sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Montanhismo: Acidente no Fitz Roy. Um ponto final.

Dizem por aí que bom senso e caldo de galinha não não fazem mal a ninguém.

Sobre o acidente com Bernardo Collares no Fitz Roy o depoimento a seguir, do montanhista carioca Maurício "ToNTo" Clauzet coloca com muito conhecimento, clareza e emoção um ponto final no assunto.

Maurício "ToNTo" Clauzet
Sem o que acrescentar, transcrevo na íntegra a impecável postagem do seu blog no dia 13/01/2011, inclusive com as fotos e gráficos para que possa ser bem compreendido. Veja aí:

"Berna, el Cabezzzzoooonnn
Conheci o Bernardo no Cerro Catedral na Argentina, era a primeira vez que ele estava lá.
Carinhosamente eu chamava ele de Cabezzzzzoooooooonnnnnnnn e ele me chamava de Cabeçããããããããããããooooooooo. Um dos motivos é o nosso diâmetro encefálico avantajado, digamos assim... e entre outros motivos, porque ele tinha um domínio do psicológico muito bom enquanto escalava, tendo a calma e tranquilidade de passar lances delicados e expostos.
Desde então encontrei com ele diversas vezes, escalamos juntos algumas vezes e sempre tivemos contato constante por email, inclusive muitos deles relacionados com FEMERJ, CBME, CTME do PNI.... enfim, o Bernardo era totalmente envolvido com a montanha, com a escalada e além disso com a organização e estruturação do nosso esporte.

Cabezzzoooooooooonnnnnnnnnn
 O Bernardo escalava de tudo, boulder, esportiva, parede, em móvel, enfim... o negócio dele era escalar, e se divertia mesmo escalando com alguém mais principante um simples quinto grau, a coisas mais comprometidas e difíceis. Repetiu diversas vias sinistras do Rio e era um apaixonado por Salinas.

Adorava correr na praia, e escalar antes de ir pro trabalho na Urca, depois ainda sacanear "Enton, acabei de chegar aqui no trampo... tava lá no Totem...". Ou ligar de algum cume de Salinas "e aeh, tá trabalhando? to aqui no cume do Pico Maior...".

Muito carismático, cheio de energia, sempre tratou todos de forma igual, dos casca grossa até o principiante.

Ponderado, mediador e negociador, ajudou a FEMERJ a fazer o que um dia já pareceu impossível, que foi agregar gregos e troianos do Rio sob o guarda chuva da FEMERJ.

Prestes a passar pelo "cú da galinha", na rota Normal da Torre Principal do Cerro Catedral - Argentina
Apaixonado pela Argentina, pois gosta muito da escalada em rocha em ambiente alpino e com proteção móvel. Foi a Arenales, diversas vezes ao Cerro Catedral, e algumas para Chaltén.

Uma vez ele quebrou o pé em uma vaca de mal jeito aí no Rio, e mesmo sem poder escalar por uns tempos continuou sempre super motivado, e quando voltou, voltou já a milhão. Impressionante, não se abalou nem fisicamente nem psicologicamente com o pé quebrado.

Era muito respeitado não só pelo seu posto de Presidente da FEMERJ e vice da CBME, mas ele acima de tudo era respeitado pelas suas posições consistentes e coerentes além de escalar pra caralho. Ninguém ousaria chamar ele de "cartola" em um sentido mais pejorativo, daquele que está na política do esporte mas não está dentro praticando... Ele escalava muito e muito forte, definitivamente entre os escaladores mais ativos dessa nossa geração no Brasil.

Cume da Torre Principal Cerro Catedral - Argentina
Era uma figura muito bem humorada, sempre pronto pra tirar um sarro e te sacanear, mas muito, muito querido entre os amigos. Em seu último aniversário, em 2010 recebeu dos amigos um presente muito legal e especial, que eu tenho certeza que foi uma demonstração clara de todo carinho que temos por ele.

Na via Objetivo Luna no Cohete Lunar, Cerro Catedral - Argentina
E a gente nunca espera, dá um tchau pro amigo que tá indo pra Chaltén já conversando de pendências pra volta... Todos super na vibe, pois Chaltén é um lugar muito mágico, e a temporada desse ano prometia, ano de El Niño que em tese é bom, oposto do ano passado, de La Niña, que a temporada não foi lá muito boa em termos climáticos.

Festival Internacional de Filmes de Montanha do Rio de Janeiro - Cine Odeon
E dia 5 de Janeiro tenho a notícia, ainda sem detalhes, que já lá em cima com a Kika, o Bernardo havia sofrido uma queda no Fitz a 35 rapéis do chão, quebrado a bacia e com hemorragia interna. A Kika conseguiu descer com perrengue, e só conseguiu avisar alguém 2 dias depois. E o tempo estava ruim...

Nesse momento entendi a gravidade da situação e sabendo onde ele estava, já soube que um resgate seria um milagre. E se passaram mais dias... e pra mim a certeza que o Cabezon tinha voltado para o lado de Lá.

Escalando no Pão de Açúcar
Muito foda de aceitar, e nessa hora a gente entende como a família tinha esperança dele vivo até hoje 13 de janeiro, mesmo o acidente tendo acontecido dia 02 ou 03 de janeiro, não sei precisar. É simplesmente muito difícil de aceitar. Ainda mais sabendo da vitalidade, energia e amor à vida do Bernardo.
Escalando no Pão de Açúcar
Para agravar, começo a ver a forma com que a imprensa apresentou o acidente, e o posicionamento de alguns poucos colegas escaladores mas que com certeza não entendem o quão "longe" é estar perto do cume do Fitz, o quão complicado é um resgate...

Vejo que na maioria das vezes que a imprensa e até alguns colegas escaladores falam de "um resgate", muitas vezes indignados, mas é visível que não tem um completo entendimento do ambiente lá, das condições e da sua dinâmica.

Com Cris Jorge e Silvério Nery escalando no Pico da Tijuca.
Já estive lá, conheço a área, e além de outras escaladas/tentativas em agulhas menores e menos comprometidas. Em 2006 fiz com a Roberta e com o Dalinho uma tentativa no Fitz, pela Franco-Argentina (em tese a mais curta e mais fácil das vias) e não fomos longe, nem além da Brecha de los Italianos. Em ano anterior, a Rober escalou entre 60 e 75% da Afanassief com Jose Pereira e posteriormente o Ed o Val e mais um argentino repetiram em 2006, temporada que eu estava lá, essa via na íntegra, depois de mais de 20 anos sem repetição desde a sua conquista. Já vi muitas fotos da via e conversei com eles, então apesar de nunca ter ido lá propriamente, tenho uma boa idéia da via e do seu acesso.
Descendo o Totem do Pão de Açúcar.

Fonte: PataClimb.com, observe a rota 17, que é a Afanasieff (clique para aumentar a foto)
 A via Afanasieff tem aproximadamente 1500m de escalada, é uma das mais longas do Fitz. Sobe pela linha mais natural da Aresta Sudoeste do Fitz. Foi conquistada em 1976 pelos franceses Jean e Michel Afanasieff, Guy Abert e Jean Fabre. Tiveram ainda no grupo um cameraman, e fizeram um filme desta aventura. Na primeira ascensão levaram 4 dias para subir e 2 dias para descer de rapel.

A aproximação para o pé da via pode ser feito de duas formas. A mais usada é pelo vale elétrico ao Paso Cuadrado e depois cruzando o Glaciar Norte do Fitz. A outra alternativa é pelo vale do Cerro Torre e depois pelo Filo del Hombre Sentado. Ambos são longos e em uma situação normal leva seguramente 2 dias de caminhada a partir de Chaltén.

Ela passou muitos anos sem uma repetição na sua íntegra. Que eu tenha notícia, só depois de 30 anos, em 2006 o trio de escaladores Ed Padilha, Wal Machado (do Brasil) e Gabriel Otero (argentino). Antes disso Jose Pereira e Roberta Nunes (brasileira) escalaram algo entre 60 e 75% da extensão da via.

Sobre a descida, observe o que o PataClimb.com, de Rolo Gariboti, fala:

A descent along the route would be treacherous because of bad belays and endless blocks and flakes. Climbing up and over the summit to descend the Franco-Argentine is recommended.

Tradução livre: uma descida pela rota pode ser traiçoeiro por conta de ancoragens ruins e um sem fim de blocos e lacas. Escalar até o cume e descer pelo outro lado pela via Franco-Argentina é aconselhado.
Nas Lacas do Pão de Açúcar.
Assim, imaginando que eles estavam próximos do cume no acidente, deviam estar a cerca de 3000m de altitude (o Fitz tem 3405m). Na Patagônia, e depois de uma tempestade, mesmo para uma pessoa gozando de total saúde seria difícil sobreviver a mais de 2 noites exposto na parede nessa altitude. Assim, eu não acredito que o Bernardo esteja ainda vivo esperando por um resgate. A Kika, além de uma escaladora super experiente, é instrutora da NOLS e assim já teve que fazer no mínimo 2 cursos de primeiros socorros em áreas remotas, o Wildernes First Responder e o Wilderness First Atendant. Eu já fiz o Wilderness First Responder, o mais básico, que é um curso excelente. O First Responder é mais aprofundado ainda e com carga horária maior, e assim, quando a Kika fala de bacia quebrada e hemorragia interna eu estou seguro de que ela sabe do que está falando. Nessa condição, sobreviver 2 noites lá já seria um milagre, quanto mais uma semana. Assim, eu considero que não há nem a mais remota possibilidade do Bernardo estar lá com vida.

Partindo desse pressuposto, considero totalmente irracional pensar em um resgate do corpo em algum lugar da parede do Fitz. Recentemente, quando estive no Ama Dablam, um helicóptero foi resgatar 2 escaladores presos na parede e se estabacou, morreram os 2 tripulantes mais um dos escaladores. E além das pessoas mortas, agora está lá um monte de lixo na encosta/gelo da montanha, inclusive com combustível e outros materiais tóxicos. Os 2 únicos piloto e engenheiro do Nepal, que tinham sido treinados na Suíça para resgate em montanha, morreram e assim o Nepal também perdeu um enorme capital humano. Tirar alguém da parede do Fitz de helicóptero é tão ou mais perigoso que ir lá escalar. Ir lá escalar por sua escolha é uma coisa, ir lá em uma missão atrás de um corpo é outra. O Fitz é vertical e açoitado por ventos fortíssimos e em rajadas, criando todo tipo de confusão, zonas de alta e baixa pressão, rotores e vortex. Ele é o ponto mais alto que separa de um lado a alta pressão do Oceano Pacífico e o Hielo Continental Sur, e do outro lado as estepes secas e planas e o Oceano Atlântico. O clima patagônico é ímpar e famoso por isso. Eu considero suícidio chegar de helicóptero perto da parede lá a não ser que não haja vento nenhum, algo praticamente impossível por lá como sabemos. Mesmo em uma janela boa para escalar, não acho que seja boa o suficiente para chegar de helicóptero na parede com um resgatista pendurado por cabo embaixo. Apesar de não ter o problema da altitude do Ama Dablam, considero o Fitz muito mais arriscado. Ouvi comentários inclusive falando de pousar no cume e descer de rapel... Um helicóptero já pousou no cume do vizinho Cerro Torre nas filmagens do Scream of Stone do Herzog (no Brasil se chama "No Coração da Montanha"). Mas o Fitz não é como um Half Dome ou um El Captain... O cume é gigantesco, fragmentado, com gelo... as pessoas sobem pela via Franco-Argentina e depois tem dificuldade de achar o rapel pra descer por ela mesma. O que dizer de achar o rapel de uma via que passou 20 anos sem repetição? É praticamente impossível achar onde começar o rapel pra chegar precisamente ao local do acidente, é como uma agulha no palheiro. Assim, não vejo o menor sentido em se gerar toda essa revolta por não quererem ir lá de helicóptero resgatar o corpo. Eu apoio os resgatistas que não querem ir lá. Entendo que isso seja difícil de aceitar, principalmente para os familiares próximos, mas é a realidade da situação.

A única coisa que poderia ter feito a diferença acredito que seria eles terem um rádio HT VHF e conseguissem comunicar o Parque assim que ocorreu o acidente, mas isso também poderia ser um tiro pela culatra, pois nesse caso a Kika poderia ter ficado lá esperando um resgate que eventualmente não chegaria, e aí seriam 2 e não 1. Ademais, nas escaladas Patagônicas extremas como essa, cada grama de peso é de se avaliar, e eu também não teria levado um rádio, mesmo se tivesse, para escalar a Afanasieff.

Nós escaladores, temos que entender muito bem o significado da palavra comprometimento. Existem escaladas onde realmente estamos "pondo o nosso na reta", e se algo der errado, as consequencias podem ser as piores. O complicado, são casos como o das expedições comerciais ao Everest e cia, onde os "clientes" tem uma falsa sensação de segurança e não conseguem ver a exposição aos riscos e o comprometimento. Tanto o Berna como a Kika tinham consciência de onde estavam se metendo. Escalar lá é realmente se projetar profundamente no remoto, no wild, no never never land. A sensação é que você está longe, muuuuito longe, e já considero um milagre a Kika ter conseguido descer de lá sozinha. A Kika é uma puta guerreira, quase inacreditável. Qualquer um que questione a decisão dela de descer ao invés de ficar, de duas uma, ou não tem a menor noção de onde eles estavam e das condições, ou é uma besta, e em ambos casos deveria ficar quieto. A Kika merece todo nosso respeito e acima de tudo nosso apoio, pois se doi na gente aqui e estamos tristes, eu não consigo nem imaginar a condição emocional dela depois de todo esse processo. Processo mesmo, pois não foi só tomar as decisões, descer sozinha e chegar no chão com um toco de corda, voltar tudo... todo esse pós chegar em Chaltén também não está sendo fácil. Temos que dar todo nosso apoio e carinho a ela.

Assim, aproveito pra dizer, que se um dia eu ficar pela montanha, me deixem por lá por favor.

Tenho certeza que o Bernardo ao entender que ia ficar por lá, passou para o lado de Lá em Paz, com a tranquilidade que só uma pessoa com o seu desapego e tendo vivido tanto a vida como ele conseguiria ter nessa hora.

Como já dito, o melhor que temos a fazer é lutar pro trabalho/legado do Berna não se perca, que cada um de nós tenha a vitalidade e a energia que ele punha na sua própria vida. Que seja uma inspiração de trabalho pelo montanhismo e também como pessoa e brother, que é tão querido não é a toa.

Buenas olas

Maurício "ToNTo" Clauzet"


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