sábado, 22 de janeiro de 2011

Montanhismo: Escaladora relata com detalhes acidente na Patagônia

Renata "Kika" Bradford. Fonte: O Globo

Dando seguimento à serie de postagens que fiz aqui no blog com informações e opinião sobre o acidente fatal havido no início deste mês com Bernardo Collares em El Chaltén, Argentina, pela primeira vez desde o ocorrido a sua parceira de escalada, Renata Bradford, veio à público para dar uma versão mais detalhada dos fatos.

Do depoimento feito à imprensa e de todas as notícias já divulgadas, para mim ainda fica em aberto somente um ponto: - Por que os escaladores não estavam utilizando rádio ou qualquer outra espécie de comunicador para informar o acidente tão logo fosse possível?

Se o resgate poderia ou não chegar a Bernardo não é algo que pudesse ou devesse ser previsto ou avaliado no momento do acidente. O certo é que comunicadores e/ou sinalizadores de socorro são equipamentos de segurança imprescindíveis em uma escalada com o nível de dificuldade extrema como a do Cerro Fitz Roy.

Segue abaixo o relato integral feito para o Jornal O Globo, do Rio de Janeiro, onde Kika descreve o que aconteceu na escalada.


"RIO - A escaladora carioca Kika Bradfford relata o momento da despedida de Bernardo Collares no Monte Fitz Roy, na Patagônia argentina com emoção. Ao quebrar a bacia no Monte Fitz Roy, ele não pôde prosseguir a escalada no último dia 3 de janeiro. Collares, já sabendo que sua situação era bem crítica, mostrou-se muito preocupado com a amiga, que teve que descer sozinha uma montanha que mesmo os escaladores mais experientes preferem enfrentar com um parceiro ou uma equipe. Kika desceu com a esperança de conseguir um resgate a tempo para salvá-lo. Não foi possível. A família de Collares já o considera morto.

Durante esta entrevista, Kika detalha os últimos momentos que passou com o companheiro de escalada e a grandeza dele ao dizer adeus à amiga.

Como foi a última conversa com Bernardo?

KIKA BRADFFORD: No nosso último diálogo, ele me disse: "Kika, daqui eu só saio de helicóptero e você precisa descer sozinha e buscar ajuda. E se o helicóptero não vier hoje"... Ele não completou a frase. E eu respondi: "Berna não fala isso, porque hoje não vou conseguir chegar à base, vou tentar chegar amanhã". Com dores intensas, ele teve a grandeza de dizer: "Kika, você não teve culpa e, se alguém perguntar qualquer coisa, todas as decisões a gente tomou junto". Preparei as ultimas coisas, deixei mais água, botei mais roupas nele, a balaclava, lhe dei remédio e disse: "Estou indo".

Ele falou alguma coisa?

KIKA: Sim, me recomendou calma. "Vai com muita calma". Beijei a testa dele, disse "eu te amo" e desci. Saí de perto do Berna no dia 3 de janeiro, às 14h.

Conseguiu manter a calma?

KIKA: No início da descida, a sensação era de que eu não era eu, que era só um corpo e que esse corpo estava somente focado nos procedimentos. Eu tinha de descer o mais rápido possível para acionar o resgate. A única chance de o Berna sobreviver era eu chegar à base da montanha.

Como foi o início da escalada de vocês no Monte Fitz Roy?

KIKA: Começamos no dia 1º de janeiro. Às 14h30m, demos início à escalada. Nosso objetivo do dia era escalar cerca de 600 metros. Se conseguíssemos 300 metro, já estaríamos satisfeitos. O ritmo da escalada estava bom e, surpreendentemente, chegamos aos 300 metros, às 17h30m. E, como lá só escurece às 22h30m, seguimos para o nosso objetivo, chegando a 600 metros, às 21h. Estávamos ligados nas coisas técnicas, mas ficamos deslumbrados com a beleza do por do sol no Gelo Continental, que é a maior massa de gelo da face da terra, fora dos polos. Vimos montanhas lindas.

Como foi o acidente?

KIKA: No dia 2, começamos a escalar às 7h30m. O objetivo era subir uns mil metros no segundo dia de escalada, o que conseguimos às 22h. Foi quando começamos a questionar se iríamos continuar rumo ao cume.

Por quê?

KIKA: De madrugada, começou a nevar. A previsão era de 0,5 milímetros de precipitação à noite, mas o dia transcorreria sem precipitação alguma. Mas acordamos com uma realidade diferente: vento forte e, o pior, muita névoa. Resolvemos descer e abortar a missão.

O que ocorreu?

KIKA: A melhor opção para descer era subir mais cem metros e descer por uma outra via. Subimos 30 metros e não conseguimos visualizar mais por onde iríamos subir. Descemos pela via por onde havíamos subido. Fizemos quatro rapéis. Completei o quinto rapel e quando Berna fazia o mesmo, deu um grito. O meu reflexo foi agarrar a corda, que, por sorte, havia se prendido a uma pedra acima, o que impediu que ele caísse. Berna, porém, teve uma queda de cerca de 20 metros. Uma ancoragem dele havia se desprendido e, por isso, ele caiu. Comecei a criar ancoragens mais fortes para segurar bem a corda do Berna, quando ele despertou de um desmaio de dois minutos.

O que ele disse?

KIKA: Perguntou o que havia acontecido. Expliquei que a ancoragem dele havia saído. Ele começou a reclamar de fortes dores e inúmeras vezes perguntou o que tinha ocorrido e a afirmar que tinha quebrado o dedo da mão esquerda. Em seguida, afirmou: "Kika não estou entendo nada, não sei nem onde estou". Isso foi um choque para mim. Eu falei que a gente estava no Fitz. Apesar da dificuldade de concentração e da dor extrema, ele seguiu as instruções. Eu tirei a mochila dele e o levei ao platô. Botei um isolante térmico para proteger seu corpo da pedra e o saco de dormir. O nível da dor dele era imenso. Ele reclamava muito da dor no quadril, no cóccix e na coluna lombar. Mas eu assegurei o maior conforto possível e precisei buscar a corda que havia caído. Por sorte, ela estava num platô a 60 metros. Demorei uma hora. Quando voltei, Berna estava lúcido, mas sua dor aumentou. Ele perguntou se eu havia recuperado a corda. Já percebia tudo à sua volta.

Como você desceu?

KIKA: No dia 3 de janeiro, após me despedir de Berna, fiz rapéis das 14h às 22h40m. Jamais faria uma escalada dessas sozinha. Encontrei o mesmo platô, no qual a gente havia passado a primeira noite na montanha. Pela dificuldade de visualizar o caminho e a alta probabilidade de me perder, esperei o amanhecer no platô. O vento estava forte e havia começado a nevar. Eu tremia e pensava muito no Berna. Às 5h45m, reiniciei a descida.

E como foi?

KIKA: O vento continuava forte, mas a visibilidade tinha melhorado, embora estivesse nevando. Eu deveria estar a 400 metros da base. Continuei descendo e cheguei ao local a 300 metros da base. O cansaço físico e mental era grande, e os rapéis cada vez mais desconfortáveis. Mas a minha motivação grande era chegar e tentar o resgate.

Você correu mais riscos?

KIKA: Num dos rapéis, a corda se prendeu a uma pedra. Para soltá-la, precisaria subir mais 40 metros, com grau de dificuldade alto. Resolvi cortar a corda. Continuei a descida com uma corda de 60 metros e a outra cortada, com 17 metros. Num próximo rapel, a corda ainda prendeu três vezes, eu tive que cortá-la, ficando com cada vez menos corda. Entre esses vários rapéis, mais um susto. Na pressa de sair de um lugar exposto ao vento e à neve, passei a corda por duas ancoragens. Uma delas falhou, mas a outra segurou. O incidente aumentou a minha tensão.

Quando chegou à base?

KIKA: Cheguei no dia 4, 24 horas depois de eu haver deixado o Bernardo. Duas horas e meia depois, encontrei o meu namorado, Juan Manuel Sanchez, que mora em Chalten, e um amigo dele, Luiz. Passei ao Luiz todas as informações para que as transmitisse por rádio à coordenação de resgate. Foi o primeiro momento em que eu me permiti chorar e perder um pouco do controle. Caminhamos por quatro horas até um abrigo, onde encontrei uma pessoa da comissão de resgate. 

Quando soube da impossibilidade do resgate?

KIKA: Na noite do dia 4, a comissão de resgate e escaladores voluntários se reuniram. No dia seguinte, cheguei a Chalten, às 11h, e falei com a chefe da comissão de resgate para saber o que estava sendo feito. Ela disse que os riscos eram muito altos por causa do clima e que, infelizmente, nada poderiam fazer."
Fonte: Jornal O Globo, 17/01/2011

CONFIRA A COBERTURA FEITA PELO TERRA AUSTRALIS:


- 05/01/2011 - Argentina: Montanhismo brasileiro perde Bernardo Collares no Fitz Roy
- 06/01/2011 - Argentina/Montanhismo: Bernardo Collares, onde está o resgate? Falecimento do montanhista ainda não foi confirmado.
- 07/01/2011 - Argentina/Montanhismo: Comunicado da FEMERJ sobre o acidente no Fitz Roy
- 07/01/2011- Argentina/Montanhismo: Condições de risco não permitem resgate no Fitz Roy
- 08/01/2011 - Argentina/Montanhismo: Resgate aguarda melhora do clima para busca de Bernardo
- 09/01/2011 - Argentina/Montanhismo: Autoridades poderão deixar andinista brasileiro na montanha
- 10/01/2011 - Argentina/Montanhismo: Fim da polêmica, família decide e Bernardo ficará no Fitz Roy
- 11/01/2011 - Montanhismo: Escaladores convocam homenagem a Bernardo Collares no próximo dia 15 no Rio de Janeiro
- 14/01/2011 - Montanhismo: Acidente no Fitz Roy. Um ponto final.
- 16/01/2011 - Montanhismo: Escalada coletiva cobre a Urca em homenagem a Bernardo Collares

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Livros/Natureza: Um mistério na Sierra Nevada - "The Last Season", de Eric Blehn.

Fonte: The Last Season
Para os outsiders e outros aficcionados pela vida e atividades junto à natureza, segue uma sugestão de livro que me passou pelas mãos e do qual gostei bastante.

Eric Blehn. Foto: Lorien Warner
Em 1996, depois de aproximadamente 28 temporadas como park ranger voluntário nos Parques Nacionais e Sequoia e Kings Canyon, na Serra Nevada, EUA, Randy Morgenson saiu para uma patrulha de rotina e nunca mais retornou. Somente 5 anos após o seu corpo foi encontrado e até hoje as circunstâncias de sua morte remanescem nebulosas.

Em The Last Season (Harper Collins, 2006, ISBN: 0060583002) Eric Blehn relata o resultado de vários anos de investigações, explorando muitos aspectos da peculiar carreira de Morgenson. Afinal, por qual motivo um veterano ranger voluntário, apaixonado pela natureza e desapegado dos valores da vida urbana, acostumado com o trabalho em postos isolados e com um grande conhecimento do seu território poderia ter desaparecido tão misteriosamente? Sua morte teria sido de fato um acidente?

High Sierra/CA, a região onde se passa a história. Fonte: The Last Season

Erick Blehn traz esta história real em uma instigante narrativa, prendendo a atenção do leitor do início ao fim. Se você leu "Na Natureza Selvagem" de John Krakauer, certamente vai se interessar muito por "The Last Season", de Eric Blehm, ainda não disponível em português mas facilmente encontrável na Amazon Books.

Fica aí mais esta dica de leitura!


Folheto distribuído quando do desaparecimento de Randy Morgenson
Fonte: The Last Season


PARA SABER MAIS:

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Montanhismo: A Declaração do Tirol - Ética, segurança e boas práticas na escalada e atividades outdoor

Cerro Aconcágua. Acampamento Cambio de Pendiente. Foto: João Paulo Lucena
O recente acidente fatal com Bernardo Collares no Cerro Fitz Roy, Argentina, trouxe à baila a discussão sobre os riscos inerentes à escalada e o suposto "direito" do escalador a um resgate obrigatório.

Não é bem assim...

A prática do montanhismo, ao contrário do que muitos podem pensar, não se resume unicamente à escaladas em gelo e rocha mas também engloba todas as atividades ao ar livre a ele relacionadas e praticadas em ambiente de montanha, não necessariamente em grandes altitudes.

Aconcágua. Acampamento Confluencia. Foto: João Paulo Lucena
Como exemplo podem ser citados o camping, o trekking, o ski, o canionismo, o snowboard, o paraglider, basejump e inúmeras outras.

O que importa é que, de forma geral, as atividades ao ar livre, comumente chamadas de outdoor, podem se revestir de determinados riscos, em especial quando praticadas em áreas remotas e de difícil acesso. Nestes casos o praticante estará exposto a tais riscos por vontade própria e deverá estar ciente que, em caso de necessidade, o socorro poderá demorar a chegar, chegar tarde demais ou, ainda, sequer existir.

Eventualmente acidentes ocorrem e pelos mais variados motivos. Falha dos praticantes, do material, reviravoltas no clima e tantas outras...

Além das óbvias e indesejáveis consequências humanas de um acidente grave, no seu rastro chegam também os frutos da repercussão junto ao público e às autoridades. Alguns de caráter positivo como o incremento da conscientização e prevenção de riscos, outros negativos como a exacerbação do caráter paternalista das autoridades ao restringir ou mesmo proibir a prática de certas atividades e acesso a determinados locais de prática.

Em outras palavras, seria o mesmo que proibir a escalada nas montanhas onde uma vez houveram acidentes graves ou fatais... Imaginem isto no Aconcágua, em El Cápitan, no McKinley, no Everest ou, para referir algo em nossa casa, nas vias da cidade do Rio de Janeiro.


Yosemite National Park - EUA. Foto: João Paulo Lucena

Tal raciocínio tolhe de plano a intrínseca liberdade do homem de locomover-se em áreas naturais e de suprir a sua inexorável vontade de superar limites e explorar os mais recôndidos recantos do planeta.

Para tanto, cada qual tem seus motivos e até hoje ainda não apareceu explicação de todo racional para a prática de atividades reconhecidamente de risco como fonte de satisfação e prazer do ser humano...
 
No que se refere à escalada e atividades afins, em foi aprovada a Declaração do Tirol sobre a Melhor Prática em Esportes de Montanha (The Tyrol Declaration), resultado da Conferência sobre o Futuro dos Esportes de Montanha em Innsbruck, em 8 de setembro de 2002.

Cerro Pequeña Ilusión, Bolívia.
Foto: João Paulo Lucena
E é a primeira diretriz da Declaração justamente aquela que trata sobre a responsabilidade pessoal e reconhecimento de riscos pelo praticante do montanhismo:

"Artigo 1 - Responsabilidade Individual - Montanhistas e escaladores praticam seus esportes em situações nas quais há risco de acidentes e em que a ajuda externa pode não estar disponível. Com isso em mente, eles se dedicam a essas atividades sob sua própria responsabilidade, sendo de sua conta sua própria segurança. As ações de um indivíduo não devem expor a perigo nem o próximo, nem o meio ambiente."

Ao que complementa o seu Artigo 6 - Emergências, Morbidez e Morte:
 
"Para estarem preparados para emergências e situações envolvendo acidentes sérios e morte, todos os praticantes de esportes de montanha devem entender claramente os riscos e perigos e a necessidade de se ter habilidades, conhecimentos e equipamentos adequados. Todos os praticantes precisam estar prontos para ajudar os outros no caso de uma emergência ou acidente, e também estar preparados para encarar as conseqüências de uma tragédia."

Embora não constitua uma norma de caráter cogente, de aplicação obrigatória, a Declaração do Tirol é composta por um conjunto de princíos e recomendações, servindo como baliza de orientação para o meio montanhista, representando o pensamento predominante no mundo de como deve ser o comportamento e o que se espera daquele que pratica o montanhismo ou qualquer uma das suas variações.

Recomendações sobre a prática responsável da atividade, mínimo impacto na natureza, reconhecimento de riscos, respeito às culturas locais, princípios éticos, acidentes e resgates são apenas alguns dos pontos abrangidos pela Declaração.

Vale conferir, divulgar e também aproveitar suas diretrizes quando da prática de qualquer espécie de atividade junto à natureza, envolvendo ou não riscos à vida e à saúde. Seguem as máximas da Declaração do Tirol de 2002:


* - * - * - * - *


DECLARAÇÃO DO TIROL SOBRE A MELHOR PRÁTICA EM ESPORTES DE MONTANHA (The Tyrol Declaration)

Conferência sobre o Futuro dos Esportes de Montanha - Innsbruck, Áustria - 08/09/2002


As Máximas e as Diretrizes da Declaração do Tirol:

Artigo 1 – Responsabilidade Individual

MÁXIMA

Montanhistas e escaladores praticam seus esportes em situações nas quais há risco de acidentes e em que a ajuda externa pode não estar disponível. Com isso em mente, eles se dedicam a essas atividades sob sua própria responsabilidade, sendo de sua conta sua própria segurança. As ações de um indivíduo não devem expor a perigo nem o próximo, nem o meio ambiente.

1. Nós escolhemos nossas metas de acordo com nossas reais habilidades ou com as da equipe e de acordo com as condições na montanha. Desistir da escalada deve ser uma opção válida.

2. Nós nos asseguramos de que temos o treinamento adequado para nosso objetivo, de que planejamos nossa escalada ou caminhada cuidadosamente, tendo providenciado as preparações necessárias.

3. Nós nos asseguramos de que estamos equipados apropriadamente em cada excursão e que sabemos como usar o equipamento.

Artigo 2 – Espírito de Equipe

MÁXIMA

Membros de uma equipe devem estar dispostos a fazer concessões para equilibrar os interesses e habilidades de todo o grupo.

1. Cada membro da equipe deve estimar seus companheiros de equipe e deve assumir responsabilidade pela segurança deles.

2. Nenhum membro de equipe deve ser deixado sozinho se isso colocar em risco seu bem-estar.

Artigo 3 – Comunidade de Escalada & Montanhismo

MÁXIMA

Nós devemos a todas as pessoas que encontramos nas montanhas ou nas rochas uma porção igual de respeito. Mesmo em condições isoladas e em situações estressantes, nós não devemos nos esquecer de tratar os outros da maneira como queremos que nos tratem.

1. Nós fazemos tudo o que podemos para não expor os outros a perigo e nós avisamos os outros sobre perigos em potencial.

2. Nós asseguramos que ninguém seja discriminado.

3. Como visitantes, nós respeitamos as regras locais.

4. Nós não atrapalhamos ou perturbamos os outros mais do que o necessário. Nós damos passagem a grupos mais velozes. Nós não ocupamos vias que outros estejam aguardando para fazer.

5. Nossos relatórios de escaladas refletem com veracidade os eventos reais em detalhe.

Artigo 4 – Visitando Países Estrangeiros

MÁXIMA

Como convidados em culturas estrangeiras, nós devemos sempre nos comportar de forma educada e com comedimento em relação aos nativos – nossos anfitriões. Nós vamos respeitar montanhas sagradas e outros lugares sagrados, ao mesmo tempo em que buscaremos beneficiar e ajudar a economia local e os nativos. Compreensão de culturas estrangeiras é parte de uma experiência completa de escalada.

1. Sempre trate as pessoas do país anfitrião com simpatia, tolerância e respeito.

2. Cumpra estritamente qualquer regulamento de escalada implementado pelo país anfitrião.

3. É aconselhável ler sobre a história, sociedade, estrutura política, arte e religião do país a ser visitado antes de embarcar na viagem para melhorar nosso entendimento sobre suas pessoas e seu ambiente. No caso de incerteza política, busque conselho oficial.

4. É sábio desenvolver algumas habilidades básicas na língua do país anfitrião: formas de saudação, por favor e obrigado, dias da semana, hora, números etc. É sempre impressionante ver como esse investimento tão pequeno melhora a qualidade da comunicação. Dessa forma, nós contribuímos para o entendimento entre as culturas.

5. Nunca deixe passar uma oportunidade de compartilhar suas habilidades de escalada com locais interessados. Expedições conjuntas com escaladores nativos são o melhor cenário para troca de experiências.

6. Nós evitamos a todo custo ofender os sentimentos religiosos de nossos anfitriões. Por exemplo, nós não devemos mostrar pele descoberta em lugares em que isso seja inaceitável por razões religiosas ou sociais. Se algumas expressões de outras religiões estão além de nossa compreensão, nós somos tolerantes e evitamos julgar.

7. Nós damos toda assistência possível a habitantes locais em necessidade. Um médico de expedição está sempre em posição de fazer uma diferença decisiva na vida de uma pessoa extremamente doente.

8. Para beneficiar economicamente as comunidades de montanha, nós compramos produtos regionais, se viável, e nos valemos dos serviços locais.

9. Nós somos encorajados a assistir comunidades de montanha iniciando e sustentando empreendimentos que favoreçam o desenvolvimento sustentável, como por exemplo os serviços de treinamento e educação ou iniciativas econômicas ecologicamente compatíveis.

Artigo 5 – Responsabilidades de Guias de Montanha e outros Líderes

MÁXIMA

Cada guia de montanha profissional, líder e membro de grupo deve entender seu respectivo papel e respeitar as liberdades e direitos de outros grupos e indivíduos. Para serem guias preparados, líderes e membros de grupos devem entender as demandas, os perigos e os riscos do objetivo, ter as habilidades necessárias, experiência e equipamento adequado, e checar o tempo e outras condições.

1. O guia ou líder informa o cliente ou o grupo sobre o risco inerente em uma escalada e sobre o nível real de perigo, e, se os participantes têm experiência suficiente, envolve-os no processo de tomada de decisão.

2. A via selecionada deve estar adequada à habilidade e à experiência do cliente ou do grupo de maneira a assegurar que a experiência seja agradável e enriquecedora.

3. Se necessário, o guia ou líder reconhece o limite de sua própria habilidade e, quando apropriado, indica colegas mais capazes para os clientes ou grupos. É responsabilidade dos muito grande e se o retorno ou opções alternativas devem ser seguidas.

4. Em circunstâncias como escaladas extremas e ascensões em alta montanha, guias e líderes devem informar com cuidado seus clientes e grupos para se certificarem de que todo mundo está totalmente alertado sobre os limites de suporte que guias e líderes podem prover.

5. Guias locais informam a colegas visitantes sobre as particularidades características de sua área e sobre as condições atuais.

Artigo 6 – Emergências, Morbidez e Morte

MÁXIMA

Para estarem preparados para emergências e situações envolvendo acidentes sérios e morte, todos os praticantes de esportes de montanha devem entender claramente os riscos e perigos e a necessidade de se ter habilidades, conhecimentos e equipamentos adequados. Todos os praticantes precisam estar prontos para ajudar os outros no caso de uma emergência ou acidente, e também estar preparados para encarar as conseqüências de uma tragédia.

1. O socorro a alguém em apuros tem absoluta prioridade sobre atingir objetivos que estipulamos para nós mesmos nas montanhas. Salvar uma vida ou reduzir o dano à saúde de uma pessoa ferida é muito mais valoroso do que a mais difícil de todas as conquistas.

2. Numa emergência, se ajuda externa não está disponível e nós estamos em posição de ajudar, devemos estar preparados para dar todo o suporte que podemos às pessoas em apuros, desde que seja viável sem nos expor ao perigo.

3. Deve ser proporcionado a quem esteja seriamente ferido ou moribundo todo conforto possível, bem como lhe deve ser oferecido suporte de preservação de vida.

4. Em uma área remota, se não for possível recuperar o corpo, deve ser registrada a localização da forma mais precisa possível, bem como quaisquer indicações da identidade do morto.

5. Objetos como câmera, diário, notebook, fotos, cartas e outros artefatos pessoais devem ser guardados e entregues aos familiares.

6. Sob nenhuma circunstância podem ser publicadas fotos do morto sem o consentimento prévio da família.

Artigo 7 – Acesso e Conservação

MÁXIMA

Nós acreditamos que a liberdade de acesso a montanhas e paredes de maneira responsável é um direito fundamental. Nós devemos sempre praticar nossas atividades de uma forma ambientalmente sensível e devemos ser proativos na preservação da natureza. Nós respeitamos restrições a acesso e regulamentos acordados entre escaladores e organizações de conservação de natureza e autoridades.

1. Nós respeitamos as medidas de preservação de ambientes de parede e montanha e da vida selvagem que eles sustentam, e nós encorajamos nossos companheiros escaladores a fazer o mesmo. Evitando fazer barulho, nós nos esforçamos na redução da perturbação da vida selvagem ao mínimo.

2. Se possível, nós nos locomovemos para nossos destinos usando transporte público ou outros transportes coletivos para minimizar o tráfico nas estradas.

3. Para evitar erosão e não perturbar a vida selvagem, nós permanecemos nas trilhas durante aproximações e descidas e, quando fora da trilha, escolhemos a rota menos agressiva ao ambiente.

4. Durante os períodos de acasalamento e nidificação de espécies que habitam as montanhas, nós respeitamos restrições sazonais de acesso. Logo que tomamos ciência de qualquer atividade de acasalamento, nós devemos passar adiante essa informação para outros escaladores e assegurar que eles fiquem fora da área de nidificação.

5. Durante conquistas, nós tomamos o cuidado de não ameaçar o biótopo de espécies raras de plantas e animais. Ao equipar ou reequipar vias, nós devemos tomar todas as precauções para minimizar seu impacto ambiental.

6. As conseqüências da popularização de áreas através de retrogrampeação devem ser cuidadosamente consideradas. O aumento de números pode causar problemas de acesso.

7. Nós minimizamos o dano à rocha por meio da utilização da técnica de proteção menos prejudicial.

8. Nós não apenas carregamos nosso próprio lixo de volta para a civilização, como também catamos qualquer detrito deixado por outros.

9. Na ausência de instalações sanitárias, nós mantemos uma distância adequada de casas, locais de acampamento, córregos, rios e lagos durante a defecação e tomamos todas as medidas necessárias para evitar dano ao ecossistema. Nós procuramos não agredir o senso estético das pessoas. Em áreas muito freqüentadas com um baixo nível de atividade biológica, os escaladores têm o encargo de carregar de volta suas fezes.

10. Nós mantemos o local de acampamento limpo, evitando gerar lixo tanto quanto possível ou dispondo dele adequadamente. Todos os materiais de escalada – cordas fixas, barracas e garrafas de oxigênio – devem ser removidos da montanha.

11. Nós mantemos o consumo de energia no mínimo. Especialmente em países com falta de lenha, nós evitamos ações que possam contribuir para a destruição das florestas. Em países com florestas ameaçadas, nós precisamos levar combustível suficiente para preparar comida para todos os participantes da expedição.

12. Turismo de helicóptero deve ser minimizado onde for prejudicial à natureza ou à cultura.

13. Em conflitos sobre matérias de acesso, proprietários de terra, autoridades e associações devem negociar soluções satisfatórias para todas as partes.

14. Nós temos papel ativo na implementação de regulamentos, especialmente dando publicidade a eles e implementando a infraestrutura necessária.

15. Ao lado de associações de montanhismo e outros grupos de conservação, nós somos proativos a nível político no que diz respeito à proteção de habitats naturais e do ambiente.

Artigo 8 – Estilo

MÁXIMA

A qualidade da experiência e a forma como resolvemos o problema é mais importante do que se o resolvemos. Nós nos esforçamos por não deixar rastros.

1. Nós almejamos preservar o caráter original de todas as escaladas, em especial aquelas com importância histórica. Isso significa que os escaladores não devem aumentar a quantidade de proteções fixas em vias existentes. A exceção é quando há um consenso local – incluindo a aprovação dos conquistadores – para mudar o nível de proteções fixas por meio da colocação de novas peças ou da remoção de proteções existentes.

2. Nós respeitamos a diversidade de tradições regionais e não tentaremos impor nosso ponto de vista a outras culturas de escalada – nem aceitaremos os valores de outros impostos sobre os nossos.

3. Rochas e montanhas são um recurso limitado para aventura que deve ser compartilhado por escaladores com os mais diversos interesses e por muitas gerações que virão. Nós entendemos que gerações futuras precisarão encontrar suas próprias NOVAS aventuras dentro desse limitado recurso. Nós tentamos desenvolver paredes ou montanhas de uma forma que não roube a oportunidade do futuro.

4. Em uma região em que grampos são aceitos, é desejável que sejam mantidas vias, seções de morros ou morros inteiros livres de grampos de maneira a preservar um refúgio para aventura e para mostrar respeito pelos diversos interesses de escalada.

5. Vias com proteções naturais podem ser tão divertidas e seguras para escaladores recreativos quanto vias grampeadas. A maior parte dos escaladores pode aprender a colocar proteção natural segura e todos devem ser educados para o fato de que isso proporciona aventura adicional e uma experiência rica e natural, com segurança comparável, uma vez aprendidas as técnicas.

6. Em caso de grupos com interesses conflitantes, os escaladores devem resolver suas diferenças através de diálogo e negociação para evitar que o acesso seja ameaçado.

7. Pressões comerciais nunca devem influenciar a ética de escalada de uma pessoa ou de uma região.

8. Bom estilo em alta montanha implica no não uso de corda fixas, drogas de aumento de performance ou oxigênio engarrafado.

Artigo 9 – Conquistas

MÁXIMA

A conquista de uma via ou de uma montanha é um ato de criação. Ela deve ser feita em bom estilo de acordo com as tradições da região e devem mostrar responsabilidade com a comunidade de escalada local e com as necessidades dos escaladores futuros.

1. Conquistas devem ser ambientalmente responsáveis e compatíveis com regulamentos locais, com as vontades dos proprietários dos terrenos e com os valores espirituais da população local.

2. Nós não vamos desfigurar a rocha por meio da quebra ou da adição de agarras.

3. Em regiões alpinas, as conquistas devem ser feitas exclusivamente guiando (sem peça pré-fixada acima).

4. Uma vez respeitadas as tradições locais, cabe ao conquistador determinar o nível de proteções fixas em suas vias (levando em consideração as sugestões do artigo 8).

5. Em áreas designadas como reservas selvagens ou naturais por administradores ou pelo comitê de acesso local, grampos devem ser limitados ao mínimo absoluto para preservação do acesso.

6. Cavar buracos e bater grampos durante a conquista de vias em artificial deve ser mantido em um mínimo (grampos devem ser evitados mesmo em ancoragens de paradas, a menos que sejam absolutamente necessários).

7. Vias de aventura devem ser deixadas tão naturais quanto possível, contando com proteção móvel sempre que viável e utilizando grampos apenas quando necessário e sempre sujeitando-se às tradições locais.

8. O caráter independente das vias adjacentes não deve ser comprometido.

9. No relatório de conquistas, é importante relatar os detalhes com a maior precisão possível. A honestidade e a integridade de um escalador serão presumidas a menos que haja evidência comprometedora.

10. Altas montanhas são um recurso limitado. Nós encorajamos os escladores a utilizarem o melhor estilo.

Artigo 10 – Patrocínio, Propaganda e Relações Públicas

MÁXIMA

A cooperação entre patrocinadores e atletas deve ser uma relação profissional que sirva aos melhores interesses dos esportes de montanha. É responsabilidade da comunidade de esportes de montanha, em todos os seus aspectos, educar e informar tanto a mídia como o público de uma maneira proativa.

1. Compreensão mútua entre o patrocinador e o atleta é necessária para a definição de objetivos em comum. As muitas facetas dos esportes de montanha requerem a identificação clara da especialização tanto do atleta quanto do patrocinador para maximizar as oportunidades.

2. Para manter e melhorar seus níveis de performance, escaladores são dependentes de um contínuo suporte de seus patrocinadores. Por esta razão, é importante que os patrocinadores mantenham a cobertura de seus parceiros mesmo após uma série de falhas. Sob nenhuma circunstância pode o patrocinador pressionar o escalador a obter resultados.

3. Para estabelecer uma presença permanente em toda as mídias, canais claros de comunicação devem ser organizados e mantidos.

4. Escaladores devem se esforçar em relatar suas atividades realisticamente. Um relatório preciso melhora não apenas a credibilidade do escalador, mas também a reputação pública de seu esporte.

5. O atleta é responsável em última instância por representar ao patrocinador e à mídia a ética, o estilo e a responsabilidade ambiental estatuída na Declaração do Tirol.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Cinema: Câmera de filmar x Câmera fotográfica. As novas tecnologias em longa-metragem de Carlos Gerbase

Fazendo cinema com uma câmera fotográfica Canon EOS 5D: Fonte: Menos que Nada

O cineasta gaúcho Carlos Gerbase está gravando o seu próximo longa-metragem "Menos que Nada" inteiramente com os recursos de vídeo de uma câmera fotográfica Canon EOS 5D Mk II.

Nos últimos tempos a qualidade de vídeo alcançada por algumas câmeras fotográficas, especialmente as da marca Canon que adiantou-se tremendamente em relação à concorrência, vem possibilitando a realização de comerciais, curtas e longa-metragens com um custo muito menor do que com o uso do equipamento tradicional.

É claro que alguns acessórios mas para Gerbase o equipamento é "mais leve e financeiramente atraente", além do que, se fosse filmar em 16 ou 35 mm ainda teria o custo da revelação.

Carlos Gerbase
Se no passado se alegava a impossibilidade da fotografia digital atingir a mesma qualidade da fotografia analógica com seus negativos e cromos, pelo visto isto já está superado, em especial quando o o próprio cinema passa a se valer do vídeo digital como suporte de mídia.

São várias as mudanças no método tradicional.

Além da produção de cinema diretamente em imagens digitais e do uso de um câmera fotográfica ao invés de uma filmadora ou câmera cinematográfica, para seu camera-man Gerbase convocou um fotógrafo, Marcelo Nunes, conhecido publicitário do mercado de videoclipes e curta-metragens.

No elenco Felipe Kannenberg e Maria Manoela.
Fonte: Menos que Nada
Acham que é fácil fazer cinema? Um caminhão inteiro para a Canon EOS 5...
Fonte: Menos que Nada
Para o uso cinematográfico a EOS 5D precisou de vários acessórios.
Fonte: Menos que Nada
A câmera fotográfica e acessórios em ação, à esquerda da imagem. Fonte: Menos que Nada
A EOS 5D ficou irreconhecível com tantos acessórios. Fonte: Menos que Nada
Afirma Gerbase que escolheu um fotógrafo como câmera e diretor de fotografia pois é necessário alguém com intimidade e conhecimento da tecnologia e do equipamento para que dele se extraia o máximo dos seus recursos.

Não bastasse todos estes recursos, a produção do filme valeu-se também de um sofisticado quadricóptero controlado remotamente e combinado com uma câmera digital extra-compacta e com lente grande angular do tipo GoPro na função de filmar. Confira abaixo:

O quadricóptero comandado por controle remoto foi utilizado para as tomadas aéreas.
Fonte: Menos que Nada
Fonte: Menos que Nada
Quadricóptero em ação na Lagoa Mirim. Fonte: Menos que Nada
Quadricóptero em ação nas barrancas da Lagoa Mirim/RS. Fonte: Menos que Nada

As filmagens estão sendo feitas especialmente nas paisagens litorâneas do Rio Grande do Sul, junto à Lagoa Mirim no local chamado Capilha (veja aqui a postagem feita sobre o TAIM) e nas dunas e sambaquis de Arroio do Sal.


PARA SABER MAIS:

- Jornal Zero Hora, Porto Alegre, 17/01/2001, Caderno Central, p. 5
- Blog de Carlos Gerbase
- Menos Que Nada - Site oficial


CINEMA DIGITAL:

- Quer aprender a fazer vídeos e cinema com equipamentos digitais? A Escola Câmera Viajante já oferece curso específico para os interessados.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Fotografia: Imagem de natureza é vendida por 1 milhão de dólares nos EUA

"One", de Peter Lik. Vendida por U$ 1 milhão para um comprador anônimo.

Ninguém duvida que a fotografia há muito já ocupou seu espaço dentre as formas de expressão mais importantes no campo das artes visuais.

Todavia, entre este reconhecimento e um fotógrafo de natureza obter um milhão de dólares por uma única impressão, há um longo caminho evolutivo do mercado colecionador de arte.

Meu parceiro de fotografia André Nery primeiro divulgou a notícia no seu blog e eu fui conferir que maravilhosa imagem seria esta e quem incrível fotógrafo conseguiu vendê-la por tamanho valor considerando a crescente desvalorização dos direitos de autor após o advento da fotografia digital.

Pois para o norteamericano Peter Lik a fotografia "One" é a melhor por ele já feita em sua vida e decidiu fazer somente uma única impressão, transformando-a no cobiçado objeto de arte que alcançou o estratosférico de valor de venda para o mercado de fotografias digitais de natureza.

Lik captou a imagem impressionista às margens do Androscoggin River, New Hampshire e sobre ela registrou:
"I will never forget this morning for the rest of my life. It was calm, and the scent of the fall forest filled my lungs. The mist cleared, and a magical reflection in the river briefly appeared White birch trees, black trunks, a kaleidoscope of foliage combining to reveal an illusion of three dimensions. I pressed the shutter - once - and then the scene vanished with the morning breeze, never to be seen again."
Peter Lik é multi-premiado e mundialmente conhecido por sua habilidade em capturar momentos efêmeros na natureza, tendo sido nominado como um dos artistas que mais influenciam as artes visuais no século 21.

Veja outras imagens de Peter Lik AQUI.


SAIBA MAIS:

- Anonymous Art Collector Purchases Peter Lik's New England River Photo, 'One,' For $1 Million
- PETER LIK PHOTOGRAPH “ONE” SELLS FOR $1 MILLION!
- Peter Lik - Site oficial

domingo, 16 de janeiro de 2011

Montanhismo: Escalada coletiva cobre a Urca em homenagem a Bernardo Collares

Fonte: Blog FotoBlocos
Pelos relatos foi emocionante a homenagem a Bernardo Collares realizada na Urca, Rio de Janeiro, no último sábado.

Não encontrei imagens na imprensa aberta e portanto me valho do importante documentário feito pelo Blog FotoBlocos, onde estão disponíveis diversas fotografias da grande reunião do meio montanhista em um dos mais importantes centros de escalada do país.

Na ocasião amigos e parentes do Bernardo proferiram palavras em sua memória e homenagem e uma caixa com registros, mensagens e fotografias foi entregue à família.

André ilha fala aos presentes. Ao fundo o monumento da Praça General Tibúrcio foi cercado de fotografias, mais tarde reunidas e entregues à família de Bernardo Collares. Fonte: FotoBlocos

Veja AQUI outras fotos da homenagem ao "Eterno Presidente", como era carinhosamente chamado pelos seus amigos esta figura tão querida pelos montanhistas e escaladores do Rio de Janeiro.

CONFIRA A COBERTURA FEITA PELO TERRA AUSTRALIS:

- 05/01/2011 - Argentina: Montanhismo brasileiro perde Bernardo Collares no Fitz Roy
- 06/01/2011 - Argentina/Montanhismo: Bernardo Collares, onde está o resgate? Falecimento do montanhista ainda não foi confirmado.
- 07/01/2011 - Argentina/Montanhismo: Comunicado da FEMERJ sobre o acidente no Fitz Roy
- 07/01/2011- Argentina/Montanhismo: Condições de risco não permitem resgate no Fitz Roy
- 08/01/2011 - Argentina/Montanhismo: Resgate aguarda melhora do clima para busca de Bernardo
- 09/01/2011 - Argentina/Montanhismo: Autoridades poderão deixar andinista brasileiro na montanha
- 10/01/2011 - Argentina/Montanhismo: Fim da polêmica, família decide e Bernardo ficará no Fitz Roy
- 11/01/2011 - Montanhismo: Escaladores convocam homenagem a Bernardo Collares no próximo dia 15 no Rio de Janeiro
- 14/01/2011 - Montanhismo: Acidente no Fitz Roy. Um ponto final. 
- 16/01/2011 - Montanhismo: Escalada coletiva cobre a Urca em homenagem a Bernardo Collares
- 22/01/2011 - Escaladora relata com detalhes acidente na Patagônia

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Surfe: Pescadores x Surfistas - Lei estende zonas para prática de surfe no Rio Grande do Sul e determina o uso de equipamento de segurança

Praia da Guarita - Torres/RS

Procurando regular um antigo conflito entre pescadores e surfistas nas praias do Rio Grande do Sul, onde 49 praticantes deste esporte já morreram presos em redes de pesca desde 1978, foi publicada hoje no Diário Oficial do Estado a sanção do Governador Tarso Genro à lei que estende, de 400 metros para 2,1 quilômetros as áreas de surfe no litoral gaúcho.

A lei não se limita ao surfe mas determina a obrigatoriedade da demarcação das áreas de pesca, lazer ou recreação, nos municípios com orla marítima, lacustre ou fluvial e originou-se do Projeto de Lei nº 113/2010, do Deputado Fernando Záchia.

Embora atendendo à reivindicação dos surfistas, o projeto repercutiu negativamente entre pescadores e o Ministério da Pesca, uma vez que, para os primeiros, a nova regulamentação inviabilizará a pesca familiar e gerará desemprego.

Pesca de tarrafa no Rio Mapituba - Torres/RS
Temos aí a necessidade de ponderação entre dois valores ligados à vida: de um lado a proteção aos surfistas que exercitam o seu direito de acesso ao mar para prática de um esporte e lazer; de outro os pescadores que tiram do mesmo mar a sua subsistência.

Quem tem razão? Será que não há espaço para todos?

O certo é que os pescadores continuarão e os surfistas a surfar...

Praia Grande - Torres/RS
Como as áreas de surfe devem ser demarcadas em zonas urbanas, os pescadores afirmam que é justamente nela em que historicamente criaram raízes e que é do mar que retiram a sua subsistência e de suas famílias.

Resta saber como vai ser feita a demarcação.

Aqui do meu lado fiz algumas simulações...

O litoral do Rio Grande do Sul possui 622 quilômetros de extensão, o que , hipoteticamente, seria suficiente para criar 296 áreas contínuas para prática de surfe. Já o chamado litoral norte do Estado possui 112 quilômetros, possibilitando 53 zonas exclusivas de surfe lado a lado.

Por sua vez na extensão de litoral total do Rio Grande do Sul temos apenas 17 municípios: Torres, Arroio do Sal, Terra de Areia, Capão da Canoa, Xangri-lá, Osório, Imbé, Tramandaí, Cidreira, Balneário Pinhal, Palmares do Sul, Mostardas, Tavares, São José do Norte, Rio Grande, Santa Vitória do Palmar e Chuí, o que contabilizaria apenas 35,7 quilômetros de litoral bloqueados para a pesca.

Ainda, considerando que nos 112 quilômetros do litoral norte são apenas 10 municípios, calculando uma zona de surfe por cada um teríamos 21 quilômetros para os esportistas e 91 para os pescadores.

É claro que nestes municípios existem as respectivos praias e balneários e que somam várias centenas por todo litoral.  Todavia a lei refere que os municípios é que deverão criar estas zonas de exclusão para pesca, não deixando claro se será uma para cada município ou para cada praia e balneário.

Somente Arroio do Sal conta com 48 balneários.

A Praia da Guarita em Torres é tradicional ponto de surfe no RS
Praia da Guarita - Torres/RS
Praia de Itapeva em Torres. Outro ponto onde se mesclam pescadores e surfistas

A nova lei também estabeleceu como obrigatória a utilização de equipamentos de segurança por parte dos surfistas, não especificando o tipo a ser adotado.

Mas que equipamento é este?

Que eu saiba as agremiações surfistas como a própria Federação Gaúcha de Surf não costumam recomendar a adoção de qualquer equipamento de segurança individual para os surfistas (na data de hoje não constava nada no saite), mesmo que isto já tenha sido adotado em esportes náuticos que também exigem grande liberdade de movimentos pelos seus praticantes. Assim é o caso da vela em monotipos, o kitesurf, o windsurf, o wake board, o tow-in, o ski aquático e tantos outros.

Aproveitando minha vivência em outras atividades, a título de exemplo, e tratando de proteger a sua própria vida, porquê um surfista não poderia usar como equipamento de segurança um pequeno canivete para cortar redes, lashes e cordas - como se usa no canionismo, na escalada e no mergulho - ou um colete salva-vidas inflável, como alguns modelos minimalistas adotados na vela e que sequer se consegue sentir quando estão vestidos?


Colete salva-vidas inflável para atividades que exigem grande liberdade de movimento.
Fonte: Marine MegaStore

Recentemente a Mormaii desenvolveu de trajes de neoprene para tow-in e wake board com colete salva-vidas incorporado e há pouco tempo atrás vi no noticiário gaúcho sobre o desenvolvimento de um um traje para surfe com dispositivo de segurança inflável e que também poderia ser usado como suprimento de ar de emergência.

Se é confortável, não sei, mas você usaria se ele pudesse salvar a sua vida?


Wetsuit para tow-in com colete salva-vida incorporado. Fonte: Mormaii
Wetsuit com flutadores salva-vida incorporados para wakeboard.
Fonte: Mormaii

Segundo a lei gaúcha, que já está em vigor, se aplica a todos sem exceção e representa uma tremenda conquista em prol da proteção à vida, estão definidas responsabilidades para pescadores e surfistas, cabendo a cada lado assumir a sua parte, tanto no que toca ao bônus de ter áreas reservadas para surf, quanto ao ônus do uso de equipamento de segurança individual para os últimos.

Veja aqui o texto integral da nova Lei 13.660/2011, publicada no Diário Oficial 010, de 13/11/2011, p. 1 e que, a propósito, consta com erro de publicação da data ao seu final pois, onde deveria constar o ano de 2011, originalmente constou 2010... (** equívoco já corrigido...)

"Altera a Lei n.º 8.676, de 14 de julho de 1988, que determina a obrigatoriedade de demarcação das áreas de pesca, lazer ou recreação, nos municípios com orla marítima, lacustre ou fluvial.

O GOVERNADOR DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL.

Faço saber, em cumprimento ao disposto no artigo 82, inciso IV, da Constituição do Estado, que a Assembléia Legislativa aprovou e eu sanciono e promulgo a Lei seguinte:

Art. 1º - O art. 1.º da Lei n.º 8.676, de 14 de julho de 1988, que determina a obrigatoriedade de demarcação das áreas de pesca, lazer ou recreação, nos municípios com orla marítima, lacustre ou fluvial, passa a vigorar com a seguinte redação:

“Art. 1º - Os municípios que em seu território tiverem praias banhadas por lagoas ou rios deverão demarcar, nas áreas centrais de todos os seus balneários, no prazo de 60 (sessenta) dias, numa extensão de 450m (quatrocentos e cinquenta metros), os locais destinados aos desportos de diferentes modalidades, à recreação e ao lazer em geral.

§ 1º - Para os municípios que possuem em seu território praias banhadas por mar, a extensão mínima para a demarcação referida no “caput” deste artigo será de 2.100m (dois mil e cem metros).

§ 2º - Nas áreas mencionadas neste artigo, fica proibida a pesca profissional com redes, excluindo-se desta proibição a pesca amadora, praticada com linha de mão e caniços.

§ 3º - Para a prática do “surf” fica obrigatório, em todo o território do Estado do Rio Grande do Sul, o uso adequado de equipamento de segurança.

§ 4º - A Defesa Civil do Estado prestará informações, pelos meios de comunicação, quando as condições metereológicas não forem recomendadas para a prática do “surf”.

§ 5º - Caberá aos órgãos públicos competentes a sinalização das áreas referidas no “caput” deste artigo.”

Art. 2º - Esta Lei poderá ser regulamentada no prazo de 60 (sessenta) dias a contar da data da sua publicação.

Art. 3º - Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

PALÁCIO PIRATINI, em Porto Alegre, 12 de janeiro de 2011."

PARA SABER MAIS:

- Lei 13.660/2011 - Fonte oficial
- Clic RBS - Lei amplia áreas para surfe no Estado. Prefeituras terão 60 dias para seguir nova determinação
- Jornal Correio do Povo - Lei que amplia áreas de surfe leva pescadores a buscar ajuda em Brasília. Categoria avalia que 2 mil pessoas correm o risco de ficar sem trabalho
 - Assembléia Legislativa do RS - Aprovado projeto de Záchia sobre demarcação nas áreas de pesca, lazer ou recreação


IMAGENS:

Todas as fotografias são de autoria de João Paulo Lucena. Direitos reservados. Equipamento utilizado: Canon EOS-1D Mk II, lente zoom 100-400 e teleconverter 1.4.

Montanhismo: Acidente no Fitz Roy. Um ponto final.

Dizem por aí que bom senso e caldo de galinha não não fazem mal a ninguém.

Sobre o acidente com Bernardo Collares no Fitz Roy o depoimento a seguir, do montanhista carioca Maurício "ToNTo" Clauzet coloca com muito conhecimento, clareza e emoção um ponto final no assunto.

Maurício "ToNTo" Clauzet
Sem o que acrescentar, transcrevo na íntegra a impecável postagem do seu blog no dia 13/01/2011, inclusive com as fotos e gráficos para que possa ser bem compreendido. Veja aí:

"Berna, el Cabezzzzoooonnn
Conheci o Bernardo no Cerro Catedral na Argentina, era a primeira vez que ele estava lá.
Carinhosamente eu chamava ele de Cabezzzzzoooooooonnnnnnnn e ele me chamava de Cabeçããããããããããããooooooooo. Um dos motivos é o nosso diâmetro encefálico avantajado, digamos assim... e entre outros motivos, porque ele tinha um domínio do psicológico muito bom enquanto escalava, tendo a calma e tranquilidade de passar lances delicados e expostos.
Desde então encontrei com ele diversas vezes, escalamos juntos algumas vezes e sempre tivemos contato constante por email, inclusive muitos deles relacionados com FEMERJ, CBME, CTME do PNI.... enfim, o Bernardo era totalmente envolvido com a montanha, com a escalada e além disso com a organização e estruturação do nosso esporte.

Cabezzzoooooooooonnnnnnnnnn
 O Bernardo escalava de tudo, boulder, esportiva, parede, em móvel, enfim... o negócio dele era escalar, e se divertia mesmo escalando com alguém mais principante um simples quinto grau, a coisas mais comprometidas e difíceis. Repetiu diversas vias sinistras do Rio e era um apaixonado por Salinas.

Adorava correr na praia, e escalar antes de ir pro trabalho na Urca, depois ainda sacanear "Enton, acabei de chegar aqui no trampo... tava lá no Totem...". Ou ligar de algum cume de Salinas "e aeh, tá trabalhando? to aqui no cume do Pico Maior...".

Muito carismático, cheio de energia, sempre tratou todos de forma igual, dos casca grossa até o principiante.

Ponderado, mediador e negociador, ajudou a FEMERJ a fazer o que um dia já pareceu impossível, que foi agregar gregos e troianos do Rio sob o guarda chuva da FEMERJ.

Prestes a passar pelo "cú da galinha", na rota Normal da Torre Principal do Cerro Catedral - Argentina
Apaixonado pela Argentina, pois gosta muito da escalada em rocha em ambiente alpino e com proteção móvel. Foi a Arenales, diversas vezes ao Cerro Catedral, e algumas para Chaltén.

Uma vez ele quebrou o pé em uma vaca de mal jeito aí no Rio, e mesmo sem poder escalar por uns tempos continuou sempre super motivado, e quando voltou, voltou já a milhão. Impressionante, não se abalou nem fisicamente nem psicologicamente com o pé quebrado.

Era muito respeitado não só pelo seu posto de Presidente da FEMERJ e vice da CBME, mas ele acima de tudo era respeitado pelas suas posições consistentes e coerentes além de escalar pra caralho. Ninguém ousaria chamar ele de "cartola" em um sentido mais pejorativo, daquele que está na política do esporte mas não está dentro praticando... Ele escalava muito e muito forte, definitivamente entre os escaladores mais ativos dessa nossa geração no Brasil.

Cume da Torre Principal Cerro Catedral - Argentina
Era uma figura muito bem humorada, sempre pronto pra tirar um sarro e te sacanear, mas muito, muito querido entre os amigos. Em seu último aniversário, em 2010 recebeu dos amigos um presente muito legal e especial, que eu tenho certeza que foi uma demonstração clara de todo carinho que temos por ele.

Na via Objetivo Luna no Cohete Lunar, Cerro Catedral - Argentina
E a gente nunca espera, dá um tchau pro amigo que tá indo pra Chaltén já conversando de pendências pra volta... Todos super na vibe, pois Chaltén é um lugar muito mágico, e a temporada desse ano prometia, ano de El Niño que em tese é bom, oposto do ano passado, de La Niña, que a temporada não foi lá muito boa em termos climáticos.

Festival Internacional de Filmes de Montanha do Rio de Janeiro - Cine Odeon
E dia 5 de Janeiro tenho a notícia, ainda sem detalhes, que já lá em cima com a Kika, o Bernardo havia sofrido uma queda no Fitz a 35 rapéis do chão, quebrado a bacia e com hemorragia interna. A Kika conseguiu descer com perrengue, e só conseguiu avisar alguém 2 dias depois. E o tempo estava ruim...

Nesse momento entendi a gravidade da situação e sabendo onde ele estava, já soube que um resgate seria um milagre. E se passaram mais dias... e pra mim a certeza que o Cabezon tinha voltado para o lado de Lá.

Escalando no Pão de Açúcar
Muito foda de aceitar, e nessa hora a gente entende como a família tinha esperança dele vivo até hoje 13 de janeiro, mesmo o acidente tendo acontecido dia 02 ou 03 de janeiro, não sei precisar. É simplesmente muito difícil de aceitar. Ainda mais sabendo da vitalidade, energia e amor à vida do Bernardo.
Escalando no Pão de Açúcar
Para agravar, começo a ver a forma com que a imprensa apresentou o acidente, e o posicionamento de alguns poucos colegas escaladores mas que com certeza não entendem o quão "longe" é estar perto do cume do Fitz, o quão complicado é um resgate...

Vejo que na maioria das vezes que a imprensa e até alguns colegas escaladores falam de "um resgate", muitas vezes indignados, mas é visível que não tem um completo entendimento do ambiente lá, das condições e da sua dinâmica.

Com Cris Jorge e Silvério Nery escalando no Pico da Tijuca.
Já estive lá, conheço a área, e além de outras escaladas/tentativas em agulhas menores e menos comprometidas. Em 2006 fiz com a Roberta e com o Dalinho uma tentativa no Fitz, pela Franco-Argentina (em tese a mais curta e mais fácil das vias) e não fomos longe, nem além da Brecha de los Italianos. Em ano anterior, a Rober escalou entre 60 e 75% da Afanassief com Jose Pereira e posteriormente o Ed o Val e mais um argentino repetiram em 2006, temporada que eu estava lá, essa via na íntegra, depois de mais de 20 anos sem repetição desde a sua conquista. Já vi muitas fotos da via e conversei com eles, então apesar de nunca ter ido lá propriamente, tenho uma boa idéia da via e do seu acesso.
Descendo o Totem do Pão de Açúcar.

Fonte: PataClimb.com, observe a rota 17, que é a Afanasieff (clique para aumentar a foto)
 A via Afanasieff tem aproximadamente 1500m de escalada, é uma das mais longas do Fitz. Sobe pela linha mais natural da Aresta Sudoeste do Fitz. Foi conquistada em 1976 pelos franceses Jean e Michel Afanasieff, Guy Abert e Jean Fabre. Tiveram ainda no grupo um cameraman, e fizeram um filme desta aventura. Na primeira ascensão levaram 4 dias para subir e 2 dias para descer de rapel.

A aproximação para o pé da via pode ser feito de duas formas. A mais usada é pelo vale elétrico ao Paso Cuadrado e depois cruzando o Glaciar Norte do Fitz. A outra alternativa é pelo vale do Cerro Torre e depois pelo Filo del Hombre Sentado. Ambos são longos e em uma situação normal leva seguramente 2 dias de caminhada a partir de Chaltén.

Ela passou muitos anos sem uma repetição na sua íntegra. Que eu tenha notícia, só depois de 30 anos, em 2006 o trio de escaladores Ed Padilha, Wal Machado (do Brasil) e Gabriel Otero (argentino). Antes disso Jose Pereira e Roberta Nunes (brasileira) escalaram algo entre 60 e 75% da extensão da via.

Sobre a descida, observe o que o PataClimb.com, de Rolo Gariboti, fala:

A descent along the route would be treacherous because of bad belays and endless blocks and flakes. Climbing up and over the summit to descend the Franco-Argentine is recommended.

Tradução livre: uma descida pela rota pode ser traiçoeiro por conta de ancoragens ruins e um sem fim de blocos e lacas. Escalar até o cume e descer pelo outro lado pela via Franco-Argentina é aconselhado.
Nas Lacas do Pão de Açúcar.
Assim, imaginando que eles estavam próximos do cume no acidente, deviam estar a cerca de 3000m de altitude (o Fitz tem 3405m). Na Patagônia, e depois de uma tempestade, mesmo para uma pessoa gozando de total saúde seria difícil sobreviver a mais de 2 noites exposto na parede nessa altitude. Assim, eu não acredito que o Bernardo esteja ainda vivo esperando por um resgate. A Kika, além de uma escaladora super experiente, é instrutora da NOLS e assim já teve que fazer no mínimo 2 cursos de primeiros socorros em áreas remotas, o Wildernes First Responder e o Wilderness First Atendant. Eu já fiz o Wilderness First Responder, o mais básico, que é um curso excelente. O First Responder é mais aprofundado ainda e com carga horária maior, e assim, quando a Kika fala de bacia quebrada e hemorragia interna eu estou seguro de que ela sabe do que está falando. Nessa condição, sobreviver 2 noites lá já seria um milagre, quanto mais uma semana. Assim, eu considero que não há nem a mais remota possibilidade do Bernardo estar lá com vida.

Partindo desse pressuposto, considero totalmente irracional pensar em um resgate do corpo em algum lugar da parede do Fitz. Recentemente, quando estive no Ama Dablam, um helicóptero foi resgatar 2 escaladores presos na parede e se estabacou, morreram os 2 tripulantes mais um dos escaladores. E além das pessoas mortas, agora está lá um monte de lixo na encosta/gelo da montanha, inclusive com combustível e outros materiais tóxicos. Os 2 únicos piloto e engenheiro do Nepal, que tinham sido treinados na Suíça para resgate em montanha, morreram e assim o Nepal também perdeu um enorme capital humano. Tirar alguém da parede do Fitz de helicóptero é tão ou mais perigoso que ir lá escalar. Ir lá escalar por sua escolha é uma coisa, ir lá em uma missão atrás de um corpo é outra. O Fitz é vertical e açoitado por ventos fortíssimos e em rajadas, criando todo tipo de confusão, zonas de alta e baixa pressão, rotores e vortex. Ele é o ponto mais alto que separa de um lado a alta pressão do Oceano Pacífico e o Hielo Continental Sur, e do outro lado as estepes secas e planas e o Oceano Atlântico. O clima patagônico é ímpar e famoso por isso. Eu considero suícidio chegar de helicóptero perto da parede lá a não ser que não haja vento nenhum, algo praticamente impossível por lá como sabemos. Mesmo em uma janela boa para escalar, não acho que seja boa o suficiente para chegar de helicóptero na parede com um resgatista pendurado por cabo embaixo. Apesar de não ter o problema da altitude do Ama Dablam, considero o Fitz muito mais arriscado. Ouvi comentários inclusive falando de pousar no cume e descer de rapel... Um helicóptero já pousou no cume do vizinho Cerro Torre nas filmagens do Scream of Stone do Herzog (no Brasil se chama "No Coração da Montanha"). Mas o Fitz não é como um Half Dome ou um El Captain... O cume é gigantesco, fragmentado, com gelo... as pessoas sobem pela via Franco-Argentina e depois tem dificuldade de achar o rapel pra descer por ela mesma. O que dizer de achar o rapel de uma via que passou 20 anos sem repetição? É praticamente impossível achar onde começar o rapel pra chegar precisamente ao local do acidente, é como uma agulha no palheiro. Assim, não vejo o menor sentido em se gerar toda essa revolta por não quererem ir lá de helicóptero resgatar o corpo. Eu apoio os resgatistas que não querem ir lá. Entendo que isso seja difícil de aceitar, principalmente para os familiares próximos, mas é a realidade da situação.

A única coisa que poderia ter feito a diferença acredito que seria eles terem um rádio HT VHF e conseguissem comunicar o Parque assim que ocorreu o acidente, mas isso também poderia ser um tiro pela culatra, pois nesse caso a Kika poderia ter ficado lá esperando um resgate que eventualmente não chegaria, e aí seriam 2 e não 1. Ademais, nas escaladas Patagônicas extremas como essa, cada grama de peso é de se avaliar, e eu também não teria levado um rádio, mesmo se tivesse, para escalar a Afanasieff.

Nós escaladores, temos que entender muito bem o significado da palavra comprometimento. Existem escaladas onde realmente estamos "pondo o nosso na reta", e se algo der errado, as consequencias podem ser as piores. O complicado, são casos como o das expedições comerciais ao Everest e cia, onde os "clientes" tem uma falsa sensação de segurança e não conseguem ver a exposição aos riscos e o comprometimento. Tanto o Berna como a Kika tinham consciência de onde estavam se metendo. Escalar lá é realmente se projetar profundamente no remoto, no wild, no never never land. A sensação é que você está longe, muuuuito longe, e já considero um milagre a Kika ter conseguido descer de lá sozinha. A Kika é uma puta guerreira, quase inacreditável. Qualquer um que questione a decisão dela de descer ao invés de ficar, de duas uma, ou não tem a menor noção de onde eles estavam e das condições, ou é uma besta, e em ambos casos deveria ficar quieto. A Kika merece todo nosso respeito e acima de tudo nosso apoio, pois se doi na gente aqui e estamos tristes, eu não consigo nem imaginar a condição emocional dela depois de todo esse processo. Processo mesmo, pois não foi só tomar as decisões, descer sozinha e chegar no chão com um toco de corda, voltar tudo... todo esse pós chegar em Chaltén também não está sendo fácil. Temos que dar todo nosso apoio e carinho a ela.

Assim, aproveito pra dizer, que se um dia eu ficar pela montanha, me deixem por lá por favor.

Tenho certeza que o Bernardo ao entender que ia ficar por lá, passou para o lado de Lá em Paz, com a tranquilidade que só uma pessoa com o seu desapego e tendo vivido tanto a vida como ele conseguiria ter nessa hora.

Como já dito, o melhor que temos a fazer é lutar pro trabalho/legado do Berna não se perca, que cada um de nós tenha a vitalidade e a energia que ele punha na sua própria vida. Que seja uma inspiração de trabalho pelo montanhismo e também como pessoa e brother, que é tão querido não é a toa.

Buenas olas

Maurício "ToNTo" Clauzet"