quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Náutica/Vela: Travessia da Lagoa dos Patos - Alguns comentários finais...

Pilotando o Arraia Manta em Rio Grande. Foto: Ana Karina Belegantt

Finda a nossa jornada pela Lagoa dos Patos, faço aqui alguns comentários gerais.

Distância percorrida - 160 milhas náuticas (296 Km).

O veleiro - Costuma-se referenciar as embarcações pela classe ou estaleiro de origem e o seu tamanho. No nosso caso estávamos em um Delta 36, construído pela Delta Yatchs de Gravataí/RS, com 36 pés (11 metros).

O Arraia Manta ainda com o antigo nome pintado no costado e fundeado na Praia do Sítio.
Quem pode navegar - Para a condução amadora (não comercial) de um veleiro como o nosso é necessário possuir habilitação concedida pela Marinha do Brasil, a qual pode ser de 3 tipos:

- Arrais Amador - Permite a condução de embarcações de esporte e recreio, em qualquer tamanho e peso, à vela ou a motor, dentro do limite de águas abrigadas (rios, canais, lagos, lagoas, represas, baías, etc.)

- Mestre Amador - Amplia o limite acima para águas costeiras até aproximadamente 40 milhas da terra (74 Km), entre portos nacionais e estrangeiros.

- Capitão Amador - Habilitação máxima para um amador, autoriza a navegação transoceânica.

Para uma viagem relativamente longa como a nossa, a cautela recomenda que pelo menos duas pessoas estejam habilitadas a pilotar o barco. No Arraia Manta tínhamos dois capitães e um arrais amador.

A partir dos 4 anos de idade qualquer pessoa pode aprender a navegar, independente de condição física.

Crianças à bordo - É claro que em uma embarcação em movimento sempre haverá certo risco para os tripulantes, crianças ou não. A chave é primeiro reconhecê-lo e depois preveni-lo e controlá-lo. Crianças de qualquer idade podem viajar em um barco à vela, variando os cuidados necessários conforme a sua idade. Há que ter precaução para não se perder o equilíbrio quando o barco balança com as ondas, quando singra adernado, com os movimentos bruscos dos cabos e da retranca da vela mestra e, por óbvio, para não cair na água.

O nosso tripulante mirim tinha 12 anos de idade, experiência em velejadas anteriores e sabia nadar. As precauções maiores eram tomadas à noite, quando ele somente subia ao convés com um salva-vidas inflável e um sinalizador estroboscópico de emergência, pois uma das tarefas mais difíceis em uma embarcação é regatar um "homem ao mar" durante a noite. Com meus filhos que são ainda menores que o Pipe costumo utilizar também uma "linha de vida", um cabo de segurança com presilhas nas pontas que prende o tripulante pelo peito ou cintura a um ponto de segurança no barco.

Um registro especial: o Pipe foi de um desempenho exemplar, da manhã à noite fazendo companhia a quem estava pilotando na roda do leme, bem-humorado, prestativo, interessado em aprender e sem apresentar reclamações ao comando uma única vez! Em suma, um perfeito parceiro de navegação!

A água da Lagoa dos Patos - Tínhamos a bordo um bom suprimento de água potável para consumo humano e os banhos eram todos nas águas navegadas. Com exceção dos portos e zonas próximas a centros urbanos, a água da Lagoa dos Patos é limpa, livre de poluição.

Como em verdade a lagoa é uma laguna pois se comunica com o oceano, a água doce se mescla com a salgada em uma extensão que varia conforme o regime de ventos, das correntes, marés e da época do ano. No verão a salinidade mais concentrada provoca maior limpidez e a cor esverdeada das águas, ao mesmo tempo em que permite a pesca de camarões e lulas. A cidade de Rio Grande é um dos grandes centros pesqueiros destes produtos.

Na medida em que se avança na lagoa rumo norte, para o estuário do Rio Guaíba, vai diminuindo a salinidade e as suas águas vão se tornando um pouco mais escuras e turvas, em um tom de chá, mas ainda assim limpas o suficiente para permitir a pesca abundante e banhos memoráveis!


A ala masculina da tripulação se refresca nas águas límpidas ao largo do Farol Capão da Marca, margem leste da Lagoa dos Patos. Foto: Ana Karina Belegantt
Uma curiosidade: golfinhos na lagoa - Devido ao fenômento acima golfinhos, ou botos, já foram avistados muito longe lagoa adentro e até mesmo em afluentes do Rio Guaíba, a mais de 160 milhas (300 Km) do oceano!! O mesmo já aconteceu com lobos marinhos, avistados junto ao Clube Náutico de São Lourenço, muito adentro na Lagoa dos Patos. Pessoalmente ainda não tive este privilégio...

Confira alguns relatos e fotos AQUI e AQUI!

Golfinho avistado em 2009, nas águas doces da Enseada de Tapes, a 110 milhas do Atlântico.
Fonte: Popa.Com - Danilo Ribeiro

O camarão - Relatei aqui no blog que a base dos pratos servidos à tripulação foi o camarão. Não que no Arraia Manta alguém tenha nascido em berço de veludo ou escove os dentes com champanhe. Mas em plena safra se consegue comprar camarão fresco a ótimos preços no mercado público de Rio Grande ou diretamente dos pescadores na lagoa.

O preço varia conforme o tamanho do camarão, se está descabeçado ou totalmente descascado. Como não chegamos em boa hora no mercado acabamos pagando R$ 18,00 pelo quilo, ainda assim mais barato do que no supermercado.

Marinheiro Pipe adquire estratégico conhecimento náutico: como escolher camarão para a bóia da tripulação!
Fotografia - Utilizei uma Canon EOS 1 Mk II basicamente com duas lentes: uma grande angular 17-40 mm e uma telezoom 100-400 mm com estabilizador de imagem. O contínuo balanço do barco não permite o uso de tripé o que obrigou a combinação da tele com altas velocidades de obturação (1/1000) e ISO maior (entre 400 e 1600). Já a Ana Karina utilizou uma Canon G9, uma excelente compacta de desempenho profissional.

Bom, por enquanto era isto.

Até a próxima aventura!!

 
IMAGENS: João Paulo Lucena e Ana Karina Belegantt

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Náutica/Vela: Do Farol de Itapuã a Porto Alegre

Praia do Sítio e Farol de Itapuã ao fundo. Construído em 1860, está no limite geográfico entre a Lagoa dos Patos e o Rio Guaíba.
3º e último dia.

Agora que estamos a somente 20 milhas de Porto Alegre a alvorada é mais tranquila, cada um acordando conforme o corpo vai pedindo, enquanto se escuta ao longe o ronco dos bugios na mata nativa que recobre a pequena baía da Praia do Sítio.

A paisagem novamente se transformou e nem parece que estamos em uma praia fluvial do Rio Grande do Sul. Quem sabe, não fosse pela cor da água até pudesse confudir-se com alguma praia do litoral do Rio de Janeiro ou de Santos...

Acredite se quiser, mas estamos a apenas 40 Km de Porto Alegre...


Esta praia pertence ao Parque Estadual de Itapuã, município de Viamão, e está a aproximadamente 1 Km do Farol de Itapuã. É famosa pelos bugios que habitam suas matas e nela é proibido o desembarque sem permissão das autoridades ambientais.

Uma vez ao ano os velejadores da região se organizam para uma atividade comunitária de limpeza das suas margens, ocasião em que dezenas de embarcações transformam a pequena baía da Praia do Sítio em uma cidadezinha flutuante. Trata-se do já tradicional Cruzeiro do Bugio, organizado por Danilo Ribeiro, velejador de Porto Alegre famoso pelos eventos náuticos que unem navegantes de todas as origens e idades.

Enormes rochas de granito arredondas pelo tempo compõem um bonito cenário com palmeiras, orquídeas, bromélias, cactáceas e figueiras centenárias, recobertas de barba-de-pau.


Mas nem sempre foi assim.

Há anos uma pequena vila de pescadores e veranistas ocupava o local onde hoje só vemos mata, tendo sido também lugar de combates históricos entre gaúchos que lutavam pela independência do sul e imperialistas durante a Revolução Farroupilha, de 1935 a 1945.

Restos de armamentos já foram encontrados em antigas trincheiras no Morro da Fortaleza e em naufrágios de embarcações militares próximos ao local onde estamos fundeados.

Depois da criação do parque estadual em 1973 uma de suas administrações entrou em conflito com os velejadores ao tentar impedir o fundeio na Praia do Sítio. Conta Danilo Ribeiro que quem resolveu a parada foi o Delegado da Capitania dos Portos de Porto Alegre que, de forma muito incisiva, deixou clara a sua jurisdição sobre as águas do parque ao declarar:

- "Onde uma acha de lenha flutuar, quem diz o que pode e o que não pode, sou eu!"
E desde então os navegantes, sem desembarcar, voltaram a fundear tranquilamento neste belo recanto do Rio Guaíba...

O dia está quente, ensolarado, com bom vento e os sinais de telefonia celular e de internet 3G voltam ser captados, anunciando o retorno do Arraia Manta à civilização.

Alguns reparos precisam ser feitos e trocamos a vela genoa que rasgou na tarde de ontem por uma nova, um pouco menor, mas que substitui com eficiência a antiga.

Colocando as postagens em dia. Foto: Ana Karina Belegantt

A tripulação se diverte com banhos de rio - já saímos da Lagoa dos Patos - e brincadeiras com o bote inflável, quando aproveito para fotografar o barco em um ângulo diferente, a partir da água.



O Comandante Tita também dá duro nas remadas...
O almoço é puro luxo pois precisamos terminar o principal mantimento da viagem, comprado lá na feira do peixe de Rio Grande. Assim são servidas variações sobre um mesmo - mas nada entediante - tema: camarão ao bafo, pirão de camarão, camarão com espagueti...

Velejar na Lagoa dos Patos durante a safra do camarão é muito duro...
Após a refeição içamos vela e seguimos com bom vento e velocidade média de 6 nós rumo a Porto Alegre, onde devemos chegar em aproximadamente 4 horas mais.

No caminho vamos apreciando as margens do Guaíba, passando pela Ilha do Junco, a Ponta da Fortaleza, Itapuã, Ilha Chico Manuel, as Pedras do Arado, a Ponta Grossa, a Ilha Pedras Brancas, passando por velejadores de classes diversas - wind, kite, monotipos, veleiros oceânicos - enquanto ao mesmo tempo vamos preparando o barco para a chegada.

Poucos sabem mas o Rio Grande do Sul rivaliza com o Rio de Janeiro como maior pólo de vela do Brasil, tanto na formação de velejadores, inclusive de classe olímpica, quanto na construção de embarcações. O Delta 36 em que estamos viajando foi construído na cidade de Gravataí/RS, um dos melhores estaleiros do gênero no país.


Preparando o barco para atracar...
Velejadores da classe Laser em frente ao clube Jangadeiros, que junto com o Veleiros do Sul formam as duas principais agremiações náuticas do Rio Grande do Sul.

Aos poucos vislubramos o perfil de Porto Alegre, tendo a Usina do Gasômetro e a sua imensa chaminé como ponto referencial da paisagem urbana.


Finalmente, depois de uma magnífica velejada, vamos chegando de mansinho, velas caçadas, motor em baixa rotação e atracamos no clube náutico Veleiros do Sul, em Porto Alegre, base permanente do Arraia Manta.

Corpo cansado mas com a mente leve, barco e tripulação em segurança, a satisfação da missão cumprida depois de 160 milhas navegadas.

Agora é despedir-se temporariamente dos amigos, recuperar as energias e já começar a pensar na próxima viagem!

Afinal, como bem diz o Amyr, "um dia é preciso parar de sonhar e, de algum modo, partir..."

João Paulo Lucena, João Baptista Beck Pinto e Demóstenes Luiz Beck Pinto. O trio que tem conduzido o Arraia Manta (ex-Brubalu) - agora na sua terceira versão - pelas águas do sul do país. Foto: Ana Karina Belegantt
IMAGENS: João Paulo Lucena e Ana Karina Belegantt

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Náutica/Vela: Do Bujurú ao Farol de Itapuã

Nascer do sol na barra falsa do Bujurú. Um abrigo seguro para embarcações na costa leste da Lagoa dos Patos.

2º DIA.

Quando o sol nasceu às 6h45 eu já estava esperando para captar algumas imagens dos primeiros raios do dia. Aos poucos os demais tripulantes foram acordando e, na sequência, como não poderia deixar de ser, banho de lagoa obrigatório para todo mundo...


Diferente do dia anterior, não havia vento pela manhã e a jornada a vencer ainda era mais longa: 80 milhas (148 Km) até o Farol de Itapuã, marco geográfico que separa a Lagoa dos Patos do estuário do Rio Guaíba, em cujas margens já está Porto Alegre.

Não é muito se a gente pensar em deslocamento terrestre, mas em um barco que navega em média a 5 nós com o motor (10 Km/h) e 7 a 8 nós com vento (15 Km/h) , é fácil ver que tínhamos pela frente uma previsão de pelo menos 12 a 15 horas de navegação.

Em "árvore seca" no linguajar náutico (sem velas), partimos do Bujurú rumo norte, até o Farol Capão da Marca, uma torre de metal de 1849, marco histórico da região e ainda em pleno funcionamento junto à margem leste da Lagoa dos Patos.

Farol Capão da Marca, de 1849, o mais antigo da Lagoa dos Patos.

Ali fundeamos a 300 metros da praia, numa paisagem de quilômetros e quilômetros de praias de dunas brancas e água doce, entremeando a vegetação nativa de restinga e centenárias figueiras com florestamentos de Pinus eliottis para exploração de madeira e resina.

A restinga nativa...
... sendo substituída pelos florestamentos de pinheiro para exploração de madeira e resina...
O dia estava claro, com nuvens esparsas no céu, sol forte e bastante calor. As margens da lagoa são muito rasas, permitindo ao banhista que avance até mais de uma centena de metros com a água pelos joelhos. Por outro lado isto representa um perigo para a navegação e as embarcações precisam manter uma distância segura ao fundear na costa para evitar o encalhe nos bancos de areia.

Novo banho para refrescar e intervalo para o almoço. No menú, desta vez, espaguetti com camarão e legumes, sendo o Chef do dia o autor deste blog...

O marinheiro Demosthenes não perde tempo para se refrescar na lagoa...
Seguimos rumo norte ainda costeando a península que separa a Lagoa dos Patos do Oceano Atlântico até outro farol histórico, o segundo a ser construído na lagoa: o Cristóvão Pereira, uma torre maciça de alvenaria erguida em 1886 e que desde muito longe se ressalta na paisagem com a sua silhueta esguia e caiada de branco.

Farol Cristóvão Pereira
O belo Cristóvão Pereira, cujo nome homeageia o tropeiro que pela primeira vez abriu o caminho entre São Paulo e o Rio Grande do Sul e que foi dono das terras onde hoje está este marco da navegação.

A profusão de faróis à margem leste da Lagoa dos Patos não se dá por acaso. Bem pelo contrário, confirma o grande perigo existente para a sua navegação, unindo-se aos faróis Capão da Marca e Cristóvão Pereira ainda outros marcos luminosos como o do Bujurú e o da Barra, construído em São José do Norte em 1896.

Durante toda a viagem o Comandante João Baptista vai repassando ao atento filho Francisco a sua experiência marinheira e também os segredos da "Costa Doce". Aprender a navegar com bússola e cartas náuticas ainda é um conhecimento indispensável para o velejador, mesmo após o advento dos instrumentos eletrônicos como o GPS.


No meio da tarde o vento retorna com força, permitindo ao Arraia Manta trocar o motor pelas velas, aumentando a velocidade para uma média de 8 nós e antecipando um pouco a previsão de chegada no próximo ponto de parada: a pequena Praia do Sítio, junto ao Farol de Itapuã.

Agora velejando de "rédeas soltas" na Lagoa dos Patos perdemos de todo a visibilidade da terra, trocada por um infinito horizonte de água doce e um céu salpicado de pequenas nuvens que prenunciam possibilidade de chuva para mais tarde.




A movimentação à bordo com o vento e a rota constantes se resume a estar atento às velas, cuidar para não cair ou bater em algo com o balanço do barco, apreciar a natureza e jogar muita, mas muita conversa fora...

E também chega meu turno de pilotar o Arraia Manta. Apesar do conforto do piloto automático, nada substitui o intenso prazer de conduzir uma embarcação à vela, integrando como um elo a água e o vento... Foto: Ana Karina Belegantt
E mais um espetacular pôr-do-sol para ir fechando o dia com chave de ouro...



"Eu entendo a noite como um oceano

Que banha de sombras o mundo de sol
Aurora que luta por um arrebol
Em cores vibrantes e ar soberano
Um olho que mira nunca o engano
Durante o instante que vou contemplar"

(Beira-Mar, Zé Ramalho)
Logo que começa a escurecer passamos por um dos mais famosos naufrágios da Lagoa dos Patos, o navio "Álvaro Alberto". Conta-se que incendiou e afundou no canal de navegação em 1992. Foi então arrastado por rebocadores pelo fundo da lagoa até ser retirado da rota dos navios.

Hoje sua ponte metálica e parte da chaminé podem ser avistados perfeitamente à tona da àgua, dando um certo toque surrealista a este deserto líquido. A história do Álvaro Alberto está descrita no Popa.Com, do meu caro amigo Danilo Ribeiro.

O "Álvaro Alberto" como era antes de sossobrar na Lagoa dos Patos. Fonte: Popa.com

A ponte e chaminé do naufrágio "Álvaro Alberto" como hoje pode ser visto pelos navegantes.

E sempre de olho nos instrumentos para não perder a rota...
Cansados depois de 13 horas de viagem vislubramos as luzes do Farol de Itapuã dando as boas-vindas aos que adentram no estuário do Rio Guaíba. Já é noite alta, estamos próximos da meia-noite e a lua nos ajuda a encontrar um bom lugar para fundear o Arraia Manta.

A Praia do Sítio é nossa velha conhecida e, para mim, o mais belo fundeadouro do Rio Guaíba. Cansados todos da viagem, da exposição ao sol e ao vento e do manejo das velas, fazemos um lanche leve e a tripulação se divide. Metade vai direto para a cama e o resto sobe ao convés para apreciar a noite e "a fresca", termo carinhoso pelo qual o gaúcho do interior costuma chamar a brisa leve...


P.S.: Desde a saída do Canal da Feitoria não mais obtive conexão com internet, apesar de haver sinal de celular por boa parte do caminho. A conexão 3G somente voltou na Praia do Sítio, já no Rio Guaíba.


IMAGENS: Fotos por João Paulo Lucena e Ana Karina Belegantt.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Náutica/Vela: De Rio Grande ao Bujurú

 
O Arraia Manta se abastece de combustível.
O trânsito de embarcações em Rio Grande é bastante intenso como o mais importante pólo naval do sul do Brasil. O pequeno posto de combustíveis onde abastecemos o Arraia Manta vende 1 milhão de litros de óleo diesel por mês.

Zarpamos de Rio Grande às 14h30 da tarde, com a meta de chegar à barra falsa do Bujurú, um bom abrigo para pernoite junto à costa leste da Lagoa dos Patos, precisando vencer um percurso aproximado de 60 milhas náuticas.

A primeira etapa desta viagem é seguir parte da hidrovia da Lagoa dos Patos pelo Canal da Feitoria, rota obrigatória utilizada por todas as embarcações de médio e grande porte que seguem para o Atlântico ou que tem como destino as águas interiores do Rio Grande do Sul.

Isto acontece porque a Lagoa dos Patos, apesar de imensa não é muito profunda, apresentando muitos perigos à navegação. A sua profundidade média é de 6,5 m e os maiores riscos decorrem dos bancos de areia, da neblina, dos fortes ventos e das ondas que deles decorrem.

Balsa de passageiros que une Rio Grande a São José do Norte na foz da Lagoa dos Patos com o Oceano Atlântico.
São muitos os naufrágios na costa oceânica do Rio Grande do Sul que, até o Uruguai, é conhecida como cemitério de navios. E dentro da Lagoa dos Patos, o “Mar de Dentro”, também muitas embarcações antigas e modernas jazem em seu fundo. Somente nesta viagem do Arraia Manta passaremos por dois naufrágios bem conhecidos dentro da lagoa, os navios "Cisne" e "Álvaro Alberto".

Por tudo isto alguns trechos somente são navegáveis em canais dragados, sendo o mais famoso dele o da Feitoria, com aproximadamente 35 milhas de extensão. É o primeiro que precisaremos atravessar e, por ser estreito e ladeado de ponta a ponta por estacas de fixação de redes e armadilhas colocadas pelos pescadores de peixe e camarão, o Arraia Manta precisa valer-se de uma combinação de vela e motor para não sair da rota.

O cenário é lindo. Logo na saída do porto de Rio Grande já avistamos do outro lado da foz da lagoa a histórica São José do Norte, com seus casarões centenários e a barca que atravessa o canal com automóveis, caminhões, passageiros, carroças e cavalos, estes últimos personagens indissociáveis da cultura rural gaúcha.

São José do Norte, uma cidade histórica do outro lado do canal, em frente a Rio Grande.
Pescadores de camarão em plena safra de verão. Canal da Feitoria, Lagoa dos Patos/RS
Levamos aproximadamente 7 horas a motor e vela para percorrer todo o Canal da Feitoria, passando por milhares de estacas de armadilhas de pescadores pois estamos em plena safra do camarão. Os pilotos precisam estar muito atentos a estes obstáculos que avançam indevidamente para dentro do canal de navegação. Pelos perigo que representam os os navegantes chamam este trecho de “paliteiro”, sendo extremamente recomendado não atravessá-lo à noite.

O "paliteiro" de armadilhas para camarão no Canal da Feitoria. Um perigo para a navegação.
Por volta das 20h00, justo ao pôr-do-sol, finalmente saímos do Canal da Feitoria e podemos nos afastar da hidrovia e do trânsito das chatas e navios, fixando rumo direto para o Bujurú, abrigo do nosso pernoite.


20h15: o último pôr-do-sol do horário de verão...
O vento está totalmente de proa, contrário ao rumo necessário, o que nos exige continuar navegando a motor com o barco batendo forte contra as ondas. Apesar do desconforto que a navegação com ondas de proa, a vida a borda vai tranqüila, com um ou outro marinheiro mais novato enjoando um pouco...

Com as ondas batendo de proa e o vento forte, alguns tripulantes enjoaram...
Os equipamentos eletrônicos em um veleiro incrementam muito a segurança da navegação. À bordo temos radar, sonar, GPS, cartas náuticas eletrônicas e piloto automático. Conduzir uma embarcação nestas condições deixa tudo mais confortável mas a atenção dos tripulantes ainda é essencial quanto a tudo o que ocorre em torno, em especial a variação das condições climáticas e obstáculos não previstos nas cartas náuticas e que podem estar à deriva na água.

O Comandante Tita confere a rota na mesa de navegação, o centro de informações do veleiro.
Entramos em águas abertas na Lagoa dos Patos e então perdemos todo o contato visual com as margens. Entre milhas e milhas de água doce por todos os lados e chegamos ao à barra falsa do Bujurú às 23h45, com uma lua maravilhosa pintando lagoa de prata. Mesmo sendo tarde não dispenso um mergulho nas suas águas, onde apenas uma pequena brisa impede que a superfície se torne um espelho perfeito.

Bom... Apesar do horário avançado a a tripulação precisou aguardar águas calmas para poder preparar a refeição, um dos momentos mais esperados durante a faina diária em uma embarcação e na nossa não é diferente. Afinal, quem se importa com o relógio?

Precisamos nos alimentar e o menú é assinado pelo Chef Demosthenes: camarão à baiana, recém pescado na lagoa!


E ninguém é de ferro. Findos os trabalhos já na madrugada, é hora do sono dos justos...

P.S.: a partir da saída do Canal da Feitoria perdi a conexão com internet, a qual só foi retomada em Itapuã, um dia depois, impossibilitando a postagem do diário de viagem em tempo real como eu gostaria de fazer.

Imagens: Fotografias de João Paulo Lucena


sábado, 19 de fevereiro de 2011

Náutica/Vela: De Porto Alegre a Rio Grande - No Yatch Club

Rio Grande Yatch Clube - RS.
Preparativos.

De Porto Alegre a Rio Grande por terra são 310 Km, o que fizemos à noite em 4 horas via ônibus de linha, da empresa Planalto, com direito a ar condicionado, teto solar, poltronas largas, água gelada, tomada de energia e... internet wireless!

Uma longa navegação às vezes começa na estação rodoviária...
Para que mais? Muito melhor do que avião! Ônibus de Porto Alegre a Rio Grande com primeira classe e internet wireless...  Categoria "Especial de luxo" como se diz no interior do Rio Grande do Sul...
A mesma distância que fizemos por terra em 4 horas, levaremos 3 dias para voltar por água, em um veleiro, com uma velocidade média prevista de 5 a 7 nós (uns 12 Kmh).

Chegamos ao Rio Grande Yatch Club às 23h30, escala obrigatória para as embarcações que sobem do Atlântico Sul para a costa brasileira ou para quem desce rumo sul para o Uruguai, Argentina e Antártica. Por este motivo sempre se encontram veleiros poderosos em Rio Grande, nacionais e estrangeiros, equipados para travessias transoceânicas ou invernagens no extremo sul do continente.

1º Dia.

Dia da partida! A ordem é acordar, fazer as compras e preparar o barco.

Abastecer com água, óleo diesel, instalar o refletor de radar e a nova lâmpada de leds para a luz de tope.

Tempo bom, previsão de pouca precipitação de chuva ao final da tarde.

Vamos agora às compras no mercado público de Rio Grande e a intenção é içar velas após o almoço.

O melhor de tudo: estamos em plena safra de camarão, com o quilo variando de R$ 10,00 a R$ 15,00. Certamente uma boa quantidade fará parte do cardápio a fim de manter tranquila e satisfeita a tripulação.

Barriga cheia ainda é o melhor remédio contra motins à bordo...

Café da manhã ainda atracados em Rio Grande. Os marinheiros se preparam para a longa velejada pela frente.
O nosso veleiro Arraia Manta, um Delta 36 ainda com o antigo nome pintado no costado.

IMAGENS: Fotografias por João Paulo Lucena