segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Aparados da Serra: Abismos na Neblina (Artigo National Geographic Brasil)

A névoa densa oculta o fundo do cânion Fortaleza, na região gaúcha de Aparados da Serra. Em alguns trechos, este imenso degrau que liga o planalto ao litoral tem quase mil metros de desnível. Foto Luis Veiga - National Geographic Brasil - Ed. Dez 2012


Dado o meu grande interesse pelo tema e pela região, desde criança admirador e assíduo frequentador dos Aparados da Serra, me permito - excepcionalmente - transcrever na íntegra, dado ao seu valor didático e com todos os créditos, a matéria que segue publicada na edição brasileira da National Geographic Magazine.

Registro apenas que não há como comprovar-se quem foram os primeiros a realizar a travessia de cada um das dezenas e dezenas de cânions da região, especialmente porque já eram zona de caça dos indígenas que habitavam a região antes da chegada dos europeus no nosso continente, o que ocorre ainda hoje com os atuais habitantes, inclusive em áreas protegidas.


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EDIÇÃO 153/ DEZEMBRO DE 2012 (26/12/2012)

Edição brasileira Dez 2012


APARADOS NA SERRA: ABISMOS NA NEBLINA 

Para abrir um caminho entre a América espanhola e a portuguesa, os colonizadores tiveram de galgar as escarpas dos maiores cânions do Brasil

Por Luis Veiga 
Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL 

Nos meses de verão, quando nuvens vindas do litoral conseguem romper os penhascos, surge a viração. O choque térmico da massa fria com o calor estacionado na altitude faz com que a névoa se acumule em colunas cada vez mais altas.

Vistas de longe, essas colunas parecem estar em rotação de cima para baixo; de dentro, elas são como uma noite branca, a ponto de impedir que se enxergue além de 2 metros de distância. A viração é uma neblina espessa, quase palpável, que alcança a borda do planalto mas não avança por causa da diferença de temperaturas.

Na região da serra Geral, entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina, ela é capaz de desnortear por completo o viajante desprevenido. Para escapar desse fenômeno climático assustador, explicam os moradores dali, só mesmo a cavalo. Um animal acostumado ao terreno acidentado, com uma sela confortável, forrada com pelego de ovelha. Sobre ela, um sujeito experiente e de boa prosa, um bornal com um farnel, um pala para se proteger da chuva e do vento e, se possível, dois ou três cachorros bons de faro. O vaqueano experiente não sai de casa sem seu facão e seus cães. Certa vez, eu cavalgava em campo aberto na companhia de um experiente vaqueano entre o cânion Monte Negro, no Rio Grande do Sul, e a região do rio Púlpito, em Santa Catarina. Com tempo bom, esse trajeto exige um dia de cavalgada. Mas, de repente, fomos surpreendidos por uma viração forte. Quase cego, perdi completamente o senso de orientação. Em um instante estávamos cavalgando sobre o campo; de repente, à beira de um penhasco; depois, dentro de um banhado. Apesar disso, meu guia e seus cães demonstravam tanta segurança nos rumos tomados que em nenhum momento me senti andando em círculos. A noite avançava quando enfim encontramos um trilho, que nos levou à sede de uma fazenda, onde pedimos pouso. No dia seguinte, o cavaleiro me conta que prefere nunca admitir que perdeu a direção. “Jamais se deve assustar o viajante”, diz. “Mais cedo ou mais tarde, iremos encontrar um caminho para casa.”

O rio Púlpito corta os campos cobertos de gelo. A cerração baixa prenuncia um dia quente, apesar da madrugada com temperaturas negativas. A borda do planalto está entre as regiões mais frias do país. Foto Luis Veiga - National Geographic Brasil - Ed. Dez 2012

Retornando de uma cavalgada de cinco dias, Verino Barbosa cruza o planalto em meio a uma viração. Este experiente vaqueano de Aparados não se intimida com cruzar em dia de neblina o território repleto de banhados. E garante: nunca perdeu o rumo nem atolou cavalo. Foto Luis Veiga - National Geographic Brasil - Ed. Dez 2012

No trecho mais extremo de sua topografia, o planalto Norte-Rio-Grandense, que cobre parte considerável da região Sul do Brasil, ganha altitude ao aproximar-se dos litorais gaúcho e catarinense. Então, de repente, acaba. Desaparece. Sua borda plana desnivela-se abruptamente para esculpir um imenso platô, entrecortado por uma sucessão majestosa de abismos, penhascos, grotas e fendas. Vistas de cima, as planuras altas da serra parecem ter sido aparadas a tesoura. De baixo, o observador tem a impressão de que os contrafortes são muralhas de uma gigantesca e intransponível fortaleza.

O rio Amola Faca, afluente do Araranguá, em Santa Catarina, despenca em uma garganta. Perto daqui antigos caminhos de tropa descem a serra e ainda são usados pela população local. Foto Luis Veiga - National Geographic Brasil - Ed. Dez 2012

As cores da flor-das-almas, típica dos campos do sul, forram o planalto no fim da primavera, enquanto uma tempestade se aproxima, anunciando para breve a mudança das estações. Foto Luis Veiga - National Geographic Brasil - Ed. Dez 2012

Esse imenso degrau de 250 quilômetros de extensão e paredões que chegam a quase mil metros de desnível é conhecido como Aparados da Serra. A dificuldade extrema para vencer as escarpas verticais, o frio implacável dos invernos e o isolamento brutal a que foram condenados os primeiros povoadores forjou um modo de vida peculiar, criou histórias, usos e costumes, lendas e mitos que sobrevivem até hoje, quase 300 anos depois do início de sua ocupação.

Antes de os conquistadores europeus chegarem a Aparados, a região era parte de um vasto território disputado por tribos de índios guaranis, coroados e botocudos, que rivalizavam no planalto, e os carijós, que dominavam a faixa litorânea a leste. Povos nômades perambulavam por todas as direções. Os botocudos, senhores das escarpas, transitavam serra abaixo em busca de peixes e mariscos que abundavam nas lagoas costeiras e retornavam à parte alta na entrada do outono para coletar pinhão e caçar.

Os primeiros estrangeiros que se aventuraram a estabelecer uma rota norte-sul, ou seja, um caminho que cruzasse todo o planalto, foram os missionários jesuítas espanhóis, guiados por índios guaranis, no fim do século 17. As trilhas indígenas partiam dos Campos das Missões, a oeste do Rio Grande do Sul, e seguiam em direção aos campos de Curitiba até chegar a Sorocaba, já perto de São Paulo. Hábeis comerciantes, os jesuítas tinham como objetivo o contrabando de muares trazidos de Córdoba, na Argentina. As longas travessias em terras brasileiras justificavam- se pela elevada soma obtida na venda dos animais. A coroa portuguesa fazia vista grossa à prática, pois não mantinha relações comerciais com a Espanha e carecia de transporte de carga.

Não tardou, porém, para que o rei D. João V ordenasse esforços a favor da abertura de um caminho terrestre regular que ligasse a província de São Paulo à vila de Laguna e à Colônia do Santíssimo Sacramento, nas margens do rio da Prata. Coube a Francisco de Souza Faria, sargento-mor da cavalaria portuguesa, a árdua tarefa de abrir a estrada, que precisaria superar as escarpas de Aparados da Serra para marcar uma ligação entre a planície litorânea e a borda do planalto.

Souza Faria partiu de Laguna com seu piloto José Inácio e uma tropa composta de índios, brancos e escravos, um total de 96 pessoas. Em 11 de fevereiro de 1728, depois de 11 meses de aventura, o militar margeou o leito do rio Araranguá em direção a sua cabeceira, galgou a íngreme encosta e alcançou finalmente as terras conhecidas como Vacarias dos Pinhais, no planalto. Depois de aguardar por seis meses a chegada de reforços – metade de sua tropa havia deserdado –, Souza Faria rumou em direção ao interior do Paraná, terminando sua viagem em São Paulo em 2 de fevereiro de 1730. Estava assim criado o Caminho dos Conventos, primeira ligação entre a província de São Paulo e a bacia do rio da Prata. O curto trecho do caminho que galgou as escarpas de Aparados da Serra foi o elo que faltava para a malha viária do Brasil colonial estar completa e poder abastecer de gado, cavalos e muares as minas de Goiás e de Minas Gerais.

Ao longo dos anos seguintes, porém, a trilha extenuante aberta por Souza Faria seria várias vezes revisitada. Um novo traçado desviava de Aparados da Serra e ganhava o planalto mais ao sul, onde as serras são menos íngremes. Dali partia dos campos de Viamão, cruzava Vacarias dos Pinhais rumo a Lages para então retomar o trilho original. Essa rota, o famoso Caminho de Viamão, consolidou-se, tornando-se a principal via terrestre do sul do país.

Vestígios das sesmarias, taipas de pedras eram erguidas com as rochas espalhadas nos campos e serviam para dividir as propriedades. Foto Luis Veiga - National Geographic Brasil - Ed. Dez 2012

Com o tempo, outros caminhos foram sendo abertos nas encostas de Aparados. Por eles desciam tropas de mulas carregadas de charque, couro, sebo, queijo, milho e pinhão; as mesmas subiam de volta com os cargueiros abarrotados de sal, açúcar mascavo, café, arroz, cachaça, farinha de mandioca, querosene e armas. O comércio em lombo de mula intensificou-se no século seguinte. Fortunas foram amealhadas por tropeiros, que desafiavam os perigos das serras enfrentando ataques de bugres, salteadores e animais selvagens. Até a década de 1950, o vaivém de tropeiros perdurou como única forma de abastecimento e de contato das populações isoladas de Aparados da Serra com o resto do país.

Laurindo Claro da Rosa, o tio Lauro, como é chamado por ali, hoje com 77 anos, passou a maior parte da vida tropeando em um trecho conhecido como serra da Veneza. Lembra-se, com detalhes, da primeira vez em que cruzou as escarpas, quando tinha 11 anos, e desceu a pé tocando uma tropa de 80 porcos. Naquela época, criavam-se porcos soltos no planalto para que ganhassem peso durante a temporada do pinhão. Quando a semente da araucária escasseava, os animais eram preparados para viagem serra abaixo. O método era cruel: Lauro costurava os olhos dos porcos e depois banhava os pontos com creolina para desinfetar. Cegos, os suínos tornavam-se manuseáveis, fáceis de serem conduzidos, pois se guiavam apenas pelos ruídos da tropa.

Verino Barbosa desossa um porco enquanto sua mulher prepara a carne para fazer salame. No tacho, a banha é apurada, e o pernil á esquerda será assado para o jantar depois de um dia de intenso trabalho. Foto Luis Veiga - National Geographic Brasil - Ed. Dez 2012

Susto na serra Lauro só experimentou um. Foi no verão de 1974, quando desceu com um cargueiro para fazer rancho em uma venda. Ao retornar no dia seguinte, acabou sendo surpreendido por uma chuva pesada bem no meio da subida. Lauro não se intimidou e seguiu. Logo, porém, uma enxurrada o obrigou a procurar abrigo em uma encosta, onde permaneceu ilhado por cinco dias. Molhado e enfraquecido, lançou a sorte em um último ato: amarrou o braço direito no cabresto de sua mula e empurrou-a para dentro d’água. O animal, assustado, venceu a corredeira e alcançou a outra margem, trazendo Lauro de arrasto. O tropeiro chegou ao planalto, e apenas dois dias depois ele e os vizinhos tomaram conhecimento de que o dilúvio que se abateu sobre a região havia feito desaparecer por completo o arraial no pé da serra.

Na década de 1950, um novo ciclo econômico abriu-se na região de Aparados: a exploração da madeira de araucária. Apenas nos arredores de Bom Jardim da Serra chegaram a existir 50 arraiais de serrarias. “As madeireiras compravam apenas toras do pinheiro com mais de 60 centímetros de diâmetro”, diz Antônio Pereira, de 71 anos, ex-tropeiro. “Não era raro abaterem araucárias cujo tronco chegava a 1,80 metro de diâmetro.” As toras eram serradas em pranchas, as quais desciam a serra em um sistema de cabos aéreos para então serem despachadas para o porto de Laguna, de onde eram embarcadas para Porto Alegre, Buenos Aires, Santos e Europa.

No fim dos anos 1970, as madeireiras rumaram para a Amazônia. A região de Bom Jardim da Serra voltou à pecuária, vocação natural que nunca foi totalmente abandonada. Mesmo destino não teve Cambará do Sul, porém. Há 70 anos a cidade é sede de uma indústria de celulose que, durante décadas, usou apenas a araucária como matéria-prima para sua produção de papel – agora substituída pelo Pinus elliottii. Nunca houve preocupação em replantar as antigas florestas de araucária, árvore-símbolo não apenas da serra Geral mas de toda a vegetação do sul do Brasil.

As poucas árvores vergam com o cortante vento pampeano que açoita o planalto na borda dos paredões - mas não impede cavalgada mesmo nos dias mais frios de inverno. Foto Luis Veiga - National Geographic Brasil - Ed. Dez 2012
A florestas de araucária diminuíram, e agora matas de pínus cobrem parte do município de Cambará do Sul para fabricação de celulose. Caminhões trabalham noite e dia para recolher as toras cortadas. Foto Luis Veiga - National Geographic Brasil - Ed. Dez 2012

Mesmo com a mudança de atividade econômica, odisseias para subir e descer as serras não deixaram de acontecer. As escarpas temíveis, às vezes emolduradas pela espessa neblina, seguiram povoando a imaginação dos viajantes, como nos tempos dos desbravadores. Lendas de tesouros enterrados em grotas por missionários jesuítas que subiam pelo rio Pelotas são até hoje comuns nas rodas de chimarrão, assim como os causos que relatam ataques, escaramuças e atrocidades de brancos contra os índios e vice-versa. A prática do montanhismo na região ganhou força com a criação do Parque Nacional de Aparados da Serra, um dos primeiros do país, em 1959. Naquele ano, Ido Ernesto Günther guiou um grupo de escoteiros que realizou a pioneira travessia do cânion Itaimbezinho. Sem saber, inaugurou mais um ciclo de aventuras em Aparados da Serra.

Em 1976, eu e mais dois colegas realizamos a primeira descida do cânion Fortaleza. Munidos apenas com uma corda de sisal de 20 metros, partimos a pé da localidade de Azulega, no Rio Grande do Sul, e alcançamos a borda do Fortaleza no terceiro dia. Optamos por descer a fenda por seu vértice, conscientes de que se tratava de uma rota sem possibilidade de retorno. Na medida em que avançávamos pelo terreno inclinado e cheio de armadilhas naturais, aumentava a incerteza da conquista. A angústia aos poucos deu lugar a um pesadelo. Já sem mantimentos, abandonamos as mochilas e partimos em uma corrida contra o tempo. Ao fim do sexto dia, famintos, trôpegos e esfolados, chegamos à localidade de Serra da Pedra, onde fomos recebidos, incrédulos, por boa parte da população. Jovem, recuperei-me logo do susto, mas jamais me esqueci da aterradora sensação de claustrofobia diante do isolamento no meio do extenso e estreito corredor de paredes de 700 metros de altura.

Tive a chance ainda de cruzar por duas ocasiões o Itaimbezinho. Como as travessias dos cânions começaram a registrar novos acidentes, e até mesmo mortes, estão proibidas por completo pelos administradores do parque nacional. Mas nunca deixei de retornar a Aparados, agora apenas a cavalo, no planalto, sempre na companhia de algum amigo vaqueano, sabedor dos segredos dos caminhos e, acima de tudo, da viração.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Aparados da Serra: Acidente com morte no Cânion do Monte Negro

Foto Maicon Damasceno - Agência RBS

A época de Natal não é exatamente aquela em que se espera receber qualquer tipo de notícia tristes e, muito menos, transformar um encontro de pai e filho junto à natureza em uma verdadeira tragédia pessoal.

Pois foi neste final de semana natalino que, enquanto tantos festejavam, acompanhei à distância as operações de busca e resgate de um adolescente perdido no Cânion do Monte Negro, no Município de São José dos Ausentes/RS.

Sidharta Arderius, 16, foi passar o final de semana acampando com seu pai e um tio nos Aparados da Serra, junto ao Cânion do Monte Negro (1.403 m), ponto culminante do território gaúcho e local turístico de grande beleza cênica. No domingo, dia 23/12 o jovem desapareceu e, depois de buscas infrutíferas, seu pai e tio buscaram ajuda.

Equipes de busca formadas por bombeiros de Vacaria e montanhistas voluntários terminaram por encontrar o jovem sem vida a cerca de 100 metros abaixo de um dos penhascos do local. Cogita-se que Sidharta tenha caído dentro do cânion durante um dos momentos de "viração", o perigoso nevoeiro típico da região.

Estive várias vezes no local ao longo dos anos, também acampando quando sequer era um ponte de visitação  turística, outras vezes para apreciar e fotografar a belíssima paisagem, inclusive acompanhado dos meus filhos pequenos e sempre com cuidados redobrados.

Vista desde o cume do Monte Negro para o lado sudeste.
Foto João Paulo Lucena
Os despenhadeiros são perigosos não só em função da enorme altura, mas também porque o solo próximo pode esconder fendas camufladas pelo pasto e pela neblina. Esta última se forma em qualquer época do ano ou hora do dia conforme as variações climáticas, decorrendo do ar quente que sobe do litoral e se condensa quando encontra o ar frio do planalto.

Eu mesmo em certa ocasião me perdi na "viração" no Cânion Churriado e passei uma noite ao relento no coração do Parque Nacional da Serra Geral, perigo que jamais pode ser subestimado.

Abaixo reproduzo duas vistas desde o cume do Monte Negro em direção ao Nordeste, exatamente onde ocorreu o acidente deste final de semana. Na primeira fotografia a imagem do cânion em um dia límpido e na seguinte o fenômeno da "viração" se formando. A neblina sobe e cobre também o planalto, podendo acarretar completa perda da visibilidade.

Vista para o Cânion do Monte Negro em um dia límpido. Foto João Paulo Lucena

Vista para o Cânion do Monte Negro em um dia com formação de neblina ainda a média altitude. Foto João Paulo Lucena

O grupo de Sidharta vinha de Porto Alegre e teria chegado em São José dos Ausentes na sexta-feira. Após o final de semana iriam direto para o litoral passar o Natal com a família. Segundo a descrição dos familiares do jovem o mesmo teria se deslocado para os penhascos em um passeio solitário desde o acampamento localizado entre 300 e 500 metros da borda do cânion, sem avisar o tio e o pai. Assim que notaram o desaparecimento solicitaram auxílio em uma pousada próxima. A família já conhecia o local em possuía experiência na prática de montanhismo.

Jornal Zero Hora de 26/12/2012

Juntamento com o Corpo de Bombeiros participaram da operação de busca e resgate os voluntários Josemar Contesini, Levi Ferreira, Augusto Serralha e Estefano Pereira. Participei com Josemar e Estefano de uma das edições do Curso de Primeiros Socorros em Áreas Remotas da NOLS - veja o relato AQUI no blog - e, com certeza, os conhecimentos adquiridos lhe foram úteis no resgate, apesar do seu indesejado desfecho. 

Meus parabéns aos bombeiros e, muito especialmente por se tratarem de voluntários, à equipe de montanhistas que se dispôs a deixar suas famílias em pleno feriado de Natal a fim de auxiliar com equipamentos próprios e risco pessoal na busca de Sidharta.

Se não é agradavel divulgar notícias desta natureza, resta o consolo e a justificativa de que sempre poderão auxiliar na prevenção de acidentes como este ocorrido nos Aparados da Serra e que, com uma grande probabilidade, decorreu unicamente de falta de precaução e descuido humano. 

Seguem abaixo a notícia publicada no Jornal Zero Hora, de Porto Alegre, algumas imagens das operações de resgate e registros de acidentes anteriores ocorridos na mesma região.



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Jornal Zero Hora - 26 de dezembro de 2012 | N° 17294

LUTO NO CÂNION

Jovem de 16 anos morre ao cair em penhasco na Serra Sidharta Arderius acampava com o pai e um amigo na região do Pico Monte Negro, em São José dos Ausentes, quando o rapaz despencou

Após uma operação de duas horas, que contou com o apoio de uma força-tarefa de montanhistas gaúchos, o corpo do adolescente Sidharta Torves Arderius, 16 anos, foi retirado ontem do cânion Monte Negro, em São José dos Ausentes, nos Campos de Cima da Serra. Ele estava desaparecido desde domingo, quando foi visto pela última vez na área onde acampava com o pai e um amigo.

A hipótese mais provável é de que o rapaz tenha se perdido em meio a uma forte neblina e caído 130 metros. A angústia da família sobre o paradeiro do adolescente, que já durava quase 50 horas, se transformou em luto pouco antes das 15h, quando o corpo de Sidharta foi avistado no paredão íngreme do cânion por um dos montanhistas que se dirigiram ao local para ajudar o Corpo de Bombeiros nas buscas. O adolescente, a mãe e o padrasto eram adeptos do montanhismo. Praticantes do esporte de Caxias do Sul, Gravataí e Porto Alegre se mobilizaram para prestar auxílio.

Das cerca de 20 pessoas que atuaram no resgate do corpo, perto de uma dezena eram montanhistas. Juntamente com bombeiros de Vacaria, Gramado, Farroupilha, Canela e Caxias, deslocaram o corpo para uma área com menos árvores e começaram a içá-lo por meio de cordas.

Desesperados em busca de informações sobre o paradeiro do adolescente, familiares de Sidharta começaram a percorrer o fundo do cânion na véspera. Por conta própria, o pai, a mãe e o padrasto passaram a noite na região. Eles foram encontrados por bombeiros no meio da tarde de ontem, quase ao mesmo tempo em que o corpo do jovem era localizado.

Do lado de cima do cânion, o tio Renê Arderius acompanhou o trabalho da equipe de resgate:

– Ele e o pai estavam felizes que iam passar este tempo juntos.

Além dos bombeiros e montanhistas, o avião Ximango da Brigada Militar e um helicóptero de Santa Catarina chegaram a sobrevoar o local.

Sidharta desapareceu quando o pai, Eduardo Arderius Soares, 35 anos, e um amigo descansavam pouco antes das 13h30min de domingo. Eles acampavam a cerca de 500 metros da borda do cânion e nas proximidades do Pico Monte Negro, o ponto mais alto do Estado. A hipótese mais provável é que o adolescente tenha saído sozinho para fazer um passeio e, em meio à forte neblina, tenha se perdido e caído.

francisco.amorim@zerohora.com.br
FRANCISCO AMORIM | SÃO JOSÉ DOS AUSENTES


Foto Maicon Damasceno - Agência RBS
Josemar Contesini, Levi Ferreira, Augusto Serralha e Estefano Pereira ajudando no resgate. Foto Luciane Castilhos
Foto Luciane Castilhos
Foto Luciane Castilhos
Foto Maicon Damasceno - Agência RBS
Foto Maicon Damasceno - Agência RBS
Foto Maicon Damasceno - Agência RBS

Jornal Zero Hora de 26/12/2012

Jornal Zero Hora de 26/12/2012


domingo, 23 de dezembro de 2012

O Natal de 72: um milagre na montanha!

Local do acidente na Cordilheira dos Andes - Imagem atual no verão
Fonte: Viven!

O texto que segue foi publicado originalmente neste blog em 27 de dezembro de 2011, quando o escrevi na praia de Torres/RS depois de ter lido, algum tempo antes, o livro La Sociedad de la Nieve.

Em função do espaço na mídia que foi reocupado pelo tema em função do aniversário de 4 décadas deste fato, e dada a impressionante mensagem de vida que ele nos trás, resolvi republicá-lo na íntegra aqui no Terra Australis, atualizando unicamente a data do se aniversário, que no ano passado, quando escrito, contava com 39 anos.

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Há exatamente 40 anos um grupo de dezesseis cavalheiros se reúne a cada noite de 23 de dezembro para cumprir um sagrado pacto. O local uma acolhedora sala de madeira, pedra e lareira em uma casa de Montevidéu, Uruguai. Como motivo o encontro anual da Sociedade da Neve para a celebração do milagre do seu reencontro com a vida.

Engenheiros, agrônomos, empresários, médicos, pouco importa a profissão, o credo ou a origem, pois em comum partilham uma memória do passado e a coincidência de serem todos homens. Se hoje é o fogo que os reúne, há quase quatro décadas foi de gelo a têmpera que forjou para sempre um inquebrantável vínculo de aço.

José Pedro, Roberto Canessa, Roberto François, Alfredo, Daniel, Roy, José Luis, Alvaro, Javier, Carlitos, Fernando, Ramón, Adolfo, Eduardo, Antonio e Gustavo. Todos na faixa dos 60 anos são os dezesseis uruguaios que sobreviveram ao acidente do tristemente célebre Vôo 571 da Força Aérea Uruguaia, que os aprisionou sem qualquer recurso por 73 dias no coração da Cordilheira dos Andes.

O ACIDENTE

A história é bem conhecida. Em outubro de 1972 quarenta e cinco passageiros, na sua maioria jovens na faixa dos 20 anos de idade e integrantes de um time colegial de rugby, embarcaram em um vôo fretado em Montevideo rumo a Santiago do Chile. Durante a travessia dos Andes uma tempestade e erros de navegação levaram a aeronave Fairchild a chocar-se contra o pico de uma montanha, perdendo as asas e a cauda e deslizando por uma encosta recoberta de neve até um vale isolado na cordilheira.

Fotos originais captadas pelos sobreviventes em 1972
Fonte: La Sociedad de la Nieve
Apesar de 30 passageiros terem milagrosamente sobrevivido ao choque imediato, tecnicamente uma verdadeira façanha, foram ainda obrigados a resistir sem qualquer preparo, comida e medicamentos a temperaturas abaixo dos 30 graus negativos trajando apenas leves roupas de verão. Dez dias após um pequeno rádio de pilhas trouxe a desesperadora notícia de que as operações de resgate haviam sido oficialmente encerradas, deixando os sobreviventes à sua própria sorte.

A absoluta falta de comida, o instinto de sobrevivência e um esforço enorme para vencerem barreiras pessoais e religiosas ínsitas à cultura humana universal, além de uma visceral repugnância física ao canibalismo, fez com que recorressem aos corpos dos amigos falecidos como fonte de alimento. Como se isto fosse pouco, os ferimentos do acidente e uma grande avalanche reduziram outra vez o grupo aos seus atuais 16 integrantes.

Fotos originais captadas pelos sobreviventes em 1972
Fonte: La Sociedad de la Nieve
Após dois meses isolados na montanha e com a perspectiva de morrerem por inanição, em uma heroica jornada de dez dias sem qualquer conhecimento de técnicas de montanhismo, Nando Parrado e Roberto Canessa conseguiram chegar à localidade de Los Maitenes, no Chile e contatar as forças de socorro.

Foi então que no dia 23 de dezembro de 1972, véspera das celebrações de Natal em todo o planeta, quando o último dos 16 sobreviventes foi resgatado da montanha pelos helicópteros nasceu a Sociedade da Neve.


Imagem captada a partir do helicoptero de resgate - 1972
Fonte: La Sociedad de la Nieve

UMA GRANDE FAÇANHA

A National Geographic qualificou a jornada de autoresgate dos uruguaios como um dos grandes épicos do século XX, motivo suficiente para ser rememorada, estudada e celebrada como um verdadeiro triunfo do espírito humano sobre as adversidades e forças da natureza que então pareciam invencíveis.

Se simplesmente resistir ao acidente com o Fairchild foi um desafio à lei das probabilidades, tudo o que sucedeu a partir daí até a retirada do último passageiro da montanha foi também fruto da coragem, inteligência, engenhosidade, união, fé e do espírito de grupo dos acidentados, vários deles pouco mais do que adolescentes recém egressos da escola e acostumados com a tranquila vida da classe média alta de Montevideo.

O time de rugby. Fonte: La Sociedad de la Nieve
E se para os olhos da sociedade de 1972 a necessidade de recorrerem ao canibalismo foi a violação de um autêntico tabu, hoje o caso é admirado e revisitado sob os enfoques da medicina, da psicologia e da administração, assim como pelo estudo das técnicas de sobrevivência em situações extremas tendo em conta o acerto das decisões tomadas pelo grupo.

Fotos originais captadas pelos sobreviventes em 1972
Fonte: La Sociedad de la Nieve

Fotos originais captadas pelos sobreviventes em 1972
Fonte: La Sociedad de la Nieve

Passados os anos, o Vôo 571 do Fairchild assumiu uma certa aura cult. O que antes era um ponto isolado na montanha hoje pode ser visitado por meio de expedições especiais até os destroços do avião. Livros foram escritos e produzidos filmes sobre o caso. A cultura superconsumista do Século XXI, ávida de novidades efêmeras, requentou seu interesse sobre o acidente e os integrantes da Sociedade da Neve, esquecidos por quase duas décadas, hoje ministram palestras por todo o mundo e mantêm uma fundação que auxilia comunidades carentes. Tudo a favor, ponto para eles!

LITERATURA E CINEMA

Em 74 foi lançado internacionalmente o livro com o relato da história a partir das entrevistas feitas pelo britânico Piers Paul Read, No Brasil recebeu o título de “Os Sobreviventes” (Alive), um best seller constantemente reeditado no mundo.

Com farta divulgação do caso na mídia e apesar dos meus pais terem escondido o livro por tratar-se uma leitura muito “forte” para mim, aproveitei a distração em um final de semana de férias na praia Paraíso (RS) e encontrei o livro na mesa de cabeceira. Com a limitada compreensão de uma criança de apenas 9 anos mas já com o espírito de um futuro devorador de livros, avancei o que pude sobre suas páginas e fotografias antes que fosse descoberto. Mas meus pais tinham razão. O conteúdo crú do relato fez com que até hoje eu relembre perfeitamente estes ingênuos e distantes momentos de ilícito infantil.

Com o passar do tempo o assunto voltou às manchetes com a bem produzida versão cinematográfica de "Vivos!" (Alive, 1993), narrado por ninguém menos do que John Malkovich. Terminei por reler com olhos maduros o ainda excelente e detalhado relato original de Piers Paul Read e também as versões de Nando Parrado (Milagre nos Andes, São Paulo: Objetiva, 2006) e de Carlitos Paez (Despúes del Día 10, Alienta, ISBN 9788493521264, 2007), esta sem tradução no Brasil.

Há pouco ganhei de presente e literalmente degustei “La Sociedad de la Nieve”, de Pablo Vierci (Sudamericana, ISBN 9789500729758, 2008), tido como o livro definitivo sobre esta epopeia. Nele os 16 sobreviventes, já estabelecidos na vida, pais de família e avôs, com parte dos seus fantasmas exorcizados, apresentam suas reflexões depois de 35 anos do acidente, alguns saindo do retiro pela primeira vez desde os anos 70. O autor acompanhou os sobreviventes e seus filhos em uma visita ao local de acidente em 2006, dando origem ao livro e também a um tocante documentário ("La Sociedad de la Nieve" / Stranded", de Gonzalo Arijón, 2008).

Apesar de já ter lido muitas obras do gênero e me achar calejado com relatos de situações extremas, não pude deixar de me emocionar com as impressões individuais dos 16 coautores, cada uma delas com um enfoque tocante, original e de todo diferente dos demais. O livro, que comecei a ler meio desconfiado de ser uma estratégia caça-níqueis sobre o tema, foi uma gratíssima surpresa e lamento que tanto ele quanto o documentário com o mesmo nome não tenham tido no nosso país a divulgação que merecem.


Se nestes dias de Natal somos levados a direcionar nossos pensamentos para ideais de paz e fraternidade, independente de credo ou convicção, vale saber, e lembrar, que na última noite do dia 23 de dezembro, assim como o farão a cada ano enquanto viverem, os 16 membros da Sociedade da Neve estiveram reunidos com seus amigos e familiares para celebrar o milagre daquele longínquo Natal de 1972.

Testemunhos verdadeiros desta inacreditável vitória diante da adversidade extrema, em que somente a coesão como grupo lhes permitiu o reencontro com a vida, eles nos fazem lembrar com humildade que, em um tempo em que Gaia se revolta contra os séculos de desmesurada agressão humana, diante dos elementos da natureza somos ínfimos e somente a união, a fraternidade e a fortaleza de espírito nos fazem todos sobreviventes neste planeta que nos serve de lar.

Um Feliz Natal e um grande 2013 para todos nós!

(** Nota do Autor: Existirem fotografias originais da época como documento dos dias de isolamento dos sobreviventes na montanha é algo extremamente raro e importante. Me fez lembrar as fantásticas imagens em chapa de vidro captadas pelo australiano Frank Hurley na expedição de Shackleton à Antártida e que hoje, um século depois, constituem um registro histórico de valor absolutamente inigualável.)

Sobreviventes e familiares das vítimas formaram a Fundación Viven. Em pé (da esq. para a direita): Roberto François, Carlos Páez, Alfredo Delgado, Fernando Parrado, Gustavo Zerbino, Antonio Vizintín, Adolfo Strauch, Javier Methol, Ramón Sabella, Eduardo Strauch. Sentados (da esq. para a direita): Álvaro Mangino, José Luis Inciarte, Roy Harley, Pedro Algorta, Roberto Canessa e Daniel Fernández Strauch. Foto Jornal Zero Hora, 23/12/2012

PARA SABER MAIS:

- Viven! – Site oficial da Sociedade da Neve
- La Sociedad de la Nieve (la película) trailer
- La Sociedad de la Nieve - Site da produção do filme, com excelentes imagens da época e da produção
- Alive movie trailer - HD
- Alive Survivors Look Back – National Geographic Adventure
- Nando Parrado – Site oficial
- Perfil de Nando Parrado no Facebook
- Carlitos Paez – Site oficial
- Antonio Vizintin – Site oficial


ALGUMAS IMAGENS DO DOCUMENTÁRIO "LA SOCIEDAD DE LA NIEVE" - Fotografias de César Charlone
















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O Jornal Zero Hora, de Porto Alegre/RS, publicou na sua edição de 23/12/2012 também uma matéria marcando os 40 anos do acidente do Fairchild de 1972. Segue o texto (clique para ampliar):