segunda-feira, 18 de maio de 2009

Canionismo: Aparados da Serra, de Pai para Filho (Ou: acampando com crianças!)


Vista desde o vértice pricipal do Cânion Malacara - PNSG

No último final de semana a oportunidade foi única: uma permissão especial do Instituto Chico Mendes para acesso ao Cânion Malacara, que divide com o Cânion Fortaleza a condição de principal atração do Parque Nacional da Serra Geral - PNSG, divisa dos Estados do Rio Grande do Sul com Santa Catarina.

O motivo: a condução de uma equipe do Programa Adrenalina para a produção de um documentário sobre canionismo para o Canal Futura, da TV Globo Internacional, mostrando uma travessia completa do famoso e complexo Cânion Malacara.

Numa sexta-feira à noite partimos de Porto Alegre rumo ao município de Cambará do Sul/RS, onde está situada a parte alta do parque, em pleno altiplano riograndense, para lá encontrar a equipe de produção do programa, a qual seria conduzida por outro caminho, à pé e valendo-se de cavalos para o transporte do equipamento mais pesado.

Em uma sexta-feira à noite partimos de Porto Alegre. No destaque o saudoso Zé Brambilla, parceiro insubstituível de várias aventuras nos Aparados da Serra.

Por volta da meia-noite o caminho regular terminou. Então, montar acampamento e descansar antes dos trabalhos do dia seguinte.

Alguns dormiram confortavelmente...

...como se estivessem em casa.

Outros, por opção...

...preferiram bivacar ao relento, na boa companhia dos demais habitantes nativos.

Alguns anos depois de ter participado da equipe de levantamento que coletou dados topográficos e geológicos relacionados à prática de canionismo e que integraram o Plano de Manejo do PNSG, voltamos à carga com todo o ânimo.

O desafio era encontrar um antigo caminho que o desuso decorrente da criação do parque nacional fez com que desaparecesse em meio a capoeiras, plantações de pinus e propriedades particulares contíguas ao parque nacional.


   
O uso combinado de cartas topográficas, tracklogs e imagens satelitais sobrepostos foi essencial para a localização de estradas há muito desaparecidas.
Redescobrindo antigos caminhos com mais de meio século que a natureza retomou...


Com fotos de satélite, tracklogs de GPS coletados em levantamentos passados e cartas topográficas, todos sobrepostos no aplicativo OziExplorer, fomos navegando em 4x4 por entre coxilhas, charcos, vossorocas e capões de araucárias, atingindo com trabalho em equipe e muito esforço o objetivo final.

Atravessando as fazendas vizinhas ao Parque Nacional da Serra Geral com o auxílio de mapas antigos, imagens de satélites e tracklogs de GPS
Ao final da tarde chegamos ao vértice principal do Cânion Malacara.

O prêmio é pródigo, principalmente para mim que estou de aniversário: um dia maravilhoso, límpido, com aquela luz outonal, meio atravessada, perfeita para quem gosta de jogar com sombras na fotografia. A atmosfera foi lavada da nebulosidade por uma chuva forte acompanhada de queda brusca de temperatura a 0ºC.

Nada de melhor poderia desejar alguém em busca das condições ideais para foto e filme!



Quem acha que acampar é sinônimo de sofrer está muito enganado!

Até porque convidados VIP tem direito a quibe crú, molho de alho, pão árabe e suco de uva servido pelo mais esforçado dos cozinheiros: Neytão "Montanha" Reis, que não por acaso é o melhor guia para os cânions do sul do país!!

A noite é fria, muito fria, com temperaturas abaixo de zero. Ao amanhecer um vento forte penteia os campos de cima da serra e anuncia o raiar do dia. Quem vai descer o Cânion Malacara com a equipe de gravações levantou ainda de madrugada e está lutando para vestir as gélidas roupas de neoprene. Da minha barraca só escuto gemidos e resmungos daqueles que vão para o front...

Como responsável pela logística 4x4 já fiz minha parte e não vou entrar no cânion desta vez, também porque acompanho as crianças. E, como sou aniversariante, me dou o prazeroso luxo de virar para o lado e curtir a preguiça no saco de dormir até que o sol bata na barraca e, pelo menos, derreta a geada...


Quem diz que em pleno vértice do Cânion Malacara não tem tele-entrega do jornal do dia?

Para animar a galera antes de pular na água gelada vale tudo, até a dança do sirí!

Os gêmeos entram no  clima com Ana Karina Belegantt, do Programa Adrenalina. Futuros canionistas?

Cânion Malacara, em segundo plano o município catarinense de Praia Grande e, ao fundo, a praia de Torres/RS.


Embaixo, ao sopé da serra, o município catarinense de Praia Grande e, bem ao fundo, a praia gaúcha de Torres.

A atração irresistível que sinto por esta região vem de anos.

A minha primeira travessia de cânion foi a do Itaimbezinho, hoje proibida, por volta de 1980, quando não existia qualquer tipo de restrição para quem quisesse aventurar-se por esta enorme garganta, palco de muitos acidentes e gente extraviada.

Depois dela nunca mais deixei de retornar aos Aparados da Serra, culminando com a militância voluntária na ONG Associação Cânions da Serra Geral - Acaserge desde 1998. A grande diferença é que desta vez não voltei aos Aparados sozinho, mas trouxe para a primeira aventura verdadeira meus filhos gêmeos, com 7 anos de idade.

No acampamento em área selvagem, dentro do parque nacional tudo é diversão. A emoção e o entusiasmo não poderiam ser maiores, a inocência da idade relembrando ao pai o be-a-bá das lições mais elementares:

"- Papai, o que é um Parque Nacional?
- Onde estão os animais?
- Porque o cânion é tão fundo?
- Porque faz tanto frio?
- Tem urso aqui? E tigre?
- Lá embaixo é a praia de Torres?
- Dá prá beber essa água? 
- Vamos tomar banho no rio?
- Onde eu faço cocô?..."



Vista do Cânion Malacara a partir da sua escarpa direita.



Matinha nebular, típica dos paredões dos Aparados da Serra.


Pelo lado paterno reza a história familiar que meu bisavô Januário foi tropeiro nos Campos de Cima da Serra, estabelecido em Cazuza Ferreira, distrito de São Francisco de Paula/RS. Baixava a serra em mulas e cavalos rumo ao litoral levando charque, queijos e embutidos e voltava com farinha, melado e rapadura.

Do lado materno, a herança italiana nascida em Antonio Prado também fincou raízes em São Chico, onde meu avô materno elegeu-se prefeito nos anos 50.

A carga genética fez então valer toda a sua força, transmitindo mais uma vez, de pai para filho, de geração para geração, a seiva de araucária nas veias e uma incondicional paixão pelos Campos de Cima da Serra...


O diário da aventura na ótica de JPL, 7 anos...
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Assista aqui o episódio do Programa Adrenalina gravado durante as atividades descritas nesta postagem!


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OUTRAS POSTAGENS RELACIONADAS AQUI NO TERRA AUSTRALIS:

- 30/09/2010 - Trekking/Aparados da Serra: Do Cânion Fortaleza ao Malacara - Parque Nacional da Serra Geral

- 10/01/2011 - Aparados da Serra/Canionismo: Mistério - Corpo é encontrado no Cânion Itaimbezinho


2 comentários:

  1. Isso ai JP! Obrigada pelo oportunidade de descermos o Malacra com toda a infra e segurança que voces nos proporcionaram! E tem mais: vamos continuar nossa aventura no proximo fim de semana descendo a parte inferior do Canion! Queremos tua presença, mas dessa vez na atividade!! Abraços Grandes

    Ana Karina Belegantt - Adrenalina

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  2. Puxa João Pedro e Gabriel, está muito colorido o desenho de voces: a cascata, o acampamento, o céu estrelado e a lua, o carro chegando bem equipado... Adorei o canionista rapelando a cascata, bem emocionante e radical: sem as cordas, mas o Rafael é aquele de verde fazendo a segurança! Adorei!!!! Mas faltou escreverem o nome de voces em cada desenho para sabermos que é o autor! Mas não faz mal né? da proxima vez tem nome! um beijão bem grandão para voces!! Karina

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