quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Aparados da Serra: Acidente com morte no Cânion do Monte Negro

Foto Maicon Damasceno - Agência RBS

A época de Natal não é exatamente aquela em que se espera receber qualquer tipo de notícia tristes e, muito menos, transformar um encontro de pai e filho junto à natureza em uma verdadeira tragédia pessoal.

Pois foi neste final de semana natalino que, enquanto tantos festejavam, acompanhei à distância as operações de busca e resgate de um adolescente perdido no Cânion do Monte Negro, no Município de São José dos Ausentes/RS.

Sidharta Arderius, 16, foi passar o final de semana acampando com seu pai e um tio nos Aparados da Serra, junto ao Cânion do Monte Negro (1.403 m), ponto culminante do território gaúcho e local turístico de grande beleza cênica. No domingo, dia 23/12 o jovem desapareceu e, depois de buscas infrutíferas, seu pai e tio buscaram ajuda.

Equipes de busca formadas por bombeiros de Vacaria e montanhistas voluntários terminaram por encontrar o jovem sem vida a cerca de 100 metros abaixo de um dos penhascos do local. Cogita-se que Sidharta tenha caído dentro do cânion durante um dos momentos de "viração", o perigoso nevoeiro típico da região.

Estive várias vezes no local ao longo dos anos, também acampando quando sequer era um ponte de visitação  turística, outras vezes para apreciar e fotografar a belíssima paisagem, inclusive acompanhado dos meus filhos pequenos e sempre com cuidados redobrados.

Vista desde o cume do Monte Negro para o lado sudeste.
Foto João Paulo Lucena
Os despenhadeiros são perigosos não só em função da enorme altura, mas também porque o solo próximo pode esconder fendas camufladas pelo pasto e pela neblina. Esta última se forma em qualquer época do ano ou hora do dia conforme as variações climáticas, decorrendo do ar quente que sobe do litoral e se condensa quando encontra o ar frio do planalto.

Eu mesmo em certa ocasião me perdi na "viração" no Cânion Churriado e passei uma noite ao relento no coração do Parque Nacional da Serra Geral, perigo que jamais pode ser subestimado.

Abaixo reproduzo duas vistas desde o cume do Monte Negro em direção ao Nordeste, exatamente onde ocorreu o acidente deste final de semana. Na primeira fotografia a imagem do cânion em um dia límpido e na seguinte o fenômeno da "viração" se formando. A neblina sobe e cobre também o planalto, podendo acarretar completa perda da visibilidade.

Vista para o Cânion do Monte Negro em um dia límpido. Foto João Paulo Lucena

Vista para o Cânion do Monte Negro em um dia com formação de neblina ainda a média altitude. Foto João Paulo Lucena

O grupo de Sidharta vinha de Porto Alegre e teria chegado em São José dos Ausentes na sexta-feira. Após o final de semana iriam direto para o litoral passar o Natal com a família. Segundo a descrição dos familiares do jovem o mesmo teria se deslocado para os penhascos em um passeio solitário desde o acampamento localizado entre 300 e 500 metros da borda do cânion, sem avisar o tio e o pai. Assim que notaram o desaparecimento solicitaram auxílio em uma pousada próxima. A família já conhecia o local em possuía experiência na prática de montanhismo.

Jornal Zero Hora de 26/12/2012

Juntamento com o Corpo de Bombeiros participaram da operação de busca e resgate os voluntários Josemar Contesini, Levi Ferreira, Augusto Serralha e Estefano Pereira. Participei com Josemar e Estefano de uma das edições do Curso de Primeiros Socorros em Áreas Remotas da NOLS - veja o relato AQUI no blog - e, com certeza, os conhecimentos adquiridos lhe foram úteis no resgate, apesar do seu indesejado desfecho. 

Meus parabéns aos bombeiros e, muito especialmente por se tratarem de voluntários, à equipe de montanhistas que se dispôs a deixar suas famílias em pleno feriado de Natal a fim de auxiliar com equipamentos próprios e risco pessoal na busca de Sidharta.

Se não é agradavel divulgar notícias desta natureza, resta o consolo e a justificativa de que sempre poderão auxiliar na prevenção de acidentes como este ocorrido nos Aparados da Serra e que, com uma grande probabilidade, decorreu unicamente de falta de precaução e descuido humano. 

Seguem abaixo a notícia publicada no Jornal Zero Hora, de Porto Alegre, algumas imagens das operações de resgate e registros de acidentes anteriores ocorridos na mesma região.



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Jornal Zero Hora - 26 de dezembro de 2012 | N° 17294

LUTO NO CÂNION

Jovem de 16 anos morre ao cair em penhasco na Serra Sidharta Arderius acampava com o pai e um amigo na região do Pico Monte Negro, em São José dos Ausentes, quando o rapaz despencou

Após uma operação de duas horas, que contou com o apoio de uma força-tarefa de montanhistas gaúchos, o corpo do adolescente Sidharta Torves Arderius, 16 anos, foi retirado ontem do cânion Monte Negro, em São José dos Ausentes, nos Campos de Cima da Serra. Ele estava desaparecido desde domingo, quando foi visto pela última vez na área onde acampava com o pai e um amigo.

A hipótese mais provável é de que o rapaz tenha se perdido em meio a uma forte neblina e caído 130 metros. A angústia da família sobre o paradeiro do adolescente, que já durava quase 50 horas, se transformou em luto pouco antes das 15h, quando o corpo de Sidharta foi avistado no paredão íngreme do cânion por um dos montanhistas que se dirigiram ao local para ajudar o Corpo de Bombeiros nas buscas. O adolescente, a mãe e o padrasto eram adeptos do montanhismo. Praticantes do esporte de Caxias do Sul, Gravataí e Porto Alegre se mobilizaram para prestar auxílio.

Das cerca de 20 pessoas que atuaram no resgate do corpo, perto de uma dezena eram montanhistas. Juntamente com bombeiros de Vacaria, Gramado, Farroupilha, Canela e Caxias, deslocaram o corpo para uma área com menos árvores e começaram a içá-lo por meio de cordas.

Desesperados em busca de informações sobre o paradeiro do adolescente, familiares de Sidharta começaram a percorrer o fundo do cânion na véspera. Por conta própria, o pai, a mãe e o padrasto passaram a noite na região. Eles foram encontrados por bombeiros no meio da tarde de ontem, quase ao mesmo tempo em que o corpo do jovem era localizado.

Do lado de cima do cânion, o tio Renê Arderius acompanhou o trabalho da equipe de resgate:

– Ele e o pai estavam felizes que iam passar este tempo juntos.

Além dos bombeiros e montanhistas, o avião Ximango da Brigada Militar e um helicóptero de Santa Catarina chegaram a sobrevoar o local.

Sidharta desapareceu quando o pai, Eduardo Arderius Soares, 35 anos, e um amigo descansavam pouco antes das 13h30min de domingo. Eles acampavam a cerca de 500 metros da borda do cânion e nas proximidades do Pico Monte Negro, o ponto mais alto do Estado. A hipótese mais provável é que o adolescente tenha saído sozinho para fazer um passeio e, em meio à forte neblina, tenha se perdido e caído.

francisco.amorim@zerohora.com.br
FRANCISCO AMORIM | SÃO JOSÉ DOS AUSENTES


Foto Maicon Damasceno - Agência RBS
Josemar Contesini, Levi Ferreira, Augusto Serralha e Estefano Pereira ajudando no resgate. Foto Luciane Castilhos
Foto Luciane Castilhos
Foto Luciane Castilhos
Foto Maicon Damasceno - Agência RBS
Foto Maicon Damasceno - Agência RBS
Foto Maicon Damasceno - Agência RBS

Jornal Zero Hora de 26/12/2012

Jornal Zero Hora de 26/12/2012


3 comentários:

  1. Foi uma grande fatalidade. Chamem como queiram, mas não falem em negligência do pai. O rapaz tinha 16 anos e, segundo informado, possuía já alguma experiência neste tipo de atividade e conhecia o local. Era a sua "hora". Poderia ter morrido de qualquer outra forma, em casa dormindo, passeando na rua de uma cidade, num acidente de trânsito ou em qualquer outra situação muito mais comezinha do que a ocorreu, e assim, certamente, não haveria tanto burburinho. Quis o destino que fosse no cânion e fazendo o que gostava com quem gostava.
    Que a família encontre conforto e forças para superar o trágico episódio.

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  2. Muito bom o relato, mas gostaria só de corrigir alguns trechos, se me permite:

    * Segundo a descrição dos familiares do jovem o mesmo teria se deslocado para os penhascos em um passeio solitário desde o acampamento localizado entre 300 e 500 metros da borda do cânion, sem avisar o tio e o pai.

    Na verdade ele(Sidarta)estava acampando com o pai e uma amigo perto do estacionamento. Depois do almoço eles caminharam até a borda do canyon, esticaram uma lona e se deitaram em cima para dar uma "lagartiada". Quando o pai acordou, notou que ele não estava mais ali deitado e saiu a procurar. Caminharam por um longo tempo, cerca de duas horas chamando-o, até que buscaram ajuda nas pousadas próximas. Procuraram até a noite e nada.
    O tio dele chegou no outro dia, juntamente com alguns bombeiros e algumas pessoas para ajudar.

    * Participei com Josemar e Estefano de uma das edições do Curso de Primeiros Socorros em Áreas Remotas da NOLS - veja o relato AQUI no blog - e, com certeza, os conhecimentos adquiridos lhe foram úteis no resgate, apesar do seu indesejado desfecho.

    Com certeza o curso da NOLS é muito bom, mas infelizmente nós o encontramos já sem vida, nada pôde ser feito.

    Att,

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  3. Odilei, grato pela complementação. As informações que utilizei foram aquelas publicadas pela imprensa. Abraço!

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