sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Crônica: Desculpas para Darwin


O Estado de São Paulo publicou no último dia 15 que a Igreja Anglicana da Inglaterra pretende pedir desculpas públicas a Charles Darwin em função das hostilidades praticadas contra este cientista quando da divulgação da sua teoria quanto à origem das espécies. Este ato de contrição faria parte das ações comemorativas dos 200 anos do nascimento de Darwin e dos 150 anos da publicação da "Origem das Espécies" previstas para 2009.

Como entendido por Darwin, a seleção natural não precisa de uma intervenção divina como variável independente, o que tem provocado até os dias de hoje reação de diversos grupos religiosos. Lembra a reportagem do Estadão que em um debate na Universidade Oxford em 1860, o bispo Samuel Wilbeforce perguntou a um apoiador de Darwin, o cientista Thomas Huxley, se ele descenderia de um macaco pelo lado da mãe ou pelo lado do pai...

Por outro lado, a Igreja Católica, mesmo contando com igual pecado em carteira, afirma (hoje) que em verdade as idéias de Darwin não são incompatíveis com o relato bíblico da criação e que, portanto, o pedido de excusas não seria devido ao sábio inglês. Em 1992, o papa João Paulo II declarou que Igreja Católica Romana tinha errado ao condenar Galileu Galilei por afirmar que a Terra gira em torno do Sol. Ainda em 2008 o papa Bento XVI publicou livro afirmando que a Teoria da Evolução não pode ser provada de modo conclusivo e que a forma como a vida se desenvolveu indica uma "razão divina" que não pode ser explicada apenas por métodos científicos. Parece então que Darwin não merecerá dos Católigos a mesma consideração devotada a Galileu Galilei.

Apesar da publicação da "Evolução das Espécies" há um século e meio, o tema continua atual face à adaptação da Teoria Darwinista à vários outros ramos da ciência, a partir da qual muitas teorias de seleção artificial foram propostas sugerindo que os fatores de aptidão econômica e social atribuídos por outros seres humanos, ou por seu ambiente construído, são de certa forma biológicos ou inevitáveis (Darwinismo Social) . Outras sustentam que houve uma evolução das sociedades análoga àquela das espécies. As idéias de Darwin, juntamente com as de Freud, Adam Smith e Marx são consideradas por muitos historiadores como tendo uma profunda influência no pensamento do Século XIX ao desafiar as escolas de pensamento racionalista e o fundamentalismo religioso que então prevaleciam na Europa.

A evolução das espécies ao longo das eras formando linhagens que chegam aos atuais seres vivos constitui o cerne das idéias de Darwin. Antes dele acreditava-se na versão religiosa segundo a qual por volta do ano 4004 a.C., Deus criou o homem, a mulher e os demais seres vivos exatamente como eles são agora. Essa visão pré-darwinista, que só sobrevive dentro dos círculos religiosos e ainda se reveste nos nossos dias uma projeção assustadora.

Nos Estados Unidos, conforme artigo publicado na Revista Veja 54% dos adultos dizem descender de Adão e Eva e, segundo um levantamento recente do Instituto Harris Poll, menos da metade das pessoas crêem na teoria da evolução de Darwin. Informa ainda que muitas escolas americanas, nas aulas de ciências, decidiram substituir os ensinamentos de Darwin por uma variante do criacionismo batizada de "design inteligente". Segundo essa teoria, há elementos na natureza, como o olho humano, que têm uma estrutura tão engenhosa que só podem ter sido criados por um projetista, ou seja, um ser superior.

Passada a I Guerra Mundial um forte movimento comandado por fundamentalistas religiosos conseguiu que fosse adotada a proibição do ensino do Darwinismo nas escolas em vários estados do sul dos Estados Unidos. Nessa época, o caso de John Scopes, um professor do Tennessee foi condenado por ter ensinado a Teoria da Evolução e inspirou o filme O Vento será tua Herança, dirigido por Stanley Kramer). Embora o advogado de Scopes, Clarence Darrow, tenha feito uma defesa brilhante do Darwinismo, mostrando as contradições e incoerências de uma leitura literal da Bíblia, a Corte Estadual entendeu que a proibição não violava a Constituição Federal. Veja-se que somente nos 60, a lei do de Tennesse foi julgada inconstitucional pela Suprema Corte daquele país.

Mas talvez certo mesmo esteja o tataraneto de Charles Darwin, Andrew Darwin, que em declaração ao jornal Daily Mail afirmou que não há motivos para tanta preocupação pois "Quando as desculpas chegam 200 anos depois, é menos para corrigir um erro e mais para fazer com que a pessoa ou organização que pede as desculpas se sinta melhor".

O assunto é tão interessante que por certo voltaremos a ele neste blog. E para complementar, veja abaixo umas das principais cenas de "O Vento Será sua Herança" (em inglês):

PARA SABER MAIS:

Papa questiona teoria da evolução de Charles Darwin http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL20435-5602,00.html, disponível na internet em 20.01.2010
A Revolução Sem Fim de Darwin. Veja.com, disponível na internet em 17.09.2008(http://veja.abril.com.br/090507/p_112.shtml)
Igreja Anglicana deve desculpas a Darwin, diz clérigo. Estadao.com.br (http://www.estadao.com.br/vidae/not_vid242077,0.htm)
O Vento Será tua Herança ("Inherit the Wind", EUA, 1960). Filme estrelado por Spencer Tracy e dirigido por Stanley Kramer (http://www.cineplayers.com/filme.php?id=3460)

Nenhum comentário:

Postar um comentário