domingo, 31 de outubro de 2010

Fotografia/4x4: Do Farol Capão da Marca à Lagoa do Peixe



A costa sul do Rio Grande do Sul exerce sobre mim grande fascinação, em especial a isolada região situada na longa península de 250 Km que divide a Laguna dos Patos do Oceano Atlântico.

Em 1998 cruzei pela primeira vez esta restinga pela temível e nada saudosa Estrada do Inferno, um trecho da RST-101 que liga Capivari a São José do Norte, um verdadeiro inferno de lama, água e areia. Se por um lado demorei quase 3 dias para rodar 100 quilômetros em veículos 4x4, as paisagens de dunas, naufrágios, pássaros, restingas e faróis isolados deixou em mim sua marca indelével.

Ao longo dos anos tenho voltado para lá muitas vezes em busca de sossesso e imagens de natureza, em geral acompanhado por meu grupo de fotografia dentro do nosso projeto pessoal de registro dos faróis do Rio Grande do Sul.

Agora em outubro decidi revisitar o histórico Farol Capão da Marca, o mais antigo do Rio Grande do Sul, localizado à margem da Lagoa dos Patos, a sudoeste do Município de Tavares.

Este marco tem a forma de uma torre octogonal em armação de ferro importada da França, com lanterna e um cilindro central. Foi inaugurado em 1849 pelo próprio Imperador D. Pedro II (1840-1889) e está localizado a cerca de 13 km de Tavares, com acesso parte por estrada de areia e parte  por trilha 4x4 pela beira da Lagoa do Patos.

Apesar da idade está em boas condições de manutenção, pintado de branco, ao lado de um pequeno capão de Pinus eliotis. O farol possui 14 m de altura e emite sinais de luz vermelha com alcance de 13 milhas náuticas (24 km) para dentro da lagoa.

O Farol Capão da Marca, 1849. Lagoa dos Patos.
Pequeno visitante dentro da lanterna do farol...

Em todas as vezes que lá estive foi possível subir ao topo do farol por uma escada interna em caracol pois a sua porta de acesso, em ferro maciço, costuma estar destrancada. Desde a sacada que circunda a lanterna se vislubra uma belíssima vista de 270 º da Lagoa dos Patos e de grandes extensões de praias de areia branca e água doce onde eventualmente pontilham sambaquis, testemunhos da pré-histórica presença humana na região.

O local é deserto, à exceção de alguns poucos pescadores locais. Surpreende até que tanto isolamento e facilidade de acesso ao seu interior não tenha dado oportunidade à costumeira depredação do patrimônio público quando se encontra desguarnecido como no caso deste célebre farol.

Farol Cristóvão Pereira
O Capão da Marca está 28 Km ao sul do também histórico, o Farol Cristóvão Pereira, em atividade desde 1868 e que já foi objeto de postagem específica aqui mesmo no blog Terra Australis.

Nesta visita ao secular Capão da Marca pernoitei em Tavares, município com cerca de 5 mil habitantes, onde toda a vida social circula em torno da praça central, sobre a única avenida da cidade. Aos finais da tarde de finais de semana e feriados uma pequena multidão - proporcional à densidade demográfica da cidade - costuma se espalhar pelos bares da única avenida, com absoluta preponderância dos representantes do sexo masculino.

Me hospedei com João Batista Cardoso, grande conhecedor da região, dono do simpático Hotel Parque da Lagoa, sem dúvida a parada obrigatória em Tavares e redondeza. João Batista, conhecido de outras passagens por Tavares em explorações pela rota dos faróis e na Lagoa do Peixe, é quem disserta sobre a importância histórica do Farol Capão da Marca:


"(...) O primeiro Farol a ser construído na costa brasileira foi o da Barra do Rio Grande de São Pedro do Sul, na capitania do Rio Grande, hoje estado do Rio Grande do Sul. Em 1820, o Farol foi erguido sobre uma velha torre existente no local e de propriedade do capitão Mor, não chegou a ser aceso, pois foi destruído por uma forte chuva de granizo, no mesmo ano de sua construção. No período em que o Farol não havia sido reconstituído era deslocada uma balsa, que todas as noites acendia um fogacho para guiar os navegantes. Em janeiro de 1852 foi inaugurada uma torre de ferro encomendada da Inglaterra, acompanhada de um bom aparelho de luz, a velha torre, a Atalaia, com mais de um século, continua erguida.

"(...) Os Faróis são obras importantes, imponentes e históricas. As regiões de Tavares e Mostardas possuem o privilégio de contar com uma série de Faróis históricos. Algumas dessas obras, há mais de um século brilham para iluminar o navegante. Na Laguna dos Patos um dos faróis mais interessantes, mais alto e mais antigo é o Farol Cristóvão Pereira, inaugurado em 1886, hoje um pouco desestruturado, mas com uma arquitetura digna de um castelo, outro é o Farol Capão da Marca que se reveste de interesse histórico, uma vez que foi o primeiro farol da então Província, inaugurado pelo próprio Imperador D. Pedro II (1840- 1889), construído de metal e pintado inteiramente de branco.
"Todos os Faróis têm sua data de fundação ou inauguração, mas cabe lembrar que foram inaugurados com torres provisórias, sendo algumas de ferro outras de madeira. Entre as de ferro pode-se citar: Farol Mostardas, Sarita, Conceição. E de madeira: o Farol Capão da Marca, Cristóvão Pereira. Os registros mais antigos de Faróis de madeira estão no Rio Grande do Sul.
"Em 1849, foram construídos quatro Faróis de madeira: Capão da Marca, Bujuru, Barba Negra e Estreito. Todos foram custeados pela Província até 1852, quando passaram a pertencer ao Ministério da Marinha. Em 1858, foi construída também em madeira, a torre do Farol Cristóvão Pereira.

"Quando se fala do Capão da Marca e Cristóvão Pereira há conflitos de datas, o que ocorre é o seguinte: o Farol Capão da Marca é o mais antigo na sua construção em torre de madeira, foi custeado pela Província, em 1846. Já o Farol Cristóvão Pereira foi construído em madeira em 1858, mas nesta época já era administrado pelo Ministério da Marinha.
"Já em relação às torres atuais, ocorre que o Farol Cristóvão Pereira foi inaugurado em 1886 e o Farol Capão da Marca em 1894, mas seja qual for o mais antigo, o importante é que estes monumentos continuam aí, sendo testemunho do tempo, em pleno funcionamento e ainda servindo de belos pontos turísticos."
Também aproveitei a viagem a Tavares para voltar mais uma vez ao Parque Nacional da Lagoa do Peixe, parada imperdível para quem visita a região e abrigo de grandes concentrações de aves migratórias do Hemisfério Norte durante o verão e do Sul no inverno.

O tempo estava meio nublado, com nuvens e poucos momentos de sol, sem ajudar muito a tomada de fotografias, mas a Primavera fez a sua parte trazendo colorido à paisagem com grandes floradas nos pastos e nas dunas do parque.


A Primavera presente no Parque Nacional da Lagoa do Peixe
A presença dos flamingos, grande atração do unidade, também estava bastante tímida, tendo avistado somente um grupo de tamanho médio no trecho da Trilha do Talha-Mar.

Grupo de Flamingos na  Trilha do Talhamar
Percorri os três clássicos percursos do parque: A Trilha das Figueiras (1,5 Km), a Trilha do Talha-Mar (7 Km), a Trilha das Dunas (10 Km), mais um trecho pela praia até o acesso a Mostardas que atravessa trechos de banhados repletos de aves. A variedade de vida, como sempre, estava impressionante!

Garça. Trilha do Talha-Mar.
Biguá. Trilha do Talha-Mar.

Detalhe do João-Grande saboreando uma refeição.... Beira da RST-01.

Garça. Trilha do Talha-Mar


Corujinha ao final da tarde. Trilha das Figueiras.

Se você pensa que na Lagoa do Peixe se avistam somente aves migratórias, está muito enganado! É possível deparar-se também com emas, tatus, tuco-tucos, lebres, graxains e cotias, além de uma grande variedade de avifauna nativa.

Ema em meio ao campo na Trilha das Figueiras

Gavião nos acesso entre Mostardas e o mar

O setor do Parque Nacional da Lagoa do Peixe que abrange a zona de dunas e o litoral atlântico é uma atração à parte. Em um infímo espaço de trânsição entre os campos e o ambiente lacustre o cenário muda completamente, a começar pelos seus habitantes.

É uma outra estética, uma outra medida de tempo, onde o verde dos campos e charcos é substituído pelas variações entre múltiplos tons da areia constantemente desenhada pelo vento. Trata-se de um espaço dinâmico, em constante mutação, onde a trilha nunca está no mesmo lugar e há que se ter olhos para descobrir a delicada beleza escondida nos pequenos detalhes.

Margaridas. Trilha das Dunas.

Margaridas. Trilha as Dunas.

Trilha das Dunas. O caminho entre a lagoa e o mar troca constantemente de posição e há que ter cuidado para não atolar o carro. Para quem não está familiarizado com o local a orientação à noite ou com o terreno alagado pode ser difícil.




O trecho costeiro do parque comporta também variadíssimo número de aves marinhas. É normal encontrar-se na praia animais de grande porte mortos, como golfinhos, tartarugas, lobos e leões-marinhos e até baleias, boa parte deles trazidos pelas grandes redes de pesca de arrastão - encontradas às centenas na região - ou sufocados pelo lixo que flutua no oceano.

É muito o grande o número de tartarugas marinhas que morrem presa nas redesde pesca ou sufocada por sacos plásticos, confundidos com águas-vivas, um dos seus alimentos. Encontramos pelo menos sete animais mortos apenas entre o acesso à Trilha das Dunas e o acesso à Mostardas.
Desta vez tive uma bela surpresa. Durante o final de semana um grande mutirão de veículos 4x4 estava recolhendo o lixo da área litorânea do parque nacional, o qual foi reunido em uma enorme pilha para mais tarde ser retirada pela prefeitura. Vejam só o que foi encontrado em apenas alguns quilômetros de praia!


Os ventos constantes trocam as dunas de lugar e soterram os pequenos abrigos dos pescadores locais.
Em compensação, colírio para os fotógrafos e visitantes, na beira-mar a variedade de avifauna é enorme!












O trajeto total entre Porto Alegre e Tavares, via Capivari, incluindo trechos de asfalto, terra consolidada e trilhas somou 550 Km, ida e volta, fazendo valer a visita em qualquer época do ano. Veja abaixo as dicas do passeio.

FOTOGRAFIAS:

- As imagens foram captadas com uma câmera Canon EOS-1D Mk II e um conjunto de lentes zoom variando entre 28 e 300 mm da mesma marca. Todas as fotos são de autoria de João Paulo Lucena, sendo proibida a reprodução desautorizada.

SOBRE O FAROL CAPÃO DA MARCA:

- Localização Tavares, Rio Grande do Sul, Brasil
- Coordenadas 31° 18′ S 51° 9′ W
- Inauguração 1849
- Altura 14 m
- Altitude 19 m
- Alcance luminoso 13 milhas náuticas
- Características Luz: LFl W 10s
- № Nacional 4472/№ internacional G-0631.2/№ da NGA 18957/№ da ARLHS BRA-127
 
ONDE FICAR:

Mostardas.
- Em Tavares recomendo o Hotel Parque da Lagoa.

- Em Mostardas a Pousada Pouso Alegre. Nesta pequena e folclórica cidadezinha de cultura açoriana há outras opções de hospedagem e é uma boa opção de pouso para que visitar a região.

ONDE COMER:

- Em Tavares existem algumas poucas opções de pequenos bares, uma padaria, um café e uma pizzaria ao longo da única avenida.

Ed Mundo´s, em Mostardas
- Em Mostardas a parada obrigatória é no Ed Mundo´s, onde 10 entre 10 expedições à região param para se reabastecer. Serve a la carte durante a semana e buffet aos domingos. Especialidade em peixes da região. Rua Bento Gonçalves (a do Posto Ipiranga), 906 Tel.(51) 3673-1969


POSTAGENS RELACIONADAS AQUI NO BLOG TERRA AUSTRALIS:

- 20/02/2011 - Náutica/Vela: De Rio Grande ao Bujurú
- 09/03/2010 - Fotografia/4x4: O Farol Cristóvão Pereira

SITES DE REFERÊNCIA:

- Bemtevi Brasil - do fotógrafo de natureza Renato Grimm
- Restinga do Litoral Sul do RGS - Palmares do Sul - Mostardas - Tavares
- Parque Nacional da Lagoa do Peixe
- Praticagem da Lagoa dos Patos - Monitoramento de Sinais
- O Farol Cristóvão Pereira

COMO CHEGAR:
 
Parque Nacional da Lagoa do Peixe - Mapa

sábado, 30 de outubro de 2010

Viagem: As Aventuras de Egon no Irã - 13. Na formidável Petra (Jordânia)

 "13. Egon na formidável Petra (Jordânia)

Você vai caminhando por um longo cânion chamado Siq e que, em alguns momentos, fica talvez com apenas 1 metro de largura espremido entre paredões de mais de 200m de altura. Não pode ter claustrofobia!

Mas, após cerca de meia hora caminhando, você vê, através da fresta dos paredões, um pedaço do portal Al-Khazneh (localmente conhecido por "Tesouro"). É impossível conter o "hoh!!!"! É uma sensação muito incrível emergir do Siq e, nesta clareira, dar de cara com este monumento de 43m de altura escavado na rocha. Não poderia haver melhor imagem para relembrar Petra para sempre: impressionante...

Foto: Egon Filter

Foto: Egon Filter

Foto: Egon Filter

Esculpido no ano 100 AC pelos Nabataeus, o Tesouro tem influências gregas, egípcias e romanas, não se sabe bem se era um templo ou uma tumba. Dizem que um faraó egípcio, enquanto perseguia os israelitas, escondeu um tesouro real nesta contrução (é por isso que tem furos de bala feitos pelos beduínos que queriam achá-lo...).

Foto: Egon Filter

Foto: Egon Filter

Foto: Egon Filter

Foto: Egon Filter

Aliás, os Nabataeus foram os precursores dos beduínos: com sua capital em Petra, eles enriqueceram com o comércio de incenso vindo do Yemen via Arábia, primeiro atacando e saqueando as caravanas e, mais tarde, cobrando tributos pela proteção durante a sua passagem por seu território... Hoje os beduínos locais dentro das ruínas desta antiga capital oferecem serviços de guias, vendem lembranças ou alugam "taxi com ar-condicionado" (o que aqui, em um calor caminhante forte, significa carona no camelo ou na mula...) e, a partir dos anos 80, passaram gradualmente a habitar uma vila com casas próxima das ruínas de Petra.

Uma das maiores surpresas aqui em Petra foi conhecer Marguerite van Geldermalsen, uma mochileira neozelandesa que casou com um beduíno local em 1978. Se converteu ao Islã e viveu com Mohammed em uma caverna aqui, junto à tribo Bdoul ? foram felizes e tiveram 3 filhos. Ela escreveu um livro chamado "Casada com um Beduíno", best seller entre os viajantes românticos (que a Lu trouxe autografado): uma história real, com as alegrias e dificuldades deste choque cultural. Hoje viúva, é a simpatia em pessoa, uma grande alma que jamais esqueceremos...

Salaam alaykum (que a paz esteja com você, em árabe),

Egon
www.egonf.com "

* - * - * - * - *

(*) EGON FILTER é fotógrafo e correspondente exclusivo do Terra Australis. Tem suas imagens disponibilizados no site Images do Share.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Ecologia/Montanhismo: Livre acesso às montanhas e atrações naturais

Fonte: Alta Montanha

Recebo do meu amigo Orlei "Mundo Vertical" Jr. o incentivo de adesão à campanha de apoio ao Deputado Federal Fernando Gabeira,  autor do Projeto de Lei 7014/2010 em tramitação na Camara dos Deputados e que tem a seguinte ementa: "Dispõe sobre o trânsito por propriedades privadas para o acesso a sítios naturais públicos."

Esta campanha está sendo apoiada fortemente por entidades de montanhismo de todo o país, especialmente a Federação de Montanhismo do RJ - FEMERJ.

O Projeto de Lei será votado na Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável nos próximos dias é de total interesse de todos os praticantes de atividades junto à natureza, em especial àqueles que já tiveram cerceado o seu direito de acesso à áreas de grande interesse natural, tanto de natureza pública quanto privada.

Esta nova regulamentação, se aprovada, resolverá uma antiquíssimo problema dos excursionistas com as autoridades e, em alguns casos, com proprietários de áreas de grande interesse natural, especialmente no caso dos montanhistas. Este problema se torna ainda maior no caso do uso de áreas públicas como parques nacionais que, em paralelo à proteção ambiental, também se destinam ao lazer e à contemplação, não podendo ser confundidos com áreas de conservação.

A incapacidade da autoridade pública no manejo dos visitantes costuma levar à solução mais simplista e castradora: simplesmente proibir a visitação e a prática de atividades junto à natureza.

De longa data enfrentamos estes problemas nas áreas dos Parques Nacionais de Aparados da Serra e da Serra Geral.

No primeiro caso a imposição de uso de guias foi polêmica durante muito tempo e, no segundo, mesmo havendo previsão de uso da área no Plano de Manejo, a administração do parque há anos impõe limitações ao acesso aos cânions, pernoites e caminhadas, tolhendo um direito legal dos visitantes, em especial canionistas e montanhistas, em decorrência da falta de estrutura do poder público para o controle e fiscalização.

Lendo o texto da proposta de lei notei a falta de um art. 5º. Conferindo o texto original disponível no site da Câmara de Deputados vi que também ali há esta lacuna, provavelmente uma falha formal na redação do Projeto de Lei, detalhe a ser comunicado à assessoria do Deputado Fernando Gabeira.

Para acompanhar a tramitação do Projeto de Lei clique AQUI!

Para ler o texto completo (arquivo pdf) direto no site da Câmara clique AQUI!:


"O Congresso Nacional decreta:


Art. 1° É direito do cidadão o livre trânsito, nas propriedades privadas, por caminhos, trilhas, travessias e escaladas que conduzam a montanhas, paredes rochosas, praias, rios, cachoeiras, cavernas e outros sítios de grande beleza cênica e interesse para a visitação pública.

§ 1o O disposto neste artigo aplica-se aos caminhos já existentes, tradicionalmente utilizados por montanhistas e demais praticantes de esportes ao ar livre, bem como àqueles que necessitarem ser constituídos para possibilitar o acesso a sítios ainda não explorados.

§ 2o A delimitação de novos caminhos, trilhas, travessias e escaladas necessários para o acesso a sítios ainda não explorados será estabelecida pelo órgão ambiental do Município ou, quando inexistente, pelo órgão ambiental estadual, assegurada a participação dos proprietários privados e de representantes das associações de montanhistas e outros praticantes de esportes ao ar livre diretamente interessados.
Art. 2° Os caminhos, trilhas, travessias e escaladas de que trata esta lei poderão ser delimitados pelos proprietários privados, de acordo com boas práticas que assegurem mínimo impacto.
Parágrafo único. Em havendo conflito entre a delimitação estabelecida pelo proprietário privado e aquela proposta pelos usuários, o trajeto do caminho será estabelecido pelo órgão ambiental do Município ou, na inexistência deste, pelo órgão ambiental estadual.
Art. 3° Os cidadãos que transitarem pelos caminhos de que trata esta lei, deverão zelar pela conservação dos ecossistemas locais, mediante a adoção de práticas de mínimo impacto, bem como não ultrapassar os limites estabelecidos pelos proprietários privados ou pelo órgão ambiental competente, conforme o caso.
Art. 4o O estabelecimento eventual de regras para o uso dos caminhos de que trata esta lei deverá ser feito pelo órgão ambiental competente, de forma participativa, envolvendo os proprietários privados e as instituições representativas dos praticantes da atividade esportiva.
Parágrafo único. Os horários eventualmente estipulados para o uso dos caminhos deverão ser compatíveis com a prática segura e operacionalmente viável das atividades em questão.
Art. 6° O acesso às montanhas situadas dentro de Unidades de Conservação, sejam elas Federais, Estaduais ou Municipais, pode ser feito sem acompanhamento ou a contratação de guias locais, desde que o montanhista:
a) comunique a expedição à administração da unidade;

b) demonstre possuir a necessária capacidade técnica para realizar a escalada pretendida, de acordo com o seu nível de risco ou dificuldade;

c) disponha dos equipamentos e sistema de apoio logístico adequados;

d) respeite o Plano de Manejo da unidade, se existente, e outras normas regulamentares pertinentes.

§ 1o Para efeito do disposto no inciso “b” deste artigo, o órgão ambiental competente, ou instituição por ele reconhecida, credenciará os praticantes de esporte de montanha, de acordo com categorias previamente estabelecidas.

§ 2o A administração da unidade poderá exigir o pagamento de seguro por dano pessoal ou de resgate ao montanhista que optar por praticar a escalada sem o acompanhamento ou a contratação de guias locais.

Art. 7o Esta lei entra em vigor na data de sua publicação."

JUSTIFICAÇÃO DO PROJETO PELO DEPUTADO FERNANDO GABEIRA:

"O Brasil abriga um sem número de sítios naturais de grande beleza cênica, como cumes de montanhas, paredes rochosas, praias, rios, cachoeiras, cavernas e muitos outros. Esses sítios vem sendo historicamente utilizado para a prática do montanhismo, de forma amadora e profissional, e para atividades de turismo de aventura ou ecológico. Esses sítios são acessados por meio de trilhas, caminhos, travessias e escaladas constituídos, não raro, há décadas.

A prática dessas atividades tem grande valor cultural e esportivo, propicia o conhecimento dos ambientes naturais e contribui de forma decisiva para o desenvolvimento sustentável local. As pessoas que praticam esses esportes desenvolvem uma plena consciência da importância da preservação dos ambientes naturais e, através das ações das instituições historicamente existentes e organizadas para a promoção dessas atividades, têm contribuído de forma efetiva para a promoção da conservação da natureza e do desenvolvimento social e econômico de inúmeras localidades; Infelizmente, o intenso processo de apropriação privada de áreas naturais, em particular a constituição de loteamentos e condomínios, vem dificultando e, muitas vezes, impedindo, de forma crescente, o acesso dos cidadãos às montanhas e a outros sítios naturais de grande interesse público, o que, não raro, vem gerando conflito entre proprietários privados e esportistas.

Mencione-se, a titulo de exemplo, recente relatório sobre o acesso de montanhas em Petrópolis, elaborado pelo Centro Excursionista Petropolitano, que identificou nada menos do que 23 cumes de montanhas cujo acesso vem sendo dificultado ou impedido em função da constituição de condomínios nos vales do Município. O “site” da Federação de Montanhismo do Estado do Rio de Janeiro na Internet, apresenta uma lista com mais 23 sítios com problemas de acesso no Estado do Rio de Janeiro.

É evidente, portanto, que o problema demanda urgente regulamentação. Com esse propósito estamos propondo o presente projeto, por meio do qual pretendemos assegurar o livre acesso do cidadão aos sítios naturais localizados em área pública, quando for necessário transitar por terrenos privados. Pela proposta apresentada, fica assegurado ao praticante de esportes de natureza e cidadãos em geral o trânsito pelos caminhos, trilhas, travessias e escaladas já constituídas que conduzem a esses sítios e, também, por caminhos novos, necessários para dar acesso a sítios ainda inexplorados.

Em uma e outra situação, em havendo conflito entre o proprietário privado e os interessados em acessar os sítios naturais, o órgão ambiental municipal ou estadual, conforme o caso, deverá intervir e delimitar as vias de acesso mais adequadas.

Convém lembrar que há iniciativas municipais reconhecendo a importância de se regular o acesso à alguns ambientes naturais específicos, dentre os quais podemos citar o Zoneamento do Município da Estância Balneária de Caraguatatuba e também a Política Urbana do município do Rio de Janeiro. Em nível Federal merece menção as iniciativas legislativa que proíbem a construção de loteamentos que impeçam o livre acesso às praias.
Finalmente, atendendo a uma antiga reivindicação dos organizações civis de praticantes do montanhismo, propomos que os montanhistas devidamente preparados possam escalar montanhas em unidades de conservação sem terem, necessariamente, que ser acompanhados ou contratar um guia local.

Este projeto, para cuja aprovação esperamos contar com o apoio dos nobres pares nesta Casa, foi elaborada com a fundamental contribuição da Federação de Montanhismo do Estado do Rio de Janeiro – FEMERJ e do Centro Excursionista Petropolitano.

Sala das Sessões, em de de 2010.

Deputado FERNANDO GABEIRA"

O TERRA AUSTRALIS irá acompanhar aqui o andamento deste projeto.

Veja a seguir o vídeo institucional da Campanha de Livre Acesso às Montanhas elaborado pela FEMERJ:




REFERÊNCIAS PARA A CAMPANHA DE LIVRE ACESSO ÀS MONTANHAS E ATRAÇÕES NATURAIS:

- Acesso às Montanhas
- Federação de Montanhismo do Rio de Janeiro - FEMERJ
- Federação de Montanhismo de São Paulo - FEMESP


POSTAGENS RELACIONADAS NESTE BLOG:

- 06/02/2011 - Ecologia/Montanhismo: Projeto de lei que libera acesso às áreas naturais é arquivado

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Viagem: As Aventuras de Egon no Irã - 12. Entre os mercadores de Damascus

"12. Egon entre os mercadores de Damascus

Enquanto que Jerusalém foi o centro religioso do mundo antigo, a capital da atual Síria sempre foi o centro de comércio da região ? o centro do poder econômico mundial por, talvez, alguns milênios. Continuamente habitada há mais de 5000 anos, Damascus não conta o tempo em anos ou séculos: aqui se conta o tempo pelo número de dinastias e impérios dos quais esta cidade foi a capital... Rei David de Israel, Assírios, Nabucodonosor, Persas, Alexandre o Grande, Nabataeus, Romanos, Califas Umaíadas, Turcos, Cruzados, Mongóis, Otomanos, Franceses... ufa, é muita história para apenas uma cidade.

E a maior atração aqui é a cidade antiga, ainda com traços medievais islâmicos e preservada, que tem mais ou menos 1x1.5km, bem no centro de Damascus. Era toda murada, com bairros muçulmano, cristão e judeu - e com 13 portões de acesso que eram fechados ao anoitecer até 50 anos atrás. Hoje, sem a maior parte dos muros e portões, grande parte é ocupada pelo o Souq Al-Hamidiyya, um enorme e labiríntico mercado extremamente vivo e agitado.

Foto: Egon Filter
No Souq (mercado) tem de tudo: lojinhas de roupas, com modelitos de chador ou burka - além da secção de tecidos, onde o que mais vende é o preto. Frutas secas e cristalizadas, cafés, chás e temperos tão diversos que não conheço a maioria deles. Doces deliciosos como a baklava, barazi e bor'ma - todos eles com pistachios e que fazem a fama da Syria. Perfumes preparados na hora pelo perfumista, que mistura as essências e fixadores na hora e sem o uso de álcool (de uso proibido pelo Islã). Carpetes e tapetes (sempre os vendedores mais insistentes!). Ouro e jóias, vendidas por pesagem e com designs que agradam as madamas locais. E assim por diante...

Foto: Egon Filter
Foto: Egon Filter
Cansados de caminhar pelo Souq, tiramos as botas, a Lú colocou o chador, e entramos na lindíssima Umayyad Mosque, uma dos mais importantes mesquitas de todo Islã (junto com as mesquitas de Mecca, Medina e Jerusalém). Isto aqui já foi um templo pagão ao deus Hadad (dos arameus, séc IX AC), transformado em templo ao deus Júpiter (romanos, séc II AC), depois em basílica cristã de João Batista (bizantinos, séc III DC) e, finalmente, em mesquita islâmica (muçulmanos, séc VII DC). É muita história.

Foto: Egon Filter
Foto: Egon Filter
Foto: Egon Filter
Conversamos (ou, pelo menos, tentamos) com muitos visitantes iraquianos, iranianos, sauditas, indianos - enfim, pessoas que vem de longe para conhecer este local sagrado - vendo a Lu com chador vários nos perguntavam se éramos muçulmanos... Todos muito simpáticos, e os sírios, em particular, sempre nos ofereciam ajuda e explicações desta construção. Muito legal. E, com o pôr-do-sol, os alto-falantes de seus três minaretes entoavam a chamada para oração - um som meio mágico que sempre nos lembrará a beleza do Oriente Médio...

Foto: Egon Filter
Salaam alaykum,

Egon

http://www.egonf.com/

PS.: Nos sentamos em um bar local para tomar um chá de menta e fumar uma sheesha (narguilé). Sentado em seu trono junto à parede, Abu Shady é considerado o último contador-de-estórias profissional da Syria - uma tradição das ruas do Oriente Médio que surgiu no século XII e, infelizmente com o rádio e televisão, desapareceu nos anos de 1970. Todas as noites ele vem aqui e conta, com uma empolgação eletrizante, estórias mirabolantes de sultões e seus feitos heróicos. Apesar de não enterdermos nada da língua árabe, praticamente conseguimos imaginar o desenrolar da estória... bem, talvez algo no ar - sei lá... hehehe."

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(*) EGON FILTER é fotógrafo e correspondente exclusivo do Terra Australis. Tem suas imagens disponibilizados no site Images do Share.