Carlos Zaith no III Encontro Brasileiro de Canionismo em Canela/RS, 2002
Da redação do Webventure recebi hoje esta surpreendente e triste notícia:
"Fotógrafo, espeleólogo, pioneiro do canionismo no Brasil e líder da empresa H2Omem, Carlos Zaith faleceu na madrugada desta segunda-feira (17), aos 53 anos de idade. Ele estava internado no Hospital das Clínicas, em São Paulo, onde realizava tratamento contra um câncer.
O empresário trouxe o canionismo para o Brasil em 1989, junto com um grupo de espeleólogos que conheceu a prática no exterior. Pouco tempo depois, fundou a H2Omem, agência localizada em Brotas que contribuiu de diversas formas para o título de “Capital da Aventura”.
Zaith, que era artista gráfico por formação, também é muito reconhecido por suas fotos de ambientes naturais e de esportes ao ar livre, que ajudaram a difundir as atividades outdoor no Brasil.
Poucas horas após a divulgação oficial do falecimento, sua página na rede social Facebook já contava várias dezenas de mensagens de condolência enviadas por ex-alunos, amigos e colegas."
Na prática do canionismo no Brasil tive diversas oportunidades de encontrar o Zaith. A mais bacana delas foi durante o III Encontro Brasileiro de Canionismo, em novembro de 2002 na cidade de Canela/RS organizado pela Associação Cânions da Serra Geral - ACASERGE, quando o Zaith participou das atividades como o primeiro Presidente da Associação Brasileira de Canionismo - ABCânion. Zaith nos deixou cedo demais, com apenas 52 anos. Se a presença física já não está mais, por certo fica a enorme herança para o canionismo brasileiro como um do seus grande desbravadores.
Com o Zaith e a equipe do Webventure na II Adventure Sports Fair em 2000
Fica aqui a minha homenagem a este grande pioneiro e algumas imagens daquele encontro feitas ainda nos primórdios dos equipamentos de fotografia digital no Brasil.
Grandes lembranças: Henry Gonçalves Lummertz, Neyton "Montanha" Reis, João Paulo Lucena e Carlos Zaith no III EBC em Canela, 2002
Ainda naquela ocasião foi gravado o programa-piloto e primeiro episódio do ADRENALINA, quando o Zaith foi entrevistado pela repórter Ana Karina Belegantt, servindo as imagens abaixo como um registro histórico daquele evento.
Carlos Zaith e Ana Karina Belegantt no III Encontro Brasileiro de Canionismo, Canela/RS, 2002
Carlos Zaith, Nagata, Henry Lummertz, Rafael Britto, João Paulo Lucena e Marcelo Cássia, Canela - 2002
Neyton Reis (de amarelo) e Tatiana Bressel (capacete amarelo), representaram a Associação Cânions da Serra Geral - ACASERGE em mais uma produção de televisão no Cânion Malacara- Parque Nacional da Serra Geral - RS/SC.
Foto: Magoo
Tudo transcorreu em segurança e conforme combinado, com franca integração entre a equipe de produção do Programa Extremos (Multishow) e os canionistas Neyton Reis e Tatiana Bressel, da Associação Cânions da Serra Geral - ACASERGE.
Apesar do frio durante a madrugada, com uma autorização especial da direção do Parque Nacional da Serra Geral a equipe do Extremos gravou a via de canionismo chamada de "Malacara Superior", ingressando no cânion por volta das 6h00 do domingo e retornando ao acampamento em torno de 14h00.
Os canionistas da ACASERGE, a primeira associação do gênero no Brasil e já com muita quilometragem no apoio a produções de televisão dentro da área do parque nacional, registraram com satisfação o atendimento a todas as regras de segurança, horários e procedimentos recomendados durante a atividade, qualificando como muito fortes e bem preparados os integrantes da nova temporada do Extremos: Karina Oliani, Julia Ericson e o produtor Magoo.
Vista geral do Cânion Malacara. Parque Nacional da Serra Geral - RS/SC
Foto: João Paulo Lucena
Curtam aí mais algumas imagens disponibilizadas pela canionista da ACASERGE, Tatiana Bressel.
Interior do Cânion Malacara, Trilha Superior. Parque Nacional da Serra Geral.
Foto: Tatiana Bressel
Equipamento de produção destinado ao porteio por cavalos entre a Fazenda Malacara e o vértice do Cânion Malacara, no Parque Nacional da Serra Geral. Foto: Tatiana Bressel
Recebo diretamente da Tatiana Bressel (34), canionista que ministrou os primeiros socorros a Juliano Romancini, o relato direto sobre o ocorrido no acidente em Maquiné/RS, cuja notícia postei aqui Terra Australis no último dia 15 (veja AQUI).
Sorte do Juliano? Não! Isto é resultado do investimento responsável em conhecimento técnico e prevenção de acidentes, além da escolha das companhias corretas para a atividade que estava sendo praticada quando ocorreu a fatalidade do deslizamento de pedras sobre ele.
Como disse no post anterior, sorte = preparação + oportunidade...
Conforme a Tati, os médicos do hospital de Porto Alegre registraram que se não fosse os primeiros socorros adequados que Juliano recebeu no interior do cânion, ele não teria sobrevivido à noite que passou lá.
De acordo com o site Piloto Policialsobre notícias da aviação de segurança pública, a equipe de resgate aéreo decidiu pousar o helicóptero MD500E em uma elevação próxima ao canion e montar um ponto de operação nas coordenadas 050º 20′ 20″ W – 29º 30′ 23″ S
Após desceram três tripulantes, com uma maca rígida, do Grupo de Busca e Salvamento dos Bombeiros até a base da cachoeira onde estava o acidentado e os canionistas que lhe prestavam atendimento de primeiros socorros desde o dia anterior. Devido ao estado crítico do paciente politraumatizado não puderam fazer a sua locomoção até o ponto de desembarque.
Com isso, retiraram a vítima de uma clareira valendo-se de mais de 150 metros de cabo com o apoio do helicóptero (a imprensa equivocadamente informou serem 300 metros) - Veja no início deste post a imagem do helicóptero e o enorme cabo suspenso sob ele para a suspensão da maca rígida.
Ainda segundo o relato no site, depois de uma análise pela tripulação, decidiram executar o salvamento realizando quatro descidas de 80 metros de cabo, sendo: 3 tripulantes e uma maca rígida de frente para a cachoeira; uma retirada de vítima com mais de 150 metros de cabo no meio do cânion e quatro retiradas, operando com 100 metros de cabo da base da cachoeira, sendo o último mac-guire com dois tripulantes juntos, pois as condições meteorológicas eram adversas.
A operação do helicóptero iniciou às 06:30 e encerrou às 15:30 horas, com 4.6 horas de vôo.
EQUIPE DA MISSÃO:1) Piloto: Maj QOEM Franck;2) Co-piloto: Cap QOEM Matteo;3) CO: 1 SGT Albanus;4) Tripulantes: Sd Rodrigues, Sd Fernando, Sd Edis.5) Equipe de Solo: 3 Sgt Ezequiel, 3 Sgt Borges, 3 Sgt Vladimir, Sd Joel e Sd Mayer.
Rafael Britto, canionista da Associação Cânions da Serra Geral - ACASERGE que participou do resgate e o helicóptero MD 530E do GPMA. Foto Adriana Franciosi - Jornal Zero Hora
“No sábado dia 13 de fevereiro de 2010, um grupo de 15 praticantes de canionismo dos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo se reuniu em Barra do Ouro, Município de Maquiné, Estado do Rio Grande do Sul.
Todos os componentes do grupo são praticantes de canionismo qualificados e experientes, muitos com mais de 10 anos de prática. Além disso, o grupo estava equipado com todos os equipamentos técnicos necessários para a prática segura da atividade.
Este grupo maior se dividiu em 3 grupos menores. Dois destes grupos menores entraram em cânions diferentes e o terceiro deles ficou de apoio, com materiais técnicos e rádio para manter contato com os grupos que estavam nos cânions.
O grupo integrado por Juliano contava com mais 4 pessoas.
O grupo desceu uma primeira cachoeira, utilizando a técnica de rapel, seguiu o curso do rio, desceu uma segunda cachoeira e continuou seguindo o leito do rio.
Eram cerca de 17h30m, quando Juliano sofreu o acidente, ao tentar subir num bloco de pedra. O bloco se desprendeu e rolou sobre ele, derrubando-o e atingindo-o na região do quadril.
O grupo tomou providências para manter Juliano acordado, imobilizado, aquecido e o mais confortável possível, comunicando a equipe de apoio do ocorrido e da necessidade de Juliano ser retirado com maca, o mais brevemente possível. O grupo decidiu, ainda, que dois de seus integrantes concluiriam a travessia do cânion, para levar maiores informações para os encarregados pelo resgate.
Fora do cânion, a equipe de apoio acionou o Corpo de Bombeiros e a Brigada Militar, passando, a partir de então, a colaborar com o resgate.
No início da manhã, chegaram os bombeiros com o helicóptero, viaturas e um avião. O helicóptero sobrevoou o cânion e avistou Juliano e o restante do grupo que havia ficado com ele. Juliano foi retirado de dentro do cânion, pelo helicóptero, por volta do meio dia.
Juliano foi encaminhado para o hospital Santa Luzia em Capão da Canoa e posteriormente transferido para o hospital Mãe de Deus em Porto Alegre.
Esperamos a pronta recuperação de Juliano e nos solidarizamos como os familiares.
Por fim, agradecemos sinceramente a todos que participaram ou auxiliaram no resgate, permitindo que ele fosse bem sucedido e que Juliano pudesse ser retirado do cânion e receber os cuidados necessários, em especial ao Corpo de Bombeiros e à Brigada Militar, ao SAMU, aos médicos que atenderam e estão atendendo Juliano e à reportagem da Zero Hora.
Alguém já disse que o conceito de SORTE não é o acaso, mas sim o resultado de PREPARAÇÃO + OPORTUNIDADE.
Pois este foi exatamente o caso do canionista mineiro Juliano Romancini que neste feriado de Carnaval acidentou-se gravemente no município de Maquiné/RS e somente sobreviveu devido aos corretos primeiros socorros recebidos dos seus colegas de atividade.
Juliano e outros companheiros estavam participando de levantamento de novos locais para a prática do Canionismo no Rio Grande do Sul, todos com sólida formação técnica e ampla experiência no esporte. Dentre eles três membros da Associação Cânions da Serra Geral - ACASERGE de Porto Alegre, Neyton Reis - Rafael Britto e Tatiana Bressel, sendo que os dois últimos participaram recentemente comigo do curso de primeiros socorros em áreas remotas ministrado pela NOLS/Brasil na nossa Capital (Veja o post em http://terra-australis-br.blogspot.com/2009/12/primeiros-socorros-em-areas-remotas.html).
A farta experiência da equipe em atividades outdoor e o preparo para situações de emergência certamente contribuíram em muito para a sobrevivência de Juliano.
Uma vez que está bem fiel ao ocorrido, reproduzo a notícia publicada pela Zero Hora no dia de hoje:
"Resgate dramático em Maquiné - Ao despencar sobre um empresário que praticava canionismo, uma rocha tornou dramático o fim de semana de um grupo de esportistas gaúchos, catarinenses e paulistas na Serra do Umbu, no município de Maquiné, no Litoral Norte.
Com múltiplas fraturas, Juliano Romancini, 38 anos, de São Miguel do Oeste (SC), ficou 18 horas à espera do resgate em uma fenda entre duas montanhas a 32 quilômetros da sede do município, até ser içado por um helicóptero.
O acidente aconteceu por volta das 18h de sábado, quatro horas depois de o grupo de cinco pessoas iniciar um deslocamento que deveria ser de dois quilômetros junto ao curso de um rio. Prensado pela rocha na base de um penhasco de 300 metros de altura, Romancini sofreu fraturas na bacia, em um dos pés e passou a ter hemorragia.
Dois colegas que integravam o grupo pediram socorro por rádio a companheiros que exploravam outro cânion nas proximidades e deixaram o local em busca de ajuda para o ferido. Um homem e uma mulher ficaram prestando apoio a Romancini. Com a chegada da noite, não houve possibilidade de resgate, e os três permaneceram isolados até o amanhecer.
Pela manhã, bombeiros chegaram ao local por terra enquanto policiais militares sobrevoavam a região com um avião Ximango. Por volta do meio-dia de ontem, um helicóptero do Grupamento Aéreo da Brigada Militar conseguiu introduzir na fenda uma maca, por meio de uma corda de cerca de 300 metros de comprimento.
Em um procedimento de alto risco e complexidade, Romancini foi imobilizado na maca e içado para fora. No total, conforme o major Carlos Franck Simanke, comandante do helicóptero, a vítima ficou 35 minutos suspensa até ser levada em segurança a um descampado, onde, por terra, continuou o resgate. Por causa da chuva, que havia começado a se intensificar, o helicóptero não conseguiu pousar nas proximidades do local do acidente.
– Nossa maior dificuldade foi porque este é um vale muito estreito, onde o helicóptero fica muito perto das paredes de rochas e árvores. Essa também é uma região de serra, onde as condições meteorológicas mudam muito rápido. Quando estávamos içando a vítima, a chuva intensa dificultou um pouco – explicou o major Franck.
Amigos foram removidos só cinco horas depois - Romancini, que é ex-presidente da Associação Comercial e Industrial e da Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL) de São Miguel do Oeste, passou por cirurgia no Hospital Santa Luzia, em Capão da Canoa, e seria transferido à noite para o Hospital Mãe de Deus em Porto Alegre.
Os amigos que ficaram com a vítima – a bióloga Tatiana Bressel, 34 anos, de Porto Alegre, e Walter Martins Guerra Júnior, 40 anos, de São Paulo – só foram removidos pelo helicóptero da BM por volta das 17h, cerca de cinco horas depois do resgate de Romancini. Eles haviam recebido mantimentos para suportar as quase 24 horas isolados na mata, e não tiveram ferimentos. "
O acidente, decorrente de um caso meramente fortuito, ocorreu no sábado dia 13/02, por volta das 18h, mas devido a dificuldade de acesso ao local de mata densa e estradas precárias, o resgate de Juliano foi bastante complexo.
Conforme relato para o jornal Correio do Povo, o major Carlos Frank, chefe de equipe do Grupamento Aéreo da Brigada Militar na Operação Golfinho registrou que “É um local muito complexo, de difícil acesso. Tivemos que efetuar um sobrevoo e o efetivo desceu em rappel até a vítima, para desestabilizá-lo. Ele estava com hemorragia interna e provável fratura de bacia”.
Após o resgate de helicóptero o paciente, já em estado bastante grave, foi transferido por terra para o hospital Santa Luzia, em Capão da Canoa/RS, onde passou por uma cirurgia de estabilização antes de ser levado para a CTI do Hospital Mãe de Deus, em Porto Alegre.
Descobri a NOLS - National Outdoor Leadeship School em 1998 quando estava fazendo uma pesquisa sobre práticas de mínimo impacto na natureza para uso nas atividades de canionismo junto ao Parque Nacional da Serra Geral. Desde então ingressei na lista de admiradores desta escola que é referência mundial na formação de guias, ética ambiental e desenvolvimento de habilidades voltadas para atividades outdoor.
Com inúmeras publicações, expedições e cursos que variam de poucos dias a um ano, a NOLS (http://www.nols.edu/) possui também em sua estrutura o Wilderness Medicine Institute - WMI, cujos treinamentos ministrados preparam os estudantes para o domínio das técnicas de primeiros socorros e rápida tomada de decisões, o que em situações de risco faz toda a diferença entre sobreviver ou não.
Pois com grande satisfação a NOLS já está no Brasil e tive o privilégio de participar da primeira série de cursos tratando de Primeiros Socorros em Áreas Remotas (Wilderness First Aid - WFA with RCP), ministrado em entre 11 e 13/12 pelo excelente instrutor Átila Monteiro no Comando Ambiental da Brigada Militar do Rio Grande do Sul.
O curso que confere certificação internacional válida por dois anos foi trazido ao Estado por Elton Fagundes, da Stonehenge Alpinismo Industrial e da turma participaram socorristas, bombeiros voluntários, militares, montanhistas, jornalistas, professores de educação física e canionistas da ACASERGE - Associação Cânions da Serra Geral, com intensas atividades práticas e teóricas. No programa itens como sistema de avaliação do paciente, ressucitação cardiopulmonar,uso de desfibrilador, lesões na coluna vertebral e cabeça, choque, hemorragia e ferimentos, lesões nos ossos, articulações e músculos, bem como emergências relacionadas ao calor, hipotermia, raios e animais peçonhentos.
Ao final do curso ficou a certeza de termos um treinamento de primeira qualidade atendendo a protocolos internacionais de socorro e a segurança de estarmos habilitados para melhor prestá-los em situações de risco e emergência em áreas remotas e urbanas também.
Evidentemente que ao final não poderia faltar uma confraternização no melhor estilo gaúcho e o compromisso da NOLS de trazer ao Estado os módulos avançados do curso de primeiros socorros e também de aplicação de técnicas de impacto mínimo em atividades junto à natureza.
A canionista Tatiana Azevedo Bastian Bressel, da Associação Cânions da Serra Geral - ACASERGE, com sede em Porto Alegre/RS, foi escolhida pela Revista SulSports a atleta feminina do ano em esportes de aventura conforme anúncio feito no último dia 9.
Para quem não sabe, a Associação Cânions da Serra Geral é referência internacional e pioneira no Brasil no desenvolvimento do Canionismo e será a entidade organizadora do Encontro Internacional de Canionismo em 2012 que ocorrerá no Rio Grande do Sul.
A escolha se deu em função do conjunto de feitos praticados pela Tati, amiga de muitos anos e parceira de inúmeras aventuras, e traz grande visibilidade para esta atividade desportiva altamente técnica e ainda tão pouco conhecida da maioria das pessoas.
Parabéns, Tati, por esta belíssima conquista para ti, para a Acaserge e para o canionismo gaúcho!!
Mais informações e imagens veja no no site da Guria Adrenalina - http://www.finalsports.com.br/03/blog_guria/?p=1420
Vista desde o vértice pricipal do Cânion Malacara - PNSG
No último final de semana a oportunidade foi única: uma permissão especial do Instituto Chico Mendes para acesso ao Cânion Malacara, que divide com o Cânion Fortaleza a condição de principal atração do Parque Nacional da Serra Geral - PNSG, divisa dos Estados do Rio Grande do Sul com Santa Catarina.
O motivo: a condução de uma equipe do Programa Adrenalina para a produção de um documentário sobre canionismo para o Canal Futura, da TV Globo Internacional, mostrando uma travessia completa do famoso e complexo Cânion Malacara.
Numa sexta-feira à noite partimos de Porto Alegre rumo ao município de Cambará do Sul/RS, onde está situada a parte alta do parque, em pleno altiplano riograndense, para lá encontrar a equipe de produção do programa, a qual seria conduzida por outro caminho, à pé e valendo-se de cavalos para o transporte do equipamento mais pesado.
Em uma sexta-feira à noite partimos de Porto Alegre. No destaque o saudoso Zé Brambilla, parceiro insubstituível de várias aventuras nos Aparados da Serra.
Por volta da meia-noite o caminho regular terminou. Então, montar acampamento e descansar antes dos trabalhos do dia seguinte.
Alguns dormiram confortavelmente...
...como se estivessem em casa.
Outros, por opção...
...preferiram bivacar ao relento, na boa companhia dos demais habitantes nativos.
Alguns anos depois de ter participado da equipe de levantamento que coletou dados topográficos e geológicos relacionados à prática de canionismo e que integraram o Plano de Manejo do PNSG, voltamos à carga com todo o ânimo.
O desafio era encontrar um antigo caminho que o desuso decorrente da criação do parque nacional fez com que desaparecesse em meio a capoeiras, plantações de pinus e propriedades particulares contíguas ao parque nacional.
O uso combinado de cartas topográficas, tracklogs e imagens satelitais sobrepostos foi essencial para a localização de estradas há muito desaparecidas.
Redescobrindo antigos caminhos com mais de meio século que a natureza retomou...
Com fotos de satélite, tracklogs de GPS coletados em levantamentos passados e cartas topográficas, todos sobrepostos no aplicativo OziExplorer, fomos navegando em 4x4 por entre coxilhas, charcos, vossorocas e capões de araucárias, atingindo com trabalho em equipe e muito esforço o objetivo final.
Atravessando as fazendas vizinhas ao Parque Nacional da Serra Geral com o auxílio de mapas antigos, imagens de satélites e tracklogs de GPS
Ao final da tarde chegamos ao vértice principal do Cânion Malacara.
O prêmio é pródigo, principalmente para mim que estou de aniversário: um dia maravilhoso, límpido, com aquela luz outonal, meio atravessada, perfeita para quem gosta de jogar com sombras na fotografia. A atmosfera foi lavada da nebulosidade por uma chuva forte acompanhada de queda brusca de temperatura a 0ºC.
Nada de melhor poderia desejar alguém em busca das condições ideais para foto e filme!
Quem acha que acampar é sinônimo de sofrer está muito enganado!
Até porque convidados VIP tem direito a quibe crú, molho de alho, pão árabe e suco de uva servido pelo mais esforçado dos cozinheiros: Neytão "Montanha" Reis, que não por acaso é o melhor guia para os cânions do sul do país!!
A noite é fria, muito fria, com temperaturas abaixo de zero. Ao amanhecer um vento forte penteia os campos de cima da serra e anuncia o raiar do dia. Quem vai descer o Cânion Malacara com a equipe de gravações levantou ainda de madrugada e está lutando para vestir as gélidas roupas de neoprene. Da minha barraca só escuto gemidos e resmungos daqueles que vão para o front...
Como responsável pela logística 4x4 já fiz minha parte e não vou entrar no cânion desta vez, também porque acompanho as crianças. E, como sou aniversariante, me dou o prazeroso luxo de virar para o lado e curtir a preguiça no saco de dormir até que o sol bata na barraca e, pelo menos, derreta a geada...
Quem diz que em pleno vértice do Cânion Malacara não tem tele-entrega do jornal do dia?
Para animar a galera antes de pular na água gelada vale tudo, até a dança do sirí!
Os gêmeos entram no clima com Ana Karina Belegantt, do Programa Adrenalina. Futuros canionistas?
Cânion Malacara, em segundo plano o município catarinense de Praia Grande e, ao fundo, a praia de Torres/RS.
Embaixo, ao sopé da serra, o município catarinense de Praia Grande e, bem ao fundo, a praia gaúcha de Torres.
A atração irresistível que sinto por esta região vem de anos.
A minha primeira travessia de cânion foi a do Itaimbezinho, hoje proibida, por volta de 1980, quando não existia qualquer tipo de restrição para quem quisesse aventurar-se por esta enorme garganta, palco de muitos acidentes e gente extraviada.
Depois dela nunca mais deixei de retornar aos Aparados da Serra, culminando com a militância voluntária na ONG Associação Cânions da Serra Geral - Acaserge desde 1998. A grande diferença é que desta vez não voltei aos Aparados sozinho, mas trouxe para a primeira aventura verdadeira meus filhos gêmeos, com 7 anos de idade.
No acampamento em área selvagem, dentro do parque nacional tudo é diversão. A emoção e o entusiasmo não poderiam ser maiores, a inocência da idade relembrando ao pai o be-a-bá das lições mais elementares:
"- Papai, o que é um Parque Nacional?
- Onde estão os animais?
- Porque o cânion é tão fundo?
- Porque faz tanto frio?
- Tem urso aqui? E tigre?
- Lá embaixo é a praia de Torres?
- Dá prá beber essa água?
- Vamos tomar banho no rio?
- Onde eu faço cocô?..."
Vista do Cânion Malacara a partir da sua escarpa direita.
Matinha nebular, típica dos paredões dos Aparados da Serra.
Pelo lado paterno reza a história familiar que meu bisavô Januário foi tropeiro nos Campos de Cima da Serra, estabelecido em Cazuza Ferreira, distrito de São Francisco de Paula/RS. Baixava a serra em mulas e cavalos rumo ao litoral levando charque, queijos e embutidos e voltava com farinha, melado e rapadura.
Do lado materno, a herança italiana nascida em Antonio Prado também fincou raízes em São Chico, onde meu avô materno elegeu-se prefeito nos anos 50.
A carga genética fez então valer toda a sua força, transmitindo mais uma vez, de pai para filho, de geração para geração, a seiva de araucária nas veias e uma incondicional paixão pelos Campos de Cima da Serra...
O diário da aventura na ótica de JPL, 7 anos...
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Assista aqui o episódio do Programa Adrenalina gravado durante as atividades descritas nesta postagem!
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