quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Argentina: Montanhismo brasileiro perde Bernardo Collares no Fitz Roy

Foto: ESPN/Eliseu Frechou

A verificar meu Facebook por volta das 22h00 de hoje li uma postagem estarrecedora do Silverio Nery, noticiando o falecimento de BERNARDO COLLARES, 46, renomado escalador que contribuiu essencialmente para a organização do montanhismo no Brasil. Bernardo era presidente da Federação de Montanhismo do Rio de Janeiro - FEMERJ e Vice-Presidente, junto com o Silvério, da Confederação Brasileira de Montanhismo e Escalada - CBME.

Bernardo era um escalador muito experiente e as notícias que correm não são claras quanto aos detalhes do ocorrido.

Consta nos relatos que circulam na web que Bernardo sofreu um acidente em um rapel ao retornar do cume do Cerro Fitz Roy, em El Chaltén, na Argentina, com fratura da bacia e hemorragia interna. Vivo mas impossibilitado de qualquer movimentação, sua parceira de escalada, Kika Bredford, o deixou abrigado em um saco de dormir e demorou mais dois dias para concluir o descenso da montanha e chegar ao ponto de contato mais próximo.

As autoridades argentinas foram avisadas mas, considerando o mau tempo, a impossibilidade imediata de resgate e o mau tempo uma vez que o Cerro Fitz Roy (3.404 m) é uma das escaladas mais difíceis da Patagônia e do mundo, Bernardo foi dado como morto.

Cerro Fitz Roy - El Chaltén/Argentina. Fonte: internet

Estas são as poucas informações que circulam até o momento sobre esta  irreparável perda para o montanhismo brasileiro. Foram divulgadas ontem no meio do montanhismo por André Ilha na mensagem abaixo:

"Oi gente,

Tenho, infelizmente, a pior notícia do mundo para dar para vocês: a morte do nosso querido amigo e presidente da FEMERJ Bernardo Collares.
As informações de que disponho são ainda muito parciais, mas ele aparentemente chegou ao cume do Fitz Roy com a Kika Bradford e sofreu um acidente em, talvez, um dos primeiros rapéis (já que eles estavam a 35 enfiadas de altura) e quebrou a bacia, além de sofrer uma hemorragia não sei onde. Ele não conseguia se mexer e, nessas condições, é óbvio que a Kika não tinha o que fazer a não ser descer para tentar obter socorro e, claro, não morrer também. Ele próprio falou para ela descer…
Evidentemente a descida dela foi lenta e dramática, mas felizmente sem novos acidentes, e quando ela chegou a El Chalten deu a notícia e desabou em choque. Havia muita gente competente por lá, inclusive o Serginho Tartari, Rolo Garibotti, guias profissionais da Europa, médiocos, mas todos concordaram que não fazia sentido ir até lá tanto tempo depois (passaram-se duas noites, uma com tormenta, e o Bernardo estava sem água, comida e o saco de dormir estava molhado…), em más condições, até porque não havia como retirar alguém quase do cume do Fitz com fratura de bacia a não ser de helicóptero, e não havia helicóptero com piloto experiente por perto… Isso é tudo o que sei por enquanto, não sei nem em que vias eles estavam.
Além do grande amigo de tantos de nós, o Montanhismo brasileiro fica, assim, de luto e órfão de um dos mais – se não o mais - importantes agentes da organização do nosso esporte e do reconhecimento de sua importância perante os olhos das autoridades públicas.
A perda é irreparável em todos os sentidos, e nem sei mais o que falar nesse momento.
Abraços e beijos,
André Ilha


P. S.: vou sentir muita falta, dentre tantas outras coisas, daqueles e-mails dele cheios de reticências…"
No Portal Webventure em notícia postada às 23h04 alguns detalhes a mais são acrescentados:

"De acordo com a imprensa argentina, a rota escolhida para a escalada era pela face oeste da montanha, que apesar de não possuir muito gelo ou rocha quebradiça, é considerada como uma rota de difícil rapel. E, segundo a fonte, foi num dos trabalhos em uma fenda que o equipamento se soltou, fazendo com que Bernardo caísse no vazio, ainda que atado a corda.
As informações a partir daí são desencontradas. A fonte brasileira afirma que a Kika ainda conseguiu conversar um pouco com o montanhista, porém, ele mesmo pediu para que ela continuasse a jornada, rumo a base da montanha, onde poderia solicitar ajuda. Já a imprensa argentina relata que Bernardo ficou desacordado após a queda, mas que mesmo assim a escaladora conseguiu levantar seu corpo até um local onde pudesse cobrí-lo com um saco de dormir.

Contudo, após a demorada descida da montanha, o tempo piorou na região, impossibilitando o resgate. Segunda a escaladora, Bernardo teria sinais de forte hemorragia e quebra de ossos da região da pelve. Com estes dados em mãos, o pessoal disponível para o resgate concluiu que seria impossível ao brasileiro ter sobrevivido até aquele momento. Algumas estratégias para resgatar o corpo estão sendo elaboradas, porém, segundo a imprensa argentina, pelo local onde está o corpo e pelo equipamento disponível, será praticamente impossível retirá-lo da montanha."
(Fonte: Webventure)
Fica o enorme pesar pelo falecimento do Bernardo e os melhores pensamentos para a família neste momento tão difícil.

Todavia, um pergunta não quer calar. Ao que consta o montanhista foi deixado inconsciente, mas vivo, quando sua parceira de escalada saiu em busca de socorro, conseguindo comunicar as autoridades argentinas dois dias após. Sem sequer sair em busca de Bernardo a Gendarmería Argentina o deu por morto, dadas as extremas dificuldades de acesso ao local onde estaría.

Não conheço os protocolos das equipes de resgate na Argentina mas me pareceu bastante prematura a conclusão de falecimento do montanhista sem que ele sequer tenha sido localizado. Quem leu Tocando o Vazio ("Touching the Void"), de Joe Simpson, ou conhece a história de Beck Weathers no Everest de 1996 sabe muito bem que milagres acontecem...

A esperança é a última que morre!


CONFIRA A COBERTURA FEITA PELO TERRA AUSTRALIS:


- 05/01/2011 - Argentina: Montanhismo brasileiro perde Bernardo Collares no Fitz Roy
- 06/01/2011 - Argentina/Montanhismo: Bernardo Collares, onde está o resgate? Falecimento do montanhista ainda não foi confirmado.
- 07/01/2011 - Argentina/Montanhismo: Comunicado da FEMERJ sobre o acidente no Fitz Roy
- 07/01/2011- Argentina/Montanhismo: Condições de risco não permitem resgate no Fitz Roy
- 08/01/2011 - Argentina/Montanhismo: Resgate aguarda melhora do clima para busca de Bernardo
- 09/01/2011 - Argentina/Montanhismo: Autoridades poderão deixar andinista brasileiro na montanha
- 10/01/2011 - Argentina/Montanhismo: Fim da polêmica, família decide e Bernardo ficará no Fitz Roy
- 11/01/2011 - Montanhismo: Escaladores convocam homenagem a Bernardo Collares no próximo dia 15 no Rio de Janeiro
- 14/01/2011 - Montanhismo: Acidente no Fitz Roy. Um ponto final.
- 16/01/2011 - Montanhismo: Escalada coletiva cobre a Urca em homenagem a Bernardo Collares
- 22/01/2011 - Escaladora relata com detalhes acidente na Patagônia

Um comentário:

  1. A morte do Bernardo Collares consternou toda a comunidade montanhística. Não o conhecia pessoalmente, apenas o trabalho que vinha fazendo pelo montanhismo brasileiro.
    Um acidente como esse sempre gera muita especulação e sensacionalismo. Já passei por situações de emergência onde tive que tomar decisões que poderiam ter resultado no resgate de um companheiro com vida ou somente seu corpo. Felizmente ele continua entre nós.
    Para quem não tem idéia das condições que eles deviam estar enfrentando, o que posso dizer é que a Kika certamente tomou a decisão mais difícil da vida dela. A decisão não era deixar ou não o companheiro ferido para buscar resgate, mas sim deixar o companheiro ferido para morrer e salvar a própria vida. No local em que se encontravam e com a experiência dela, por mais que tivesse alguma esperança, tenho certeza que ela sabia que não o veria mais com vida. Mesmo que o resgate pudesse ser acionado no momento do acidente, poderia levar dias para que alcançassem os dois, se isso fosse possível. Felizmente a Kika teve a coragem de abandonar o companheiro e a força para enfrentar uma difícil e perigosa descida sozinha para chegar em segurança no solo. Desejo que agora ela tenha forças para superar esse trauma pois a perda é insuperável. O Bernardo fará muita falta para o montanhismo e certamente para todos os familiares e amigos.

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