domingo, 6 de setembro de 2020

Gilwell Reunion 2020, o encontro mundial do Escotismo


Neste chuvoso e frio feriado de 7 de Setembro aproveitei para participar com muito interesse da Gilwell Reunion 2020, encontro global de voluntários do maior movimento educacional do mundo: o Escotismo, fundado por Baden-Powell em 1907.

Tradicionalmente realizado em setembro de cada ano no campo-escola de Gilwell Park, nos arredores de Londres, este encontro é voltado para adultos voluntários, os escotistas, e enfoca o aprimoramento de lideranças, planejamento, troca de idéias e experiências e o congraçamento entre participantes do mundo inteiro. Em 2020, em função da pandemia de Covid-19, pela primeira na sua história foi inteiramente virtual, o que, por um viés positivo, facilitou em muito a participação daqueles que, como eu, dificilmente poderiam deslocar-se dos seus respectivos países para a Inglaterra. 

Entre as cerimônias de abertura e conclusão do encontro foram mais de 80 oficinas virtuais tratando dos mais diversos temas como inclusão, segurança nas atividades escoteiras, comunicação, organização, gestão e planejamento, história, motivação e cuidados durante a pandemia global, técnicas mateiras e até receitas de cozinha em ambiente outdoor apresentadas pela dupla Ed Stafford e Steve Hanton, personagens bem conhecidos dos programas de aventura em canais por assinatura.

Apolítico, inclusivo e multicultural, baseado nos valores da fraternidade, lealdade, cidadania, livre espiritualidade, altruísmo, responsabilidade, igualdade, trabalho social e comunitário e no incondicional amor e proteção à natureza, o Escotismo é o maior movimento educacional do mundo, baseado exclusivamente no trabalho voluntário, sem fins lucrativos e voltado para jovens dos 6 aos 21 anos de idade. 

Precisamos muito mais disso!

 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Veraneando em Torres: De fortins, espigões e cães na beira da praia

Vila das Torres e Capela de São Domingos vista do Morro do Farol, com vista para a serra e a Lagoa do Violão. Debret, início do século XIX. Fonte: Wikipedia

Os registros fotográficos da família mostram meu primeiro veraneio em Torres lá pelo verão de 66, na casa dos meus tios-avós Raul e Sílvia, em um acolhedor chalé de madeira em estilo serrano na então tranquilíssima Praia da Cal, uma das quatro que compõem este balneário gaúcho. Do saudoso chalé só resta a memória, há muito deu lugar a um edifício de apartamentos e a Praia da Cal hoje pouco lembra a tranquilidade daqueles tempos de infância.

Desde então voltei a Torres muitas vezes nos anos seguintes, o que faço até hoje tanto no verão quanto nas demais estações do ano, testemunhando a evolução dos costumes praianos e, com bastante temor, o avanço destruidor da especulação imobiliária e de um turismo descontrolado em áreas de grande valor ambiental e comprovado patrimônio histórico, arqueológico e cultural.

Diferente de outras localidades do litoral gaúcho, a exceção da cidade de Rio Grande fundada em 1737, as três formações basálticas que deram nome à praia constituem afloramento rochoso único na costa sul do Brasil e desde o século XVI já eram ponto de referência para navegantes, piratas, jesuítas, bandeirantes, viajantes e colonizadores.

As falésias de Torres já constituíam ponto de referência para os navegantes desde o século XVI, conforme vistas desde o mar por Debret no início do século XIX. (Fonte: Wikipedia)

Pouca gente sabe que o entorno das três grandes torres basálticas já era habitado por indígenas muito antes da colonização do Brasil, os quais deixaram registros de sua passagem em diversos e importantes sambaquis formados ao longo de milhares de anos e cujos últimos resquícios foram destruídos em anos relativamente recentes nas terraplanagens imobiliárias no entorno da Praia da Guarita e à margem sul Rio Mampituba, como bem registra o Desembargador Ruy Ruben Ruschel, um dos grandes historiadores da memória local (Torres tem História. Porto Alegre: EST, 2004).

Travessia do Rio Mampituba no início do século XIX, por Debret. (Fonte: Wikipedia)

A chamada Torre Norte, ou Morro do Farol, já abrigou o Forte São Diogo construído em 1777 dada a importância estratégica do local, visto que em função das florestas, dunas e banhados existentes na época, um pequeno trecho entre esta elevação e a hoje chamada Lagoa do Violão constituía a única passagem por onde se dava todo o trânsito terrestre entre os territórios portugueses do sul e o resto do Brasil. Ali foi construída a primeira casa de Torres, ainda existente, onde consta terem passado diversas personalidades da nossa história, incluindo os Imperadores Dom Pedro I, Dom Pedro II, Garibaldi e viajantes como Debret, Wendroth e Saint Hilaire, dentre tantos outros.

A importância ambiental não é menor do que a histórica, dado existirem em Torres nada menos do que quatro áreas de preservação ambiental, sendo três parques estaduais e uma reserva ambiental federal, esta última para proteger a única ilha do litoral do Rio Grande do Sul e ponto de descanso e reprodução de lobos marinhos.
Parque Estadual da Guarita, localizado entre as Torres Sul e do Meio. (Fonte: Wikipedia)

Todo este patrimônio tem estado sob grande pressão ambiental em função da ocupação desordenada do solo, do rápido avanço da urbanização, do desmatamento, da poluição, da destruição do ambiente natural decorrente da pesca e da caça predatórias e, em especial, do impacto das crescentes massas de veranistas e visitantes durante os meses de calor.

Longe aqui fazer um libelo contra os veranistas e turistas, dentre os quais também me enquadro, mas sim registrar um alerta e a minha inconformidade quanto ao descaso com o qual tem sido tratado este importantíssimo patrimônio público, histórico e cultural pelas autoridades e administradores, com ênfase total nas últimas décadas. Se o crescimento populacional é um dado concreto, assim como o direito de todos de frequentar e ocupar as belas paragens do nosso planeta, impõe-se a proteção e regulação do impacto que as crescentes massas humanas exercem sobre reservas que são de todo finitas e insubstituíveis.

O próprio verbete destinado à Torres na enciclopédia digital Wikipedia registra que José Lutzenberger, o grande ecologista brasileiro, denunciou em carta aberta à população no ano de 2000 a existência de cartéis formados por empresas imobiliárias e setores do poder público, que sem preocupação com o impacto urbanístico de seus espigões desfiguram rapidamente a fisionomia urbana e a estética da cidade, fazendo com que ela perca seus últimos elementos de tipicidade e originalidade. De fato, já existem diversos espigões na cidade cuja altura ultrapassa a dos seus característicos morros de basalto. 

Segue ainda a mesma fonte alertando quanto às outras estruturas que também interferem na paisagem e desviam a atenção do olhar para si, em demérito do panorama natural pelo qual a praia se tornou famosa. Sobre o Morro do Farol existem altas torres de telecomunicação que transformaram o morro em um mero pedestal para si mesmas.

O avanço urbano sobre o patrimônio publico como se vê pelas construções que sobem a encosta do Morro do Farol (Torre Norte) e as antenas de empresas privadas que desfiguram o seu cimo. (Fonte: Wikipedia)

Se falta conscientização aos moradores, veranistas e visitantes, nada justifica a omissão e incompetência histórica das autoridades na proteção de um patrimônio que não só é comum, mas também pertence às futuras gerações, privilegiando o coletivo em detrimento do individual.

Descendo à prática, quem pode explicar a construção de um prédio residencial de 30 andares em meio a quarteirões residenciais, um verdadeiro pombal sob a forma de arranha-céu? Ou ainda o trânsito incessante de automóveis diuturnamente em uma praia exclusiva para banhistas pedestres?

E que tal o incessante desfilar de cães de estimação em meio aos banhistas, sabidamente responsáveis pela proliferação de doenças cutâneas e em flagrante violação à legislação municipal? Cá entre nós, adoro cães e já tive quase duas dezenas destes fantásticos animais. Mas, cada um no seu quadrado, vamos respeitar a coletividade.

Passar alguns dias nesta maravilhosa praia, além de tantos prazeres, pode trazer também algumas preocupações como estas ao visitante mais atento. Voltarei a esses assuntos.

terça-feira, 2 de julho de 2019


Em 1952 o fotógrafo espanhol José Abraham e seu fillho Alfonso trocaram Barcelona pelo Brasil para fazer parte da história da fotografia no Rio Grande do Sul. Com foco no fotojornalismo e temas políticos José passou a trabalhar para importantes jornais gaúchos, ficando conhecido como "o Espanhol". Cobriu, dentre tantos outros fatos importantes da vida do estado, a Campanha da Legalidade de 61 e seus principais protagonistas, transmitindo ao filho Alfonso a sua arte quanto, depois do falecimento, o próprio apelido.
Já Alfonso Abraham começou cedo auxiliando o pai no laboratório e foi convidado por Assis Hoffmann para trabalhar no Jornal Zero Hora em 1969 e Folha da Manhã em 1982, acompanhando personagens importantes da história do país como Teotônio Vilella, Pedro Simon, Tancredo Neves e Leonel Brizola.
Unidos por uma dupla paixão comum - trens e fotografia, compartilho convite para uma belíssima exposição que tem circulado o Brasil sobre a história das linhas férreas no Rio Grande do Sul, de autoria do meu caro amigo Alfonso Abraham e seu falecido pai, O Espanhol.
Mais um programa imperdível para os apreciadores da arte de desenhar com a luz!

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Vela: Argentina vence mundial de Soto 40 em Florianópolis


Com o convite recebido para participar da cobertura de imprensa da terceira etapa do Mitsubishi Motors Soto40 World Championship, um dos monotipos mais modernos e rápidos do planeta e pela primeira vez no Brasil, não perdi tempo em preparar meu equipamento fotográfico e rumar para a raia de Jurerê, em Florianópolis/SC, para acompanhar a abertura da competição.

Com 11 veleiros inscritos representando Argentina, Alemanha, Brasil e Chile, a organização esteve impecável. O palco foi uma das mais belas paisagens catarinenses, com mar esmeralda, a raia montada a um quilômetro da praia em frente ao Iate Clube de Veleiros da Ilha, tradicional ponto de encontro de velejadores da cidade.

Projetado pelo argentino Javier Soto Acebal e construído pela MBoats, na Argentina, o veleiro S40 é um monotipo oceânico de alta tecnologia e com flotilha hoje concentrada na França, Alemanha, Portugal, Chile, Argentina e Brasil. A embarcação foi concebida enfatizando a sintonia entre velocidade e equilíbrio, fácil construção e o emprego de vários componentes em fibra de carbono, destacando-o no cenário da vela e atraindo alguns dos melhores velejadores do mundo.

Em Jurerê, além do multicampeão olímpico Torben Grael comandando o veleiro Magia V Energisa, estavam também o Pajero, atual campeão brasileiro de S40; o Carioca 04, de Henrique Haddad, em preparação para as Olimpíadas de 2016, o Carioca 25 de Roberto Martins e o Crioula 29, do gaúcho Samuel Albrecht, velejador olímpico que já venceu a Semana de Vela de Ilhabela e que representou o Clube Veleiros do Sul. 


Flotilha de S40 fundeada no Iate Clube Veleiros da Ilha, em Jurerê, Florianópolis/SC
Grandes emoções à bordo do veleiro chileno Estampa del Viento, de Miguel González


O evento foi composto por uma série de dez regatas em barla sota, sendo duas por dia, vencendo a equipe com menor pontuação cumulada no geral e sem descartes, exigindo dos participantes muito preparo, perícia e habilidade no momento de traçar estratégias e conduzir a sua embarcação.

O conceito de one design, segundo o qual todos os veleiros são idênticos em tamanho, peso e área das velas, deixando a capacidade e o talento de cada uma das tripulações para definir o vencedor, tornou as provas ainda mais emocionantes e imprevisíveis.

Nesta primeira edição do Mitsubishi Motors Soto40 World Championship realizada no país o primeiro lugar foi conquistado pela tripulação do veleiro Patagônia (Argentina), de Norberto Alvarez, que levou também o título de campeã mundial de 2015, classificando em segundo o Pajero (Brasil), de Eduardo Souza Ramo e em terceiro o Itaú (Chile), de Dag von Appen. O gaúcho Crioula 29 ficou em oitava posição.

Classificação geral após 10 regatas:

1º Patagonia (ARG) - (1+1+3+5+6+2+3+8+4+11) - 44 pontos
2º Pajero (BRA) - (3+6+7+10+1+1+2+11+3+1) - 45 pontos
3º Itau (CHI) - (4+5+10+2+5+5+7+4+2+8) - 52 pontos
4º Santander (CHI) - (7+3+6+7+3+12DNF+5+1+5+4) - 53 pontos
5º Early Bird (ALE) - (6+9+4+4+4+4+4+10+1+7) - 53 pontos
6º Mitsubishi Motors (CHI) - (9+8+11+8+2+5.9RDGb+1+2+6+3) - 55.9 pontos
7º Carioca (BRA) - (8+4+2+1+7+6+6+7+10+10) - 61 pontos
8º Crioula (BRA) - (2+2+5+9+11+3+10+6+8+6) - 62 pontos
9º Estampa Delviento (CHI) - (11+7+1+6+8+7+9+3+9+2) - 63 pontos
10º Ocean Pact Racing (BRA) - (10+11+8+11+9+8+8+5+7+5) - 82 pontos
11º Magia V Energisa (BRA) - (5+10+9+3+10+9+11+9+11+9) - 86 pontos







Os ventos de todos os quadrantes e intensidade tornaram as provas em barla sota bastante técnicas e seletivas.




Pessoalmente, a oportunidade de conhecer uma categoria top da vela mundial foi inesquecível, em especial porque nas regatas de treino a organização da Mitsubishi me possibilitou embarcar no veleiro chileno Estampa del Viento, e testemunhar ao vivo e a cores toda a emoção e a adrenalina de uma prova de altíssima performance em nível internacional.

A única condição foi utilizar colete e capacete. Como resultado algumas das imagens emocionantes que acompanham este relato. Já a conclusão foi que não é nada fácil participar de regatas de S40 agarrado com uma só mão no guarda-corpo de popa e a outra manejando a câmera fotográfica...

Já estou à espera da próxima!












FICHA TÉCNICA DO SOTO 40:

Comprimento total: 12,3m

Boca máxima: 3,75m

Calado: 2,6m

Área Vélica: 100m²

Deslocamento: 4,2ton 

Peso Máximo de Tripulação: 770kg

Projetista: Javier Soto Acebal

Material do Casco: Fibra de vidro e carbono



Com o Torben qualquer um é tiete...

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Familia Rodante rumo Chile 11: Quatro grandes razões para cruzar os Andes por terra


Puente del Inca, Argentina

"...El 7 de abril, tuvimos el regalo de nuestra primera visión de la Cordillera de los Andes. Nadie se imagina el efecto producido en el viajero por esta estupenda barrera de montañas .  
(...) Montañas enormes, enteramente cubiertas de nieve, se levantaban a tal altura que nos veíamos obligados a echar la cabeza atrás para mirarlas; parecían pertenecer a otro mundo, no viéndose más que las cimas, pues el firmamento estaba clarísimo arriba, mientras el horizonte se veía algo oscuro."   
Robert Proctor,  diário de viagem, 1842. * 

Mesmo em pleno século 21, no reinado da informação total dentro dos lares e das telas de altíssima definição, o sentimento de quem se depara frente à frente com a Cordilheira dos Andes ainda é de enorme admiração e respeito, e em nada distinto daquele que o inglês Robert Proctor experimentou em sua viagem à cavalo, de Buenos Aires a Santiago, em meados do século XIX. 

Travessia da Cordilheira dos Andes em carruagem no final do século XIX. Mendoza, Argentina.
Fonte: Archivo General de la Nación

A beleza e a magnitude dessas montanhas é de tal monta que torna a viagem por terra muitíssimo mais bonita do que qualquer pasteurizada travessia aérea, valendo cada um dos quilômetros percorridos pelo viajante. 

Justifico.


MOTIVO 1: A BELEZA CÊNICA DA ROTA DE SAN MARTIN

Julio Vila y Prades (1873 - 1930)
Fonte: Wikipedia
As passagens terrestres entre os dois lados da cordilheira são conhecidas como "passos" e Los Libertadores é um dos mais importantes da divisa Argentina-Chile, unindo as cidades de Mendoza e Los Andes por um tramo de 340 Km, com grande trânsito de veículos e rota de comércio internacional entre o Atlântico e o Pacífico.

Pelo mesmo caminho hoje percorrido pelas Rutas 7 (Ar) e 60 (Ch) cruzaram os primeiros habitantes destas terras na América pré-colombina, os conquistadores espanhóis e o exército libertador de San Martin, ícone das guerras de independência da Argentina, do Chile e do Perú.

Até então considerada impossível, a histórica travessia do exército de San Martin no verão de 1817, composto por mais de 5400 soldados, canhões e 1600 mulas e cavalos, seguindo terríveis trilhas por dentre magníficas e mortais montanhas, é uma façanha militar que ficou conhecida como "El Cruce de los Andes".

Hoje não é mais preciso cruzar o cume das montanhas a 4.000 m como antes, pois uma excelente rodovia repleta de túneis - o maior deles com 3 Km de extensão - atravessa a cordilheira de lado a lado, encurtando o caminho e deixando-o muito mais rápido e seguro, mas não menos impressionante.

Chegada em Uspallata, Argentina, o último ponto para abastecimento de combustível antes de Los Andes, já no Chile.
A paisagem e as cores vão mudando de acordo com a altitude e a variação da incidência do sol.


Aos poucos, conforme se ganha altitude, a vegetação vai diminuindo até desaparecer quase por completo. O ar esfria, as condições climáticas variam repentinamente e os efeitos da altitude fazem-se sentir nos ouvidos e na respiração mais ofegante no ar rarefeito.

Ao lado do Rio Mendoza que baixa desde os cumes da cordilheira, a rodovia internacional prossegue entre ciclópicas cicatrizes de avalanches, ruínas de antigas postas para descanso de viajantes em tempos antanhos, estações de um ferrocarril há muito abandonado, alojamentos militares, pequenas lancherias, estações de esqui aguardando o inverno,  e, por fim, as instalações da aduana pouco antes da fronteira.




No lado argentino o acesso é suave e mais extenso do que no Chile, onde a declividade bem mais significativa, com uma grande quantidade de curvas, é conhecida como "Los Caracoles".

"Los Caracoles" já no lado chileno dos Andes.
Por tudo isso, para quem vai do Atlântico ao Pacífico vindo do nosso Brasil tropical, percorrer o Paso Los Libertadores pelo mesmo caminho utilizado desde tempos imemoriais, acompanhando a beleza das montanhas com toda a sua imponência e múltiplas cores, sem dúvida é o trecho mais lindo da viagem e não atravessá-lo com toda a contemplação que merece é uma falta imperdoável.

Atenção, durante o inverno as condições em Los Libertadores costumam ficar difíceis...
Retornando do Atacama em setembro de 2005.

MOTIVO 2: A PUENTE DEL INCA

Embora o nome possa induzir a idéia de que tenha sido construída por mãos humanas, a Puente del Inca é uma formação rochosa natural sobre o Rio Las Cuevas, de curiosa aparência provocada por fontes sulfurosas de água mineral, perto da qual estão localizadas ruínas de uma antiga estação termal destruída por uma grande avalanche em 1965.

Sabe-se que a ponte de rocha foi utilizada como passo do rio pelos Incas e, durante a época colonial, pelos viajantes e correios entre Chile e Argentina, bem como pelo Exército dos Andes liderado pelo General San Martin na campanha de 1817.

Letreiro da antiga estação do Ferrocarril Andino, uma impressionante obra de engenharia vencida pelas forças geológicas da montanha.
Hoje a Puente del Inca constitui uma área protegida e não mais é possível atravessá-la, estando localizada bem perto da rodovia, a 183 Km de Mendoza e 2.700 m de altitude.

À sua volta existem lancherias e tendas de artesanato, uma antiga estação do trem, currais de mulas que servem de apoio aos escaladores que seguem para o Aconcágua e o pungente santuário dos andinistas, que merece um item específico que abordo logo a seguir.

Ao fundo a capelinha de Puente del Inca, única construção que sobreviveu à avalanche de 1965.
Junto à ponte natural de pedra o que restou dos antigos banhos termais, construídos juntamente com um hotel durante a década de 1930.
Puente del Inca depois de uma nevasca em setembro de 2005.
Passados os séculos e as mulas continuam sendo o principal e mais seguro meio de transporte na alta montanha, com vários currais na localidade de Puente del Inca.

 MOTIVO 3: O PARQUE PROVINCIAL DO ACONCÁGUA 

A 180 Km de Mendoza e do lado direito da Ruta 7 em direção ao Chile está a entrada do Parque Provincial do Aconcágua, antigo santuário inca e um dos cumes mais procurados por montanhistas tanto para trekkings como para escaladas de alta montanha.

Se o tempo não estiver encoberto é possível ver-se desde a estrada o cume do Aconcágua. Se quiser uma vista melhor, com uma pequena caminhada desde a entrada do parque prossiga até a Laguna de los Horcones e faça ali as suas fotos andes de prosseguir viagem.

Estive no Aconcágua em 1999, participando de uma expedição liderada pelo guia argentino Gabriel Cabrera. Cheguei até os 6.000 antes que uma tremenda tempestade - o temível Viento Blanco - pusesse fim definitivo aos nossos planos. Desde então não voltei mais àquela montanha mas sempre que passo pela Ruta 7 gosto de revê-la e lembrar daquela belíssima aventura.

Não confundam, esta foi outra viagem... Plaza Canadá (4910 m), Cerro Aconcagua, 1999. 

 MOTIVO 4:  O SANTUÁRIO DOS ANDINISTAS

A apenas 6 Km da localidade de Los Penitentes e 1,5 Km antes de Puente del Inca, logo atrás de um alojamento militar do lado esquerdo da estrada para quem segue em direção ao Chile, está escondido um pequeno e antigo cemitério onde repousam andinistas que faleceram no Cerro Aconcágua, o ponto culminante das Américas, com 6960 m.

Locomotiva rompe-neve do Ferrocarril
Transandino, 1910. Fonte:
Fotos Antiguas de Mendoza
Inicialmente lugar de sepultamento de operários que trabalharam na construção do Ferrocarril Transandino, o cemitério tornou-se naturalmente o local de repouso dos montanhistas que faleceram no Aconcágua a partir da sua conquista em 1897.

Desde então o local tornou-se ponto de contemplação, reflexão e homenagem aos homens e mulheres de muitas nações e que perderam a vida na montanha, alguns deles efetivamente ali sepultados e outros lembrados por placas fixadas por amigos e familiares.

Apesar da sua natureza dramática, este pequeno santuário é um local de grande beleza em meio a um vale entre as montanhas e local de peregrinação de muitas expedições e escaladores no seu caminho de ida ou já de retorno do Aconcágua.

O santuário dos andinistas em Puente del Inca.


Dentre os tantos registros e memoriais que ali se encontram, está também a placa em homenagem ao grande montanhista Mozart Catão, falecido em uma avalanche enquanto tentava com dois companheiros a escalada invernal do Aconcágua pela sua temida face sul, em 1998. Mozart nunca foi encontrado.

Placa em homenagem ao grande montanhista brasileiro Mozart Catão.
 O acesso a este local também pode ser feito por meio de uma tranquila caminhada de 1,5 Km desde Puente del Inca seguindo os trilhos de trem, passeio que rende belas paisagens para levar tanto na câmera quanto no espírito...






Bueno...

Depois destas quatro boas razões espero convencer alguém a deixar de lado o comodismo do avião e, tomara, a aventurar-se pela travessia da Cordilheira dos Andes entre Mendoza e Santiago do Chile pela sua maneira mais emocionante e esplendorosa: por terra!


Boa viagem!


DICAS:

Livro. PROCTOR, Robert. Narraciones del Viaje por la Cordillera de los Andes. Buenos Aires, El Elefante Blanco: 1998, p. 48