quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Familia Rodante rumo Chile 11: Quatro grandes razões para cruzar os Andes por terra


Puente del Inca, Argentina

"...El 7 de abril, tuvimos el regalo de nuestra primera visión de la Cordillera de los Andes. Nadie se imagina el efecto producido en el viajero por esta estupenda barrera de montañas .  
(...) Montañas enormes, enteramente cubiertas de nieve, se levantaban a tal altura que nos veíamos obligados a echar la cabeza atrás para mirarlas; parecían pertenecer a otro mundo, no viéndose más que las cimas, pues el firmamento estaba clarísimo arriba, mientras el horizonte se veía algo oscuro."   
Robert Proctor,  diário de viagem, 1842. * 

Mesmo em pleno século 21, no reinado da informação total dentro dos lares e das telas de altíssima definição, o sentimento de quem se depara frente à frente com a Cordilheira dos Andes ainda é de enorme admiração e respeito, e em nada distinto daquele que o inglês Robert Proctor experimentou em sua viagem à cavalo, de Buenos Aires a Santiago, em meados do século XIX. 

Travessia da Cordilheira dos Andes em carruagem no final do século XIX. Mendoza, Argentina.
Fonte: Archivo General de la Nación

A beleza e a magnitude dessas montanhas é de tal monta que torna a viagem por terra muitíssimo mais bonita do que qualquer pasteurizada travessia aérea, valendo cada um dos quilômetros percorridos pelo viajante. 

Justifico.


MOTIVO 1: A BELEZA CÊNICA DA ROTA DE SAN MARTIN

Julio Vila y Prades (1873 - 1930)
Fonte: Wikipedia
As passagens terrestres entre os dois lados da cordilheira são conhecidas como "passos" e Los Libertadores é um dos mais importantes da divisa Argentina-Chile, unindo as cidades de Mendoza e Los Andes por um tramo de 340 Km, com grande trânsito de veículos e rota de comércio internacional entre o Atlântico e o Pacífico.

Pelo mesmo caminho hoje percorrido pelas Rutas 7 (Ar) e 60 (Ch) cruzaram os primeiros habitantes destas terras na América pré-colombina, os conquistadores espanhóis e o exército libertador de San Martin, ícone das guerras de independência da Argentina, do Chile e do Perú.

Até então considerada impossível, a histórica travessia do exército de San Martin no verão de 1817, composto por mais de 5400 soldados, canhões e 1600 mulas e cavalos, seguindo terríveis trilhas por dentre magníficas e mortais montanhas, é uma façanha militar que ficou conhecida como "El Cruce de los Andes".

Hoje não é mais preciso cruzar o cume das montanhas a 4.000 m como antes, pois uma excelente rodovia repleta de túneis - o maior deles com 3 Km de extensão - atravessa a cordilheira de lado a lado, encurtando o caminho e deixando-o muito mais rápido e seguro, mas não menos impressionante.

Chegada em Uspallata, Argentina, o último ponto para abastecimento de combustível antes de Los Andes, já no Chile.
A paisagem e as cores vão mudando de acordo com a altitude e a variação da incidência do sol.


Aos poucos, conforme se ganha altitude, a vegetação vai diminuindo até desaparecer quase por completo. O ar esfria, as condições climáticas variam repentinamente e os efeitos da altitude fazem-se sentir nos ouvidos e na respiração mais ofegante no ar rarefeito.

Ao lado do Rio Mendoza que baixa desde os cumes da cordilheira, a rodovia internacional prossegue entre ciclópicas cicatrizes de avalanches, ruínas de antigas postas para descanso de viajantes em tempos antanhos, estações de um ferrocarril há muito abandonado, alojamentos militares, pequenas lancherias, estações de esqui aguardando o inverno,  e, por fim, as instalações da aduana pouco antes da fronteira.




No lado argentino o acesso é suave e mais extenso do que no Chile, onde a declividade bem mais significativa, com uma grande quantidade de curvas, é conhecida como "Los Caracoles".

"Los Caracoles" já no lado chileno dos Andes.
Por tudo isso, para quem vai do Atlântico ao Pacífico vindo do nosso Brasil tropical, percorrer o Paso Los Libertadores pelo mesmo caminho utilizado desde tempos imemoriais, acompanhando a beleza das montanhas com toda a sua imponência e múltiplas cores, sem dúvida é o trecho mais lindo da viagem e não atravessá-lo com toda a contemplação que merece é uma falta imperdoável.

Atenção, durante o inverno as condições em Los Libertadores costumam ficar difíceis...
Retornando do Atacama em setembro de 2005.

MOTIVO 2: A PUENTE DEL INCA

Embora o nome possa induzir a idéia de que tenha sido construída por mãos humanas, a Puente del Inca é uma formação rochosa natural sobre o Rio Las Cuevas, de curiosa aparência provocada por fontes sulfurosas de água mineral, perto da qual estão localizadas ruínas de uma antiga estação termal destruída por uma grande avalanche em 1965.

Sabe-se que a ponte de rocha foi utilizada como passo do rio pelos Incas e, durante a época colonial, pelos viajantes e correios entre Chile e Argentina, bem como pelo Exército dos Andes liderado pelo General San Martin na campanha de 1817.

Letreiro da antiga estação do Ferrocarril Andino, uma impressionante obra de engenharia vencida pelas forças geológicas da montanha.
Hoje a Puente del Inca constitui uma área protegida e não mais é possível atravessá-la, estando localizada bem perto da rodovia, a 183 Km de Mendoza e 2.700 m de altitude.

À sua volta existem lancherias e tendas de artesanato, uma antiga estação do trem, currais de mulas que servem de apoio aos escaladores que seguem para o Aconcágua e o pungente santuário dos andinistas, que merece um item específico que abordo logo a seguir.

Ao fundo a capelinha de Puente del Inca, única construção que sobreviveu à avalanche de 1965.
Junto à ponte natural de pedra o que restou dos antigos banhos termais, construídos juntamente com um hotel durante a década de 1930.
Puente del Inca depois de uma nevasca em setembro de 2005.
Passados os séculos e as mulas continuam sendo o principal e mais seguro meio de transporte na alta montanha, com vários currais na localidade de Puente del Inca.

 MOTIVO 3: O PARQUE PROVINCIAL DO ACONCÁGUA 

A 180 Km de Mendoza e do lado direito da Ruta 7 em direção ao Chile está a entrada do Parque Provincial do Aconcágua, antigo santuário inca e um dos cumes mais procurados por montanhistas tanto para trekkings como para escaladas de alta montanha.

Se o tempo não estiver encoberto é possível ver-se desde a estrada o cume do Aconcágua. Se quiser uma vista melhor, com uma pequena caminhada desde a entrada do parque prossiga até a Laguna de los Horcones e faça ali as suas fotos andes de prosseguir viagem.

Estive no Aconcágua em 1999, participando de uma expedição liderada pelo guia argentino Gabriel Cabrera. Cheguei até os 6.000 antes que uma tremenda tempestade - o temível Viento Blanco - pusesse fim definitivo aos nossos planos. Desde então não voltei mais àquela montanha mas sempre que passo pela Ruta 7 gosto de revê-la e lembrar daquela belíssima aventura.

Não confundam, esta foi outra viagem... Plaza Canadá (4910 m), Cerro Aconcagua, 1999. 

 MOTIVO 4:  O SANTUÁRIO DOS ANDINISTAS

A apenas 6 Km da localidade de Los Penitentes e 1,5 Km antes de Puente del Inca, logo atrás de um alojamento militar do lado esquerdo da estrada para quem segue em direção ao Chile, está escondido um pequeno e antigo cemitério onde repousam andinistas que faleceram no Cerro Aconcágua, o ponto culminante das Américas, com 6960 m.

Locomotiva rompe-neve do Ferrocarril
Transandino, 1910. Fonte:
Fotos Antiguas de Mendoza
Inicialmente lugar de sepultamento de operários que trabalharam na construção do Ferrocarril Transandino, o cemitério tornou-se naturalmente o local de repouso dos montanhistas que faleceram no Aconcágua a partir da sua conquista em 1897.

Desde então o local tornou-se ponto de contemplação, reflexão e homenagem aos homens e mulheres de muitas nações e que perderam a vida na montanha, alguns deles efetivamente ali sepultados e outros lembrados por placas fixadas por amigos e familiares.

Apesar da sua natureza dramática, este pequeno santuário é um local de grande beleza em meio a um vale entre as montanhas e local de peregrinação de muitas expedições e escaladores no seu caminho de ida ou já de retorno do Aconcágua.

O santuário dos andinistas em Puente del Inca.


Dentre os tantos registros e memoriais que ali se encontram, está também a placa em homenagem ao grande montanhista Mozart Catão, falecido em uma avalanche enquanto tentava com dois companheiros a escalada invernal do Aconcágua pela sua temida face sul, em 1998. Mozart nunca foi encontrado.

Placa em homenagem ao grande montanhista brasileiro Mozart Catão.
 O acesso a este local também pode ser feito por meio de uma tranquila caminhada de 1,5 Km desde Puente del Inca seguindo os trilhos de trem, passeio que rende belas paisagens para levar tanto na câmera quanto no espírito...






Bueno...

Depois destas quatro boas razões espero convencer alguém a deixar de lado o comodismo do avião e, tomara, a aventurar-se pela travessia da Cordilheira dos Andes entre Mendoza e Santiago do Chile pela sua maneira mais emocionante e esplendorosa: por terra!


Boa viagem!


DICAS:

Livro. PROCTOR, Robert. Narraciones del Viaje por la Cordillera de los Andes. Buenos Aires, El Elefante Blanco: 1998, p. 48


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