segunda-feira, março 28, 2022

Pandemia: 24 meses em 24 imagens


Mês 1 - O primeiro

2020, verão. O descontrole da pandemia global trouxe como primeiro impacto o isolamento não planejado em uma área rural, o trabalho à distância, a angústia, a dissolução de todas as certezas e um absoluto bloqueio criativo e da vontade de fotografar. Um ano inteiro em que o olhar circunscreveu-se a um quadrado de 100 x 100 metros e que, paulatinamente, foi desvelando-se um imenso universo miniaturizado de detalhes, dramas, vida e surpresas. Com o passar dos dias, das semanas e das estações, o interesse e a criatividade sufocados pelo tsunami depressivo que seguiu a esteira da pandemia foram aos poucos renascendo na observação das pequenas nuances diárias, da mudança do clima, das cores e texturas, a noite e o dia, os horários de sol e as fases da lua, as vozes da natureza e dos seus habitantes. 

Contínuos e assíduos visitantes deixaram logo claro que um atribulado mundo cosmopolita de seres seguia alheio à catástrofe humana na barca de Gaia. Enquanto os vilarejos seguiam com as ruas desertas, portas e janelas fechadas e igrejas sem vozes e ecos, fatos cíclicos e ordinários do fluxo natural tornaram-se esperados eventos no meu pequeno quadrilátero verde. Fogo e água. Claro e escuro. Calor e frio. O movimento é pulsante e tudo se entrelaça. Em uma ode de Neruda o bem-te-vi duela todas as manhãs com o seu reflexo, um dinossauro-lagarto singra o gramado, a chuva explode em dilúvio, a paineira veste-se para a guerra em armadura de espinhos, um coração de seda recheado de sementes é trespassado por uma flecha de algodão. Araucárias dentro de uma gota d’água? Aliens no jardim? Um colar multicor ou a víbora que matou Cleópatra? Onde estou? O que vejo? O que é real? Geada e orvalho ao amanhecer, neblina, sol, neblina, sol, noite de lua, noite de estrelas. Com pinhões, laranjas, bergamotas, limões, nozes, pitangas, ameixas e uvas, a flora retribui a mancheias os cuidados recebidos. Dentre os visitantes alados, os tucanos substituem as corujas no turno e anunciam a alvorada às 5h00 da manhã. Cardeal, bem-te-vi, sabiá, joão-de-barro, corruíra, caturrita, papagaio, beija-flor, bacurau, jacu, gavião, urubu e casa nova para o pica-pau. Há espaço para todos! Tantos detalhes, cores e vida se descortinam intermitentemente sem que um único dia seja igual ao seguinte. 

2021, inverno. Um ano e meio em pandemia. Semanas transformaram-se em meses e a tragédia no mundo humano enfim arrefece enquanto a ciência, segura e impávida, avança sobre a peste e o obscurantismo medievo que a acompanha par e passo. Pequenas janelas de liberdade sanitária autorizam a mobilidade e a porteira do quadrado se abre. A câmera ganha caminhos rumo ao planalto serrano e os campos da fronteira, ávida de espaços e longínquos horizontes que só o Pampa sem fim tem igual. O olhar circunscrito ao micro-terra agora quer o macro-céu, enquanto o obturador que congela o tempo volta-se para a infinitude do espaço. Os minúsculos universos circundantes em tons de cinza e pastel transmutam-se em explosões de cores, paisagens, céus, astros e estrelas, prenunciando o retorno do contato humano, a alegria, o recomeço e o reacreditar na utopia de uma Fênix pós-pandêmica. Por mais natureza, vida, oxigênio, solidariedade, humanidade, humildade e temperança! Vamos sobreviver. 

Dois anos retratados em 24 simbólicos clicks, e o último deles - a Árvore da Vida, sepulta um ciclo de luto e luta, de aprendizado, resiliência, reconstrução e vitória, celebrando com imenso júbilo e regozijo a tão esperada notícia estampada em primeira página de todos os jornais:  

- ADIADO O FIM DO MUNDO!


Mês 2


Mês 3


Mês 4


Mês 5


Mês 6


Mês 7


Mês 8


Mês 9


Mês 10


Mês 11


Mês 12


Mês 13


Mês 14


Mês 15


Mês 16


Mês 17


Mês 18


Mês 19


Mês 20


Mês 21


Mês 22


Mês 23


Mês 24 - O último

___________________________

O presente ensaio foi escrito em dez/2021 especialmente para a editoria Utopias pós-pandêmicas, da Secretaria de Comunicação Social do Tribunal Regional do Trabalho da 4a Região, em Porto Alegre/RS e inspirado na obra Ideias para Adiar o Fim do Mundo, do ambientalista Ailton Krenak.

Texto e fotografias de João Paulo Lucena.

quarta-feira, março 09, 2022

Expedições/Antártida: Navio polar de Ernest Shackleton é encontrado depois de 107 anos no fundo do mar!


A prova definitiva de que o navio de Shackelton foi encontrado no Mar de Weddell
Imagem © Falklands Maritime Heritage Trust / National Geographic

Circulou hoje em todo o mundo uma notícia simplesmente espetacular e sem dúvida uma das mais importantes da história das navegações polares neste século XXI: a descoberta do naufrágio do Endurance!

O Endurance, navio polar de Sir Ernest Shackleton que em 1914 lideroa Expedição Transantárctica Imperial e que naufragou em 1915 esmagado pelo gelo do Mar de Weddell, foi localizado por uma expedição de busca à profundidade de 3.008 m no Oceano Antártico, em excepcionais condições de conservação. 


Popa do Endurance em excepcional estado de conservação
Imagem © Falklands Maritime Heritage Trust / National Geographic

A expedição Endurance22 conduzida pela Falklands Maritime Heritage Trust e patrocinada por um apoiador que preferiu manter-se anônimo, partiu da África do Sul e localizou os destroços depois de 15 dias de buscas no Mar de Weddell, a 8 quilômetros do local anotado por Frank Worsley, o capitão do navio cujos registros detalhados feitos em 1915 foram essenciais para a localização do naufrágio neste início de 2022.


Sir Ernest Shackleton, Comandante da Expedição Transantártica Imperial de 1914
Imagem Wikipedia

Frank Arthur Worsley (1872 –1943) foi o capitão do Endurance, designado para transportar e apoiar a expedição.

Frank Arthur Worsley, Capitão do Endurance
Imagem Wikipedia


O Endurance preso no gelo antes de ser despedaçado pela pressão das placas polares
Imagem Frank Hurley


Em 21/11/1915 o casco foi esmagado e o Endurance afundou no Mar de Weddell
Imagem Frank Hurley

Os destroços estão protegidos como patrimônio histórico internacional pelo Tratado Antártico e não serão tocados, mas em breve serão objeto de documentários e publicações da National Geographic sobre o Endurance, a saga de Ernest Shackleton e esta incrível descoberta.





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PARA SABER MAIS:


sexta-feira, dezembro 10, 2021

Náutica: Vilfredo Schürmann lança livro sobre submarino encontrado em Santa Catarina


Fonte: Schürmann

Thank you for watchingSegundo o  patriarca da família Schürman

Vilfredo Schürmann lançou ontem seu terceiro livro, Em busca do submarino U-513 – Uma incrível aventura nos mares do Sul, onde onde descreve a saga de 10 anos do Veleiro Aysso em busca do submarino alemão afundado em águas brasileiras durante a II Guerra Mundial.

Segundo o patriarca da Família Schürmann foram 11 os submarinos alemães afundados na costa brasileira, sendo que o U-513 foi o primeiro deles a ser descoberto e, também, no mundo, o primeiro encontrado por um veleiro. O fato ocorreu em 2011 a cerca de 65 milhas náuticas da Ilha de Santa Catarina, a 130 metros de profundidade e já foi relatado com detalhes aqui neste blog, o que pode ser conferido AQUI.


Fonte: Schürmann


O evento de lançamento ocorreu em noite de autógrafos e palestra no Cabanga Iate Clube de Pernambuco e foi prestigiado por navegadores, interessados e autoridades da Marinha do Brasil. A obra conta com fotografias e ilustrações,  356 páginas e capa dura e foi impressa em uma tiragem de 3 mil volumes. Graças ao apoio de patrocinadores, está sendo vendido a R$ 30,00 e pode ser adquirido por meio do site oficial u513.com.br.

POSTAGEM RELACIONADA NESTE BLOG:

Náutica: Submarino alemão da II Guerra Mundial é localizado em Santa Catarina

PARA SABER MAIS:

Site Oficial da Expedição U-513 - Família Schürmann

sábado, novembro 07, 2020

Alfredo Zitarrosa, Adagio en mi País




Visitando o link de uma radio web recebido de um amigo me deparei com essa pérola de Alfredo Zitarrosa, reinterpretada por vários cantores uruguaios em abril deste ano, em meio ao contexto global da pandemia. 

Alfredo Zitarrosa (1936-1989) foi um cantor, compositor, poeta, escritor e jornalista uruguaio considerado uma das maiores vozes da música popular de seu país e de toda a América Latina. 



Com um timbre maravilhoso e estilo de raízes folclóricas, suas canções foram proibidas na Argentina, Chile e Uruguai durante os regimes ditatoriais que governaram esses países, período em que viveu no exílio, retornando ao seu país com a reabertura democrática havida após a Guerra das Malvinas em 1982. 

Em 77 compôs esta canção tão especial chamada Adagio por Mi País, cuja letra pode ser acompanhada aqui:

ADAGIO POR MI PAIS - Alfredo Zitarrosa
En mi país, que tristeza,
La pobreza y el rencor.
Dice mi padre que ya llegará
Desde el fondo del tiempo otro tiempo
Y me dice que el sol brillará
Sobre un pueblo que él sueña
Labrando su verde solar.
En mi país que tristeza,
La pobreza y el rencor.
Tú no pediste la guerra,
Madre tierra, yo lo sé.
Dice mi padre que un solo traidor
Puede con mil valientes;
Él siente que el pueblo, en su inmenso dolor,
Hoy se niega a beber en la fuente
Clara del honor.
Tú no pediste la guerra,
Madre tierra, yo lo sé.
En mi país somos duros:
El futuro lo dirá.
Canta mi pueblo una canción de paz.
Detrás de cada puerta
Está alerta mi pueblo;
Y ya nadie podrá
Silenciar su canción
Y mañana también cantará.
En mi país somos duros:
El futuro lo dirá.
En mi país, que tibieza,
Cuando empieza a amanecer.
Dice mi pueblo que puede leer
En su mano de obrero el destino
Y que no hay adivino ni rey
Que le pueda marcar el camino
Que va a recorrer.
En mi país, que tibieza,
Cuando empieza a amanecer.
En mi país somos miles y miles
De lágrimas y de fusiles,
Un puño y un canto vibrante,
Una llama encendida, un gigante
Que grita: ¡adelante... adelante!

domingo, setembro 06, 2020

Gilwell Reunion 2020, o encontro mundial do Escotismo


Neste chuvoso e frio feriado de 7 de Setembro aproveitei para participar com muito interesse da Gilwell Reunion 2020, encontro global de voluntários do maior movimento educacional do mundo: o Escotismo, fundado por Baden-Powell em 1907.

Tradicionalmente realizado em setembro de cada ano no campo-escola de Gilwell Park, nos arredores de Londres, este encontro é voltado para adultos voluntários, os escotistas, e enfoca o aprimoramento de lideranças, planejamento, troca de idéias e experiências e o congraçamento entre participantes do mundo inteiro. Em 2020, em função da pandemia de Covid-19, pela primeira na sua história foi inteiramente virtual, o que, por um viés positivo, facilitou em muito a participação daqueles que, como eu, dificilmente poderiam deslocar-se dos seus respectivos países para a Inglaterra. 

Entre as cerimônias de abertura e conclusão do encontro foram mais de 80 oficinas virtuais tratando dos mais diversos temas como inclusão, segurança nas atividades escoteiras, comunicação, organização, gestão e planejamento, história, motivação e cuidados durante a pandemia global, técnicas mateiras e até receitas de cozinha em ambiente outdoor apresentadas pela dupla Ed Stafford e Steve Hanton, personagens bem conhecidos dos programas de aventura em canais por assinatura.

Apolítico, inclusivo e multicultural, baseado nos valores da fraternidade, lealdade, cidadania, livre espiritualidade, altruísmo, responsabilidade, igualdade, trabalho social e comunitário e no incondicional amor e proteção à natureza, o Escotismo é o maior movimento educacional do mundo, baseado exclusivamente no trabalho voluntário, sem fins lucrativos e voltado para jovens dos 6 aos 21 anos de idade. 

Precisamos muito mais disso!

 

sexta-feira, dezembro 27, 2019

Veraneando em Torres: De fortins, espigões e cães na beira da praia

Vila das Torres e Capela de São Domingos vista do Morro do Farol, com vista para a serra e a Lagoa do Violão. Debret, início do século XIX. Fonte: Wikipedia

Os registros fotográficos da família mostram meu primeiro veraneio em Torres lá pelo verão de 66, na casa dos meus tios-avós Raul e Sílvia, em um acolhedor chalé de madeira em estilo serrano na então tranquilíssima Praia da Cal, uma das quatro que compõem este balneário gaúcho. Do saudoso chalé só resta a memória, há muito deu lugar a um edifício de apartamentos e a Praia da Cal hoje pouco lembra a tranquilidade daqueles tempos de infância.

Desde então voltei a Torres muitas vezes nos anos seguintes, o que faço até hoje tanto no verão quanto nas demais estações do ano, testemunhando a evolução dos costumes praianos e, com bastante temor, o avanço destruidor da especulação imobiliária e de um turismo descontrolado em áreas de grande valor ambiental e comprovado patrimônio histórico, arqueológico e cultural.

Diferente de outras localidades do litoral gaúcho, a exceção da cidade de Rio Grande fundada em 1737, as três formações basálticas que deram nome à praia constituem afloramento rochoso único na costa sul do Brasil e desde o século XVI já eram ponto de referência para navegantes, piratas, jesuítas, bandeirantes, viajantes e colonizadores.

As falésias de Torres já constituíam ponto de referência para os navegantes desde o século XVI, conforme vistas desde o mar por Debret no início do século XIX. (Fonte: Wikipedia)

Pouca gente sabe que o entorno das três grandes torres basálticas já era habitado por indígenas muito antes da colonização do Brasil, os quais deixaram registros de sua passagem em diversos e importantes sambaquis formados ao longo de milhares de anos e cujos últimos resquícios foram destruídos em anos relativamente recentes nas terraplanagens imobiliárias no entorno da Praia da Guarita e à margem sul Rio Mampituba, como bem registra o Desembargador Ruy Ruben Ruschel, um dos grandes historiadores da memória local (Torres tem História. Porto Alegre: EST, 2004).

Travessia do Rio Mampituba no início do século XIX, por Debret. (Fonte: Wikipedia)

A chamada Torre Norte, ou Morro do Farol, já abrigou o Forte São Diogo construído em 1777 dada a importância estratégica do local, visto que em função das florestas, dunas e banhados existentes na época, um pequeno trecho entre esta elevação e a hoje chamada Lagoa do Violão constituía a única passagem por onde se dava todo o trânsito terrestre entre os territórios portugueses do sul e o resto do Brasil. Ali foi construída a primeira casa de Torres, ainda existente, onde consta terem passado diversas personalidades da nossa história, incluindo os Imperadores Dom Pedro I, Dom Pedro II, Garibaldi e viajantes como Debret, Wendroth e Saint Hilaire, dentre tantos outros.

A importância ambiental não é menor do que a histórica, dado existirem em Torres nada menos do que quatro áreas de preservação ambiental, sendo três parques estaduais e uma reserva ambiental federal, esta última para proteger a única ilha do litoral do Rio Grande do Sul e ponto de descanso e reprodução de lobos marinhos.
Parque Estadual da Guarita, localizado entre as Torres Sul e do Meio. (Fonte: Wikipedia)

Todo este patrimônio tem estado sob grande pressão ambiental em função da ocupação desordenada do solo, do rápido avanço da urbanização, do desmatamento, da poluição, da destruição do ambiente natural decorrente da pesca e da caça predatórias e, em especial, do impacto das crescentes massas de veranistas e visitantes durante os meses de calor.

Longe aqui fazer um libelo contra os veranistas e turistas, dentre os quais também me enquadro, mas sim registrar um alerta e a minha inconformidade quanto ao descaso com o qual tem sido tratado este importantíssimo patrimônio público, histórico e cultural pelas autoridades e administradores, com ênfase total nas últimas décadas. Se o crescimento populacional é um dado concreto, assim como o direito de todos de frequentar e ocupar as belas paragens do nosso planeta, impõe-se a proteção e regulação do impacto que as crescentes massas humanas exercem sobre reservas que são de todo finitas e insubstituíveis.

O próprio verbete destinado à Torres na enciclopédia digital Wikipedia registra que José Lutzenberger, o grande ecologista brasileiro, denunciou em carta aberta à população no ano de 2000 a existência de cartéis formados por empresas imobiliárias e setores do poder público, que sem preocupação com o impacto urbanístico de seus espigões desfiguram rapidamente a fisionomia urbana e a estética da cidade, fazendo com que ela perca seus últimos elementos de tipicidade e originalidade. De fato, já existem diversos espigões na cidade cuja altura ultrapassa a dos seus característicos morros de basalto. 

Segue ainda a mesma fonte alertando quanto às outras estruturas que também interferem na paisagem e desviam a atenção do olhar para si, em demérito do panorama natural pelo qual a praia se tornou famosa. Sobre o Morro do Farol existem altas torres de telecomunicação que transformaram o morro em um mero pedestal para si mesmas.

O avanço urbano sobre o patrimônio publico como se vê pelas construções que sobem a encosta do Morro do Farol (Torre Norte) e as antenas de empresas privadas que desfiguram o seu cimo. (Fonte: Wikipedia)

Se falta conscientização aos moradores, veranistas e visitantes, nada justifica a omissão e incompetência histórica das autoridades na proteção de um patrimônio que não só é comum, mas também pertence às futuras gerações, privilegiando o coletivo em detrimento do individual.

Descendo à prática, quem pode explicar a construção de um prédio residencial de 30 andares em meio a quarteirões residenciais, um verdadeiro pombal sob a forma de arranha-céu? Ou ainda o trânsito incessante de automóveis diuturnamente em uma praia exclusiva para banhistas pedestres?

E que tal o incessante desfilar de cães de estimação em meio aos banhistas, sabidamente responsáveis pela proliferação de doenças cutâneas e em flagrante violação à legislação municipal? Cá entre nós, adoro cães e já tive quase duas dezenas destes fantásticos animais. Mas, cada um no seu quadrado, vamos respeitar a coletividade.

Passar alguns dias nesta maravilhosa praia, além de tantos prazeres, pode trazer também algumas preocupações como estas ao visitante mais atento. Voltarei a esses assuntos.

sexta-feira, novembro 01, 2019

Expedições/Antártida: Whisky de 1898 descoberto no abrigo polar de Shackleton


O grande explorador inglês Sir Ernest Shackleton dificilmente imaginaria que parte do whisky que levou para a sua segunda expedição antártica em 1907, ficaria esquecido sob o gelo para ser descoberto exatamente um século depois e em perfeitas condições de ser degustado!

Pois em 2007 uma equipe arqueológica da New Zealand Antarctic Heritage Trust encontrou três caixas de whisky presas em um bloco de gelo enquanto fazia a manutenção embaixo do abrigo polar histórico de Cape Royds, mandado construir por Shackleton durante a Expedição Nimrod. As garrafas de Mackinlay’s Rare Old Highland Malt Whisky engarrafado em 1898 faziam parte de uma partida de 25 caixas encomendadas diretamente da fábrica escocesa. 

Com muito cuidado e ferramentas especiais as caixas foram extraídas do gelo em 2010, com as garrafas intactas e contendo o whisky ainda em estado semi-líquido devido ao alto teor alcóolico que o impediu de congelar mesmo depois de 100 anos submetido a temperaturas de até -30 graus C. Depois de descongelar lentamente por duas semanas, as caixas de whisky foram enviadas para a Nova Zelândia para análise, estudo e exposição no Canterbury Museum. 

Enquanto isso, na Escócia, a destilaria Whyte and MacKay que sucedeu o fabricante original MacKinlay, enviou um avião especialmente fretado para a Nova Zelândia para obter uma amostra da bebida histórica. Depois de minuciosa análise a fórmula original foi recriada pelo renomado Master Distiller Richard Paterson, que descreveu a descoberta como "um presente dos céus para os amantes de whisky”. 

Da bebida centenária foi então lançada uma série especial de 50 mil garrafas do Shackleton Blended Malt Scotch Whisky, possibilitando aos apreciadores da bebida degustarem o mesmo sabor das garrafas abertas pelos expedicionários de 1907-1909! De cada unidade vendida 5% do valor é destinado ao Antartic Heritage Trust.


Após findas as análises e extraídas todas as informações disponíveis, as caixas originais de Shackleton e o seu precioso conteúdo foram enviadas de volta para a Antártida e posicionadas exatamente no local onde foram encontradas, recompondo assim o ambiente original e esta pequena parte do patrimônio histórico internacional e da Era Heróica da exploração polar.


Abrigo polar de Cape Royds, 1907-1909
Imagem Antartic Heritage Trust


Imagem Antartic Heritage Trust


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terça-feira, julho 02, 2019


Em 1952 o fotógrafo espanhol José Abraham e seu fillho Alfonso trocaram Barcelona pelo Brasil para fazer parte da história da fotografia no Rio Grande do Sul. Com foco no fotojornalismo e temas políticos José passou a trabalhar para importantes jornais gaúchos, ficando conhecido como "o Espanhol". Cobriu, dentre tantos outros fatos importantes da vida do estado, a Campanha da Legalidade de 61 e seus principais protagonistas, transmitindo ao filho Alfonso a sua arte quanto, depois do falecimento, o próprio apelido.
Já Alfonso Abraham começou cedo auxiliando o pai no laboratório e foi convidado por Assis Hoffmann para trabalhar no Jornal Zero Hora em 1969 e Folha da Manhã em 1982, acompanhando personagens importantes da história do país como Teotônio Vilella, Pedro Simon, Tancredo Neves e Leonel Brizola.
Unidos por uma dupla paixão comum - trens e fotografia, compartilho convite para uma belíssima exposição que tem circulado o Brasil sobre a história das linhas férreas no Rio Grande do Sul, de autoria do meu caro amigo Alfonso Abraham e seu falecido pai, O Espanhol.
Mais um programa imperdível para os apreciadores da arte de desenhar com a luz!

quinta-feira, abril 16, 2015

Vela: Argentina vence mundial de Soto 40 em Florianópolis


Com o convite recebido para participar da cobertura de imprensa da terceira etapa do Mitsubishi Motors Soto40 World Championship, um dos monotipos mais modernos e rápidos do planeta e pela primeira vez no Brasil, não perdi tempo em preparar meu equipamento fotográfico e rumar para a raia de Jurerê, em Florianópolis/SC, para acompanhar a abertura da competição.

Com 11 veleiros inscritos representando Argentina, Alemanha, Brasil e Chile, a organização esteve impecável. O palco foi uma das mais belas paisagens catarinenses, com mar esmeralda, a raia montada a um quilômetro da praia em frente ao Iate Clube de Veleiros da Ilha, tradicional ponto de encontro de velejadores da cidade.

Projetado pelo argentino Javier Soto Acebal e construído pela MBoats, na Argentina, o veleiro S40 é um monotipo oceânico de alta tecnologia e com flotilha hoje concentrada na França, Alemanha, Portugal, Chile, Argentina e Brasil. A embarcação foi concebida enfatizando a sintonia entre velocidade e equilíbrio, fácil construção e o emprego de vários componentes em fibra de carbono, destacando-o no cenário da vela e atraindo alguns dos melhores velejadores do mundo.

Em Jurerê, além do multicampeão olímpico Torben Grael comandando o veleiro Magia V Energisa, estavam também o Pajero, atual campeão brasileiro de S40; o Carioca 04, de Henrique Haddad, em preparação para as Olimpíadas de 2016, o Carioca 25 de Roberto Martins e o Crioula 29, do gaúcho Samuel Albrecht, velejador olímpico que já venceu a Semana de Vela de Ilhabela e que representou o Clube Veleiros do Sul. 


Flotilha de S40 fundeada no Iate Clube Veleiros da Ilha, em Jurerê, Florianópolis/SC
Grandes emoções à bordo do veleiro chileno Estampa del Viento, de Miguel González


O evento foi composto por uma série de dez regatas em barla sota, sendo duas por dia, vencendo a equipe com menor pontuação cumulada no geral e sem descartes, exigindo dos participantes muito preparo, perícia e habilidade no momento de traçar estratégias e conduzir a sua embarcação.

O conceito de one design, segundo o qual todos os veleiros são idênticos em tamanho, peso e área das velas, deixando a capacidade e o talento de cada uma das tripulações para definir o vencedor, tornou as provas ainda mais emocionantes e imprevisíveis.

Nesta primeira edição do Mitsubishi Motors Soto40 World Championship realizada no país o primeiro lugar foi conquistado pela tripulação do veleiro Patagônia (Argentina), de Norberto Alvarez, que levou também o título de campeã mundial de 2015, classificando em segundo o Pajero (Brasil), de Eduardo Souza Ramo e em terceiro o Itaú (Chile), de Dag von Appen. O gaúcho Crioula 29 ficou em oitava posição.

Classificação geral após 10 regatas:

1º Patagonia (ARG) - (1+1+3+5+6+2+3+8+4+11) - 44 pontos
2º Pajero (BRA) - (3+6+7+10+1+1+2+11+3+1) - 45 pontos
3º Itau (CHI) - (4+5+10+2+5+5+7+4+2+8) - 52 pontos
4º Santander (CHI) - (7+3+6+7+3+12DNF+5+1+5+4) - 53 pontos
5º Early Bird (ALE) - (6+9+4+4+4+4+4+10+1+7) - 53 pontos
6º Mitsubishi Motors (CHI) - (9+8+11+8+2+5.9RDGb+1+2+6+3) - 55.9 pontos
7º Carioca (BRA) - (8+4+2+1+7+6+6+7+10+10) - 61 pontos
8º Crioula (BRA) - (2+2+5+9+11+3+10+6+8+6) - 62 pontos
9º Estampa Delviento (CHI) - (11+7+1+6+8+7+9+3+9+2) - 63 pontos
10º Ocean Pact Racing (BRA) - (10+11+8+11+9+8+8+5+7+5) - 82 pontos
11º Magia V Energisa (BRA) - (5+10+9+3+10+9+11+9+11+9) - 86 pontos







Os ventos de todos os quadrantes e intensidade tornaram as provas em barla sota bastante técnicas e seletivas.




Pessoalmente, a oportunidade de conhecer uma categoria top da vela mundial foi inesquecível, em especial porque nas regatas de treino a organização da Mitsubishi me possibilitou embarcar no veleiro chileno Estampa del Viento, e testemunhar ao vivo e a cores toda a emoção e a adrenalina de uma prova de altíssima performance em nível internacional.

A única condição foi utilizar colete e capacete. Como resultado algumas das imagens emocionantes que acompanham este relato. Já a conclusão foi que não é nada fácil participar de regatas de S40 agarrado com uma só mão no guarda-corpo de popa e a outra manejando a câmera fotográfica...

Já estou à espera da próxima!












FICHA TÉCNICA DO SOTO 40:

Comprimento total: 12,3m

Boca máxima: 3,75m

Calado: 2,6m

Área Vélica: 100m²

Deslocamento: 4,2ton 

Peso Máximo de Tripulação: 770kg

Projetista: Javier Soto Acebal

Material do Casco: Fibra de vidro e carbono



Com o Torben qualquer um é tiete...