terça-feira, 18 de outubro de 2011

No tempo das charqueadas - Parte 1: Pelotas, a origem

Sede da Charqueada São João, 1810.

No Tempo das Charqueadas (série de 3 postagens):

Parte I - Pelotas, a origem
Parte II - A Santa Rita e sua pousada de charme
Parte III - A São João, Saint-Hilaire e o escravo de saladeiro

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Minha ligação sentimental com a bela cidade sulina de Pelotas/RS vem de longe, ainda na infância, quando era descanso obrigatório no trajeto de Porto Alegre ao Parque Nacional de Santa Teresa, no Uruguai, onde costumávamos passar parte das férias de verão.

Pelotas/RS. Fonte: Wikipedia
Os tempos eram outros.

Os automóveis menos potentes e confortáveis, as estradas muito piores, o combustível racionado e as burocracias de fronteira intermináveis, quanto mais por viverem os irmãos limítrofes - Brasil e Uruguai, em nada saudosos tempos de ditadura militar.

Tudo isto deixava as viagens mais longas, pelo menos sob a visão das crianças da família - eu incluso, fazendo de Pelotas a primeira parada das férias e um atrativo por si só especial.

Anos depois, já adulto, tenho voltado a Pelotas de forma frequente, sendo cada visita um momento especialmente prazeroso e rica oportunidade de novas descobertas.

Charqueada Santa Rita, 1826.
Isto porque Pelotas, a 250 Km de Porto Alegre, é considerada uma das jóias do patrimônio histórico e arquitetônico do Rio Grande do Sul, consequência do importantíssimo papel que exerceu na colonização do extremo sul do país e, em especial, como capital econômica do Ciclo do Charque.

Um pequeno núcleo de construções remanescentes deste importante período da história gaúcha e do país - as charqueadas - ainda pode ser encontrado a cerca de 6 Km do centro da cidade, sendo uma alternativa imperdível para quem gosta de fugir das costumeiras opções do turismo de massa.

Pois foi com a intenção de mergulhar neste clima que passei um final de semana na zona das charqueadas, lendo, explorando, aprendendo e ensaiando transferir para a fotografia um pouco do espírito dos antigos colonizadores que transformaram campo, banhados e areais na mais rica e opulenta cidade do antigo Continente de São Pedro.

Charqueada Santa Rita. Casa principal.
Dividi este relato em três partes.

Esta primeira, com comentários sobre a história da região, uma segunda parte tratando da Charqueada Santa Rita e sua pousada de charme e, a terceira e última, sobre sobre a Charqueada São João, riquíssimo testemunho histórico do ciclo do charque e do desumano sistema escravocrata que por pelo menos dois séculos o sustentou.

UM POUCO DE HISTÓRIA

Para quem não lembra das lições escolares, o Ciclo Econômico do Charque foi aquele relacionado à instalação e expansão da industria saladeiril na região de Pelotas/RS a partir de 1777, quando uma grande seca afetou o fabrico deste produto no Nordeste brasileiro, até então monopólio da região.

Charqueada. Gravura de Debret.
O charque (desidratado pelo sal) e a carne seca (desidratada pelo sol) eram os principais alimentos da mão-de-obra escrava e, em uma época em que não existiam enlatados e frigoríficos, também o método mais utilizado para conservação da carne.

A fartura do gado chucro, solto no pampa gaúcho em decorrência do trágico desmantelamento das Missões Guaranis e da expulsão dos padres jesuítas, aliada à seca no Nordeste, propiciou o cenário ideal para a instalação das primeiras charqueadas à beira do Arroio Pelotas. Segundo parte dos historiadores o primeiro empreendimento teria sido iniciativa do português José Pinto Martins, em 1779 e, segundo outros, do estancieiro João Cardoso Silva.

A produção do charque era sazonal, com preferência para os meses mais quentes e secos, entre novembro e abril, a fim de propiciar a melhor desidratação da carne.

A mão-de-obra era essencialmente escrava e as condições de trabalho nos saladeiros extrema, o que permitia uma "vida útil" aos cativos de, aproximadamente, 5 a 7 anos. Em média cada charqueada contava com cerca de 80 escravos.

Nos intervalos das safras de charque os escravos podiam ser ocupados com atividades de olaria, construções, derrubada de mato e cultivo de milho, feijão e abóbora nas próprias charqueadas ou em outras chácaras que os seus senhores costumavam manter na Serra dos Tapes.

Detalhe da fachada principal. Charqueada Santa Rita.
Durante este período Pelotas tornou-se a cidade mais rica da Província e um grande pólo cultural, atraindo a atenção da corte no Rio de Janeiro e a distribuição de um razoável número de títulos de nobreza aos grandes proprietários rurais.

Tudo isto, mais o advento dos frigoríficos e das novas tecnologias de conservação da carne, tornaram de todo inviável o já defasado e secular método saladeiril, dando fim definitivo ao mais pujante ciclo econômico da história do sul do Brasil.

O PATRIMÔNIO HISTÓRICO-CULTURAL

O nome Pelotas, que em espanhol significa "bolas", teve origem nas embarcações de varas de corticeira forradas de couro, usadas para a travessia dos rios na época das charqueadas.

Travessia de curso d´água em uma pelota. Gravura de Debret, 1816-1831

Formalmente elevada à cidade em 1812, a exportação do charque e do couro, principalmente para a América Central e a Europa por intermédio do porto de Rio Grande, trouxe à cidade enorme riqueza e opulência, possibilitando a instalação de uma classe aristocrática e originando um extraordinário patrimônio arquitetônico que em boa parte ainda se preserva.

Armazém de carne seca. Gravura de Debret, 1835.
Conforme dados da Universidade de Pelotas, o poder dos charqueadores pelotenses foi consolidado a partir de 1829, quando o Imperador Dom Pedro I outorgou a um fazendeiro do ramo o primeiro título de nobreza. A partir daí vários outros ascenderam à hierarquia da nobreza brasileira tendo, como pressuposto, o reconhecimento prévio do poder e prestígio daquele que era agraciado com o título.

A influência desta aristocracia pode ser vista ainda hoje em Pelotas, tanto na zona rural mas especialmente na urbana, onde casarões e palacetes disputam espaço com teatros, colégios, hospitais, bancos, hoteis e tantos outros prédios de magnífica concepção arquitetônica, como o Solar da Baronesa, hoje transformado em parque e museu municipal.

Parque Municipal e Museu Solar da Baronesa, 1863.
Solar da Baronesa. Copa. 
Solar da Baronesa. Escritório.

AS CHARQUEADAS HOJE

Das mais de 40 charqueadas que funcionaram na região de Pelotas, o que restou de algumas delas ainda pode ser visitado e uma única conta com a opção de hospedagem. Outras se encontram em estado de deterioração ou foram adaptadas para uso moderno, servindo como residência, sítios de lazer ou espaço de eventos.

Charqueada São João.
A mais interessante, e que também serviu de locação para a minissérie "A Casa das Sete Mulheres", é a Charqueada São João (1810), um verdadeiro museu sobre o ciclo do charque e aberta à visitação com serviço de guias. Já a Charqueada Santa Rita (1826) é a única a oferecer serviço de hospedagem, classificada como pousada de charme.

Estas duas, além de abertas à visitação, são também habitadas pelos atuais proprietários.

Outras, como a Charqueada Boa Vista  (1811), foram adaptadas para locações e basicamente preserva o casco externo, motivo pelo qual deixei para visitá-las em uma outra ocasião.

O núcleo histórico das charqueadas está situado a apenas 6 Km desde o centro de Pelotas, com sinalização bastante visível e asfalto na quase totalidade do caminho.

Charqueada São João.

Acompanhem aqui no blog Terra Australis a visita às Charqueadas Santa Rita e São João nas minhas próximas duas postagens!


COMENTÁRIOS FOTOGRÁFICOS:

Com exceção das imagens com crédito próprio, todas as fotografias de João Paulo Lucena. Na captação das imagens usei equipamento Canon EOS-1D e kit de lentes de 17 a 400 mm.

PARA SABER MAIS:


O Ciclo do Charque - site da Universidade Federal de Pelotas
A Memória do Ciclo do Charque em Pelotas - site da ONG Viva o Charque
Charqueada e Ciclo do Charque - verbete na Wikipedia
Blog O Povoamento de Pelotas - dos pesquisadores Adão Fernando Monquelat e Valdinei Marcolla
Pelotas e o Projeto Monumenta - a preservação do patrimônico histórico e cultural
Os Aristocratas Pelotenses - site da Universidade Federal de Pelotas
Charqueada Santa Rita - museu e hospedagem à margem do Arroio São Gonçalo
Charqueada São João - site oficial da mais preservada das charqueadas
Charque, o sal da carne - diferença entre charque e carne de sol, receitas
A História do Charque - ótimo blog sobre o tema do charque 
Elementos da escravidão no Rio Grande do sul - Artigo
Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional - Obra de Fernando Henrique Cardoso, 1977
Viagem no tempo: escavações vão contar a história de escravos no Sul - Artigo jornal Zero Hora, de 21/10/2011
O Escravo no Rio Grande do Sul - Blog



2 comentários:

  1. Bela matéria João paulo, parabéns!!! Abração...
    Moisés R. de Oliveira

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  2. Meu caro, moramos em Pelotas, tenho yum filho que nasceu lá e o teus post esta belíssimo. Parabéns!!!

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