúgio, onde eram armazenadas provisões e equipamentos.

A expedição de Shackleton de 1907-1909 (anterior à viagem do Endurance) que tentou chegar ao Pólo Sul e retornou a 156 quilômetros do seu objetivo, instalou um abrigo em Cape Royds e foi a primeira a fazer a ascenção do Monte Erebus, o vulcão ativo mais ao sul do planeta. Nesta base Shackleton e sua equipe se abrigaram quando deixaram o navio Nimrod para invernar em Ross Island em 1908.

("I thought, dear, that you would rather have a live ass than a dead lion." - Eu pensei, querida, que você preferiria ter um traseiro vivo do que um leão morto /tradução livre - Sir Ernest Shackleton para sua esposa Emily, depois de caminhar 1700 milhas e decidir retornar a apenas 97 milhas do Pólo Sul)

Projetado e pré-fabricado na Inglaterra, o abrigo possui capacidade para abrigar até 15 pessoas em um espaço único, tendo sido improvisada inclusive uma garagem e um estábulo para abrigo dos automóveis, cães e poneis utilizados pela expedição.

(Base de Shackleton em Cape Royds, 1908. © Nicola Dunn)

Ali ainda estão hoje os equipamentos e pertences pessoais da equipe de Shackleton, além de roupas, livros e alimentos, muito deles enlatados e preservados pelo frio polar. Mais de 5 mil objetos foram catalogados e os trabalhos de preservação deste monumento histórico foram completados pela Antarctic Heritage.

(Base de Shackleton, 1908. © Nigel McCall)

Já a base instalada por Scott para servir de apoio à expedição Discovery de 1901 e projetada para durar apenas 5 anos (já resistiu a mais de 100!) contém cerca de 8 mil objetos a serem conservados e que foram deixados para trás pelos exploradores que a ocuparam. São latas de comida, equipamentos e roupas que contam um pouco da história de coragem, conquista e luta pela sobrevivência em um dos ambientes mais inóspitos do planeta para a vida humana.

(Base de Scott Cape Evans em 2006. Foto Scott Polar Research Institute/Barcroft Media)


(Base Discovery, Scott, 1901)

(Base Discovery, Scott, 1901)

Os restauradores e técnicos em conservação que estão trabalhando na preservação do abrigo polar de Scott são neozelandezes baseados permanentemente na Antártida e mantém um interessante blog sobre os seus trabalho no link /http://www.nhm.ac.uk/antarctica-blog/.

(Base de Scott em Cape Evans, 1911. © Nigel McCall)

Confira aqui o trabalho da Antartic Heritage Trust no abrigo polar de Shackleton em Cape Royds:

PARA SABER MAIS:

Veja a história das bases em http://www.heritage-antarctica.org/AHT/TheExpeditionBases

Veja interessantíssimas galerias com imagens históricas e atuais: http://www.heritage-antarctica.org/AHT/ModernImageGallery/

BBC News - Scott's hut needs urgent repair: http://news.bbc.co.uk/2/hi/science/nature/1695897.stm

Scott Polar Research Institute: http://www.spri.cam.ac.uk/

Imagens históricas completas das expedições britânicas à Antártida (imperdível!): http://www.spri.cam.ac.uk/library/pictures/expeditions/

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