quarta-feira, 31 de março de 2010

Fotografia/4x4: Extremo sul - De volta ao Taim


Trinta-Réis na zona costeira da Estação Ecológica do Taim.  Foto: João Paulo Lucena

No extremo inferior do Rio Grande do Sul, onde termina - ou começa (!) - o Brasil, está a região do Taim, santuário de avifauna que abriga uma reserva ecológica com mais de 33 mil hectares de campos, dunas, banhados, mar e lagoa, também apelidada de o "Pantanal Gaúcho". Localizado em uma estreita faixa de terra entre o Oceano Atlântico e a Lagoa Mirim, a 370 quilômetros ao sul de Porto Alegre, compreende parte dos municípios de Santa Vitória do Palmar e Rio Grande.

Ali foi criada a Reserva Ecológica do Taim para preservar as últimas áreas de banhado do Rio Grande do Sul, formados a partir do prolongamento assoreado da Lagoa Mangueira, e evitar a extinção de espécies como o cisne-de-pescoço-preto. A unidade de conservação abriga diversos ecossistemas de praias lagunares e marinhas, lagoas, pântanos, campos, cordão de dunas e campo de dunas.

Estação Ecológica do Taim - Municípios de Rio Grande e Santa Vitória do Palmar/RS
A estimativa é que no Taim se encontrem mais de 230 espécies de aves que, entre agosto e janeiro, aumentam com a chegada de outras espécies migratórias dos dois hemisférios. Ainda vivem no banhado jacarés-de-papo-amarelo, capivaras, preás, gambás, lagartos e cerca de 60 tipos de peixes. Alguns animais são bastante fáceis de avistar como as emas, gaviões, a saracura, o joão-de-barro, tartarugas, tuco-tucos e o ratão-do-banhado.

A flora compõe-se principalmente de vegetação típica de campos, figueiras, corticeiras, quaresmeiras, orquídeas, bromélias, cactos, juncos e aguapés.

Emas, bastante comuns nos campos da região. Foto: João Paulo Lucena

Jacaré nos banhados do Taim. Foto: Renato Grimm

Lembro desde pequeno das tantas passagens que fiz com meus pais pelos 15 km da BR-471 que cruzam a reserva ecológica do Taim. Repleta de capivaras, jacarés, tartarugas e aves migratórias de todos os tipos, os animais eram (e ainda são) facilmente avistáveis desde a estrada e constituíam um dos principais atrativos da longa viagem entre Porto Alegre e La Coronilla, já do outro lado da fronteira internacional com o Uruguai.

Para uma criança nascida e criada na cidade grande, a visão destes animais libertos em seu próprio ambiente, longe das enfadonhas visitas ao jardim zoológico, era o prenúncio da tão esperada quebra da rotina que acompanha o período de recesso escolar. Além disso, passar pelo Taim significava que também já estava próxima a fronteira brasileira com o vizinho Uruguai, onde o mundo conhecido se transmudava em um novo espaço de ricos sotaques, aromas e sabores estrangeiros.

Pausa para o mate... Foto: João Paulo Lucena
À época, lá por 1972, com os doís países sob o jugo de ditaduras militares, os burocráticos trâmites fronteiriços eram repletos de policiais, agentes de imigração, soldados com metralhadoras, uma infinidade de papéis a carimbar e a obrigatória revista dos automóveis em busca de algum pretenso material subversivo da ordem e da paz. Sob a ótica de um menino que ignorava a realidade por trás da repressão política, isto dava a tudo um ingênuo clima de perigo e aventura, digno dos melhores filmes de espionagem...

Transcorrido o tempo e já distantes os anos de chumbo, a condição de efêmero passante transformou-se na de visitante regular, admirador da diversidade da fauna e da flora e, mais do que tudo, dos grandes espaços da planície costeira do Rio Grande do Sul.

Hoje, não mais de passagem mas sim como meu destino principal, volto ao Taim para me apropriar da sua paz, fotografar e percorrer seus tantos quilômetros de trilhas de campos, dunas e banhados, visitando capelas seculares e faróis perdidos entre horizontes de areia e o perigoso mar do Rio Grande do Sul.

Vista nordeste desde o Farol de Albardão. Foto: João Paulo Lucena

Margaridas típicas da flora que recobre o cordão de dunas. Foto: João Paulo Lucena
Aproveitando um convite para acompanhar as gravações do Programa Adrenalina decidi compartilhar minhas recordações de infância com meus filhos, gêmeos de 8 anos. Assim, direto depois da escola, entre mochilas escolares, equipamento fotográfico e material de camping, ao anoitecer de uma sexta-feira de outono tomamos o rumo direto para o Taim.

Capivaras ao final da tarde, à margem da Lagoa Mirim. Foto: João Paulo Lucena
A programação foi variada e intensa. Em paralelo com as gravações de TV tivemos todo o tempo do mundo para visitar a estação ecológica e seu pequeno museu, observar os animais no banhado, deliciar-nos nas águas transparentes da Lagoa Mirim, percorrer trilhas de 4x4 e se extasiar com a paisagem litorânea repleta de dunas e faróis.

Banho nas águas doces da Lagoa Mirim. Vila do Taim. Foto: João Paulo Lucena
O uso de técnicas de condução 4x4 foram um dos objetivos da equipe de televisão. Foto: Renato Grimm
Vista sudeste desde o Farol do Albardão. Foto: João Paulo Lucena
Junto com vários amigos a diversão foi garantida, reforçando laços de afeto e de união entre pai e filhos. Conosco estavam parceiros de longo tempo: Renato Grimm, fotógrafo de natureza, e Rui Ehrenbrink, da Rotas e Trilhas. Além de um final de semana cheio de novos conhecimentos bebidos diretamente da fonte, quebrou-se para as crianças aquela urbana rotina de intermináveis aniversários infantis, horas de televisão e partidas de videogame...



Observando pássaros com fotógrafo Renato Grimm e o ornitólogo curitibano Raphael Luiz Sobania. Será que existem professores melhores? O que se aprende na prática não se esquece jamais... Fotos acima Ana Karina Belegantt. Canon G9


Em um dos dias fomos visitar a área da reserva junto ao mar, passando pelos Faróis Verga e Albardão. Com direito a várias paradas, em comboio de 4x4 avistamos grande variedade de pássaros, restos de naufrágios, lobos e tartarugas marinhas e até uma grande baleia junto à areia da praia.

Foto: João Paulo Lucena
Foto: João Paulo Lucena

Passamos por um dos marcos da presença humana nestes confins solitários. O Farol Verga possui 11 metros de altura e foi construído em 1964. Foto: João Paulo Lucena
O Farol de Albardão é de 1909 e com 40 metros de altura seu sinal luminoso alcança quase 80 quilômetros. Foto: João Paulo Lucena
Foto: João Paulo Lucena

Sendo um dos poucos ainda guarnecidos (com pessoal da Marinha residente no local), quem vencer a sua escadaria de 209 degraus será presenteado com 360 graus da típica paisagem costeira do litoral gaúcho...

Foto: João Paulo Lucena

Foto: João Paulo Lucena

Foto: João Paulo Lucena

Foto: João Paulo Lucena

Foto: João Paulo Lucena

E... com um pouco de sorte e bom tempo... também com um magnífico pôr-do-sol...

Foto: João Paulo Lucena
Foto: João Paulo Lucena

Antigamente toda a região estava abrangida pelos Campos Neutrais, denominação dada pelo Tratado de Santo Idelfonso em 1777 a uma faixa de terra demarcada que se estendia do Taim até o Chuí e que não pertencia nem a portugueses, nem a espanhóis. Este espaço foi palco durante muitos séculos de grandes revoluções e acirradas batalhas por disputas territoriais e políticas.

Visitamos a Capela do Taim (conhecida como Capilha), sobre a única linha de falésia viva da Lagoa Mirim. Os fundamentos da primeira construção espanhola são de cerca de 1700 (!) e agora este importante patrimônio histórico está sendo restaurado por arqueólogos da Universidade Federal de Rio Grande - FURG.

Foto: João Paulo Lucena
Foto: João Paulo Lucena
Dentre um pouco de trabalho, locações de TV e bastante diversão, depois de um final de semana repleto de aventuras, ar puro e paz de espírito, restou em todos aquele gostinho de quero-mais e a vontade de logo logo voltar ao Taim...

Foto: João Pedro de Azevedo Lucena
E como se diz por aí... fiquem conosco e até a próxima!

Foto: Renato Grimm

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IMAGENS: Todas as fotografias sem indicação específica de crédito são de minha autoria. Equipamentos utilizados: Canon EOS-1D e Canon G9. Copyright©João Paulo Lucena 2010

DICAS DE VIAGEM:

Foto: João Paulo Lucena
- A 6 quilômetros antes da reserva ecológica, para quem chega de Porto Alegre, está a pequena Vila do Taim, também conhecida como Capilha. Não deixe de visitar a Capela do Taim sobre a falésia que dá para a Lagoa Mirim. A capela tem fundamentos datados de cerca de 1700, construção espanhola em 1785 e reconstrução portuguesa em 1844, com uma imperdivel paisagem para o pôr-do-sol na lagoa. Diz-se que é a mais antiga do Rio Grande do Sul.

- Se quiser saborear uma deliciosa comida caseira, faça sua refeição no Restaurante Lancheria Mirim, na Vila do Taim. Mescla de mercearia e pequeno restaurante, a simplicidade do local não deixa nada a desejar. Fale com a dona, Jaqueline, pelo telefone  (53)9975-0085 . Não abre aos domingos.

- Pedágios: Entre Porto Alegre e o Taim são 370 Km e existem CINCO (!) pedágios a R$ 7,20 reais cada um. Significa R$ 72,00 apenas para ir e voltar, sem contar o combustível...

- Combustível: Se estiver rumando ao Taim desde Porto Alegre, não deixe de encher o tanque de combustível em Rio Grande pois o próximo posto de abastecimento será somente em Santa Vitória do Palmar. No Taim não há combustível para venda!

- Repelente: leve muito pois os mosquitos são insaciáveis nas regiões de banhado...

- Celular/Internet wireless: A comunicação é muito deficiente. A única operadora que possui antena na Vila do Taim é a Vivo.

- GPS: S323218.6 e W523217.8

PARA SABER MAIS:

- Visitas: Na sede do Instituto Chico Mendes (Fone  (53)3503-3151 , 2ª/6ª 8h30/12h, 13h30/18h), na beira da rodovia, pode-se visitar um pequeno museu com animais taxidermizados e assistir a um vídeo sobre o ecossistema. No entorno da estação há quatro trilhas (de 1h30 a 2h cada) monitoradas (agendar).

- Reportagem: Especial sobre o Taim

- Blog: O Taim pegou fogo!

- Sobre as pesquisas arqueológicas da Capela do Taim:

Equipe da Furg faz trabalho arqueológico no Taim Equipe da Furg faz descoberta arqueológica no Taim Arqueólogos encontram vestígios de templo erguido há 300 anos em Rio Grande

- FURG entrega à Diocese trabalho da Capela do Taim

- Restauro da Capela do Taim - RS
POSTAGENS RELACIONADAS AO TAIM NESTE BLOG:

- Cinema: Câmera de filmar x Câmera fotográfica. As novas tecnologias em longa-metragem de Carlos Gerbase. Locações nos barrancos da Lagoa Mirim, junto à capela centenária.

- Ecologia: Costeau na Lagoa do Peixe. A visita de Jean-Michel Costeu à Lagoa do Peixe e Reserva do Taim.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Ecologia: Reserva ecológica de Barba Negra é criada às margens da Lagoa dos Patos


(Foto: Jornal Zero Hora Online - 17.03.2010)

Uma ótima notícia para os gaúchos foi dada nesta semana com a criação, às margens da Lagoa dos Patos, da Reserva Ecológica estadual Fazenda Barba Negra, a primeira em área de uma empresa privada no Rio Grande do Sul.

A empresa CMPC Celulose Riograndense tomou a iniciativa de encaminhar a criação de uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) em parte da fazenda Barba Negra, em Barra do Ribeiro (RS), com 10,6 mil hectares e a 40 Km de Porto Alegre. Destes, 2,4 mil hectares serão ocupados pela reserva, voltada para atividades controladas como educação ambiental e pesquisas.

Desde 1998 a área já estava na mira dos ambientalistas, especialmente de José Lutzenberger, então à frente da Fundação Gaia, sendo suas belas margens bem conhecidas por aqueles que navegam pela Lagoa dos Patos e o Rio Guaíba.

As RPPN´s, ou Reservas Particulares do Patrimônio Natural, são criadas por iniciativa privada a partir de um acordo entre os proprietários da área que assumem o compromisso de conservá-la em caráter perpétuo, mesmo em caso de venda da propriedade. A compensação se dá com a isenção do Imposto Territorial Rural - IPTR.

No caso da Fazenda Barba Negra a reserva poderá ser utilizada para pesquisa científica, ecoturismo e educação ambiental. Ressalta-se pela importância histórica pois sedia construções do século XVIII - um casarão colonial e uma capela - tendo sido também cenário de uma das batalhas entre gaúchos e imperiais durante a Revolução Farroupilha.

No aspecto ambiental ali estão inseridos em meio à mata nativa original animais ameaçados de extinção como o tamanduá-mirim e a lontra, além de várias espécies de aves raras como pato-do-mato, matracão, petrim e azulinho.

Segundo informado à imprensa a visitação por meio de trilhas ecológicas poderá ser agendada com a equipe de educação ambiental da CPMC, fone (51) 2139-7397.

(Foto: Cristiano Dalcin - Canal Rural)

terça-feira, 9 de março de 2010

Fotografia/4x4: O Farol Cristóvão Pereira


Farol Cristóvão Pereira na costa leste da Lagoa dos Patos/RS

Um dos meus lugares preferidos para recarregar as baterias isolado de telefone e internet, interagir com a natureza e fotografar é o farol Cristóvão Pereira, à margem leste da Lagoa dos Patos/RS.

Sendo o segundo mais antigo farol do sul do Brasil (o primeiro é o Farol Capão da Marca, de 1849) e distante 25 Km do município açoriano de Mostardas, foi inaugurado em 1886 e permanece ativo até hoje, agora automatizado e desguarnecido (sem faroleiro).

Em meio a uma paisagem de rara beleza e onde se avistam muitas das aves migratórias que constituem o cartão postal do quase vizinho Parque Nacional da Lagoa do Peixe, o local só é acessível por veículos 4x4 ou embarcações pesqueiras e de recreio que a ele chegam via Lagoa dos Patos.

Foto Ana Karina Belegantt
Foto Ana Karina Belegantt
Foto Ana Karina Belegantt
Nas minhas tantas visitas ao farol na última década, em diferentes épocas do ano, já tive oportunidade de encontrar emas, capivaras, lebres, tatus e aves como a ema, garça, joão-grande, quero-quero, joão-de-barro, coruja, gavião, andorinha, cisne-de-pescoço preto e até flamingos.

As águas ali rasas da Lagoa dos Patos são transparentes e piscosas, servindo de berçário para uma variedade de peixes, camarões e moluscos, que por sua vez atraem os siris da casca azulada que neles encontram sua principal fonte de alimentação.




A dificuldade de acesso ao local garante um espaço de calma e isolamento, que propicia a reflexão, o descanso, a contemplação da natureza e o usufruto de alguns valores da vida simples que o turbilhão urbano muito rápido nos faz esquecer da existência.


A simplicidade de um final de semana longe das atribulações da vida urbana, onde o menos é verdadeiramente o mais.

Há tempos tenho a certeza de que o prazer de estar ao pé de uma fogueira, sob um céu de estrelas e dormir em meio ao silêncio de um bosque supera em muito os confortos civilizados do mais luxuoso hotel cinco estrelas.

Todavia, não esqueço: tudo isto só tem valor quando compartilhado com uma boa companhia, de amigos ou da pessoa amada, quando então este prazer será por muitas vezes multiplicado.




Pescadores são as raras presenças humanas no Rincão do Farol. Cercado por acres e acres de florestamento de pinus, charcos, campos, lamaçais e dunas, este inóspito entorno torna deserta uma extensão de muitos quilômetros de praias de areias brancas banhadas pelas cristalinas águas da Lagoa dos Patos.



Desde que o vi este farol pela primeira vez passei a me interessar pela história da região, buscando literatura a respeito e, principalmente, os testemunhos e imagens disponibilizados no Popa.Com, o site náutico conduzido com maestria pelo amigo Danilo Chagas Ribeiro.

Dali me permiti reproduzir algumas das fotografias históricas que seguem neste post e que em mais nenhum outro lugar poderiam ser encontradas.

O farol foi construído em alvenaria, em forma de planta quadrada e se eleva a uma altura de trinta metros. O seu lampejo é de coloração branca com uma freqüência de dez segundos, plano focal de 30 metros (98 ft) e alcance de treze milhas náuticas.

Atualmente são estes os seus dados oficiais:

Localização: Mostardas/RS
Coordenadas: 31 03,72S / 51 09,89W

Inauguração: 1887
Altura: 28 m
Altitude: 30 mAlcance: 13 milhas náuticas
Lampejo: Branco a cada 10 segundos
Nº nacional: 4480
Nº internacional: G-0631-4
Nº da NGA: 18946.9
Nº da ARLHS: BRA-131

Consta que o primeiro farol consistiria de uma simples torre de madeira encimada por um lampião. Em 1861, foi inaugurada a atual torre de alvenaria de 28 metros e equipada com um aparelho de luz catóptrico de luz fixa, com 12 milhas de alcance, substituído em 1904 por um dióptrico de 5ª ordem BBT, de acordo com as informações do site Faróis Brasileiros.

Segundo Carlos Altmayer Gonçalves (o Comandante Manotaço, do Clube Veleiros do Sul - Porto Alegre) em registro enviado ao Popa.Com, o Farol Cristóvão Pereira foi construído na mesma época que o da Ponta Alegre, na Lagoa Mirim, e Bujuru, mais ao sul na Lagoa dos Patos, sendo 1858 o ano de início das suas obras. Pesquisador da história da navegação no Rio Guaíba e na Lagoa dos Patos, o Comandante Manotaço encontrou também o seguinte registro da edificação deste monumento histórico:

"....escavou-se o terreno à uma profundidade a encontrar bastante água, estacou-se com 84 moirôes de lay toda a superfície, sobre os quaes engradou-se com vigas de ley na distância de tres palmos de uma a outra, e depois de incavilhadas encheu-se os entrevallos de pedra secca bem calcada: sobre este engradamento levantou-se a sapata de pedra e cal até 10 palmos, e sobre esta levantarão se as paredes da torre e as das meios águas seguindo sempre com a planta em vista. Acha-se presente esta obra com os arcos fechados do 2º pavimento e a receber o respectivo madeiramento, e a 45 palmos de altura acima do terreno...."

(Correspondência do Intendente do Estado para o Vice-Rei no Rio de Janeiro, no seu relatório de atividades de 9/março/1859; 1 palmo = 21cm)
O nome homenageia uma figura de grande importância histórica no Rio Grande do Sul, antigo proprietário da sesmaria onde foi contruído o farol. Cristóvão Pereira de Abreu foi um dos responsáveis, dentre tantos outros fatos relevantes, pela ligação terrestre entre o sul do Brasil e a cidade paulista de Sorocaba que veio a se tornar importantíssima rota dos tropeiros. Foi também um dos responsáveis pela fundação de Rio Grande e Porto Alegre.

Também em uma sesmaria de sua propriedade e um pouco mais ao sul do Farol Cristóvão Pereira, foi construído em 1849 o Farol Capão da Marcaum dos mais importantes sinalizadores da Lagoa dos Patos.

Por muitas décadas o farol abrigou um faroleiro e sua família, isolados em meio às solitárias paragens da costa leste da Lagoa dos Patos conforme registram algumas belas imagens das décadas de 1940 e 1950  (Excursão do Umuarama - Diário de bordo dos anos 40. Texto: Jorge Gross, Transcrição e comentários: Carlos Altmayer Gonçalves "Manotaço". Originalmente publicado na Revista Yachting Brasileiro nº 22, Agosto – 1946. Fotografia reproduzida do site www.popa.com.br)



Fotografias enviadas pelo Comandante Emílio Opitz, de Tapes, para o Popa.Com

Fonte: Revista Digital Hermomt
Uma curiosidade é que o antigo Farol do Bujurú (20 metros) foi construído junto com os faróis de Itapuã, Cristóvão Pereira e Ponta Alegre (este na Lagoa Mirim). O Dr. Hugo Altmayer, pai do Comandante Manotaço, fotografou o Farol do Bujuru em meados da década de 50, pouco antes do seu desabamento. O também histórico farol hoje não passa de uma ilhota a cerca 100 m da praia (vide Popa.Com).


O que resta hoje, em meio à água, do outrora sólido e imponente Farol do Bujurú. Será este o mesmo f uturo do Farol Cristóvão Pereira?


(Mapa replicado do Popa.Com)

Nos dias atuais o Farol Cristóvão Pereira foi automatizado e, em um verdadeiro atentado ao patrimônio e à memória histórica que somente os labirínticos meandros da burocracia estatal podem tentar explicar, em 1992 a Marinha, responsável pela manutenção dos faróis brasileiros, demoliu as dependências domésticas destinados ao faroleiro, ao mesmo tempo em que as portas e janelas da construção foram seladas com tijolos para evitar visitantes e depredações.

A partir daí algumas trabalhos de manutenção e contenção da erosão foram feitos, inclusive de forma voluntária por eventuais navegadores visitantes do farol.

(Trabalhos de manutenção do farol efetuados pela Marinha Brasileira em Maio de 2006. Fonte: Popa.Com)

vista a partir do topo do Cristóvão Pereira durante os trabalhos de manutenção do farol pela Marinha Brasileira. Maio de 2006. Fonte: Popa.Com)
Um grupo de velejadores consertando o farol com a reconexão da placa solar durante uma visita em 2004. Fonte: Popa.Com
Em janeiro de 2006 encontrei o Farol aberto na base, com uma abertura quebrada na base e ninguém ou qualquer material de manutenção presente, o que me fez afastar a possibilidade de que estivesse em obras de manutenção. Mais provável que fosse ação de vândalos como demonstram a seguir as últimas imagens que fiz do seu interior:

Janeiro de 2006. Ação de vândalos?
No piso o que sobrou da estrutura interna e escadarias de madeira, assim como o vão da antiga porta principal, testemunho da espessura e solidez das paredes do velho farol.
Sob a laje de concreto que isolou os andares superiores da estrutura ainda se vêem o que restou estrutura de madeira original que formavam os pisos e as escadarias do Farol.
Em torno da torre do farol, onde antes haviam as instalações do faroleiro e absurdamente demolidas pela Marinha do Brasil em 1992, ainda encontram-se resquícios da sua ocupação centenária, como cacos de louça, pregos e ossos.

Por curiosidade vê-se que tanto o Farol Cristóvão Pereira quanto o caído Bujurú são muito parecidos em estilo construtivo com o antigo Farol Atalaia, de São José do Norte,o primeiro construído no sul do país no já longínquo ano de 1820, utilizando-se cal feito de conchas oriundas de sambaquis.

A sua iluminação era feita por uma fogueira acessa no topo e ele ainda está de pé, próximo ao farol que o substituiu em 1896. Restos da estrutura interna ainda são visíveis e, como é praxe com estes valiosos monumentos históricos, encontra-se em péssimo estado de conservação.

Em São José do Norte o antigo Farol Atalaia, de 1820, substituído pelo "novo", inaugurado em 1896.
Vista para o alto dos restos do madeirame interno do Farol Atalaia, de 1820, como se encontrava em visita feita no ano 2006, e que deve ser muito semelhante ao que seriam as estruturas dos Faróis Cristóvão Pereira e Bujurú. 

O avanço das águas da lagoa sobre o farol é impressionante e a cada visita que faço são visíveis os estragos na estrutura de proteção deste imponente marco que, a continuar assim, não tardará em ruir com um enorme prejuízo à memória náutica da região e ao patrimônio histórico nacional.

Esta é a conclusão óbvia quando comparamos as antigas imagens onde se vê a torre em meio a dunas e figueiras com o seu estado atual. Em 2004 foi construído um dique de contenção pela Marinha, mas de duvidosa eficiência pois não tem sido capaz de protegê-lo da erosão das ondas e tempestades.

As imagens que captei do Farol neste verão de 2010 são reveladoras, mostrando o monumento já ilhado pelas águas, num prenúncio de repetição do que aconteceu com o seu já tombado co-irmão, o Farol de Bojurú.

Foto de Geraldo Knippling em 23-12-1998, enviada pelo Comandante Manotaço ao Popa.Com

O contínuo assoreamento da margem leste da Lagoa dos Patos dificulta enormemente o trânsito pela região, o que em certos pontos só é possível à pé ou em veículos  4x4.


De qualquer forma fica este registro de um dos mais aprazíveis locais da nossa Costa Doce, como são também chamadas as praias da Lagoa dos Patos.




EM TEMPO: Cristóvão Pereira de Abreu foi coronel das forças portuguesas nascido em 1680. No início do século XVI esteve na Colônia do Sacramento e por mais de 50 anos cruzou o Rio Grande do Sul levando tropas de gado, mulas e cavalos para Sorocaba, também prestando serviços ao Reino de Portugal. Alguns historiadores entendem que teria sido um dos pioneiros na povoação do Rio Grande do Sul. Foi o primeiro homem a atravessar, pelo interior, o território entre o Rio Grande do Sul e São Paulo, inaugurando o ciclo comercial e o movimento tropeiro na região sulina. Requereu e ganhou uma sesmaria na área que ficou conhecida como Rincão do Cristóvão Pereira, onde estabeleceu estância de criação de gado apesar de nunca a ter habitado.

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EQUIPAMENTO: Desta vez eu estava preguiçoso e não quis levar a costumeira tralha fotográfica. As imagens sem indicação de fonte são de minha autoria e, dentro do espírito da simplicidade que norteou o final de semana, utilizei somente a valorosa Canon G9 e um tripé. Afinal, às vezes, a filosofia minimalista do less is more vale também para a fotografia ...

DICA DE VIAGEM: Em Mostardas/RS a boa é o Restaurante Ed Mundo´s, atendido pelo proprietário Edmundo Luz, aberto das 11h00 às 15h30 e à noite das 19h00 até o último cliente sair... Serve buffet e a la carte, especializado em frutos do mar e cordeiro. Fica na Rua Bento Gonçalves, 906. Preços bons, comida honesta e ambiente acolhedor. Informações nos fones (51)3673-1969 e (51)9861-5554.


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Do Farol Capão da Marca à Lagoa do Peixe - postagem deste blog
Efemérides Hidrográficas
Polêmica Histórica - Carta mudaria marco fundador do Estado - Artigo Jornal Zero Hora 20/10/2011