terça-feira, 16 de setembro de 2008

Livros/Chile: A prosa de Pablo Neruda

Foto: internet
"Comenzaré por decir, sobre los días y años de mi infancia, que mi único personaje inolvidable fue la lluvia... La gran lluvia austral que cae como una catarata del Polo, desde los cielos del Cabo de Hornos hasta la frontera. En esta frontera, o Far West de mi patria, nací a la vida, a la tierra, a la poesía y a la lluvia."
Diplomata, exilado, político ou aventureiro curioso, ele viajou por países como o Ceilão, Índia, China, União Soviética, França, Itália e até o Brasil. Atravessou os Andes a cavalo como fugitivo, percorreu a América Latina, socorreu refugiados durante a Guerra Civil Espanhola, amou como ninguém as mulheres e foi amigo de grandes nomes das literatura latina como Jorge Amado, Vinícius de Morais, Gabriela Mistral, Rafael Alberti e Federico Garcia Lorca.

Mesmo candidato a presidente do seu país, condição da qual abdicou em favor de Salvador Allende, foi pelo ofício de poeta que o seu nome circulou o planeta e lhe rendeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1971, após uma vida de frenéticas viagens tendo na mala um passaporte de cidadão do mundo.
Ricardo Eliecer Neftalí Reyes Basoalto, autobatizado Pablo Neruda e considerado um dos maiores poetas do século XX, era filho de um ferroviário e nasceu em 1904, em Parral, no sul do Chile, país que como ninguém cantou em prosa e poesia.
Humanista, democrata e ferrenho defensor da paz, Neruda foi uma personalidade carismática e popular, tendo pessoalmente recitado seus versos pelos mais recônditos extremos do Chile. Ora dirigindo-se aos obreiros de pequenas fábricas, ora a multidões que, magnetizadas pelo seu carisma, chegaram a lotar o Estádio Nacional de Santiago para ouvi-lo, fato extraordinário para nós brasileiros, mais acostumados a homenagear os mestres da bola do que os nossos silenciosos heróis da pena e do papel.
Meu primeiro contato com a obra de Neruda deu-se ainda na infância, num tempo cinzento em que a tarja da censura e o patrulhamento político não estimulavam a leitura de um escritor de esquerda, mesmo que a sua obra tivesse como salvo-conduto intelectual o selo do Prêmio Nobel estampado na capa.
Recém trazidas ao Brasil as memórias do poeta, impressionaram meus ouvidos de criança os comentários entusiasmados feitos pelo Dr. Carlos Adolfo Menna Barreto, de profissão médico e íntimo amigo de meu pai.
Um pequeno trecho em especial, antológico, no qual Neruda descreveu tão vividamente os bosques austrais ao sul do Chile, que suas cores, aromas, ruídos e seres fantásticos jamais me deixaram em paz até que conseguisse conhecê-lo anos depois, curioso, emocionado e com a avidez insana de quem entra em um livro de histórias:
"...Bajo los volcanes, junto a los ventisqueros, entre los grandes lagos, el flagrante, el silencioso, el enmarañado bosque chileno... Se hunden los pies en el follage muerto, crepitó una rama quebradiza, los gigantescos raulíes levantan su encrespada estatura, un pájaro de la selva fría cruza, aletea, se detiene entre los sombríos ramajes. Y luego desde su escondite suena como un oboe... Me entra por las narices hasta el alma el aroma salvaje del laurel, el aroma oscuro del boldo... El ciprés de las guaitecas intercepta mi paso... Es un mundo vertical: una nación de pájaros, una muchedumbre de hojas (...)"
Publicado postumamente no ano do seu falecimento, o seu livro de memórias "Confesso que Vivi" com certeza agradará ao leitor e talvez nele semeie, assim espero, o mesmo irresistível impulso de conhecer um pouco mais deste continente que chamamos de América, tão bem descrito nas palavras de um poeta que a amou com todo o seu ser:
"Quien no conoce el bosque chileno, no conoce este planeta. De aquellas tierras, de aquel barro, de aquel silencio, he salido yo a andar, a cantar por el mundo."
Ao final, o depoimento-homenagem do grande bardo argentino Atahualpa Yupanqui a Pablo Neruda por ocasião da sua morte em 1973:

PARA SABER MAIS:


- NERUDA, Pablo - Confesso que Vivi, Editora Bertrand Brasil, 2000, 23ª edição. NERUDA, Pablo - Confesso que he Vivido, Plaza & Janes, 1998, 1ª edição.
- Fundación Pablo Neruda - Chile
- Pablo Neruda na Wikipedia




sábado, 13 de setembro de 2008

Fotografia/Náutica: Além do Muro da Mauá

A enchente de 1941 foi a maior registrada na história de Porto Alegre e motivou uma série de obras para proteger a cidade de novas cheias. A mais polêmica é um portento de concreto que rompeu a secular relação da cidade com o Guaíba e seus navegantes, mais conhecido como "O Muro da Avenida Mauá".

A minha geração cresceu sem ver o rio desde o centro da cidade, (mal) acostumada a ignorá-lo e associando-o a perigo e poluição, privada de um verdadeiro paraíso natural debaixo do seu prório nariz.

Todavia algo mais acontece por trás do Muro quando a cada final de semana uma frota de pequenas embarcações singra o Guaíba em todas as direções, preservando antigas tradições náuticas e resgatando as relações da cidade com o rio que a originou.

Sim, há vida além do Muro. E muita. Basta ter olhos e curiosidade para descobrí-la!

O Yaramar é um elegante veleiro de madeira construído em 1946 , o mais antigo em atividade no Rio Guaíba e excepcionalmente conservado. A imagem acima foi captada em uma tarde de final do verão de 2008 a partir de outro veleiro em movimento. Arquivo .raw, lente zoom 100-300 mm, ISO 200, 1/640 e f/9,0.

A foto acima transmite bem o espírito da navegação de cruzeiro, não competitiva, onde o que vale é a integração à natureza e estar longe do stress urbano. O local é a Ilha Chico Manoel com Porto Alegre ao fundo e foi captada em arquivo Jpeg, 7,3 mm, exposição 15 s e f/2,8. O veleiro em primeiro plano aparece levemente desfocado em função do balanço na água. As cores são originais e não foi feito qualquer tratamento na imagem.

Abaixo o veleiro Tanics em um ventoso final de tarde de outubro tendo ao fundo o morro da Ponta Grossa (145 m), um dos bairros de Porto Alegre.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

ConeSul/Cadernos da Patagônia: Uma Viagem ao Fim do Mundo

Parque Nacional de Torres del Paine - Chile

"Havia na sala de jantar de minha avó, um armário com porta de vidro e, dentro dele, um pedaço de pele. Não passava de um pedacinho, mas era espesso, áspero, com chumaços de um pêlo avermelhado e grosso. Estava pregado a um cartão por um alfinete enferrujado. No cartão, havia algo escrito com tinta negra, esmaecida, mas eu era então criança demais para ler.

- O que é isso?- Um pedaço de brontossauro. (...) 

Aquele brontossauro específico vivera na Patagônia, uma região da América do Sul, no outro extremo do mundo. Há milhares de anos, caíra dentro de uma geleira, deslocara-se montanha abaixo numa prisão de gelo azul e chegara em perfeitas condições ao sopé. Foi lá que o primo de minha avó, Charley Milward, o Marinheiro, o encontrou."

Quando li com imenso prazer este livro pela primeira vez (fui obrigado a deliciar-me com suas páginas em mais de uma oportunidade...), retrilhar os passos do seu autor, Bruce Chatwin, torno-se não somente um sonho mas uma obsessão da qual somente considerei-me curado quando ncontrei, anos mais tarde, numa escura vitrine do Museu Salesiano de Punta Arenas, Chile, um pequenino retalho de uma pele espessa, áspera, com chumaços de um "pelo avermelhado e grosso" ...

E antes que o leitor pergunte, explico: na verdade o brontossauro de Chatwin (sim, a história é verdadeira!) era um Milodonte, uma espécie de preguiça gigante cujos restos conservados em um solo especialmente composto foram encontrados em uma caverna perto de Puerto Natales, extremo sul do Chile, conhecido ponto de visitação nos dias de hoje.

Paul Theroux, famoso pelos seus livros de viagens, vê a América do Sul com a forma de um funil, sendo a Patagônia o final onde todos os trota-mundos cedo ou tarde acabam se encontrando. Mas antes que a ponta de um funil, melhor visualizá-la como uma imensa pradaria cujas ondas cor de trigo mesclam-se, às margens do Estreito de Magalhães, com aquela cor de chumbo, do mar verdadeiro, austral, gelado, varrido pelos williwas, ventos com força de furacão, 3.000 quilômetros ao sul de Buenos Aires.


Estreito de Magalhães - Punta Arenas - Chile
Este enorme canal em cujas margens repousam antigas carcaças do que outrora foram garbosos veleiros, é tradicionalmente conhecido pelos marinheiros como um cemitério de navios. Ora assassinados pelo mar tempestuoso, ora propositalmente largados à morte por capitães mais interessados em apólices do seguro, estes enormes esqueletos de metal oxidado e madeira carcomida assustam os caminhantes com seus fantasmas e mascarões de proa, invocando visões de tempos passados em que estas rotas de navegação eram um tesouro secretamente guardado por reis e piratas.

Sugiro um plano ao leitor: uma rápida viagem à Patagônia descendo pela costa atlântica até a Terra do Fogo. Dali retornaremos pelo coração do continente ombro a ombro com a Cordilheira dos Andes.

O primeiro passo é levantar âncoras da poltrona. Pouquíssima bagagem: apenas aquilo que puder carregar consigo, um bom guia de viagem e, talvez, uma câmera fotográfica. Passando Buenos Aires, cruze as imensas planuras do Pampa rumo sul, observando as baleias e orcas da Península Valdez, visitando os vilarejos gauleses de Gaiman e Trelew e um pernoite para descanso em Puerto Deseado, frente à enseada onde Darwin e o capitão Fitzroy ancoraram o Beagle em 1833.


Capela gaulesa em Trelew - Argentina

Na pracinha desta cidade encontra-se estacionado um histórico vagão de trem - hoje um simpático posto de informações turísticas - mas que foi nos anos 20 o quartel-general do Coronel Héctor Varela, líder das tropas que reprimiram a rebelião anarquista de 21 e do massacre de trabalhadores na Estancia La Anita, onde executou com suas próprias mãos o célebre gaúcho Facón Grande.

Continuando pela costa em direção ao sul, passe por Rio Gallegos - uma cidade que só não foi levada pelo vento devido às suas profundíssimas raízes coloniais - e, em seguida, atravesse de ferry o Estreito de Magalhães até a Isla Grande de Tierra del Fuego. Repartida ao meio entre Chile e Argentina, conta o cronista Antonio Pigafetta que Fernão de Magalhães assim a batizou em 1520 quando avistou, desde o seu navio, uma infinita constelação de fogueiras permanentemente acesas pelos indígenas a fim de afugentarem o frio inclemente.
A partir de então os europeus não pararam mais de chegar, sentenciando à morte os donos daquela terra.

Considerados um dos povos mais primitivos da terra, os Alacalufes habitavam os canais fueguinos e sobreviviam da pesca com arpão a partir de toscas canoas de cortiça, da coleta de mariscos, fungos e carne das focas e baleias que eventualmente chegavam à praia. O contato com os navegantes e os loberos, caçadores de focas vindos desde a Ilha de Chiloé, minou a saúde deste povo com o álcool e as doenças da civilização. Em nossos dias apenas aqueles que embarcarem no navio que uma vez por semana liga Puerto Montt a Punta Arenas, atravessando a miríade de pequenas ilhas e fiordes que entornam esta rota marítima, com alguma sorte talvez veja a última família Alacalufe sobrevivendo da venda de canoas de brinquedo às embarcações que param para abastecer a pequena estação meteorológica de Puerto Éden.


Outros povos não tiveram mais sorte. Os Selk'nam, Yamanas e Tehuelches foram dizimados pelos garimpeiros e colonos que chegavam para ocupar as pastagens com os seus rebanhos de ovelhas, sendo literalmente caçados pelo exército e pelos novos senhores da terra. Sabe-se que grandes donatários chegavam a pagar por cada orelha recebida e é famosa a foto em que o romeno Julius Popper aparece com seus milicianos caçando os índios desnudos. Talvez por esquecimento ou honra ao (de)mérito, hoje Popper virou nome de loja em Ushuaia. Um pouco mais a oeste o Lago Roca tem como homônimo o sobrenome do general que conduziu a partir de 1879 a campanha de extermínio dos índios Tehuelches, eufemisticamente chamada de Conquista del Desierto....

Mas voltemos a temas mais brandos. Considerada a cidade mais austral do mundo, Ushuaia é o vértice da nossa viagem. Guardiã do Canal de Beagle e cercada de montanhas permanentemente nevadas é ponto de parada obrigatório para os navios que seguem para a Antártida e os grandes transatlânticos que circunavegam a América do Sul. Belíssima estada, não esqueça de provar o cozido de centolla, o caranguejo gigante dos mares gelados, e visitar a Baía de Lapataia, ponto final da Rodovia Panamericana que vem desde o Alaska através da espinha dorsal do continente americano, desvanecendo-se em uma pequena praia de águas geladas e transparentes, em meio ao Parque Nacional de la Tierra del Fuego.


Baía de Ushuaia - Terra do Fogo - Argentina

Estância Maria Behety - Terra do Fogo - Argentina
Hora de partir. Destino: Punta Arenas, Chile. Tomando rumo noroeste pare nesta cidade que já foi a mais rica do sul, num tempo em que era porto seguro para os cargueiros que vinham buscar a lã destinada às tecelagens inglesas que impulsionavam a Europa da Revolução Industrial. Poderosas elites regionais como as artistocráticas famílias Braun, Menéndez e Behety ali floreceram, explorando com a mesma avidez o negócio da lã e o labor do imigrante. Seu ocaso foi a abertura do Canal do Panamá em 1914, o qual tornou muito mais curtas e econômicas as rotas comerciais entre o Pacífico e o Atlântico, deixando às cracas e pinguins aquele ventoso porto chileno. Mas a cidade sobreviveu e hoje é o ponto mais urbanizado da Patagônia, onde figuram ricos exemplares de um passado colonial e formidáveis museus sobre a história da região.

Dali subimos para Puerto Natales, passagem certa de aventureiros e considerada o portal para Torres del Paine, um dos mais belos parques que já visitei e cuja caminhada de entorno pode ser feita em 10 dias, atravessando quatro regiões distintas: savana, deserto, montanha e floresta.

Um pouco mais ao Norte, já do lado argentino da fronteira, paramos em Calafate, região de extensas e coloridas planuras onde ainda em nossos dias obtém-se a melhor lã do mundo. 

Não por outro motivo Luciano Benetton é o maior proprietário de estâncias da Patagônia... Estas terras que hoje parecem tão bucólicas já foram esconderijo para ninguém menos do que Butch Cassidy, Sundance Kid e Etta Place, que ali se refugiaram num lugarejo chamado Cholila depois do grande roubo ao First National Bank of Winnemucca em 1900. Perseguidos desde os Estados Unidos pela implacável agência de detetives Pinkerton, conta a história que após um assalto ao banco de Rio Gallegos fugiram para a Bolívia, onde teriam sido mortos em um tiroteio com o exército...



Lenda ou realidade, este não é o atrativo da Calafate, mas sim o grande Glaciar de Perito Moreno, uma língua de gelo que desce desde o cimo da cordilheira até planície, dividindo em dois um braço do Lago Argentino, permanentemente pontilhado de icebergs.


Glaciar Perito Moreno - Calafate - Argentina
E já no caminho de casa encontram-se as duas últimas paradas: El Chaltén, onde está o Cerro Fitz Roy (3.405 m), carinhosamente apelidado de Rouba-Dedos pelos montanhistas e uma das mais difíceis escaladas da Patagônia e, logo depois, a não menos famosa San Carlos de Bariloche, com árduos e prazeirosos afazeres para todos os gostos...

Assim, depois deste rápido périplo pelo Cone Sul voltamos à nossa poltrona para merecido repouso... Mas apenas pelo tempo necessário para planejar a viagem de retorno...
Chile ou Argentina, tanto faz. O certo é que a simples menção da palavra Patagônia funciona como um irresistível imã a atrair aventureiros com vontade de ferro provindos de todos os confins do globo. Aliás, esta parece ser a qualidade obrigatória para adquirir a nacionalidade patagônica e, além do espírito livre, melhor ainda pertencer a algum clã de easy riders sem destino ou rumo certo. E se por acaso o candidato for garimpeiro, órfão, marinheiro, missionário, foragido ou escritor, ótimo, considere já carimbado o seu passaporte para esta terra de ventos de furacão, inacreditáveis histórias e horizontes infinitos.


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IMAGENS: Todas as fotografias sem indicação específica de crédito são de minha autoria. Copyright©João Paulo Lucena 2000

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Por que este blog se chama Terra Australis?

(Orontius Finaeus, 1531)

Nos antigos mapas europeus do século XV a Terra Australis aparecia como um continente hipotético, imaginário, tendo como tradução do latim o significado de "Terra do Sul". Em outras cartas era também referida como "Terra Australis Incognita" e, em sua essência, referia-se ao desconhecido e misterioso espaço vazio que tanto atraía quanto atemorizava a imaginação dos antigos navegantes.

As primeiras noções desta Terra Australis são encontradas em Aristoteles e foram difundidas por Ptolomeu a partir do século I, que acreditava haver terra firme ao sul do Oceano Índico como forma de manter o equilíbrio do mundo com as terras então conhecidas no hemisfério norte.

No topo deste texto está o famoso mapa o matemático italiano Oronzio Fineo, a qual mostra o hipotético continente claramente separado da América do Sul pelo Estreito de Magalhães. A superposição da carta com os limites do hoje conhecido Continente Antártico é bastante interessante como se vê abaixo:

Já durante a Renascença Ptolomeu foi uma das principais fontes para os cartógrafos europeus e este território lendário começou a aparecer em alguns mapas como um continente de linhas indefinidas ao redor do pólo sul, mas muito maior que a atual Antártida.

Mapas do século XVI elaborados por Dieppe enfatizam a existência do misterioso continente, em especial a partir do forte interesse europeu pela região após a descoberta do Brasil em 1500 e do estabelecimento da colônia França Antártica na América do Sul em 1555.

(Jacques de Vaux, 1583)

Jacob Le Maire e Willem Schouten contornaram o Cabo Horn em 1615 e concluiram que a Terra do Fogo era na verdade uma ilha relativamente pequena, separada da Terra Australis que deveria existir mais ao sul. Jacob com seu irmão Isaac chegou a constituir a Companhia Australiana (Australische Compagnie) para comerciar com a Terra Australis, a qual era por eles referida como "Australia".

(Jodocus Hondius, 1608)

Evidências da existência de terras ao sul descobertas por navegadores como Abel Tasman, o primeiro ocidental a avistar a Nova Zelândia em 1642, foram tidas como parte da Terra Australis, assim como a Australia e o sul da África.

(Jan Janssonius, 1637)

A procura pelo continente perdido ainda encontra referências em Juan Fernandez, que declarou tê-lo descoberto em navegação feita a partir do Chile em 1576 e que, aceita na década de 1760 pelo Governo Britânico, motivou a ordem para que James Cook conduzisse o HMS Endeavour na busca de novos territórios tanto ao Sul quanto ao Oeste do Tahiti.

Durante a primeira circunavegação da Nova Zelândia por volta de 1770 foi demonstrado por Cook que esta não fazia parte de um continente maior e, na sua segunda navegação de volta ao mundo, chegou a cruzar o círculo polar antártico, trazendo notícias de que poderiam haver terras com clima temperado mais ao sul e além das regiões geladas que avistou.

O certo é que a Terra Australis Incognita sempre foi sinônimo de mistério e fascinação, inspirando navegantes, exploradores, aventureiros a partir para os confins do globo e muito além das fronteiras até então conhecidas.

(Abrahan Ortelius, cerca de 1570)

Por este motivo, mas sem tanta pretensão, o nome deste blog e do site que o precedeu foi assim escolhido, traduzindo o espírito intrínseco da curiosidade humana de buscar o novo e partir rumo ao desconhecido.

Se nos dias de hoje isto pode ser feito a partir de uma confortável poltrona em frente ao computador, dentro da segurança do lar ao invés do rústico convés de uma nau ou uma caravela, tanto melhor!

Mas, com absoluta certeza, o prazer de deixar levar-se pela imaginação ao navegar pela web ou pelas páginas de um livro instigante não será muito diferente daquela que inspirou os antigos descobridores e lançarem-se aos 7 mares em busca da lendária Terra Australis...

Bom proveito!

Cone Sul/Cadernos da Patagonia: Rumo Sul!

Terra de exploradores, montanhistas, navegantes, índios e dinossauros, um dos destinos onde a aventura representa o principal dos pontos cardeais, a Patagônia é uma das mais belas regiões do planeta e compreende uma imensa área ao sul do nosso continente, estendendo-se por parte dos territórios de dois países do Mercosul: a Argentina e o Chile.

Na ARGENTINA está situada ao sul do Rio Colorado e se divide em duas sub-regiões: a primeira constituída por cadeias montanhosas permeadas por vales, bosques, lagos e geleiras e, a segunda, formada por uma gigantesca meseta de variada morfologia, constituída por serras, desertos, depressões, infinitas estepes e amplos vales fluviais. Representando um terço do território nacional, a Patagônia Argentina compreende as províncias de Neuquén, Rio Negro, Chubut, Santa Cruz e Tierra del Fuego, além dos postulados territórios na Antártida e em ilhas do Atlântico Sul.

Já no CHILE, a Patagônia engloba as Cordilheiras da Costa e dos Andes desde o Rio Biobío até o ponto onde mergulham no oceano e desmembram-se em um arquipélago com mais de 2.000 Km de extensão, composto por milhares de ilhas cobertas de selva e infindáveis fiordes e canais em grande parte inexplorados. Paralela a este quebra-cabeça de ilhas, segue a faixa continental andina reunindo uma seqüência de montanhas nevadas, geleiras, vulcões, e magníficos vales interiores recobertos por florestas frias e sulcados por rios torrentosos, até terminar na extensa planície pampeana da Terra do Fogo.

Dentro da divisão política do país estão abrangidas pela Patagônia chilena as regiões VIII-Biobío, IX-Araucanía, X-Lagos, XI-Aisén e XII-Magallanes e Antártida Chilena.

Resumir este imenso parque de diversões para aventureiros é um desafio para qualquer um. Desta maneira, mesmo deixando de lado inúmeros lugares fantásticos, escolhi escrever sobre alguns dos destinos mais representativos da Patagônia e que maravilham os mais exigentes aficcionados do trekking, montanhismo, off-road, caiaque, rafting, pesca, mergulho, vela e uma infindável variedade de atividades de aventura ligadas à natureza.

Acompanhe neste blog os próximos posts sobre a Patagônia!