quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Cone Sul/Cartografia - Parte I: Estradas, Mapas e Guias de Viagem

Cone Sul durante o ano. Fotografia animada: Wikipedia

Alguns dos temas mais acessados no meu blog são os relativos à informações cartográficas, GPS e rotas pelos países do Cone Sul. Em função disto preparei uma síntese de informações que vai dividida em duas postagens.

Confiram aí!

INFORMAÇÕES SOBRE AS CONDIÇÕES DAS ESTRADAS NO CONE SUL - Embora não seja hábito dos brasileiros consultar informações prévias sobre as condições das estradas que vão percorrer no país, tal prevenção é indispensável para rodar na região andina e ao sul da Argentina e do Chile em função da possibilidade de bloqueio de estradas por condições climáticas extremas, especialmente devido à neve. Isto pode ocorrer em qualquer época do ano, inclusive no verão.

Em setembro de 2005 uma enorme tempestade de neve bloqueou todos os passos andinos entre o Chile e a Argentina e, com um grupo de amigos, fiquei bloqueado em San Pedro de Atacama sem poder voltar ao Brasil via Passo de Jama, em Salta. Tivemos que descer mais de 1.000 quilômetros até Santiago e aguardar que as máquinas abrissem a neve do passo que leva a Mendoza. Apesar de aumentar o curso da viagem, por muito pouco não tivemos que retornar ao Brasil de avião e deixar o jipe no Chile.

Para tanto, recomendo como a melhor fonte de informações sobre as estradas chilenas e passos transandinos o site da Dirección de Vialidad, do Ministério dos Transportes chileno, contendo também excelentes descrições das Rutas Costera, Interlagos, Andina e da Carretera Austral. Para a Argentina o site da Vialidad Nacional oferece informações semelhantes ao equivalente chileno e um outro site interessante é o Ruta Zero, também com informações sobre as condições rodoviárias deste país.

GUIAS DE VIAGEM IMPRESSOS E NA INTERNET - Para o Chile e Argentina considero como os melhores guias de viagem o Guia YPF e o seu equivalente chileno Guia Turística de Chile - Turistel Ambos são editados no estilo dos tradicionais guias europeus Michelin, anualmente atualizados e encontrados em bancas de revistas e postos de gasolina ao preço médio de US$ 10,00.

O meu complemento preferido são os guias Lonely Planet sendo disponíveis para o Cone Sul as edições temáticas Argentina, Argentina, Uruguay & Paraguay, Buenos Aires Encounter, Buenos Aires (City Guide), Chile; Easter Island, Trekking in the Patagonian Andes, Uruguay (Custon Guide), disponíveis em inglês e espanhol (alguns) e considerados no mundo todo como as melhores companhias para quem gosta de viajar de forma independente. Porém, na hora de comprar, muita atenção para procurar a última edição disponível pois algumas tiragens mais antigas estão bastante desatualizadas.

MAPAS IMPRESSOS - Os motoristas poderão encontrar ótimos mapas rodoviários na Argentina, também em postos de gasolina e bancas de revista. Peça por mapas carreteros da série AutoMapa, de capa vermelha e adquiridos conforme a região desejada. O de número 44 refere-se à Patagônia e Terra do Fogo em conjunto. Já vi estes mapas disponíveis em português aqui mesmo no Brasil e também pode ser encontrados em versão torrent pela internet.

MAPAS DIGITAIS PARA GPS - Como já registrei anteriormente, mapas digitais gratuitos de excelente qualidade especialmente desenvolvidos para GPS´s Garmin podem ser baixados no Projeto TrackSource no caso do Brasil. Para Argentina, Chile e Uruguai estão disponíveis no site do Proyecto Mapear ou no site Geored Conosur - conforme comentários bem mais detalhado para o Chile que o Mapear.

Em resumo é isto e espero que algumas destas dicas lhes possam ser úteis na próxima viagem ao Cone Sul...

P.S.: Leiam também a parte II deste post...

domingo, janeiro 11, 2009

Livros/Náutica: Nathaniel Philbrick e a Saga do Essex - O Caso que Inspirou "Moby Dick"


O livro "No Coração do Mar", de Nathaniel Philbrick (Cia. das Letras, 2000, ISBN 8535900705), foi considerado uma das melhores obras do gênero editadas no final de século XX nos Estados Unidos. Nela o autor nos conta a história real na qual um cachalote de 26 metros abalroa e afunda o Essex, um velho navio baleeiro americano em pleno Oceano Pacífico, no ano de 1821. A semelhança com o drama de "Moby Dick", não é mera coincidência, pois foi neste fato, amplamente noticiado pelos meios de comunicação da época, que Hermann Melville inspirou-se para escrever o livro que se tornou um dos maiores clássicos da literatura marítima.

No rastro deste sucesso, Philbrick escreveu "Mar de Glória" (Cia. das Letras, 2005, ISBN 8535906347) que trata da conflituosa primeira expedição exploratória oceânica empreendida pelos Estados Unidos entre 1838-1842 e, por enquanto sem tradução no Brasil, "Mayflower: A Story of Courage, Community, and War" (2008), tratando da saga dos pioneiros na colonização dos EUA.

A partir do caderno de notas de um dos tripulantes do Essex aliado a uma minuciosa pesquisa, Philbrick retraça com detalhes a vida dos homens baleeiros de então: de onde vinham, como construíam seus navios, como escolhiam a tripulação, as características e o comportamento das baleias, a industrialização dos seus produtos derivados e inúmeros outros detalhes que vêm a compor com perfeição a vida marinheira na época.

Todavia, enquanto o ponto final do livro de Melville é o afundamento do navio Pequod pela famosa baleia branca, este fato por si só inacreditável é apenas o início de "No Coração do Mar", cuja linha mestra é a trágica odisséia dos tripulantes do Essex que se seguiu ao ataque do cachalote, os quais restaram três meses confinados em botes à deriva no Pacífico, entre a loucura e a morte e por fim recorrendo ao canibalismo como medida extrema de sobrevivência.

Um livro eletrizante que imortaliza uma das raras ocasiões em que a imaginação humana foi de longe superada pela realidade.

sábado, janeiro 03, 2009

Rally/4x4: Dakar no Cone Sul - A África é Aqui!

Quem diria que as ameaças terroristas e a insegurança política reinantes na África e Oriente Médio acabariam trazendo para o Cone Sul aquela que é considerada a maior prova de resistência de automobilismo no mundo: O Rali Dakar, agora em sua 30ª edição e a primeira na América do Sul.

Na manhã de hoje a habitual tranquilidade do Parque Palermo, tradicional reduto de lazer popular em Buenos Aires, foi completamente rompida pelo troar surdo e o cheiro de escapamento de centenas de veículos representando o estado-da-arte tecnologia fora-de-estrada.

O antigo "Paris-Dakar", que em função dos conflitos bélicos na África transformou-se em "Lisboa-Dakar", migrou em 2009 para um percurso circular entre a Argentina e o Chile e assim interpôs um oceano inteiro entre a histórica competição e as constantes ameaças terroristas que vinha sofrendo nos últimos anos. Estas mesmas ameaças causaram o cancelamento da edição do 30º aniversário do rali que seria em 2008 e que agora se realiza no Cone Sul.

Buenos Aires será o ponto de partida e de chegada da prova, que terá a participação de 188 veículos entre motos, quadriciclos, carros e caminhões, durará 15 dias e percorrerá 9.574 quilômetros de pampa, desertos, dunas e montanhas.

Além de atrair os olhos do mundo durante duas semanas para os países percorridos pelos competidores, a nossa vizinhança com a Argentina incentivou também uma revoada de admiradores de veículos fora-de-estrada que aproveitaram a época de férias para assistir a largada em Buenos Aires ou esperar a passagem das poderosas máquinas em algum ponto do trajeto.

Ótimo para nós pois este evento tem tudo para entrar para o calendário permanente dos programas de verão dos jipeiros e motoaventureiros de plantão. Vida longa ao Dakar na América do Sul!

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Livros/Náutica: O Capitão Slocum e a Viagem do "Liberdade"

Remexendo em temas náuticos, anos atrás encontrei rara pérola em uma livraria no Uruguai: "El Viaje del 'Liberdade'", de Joshua Slocum (1844-1909), o mesmo autor do conhecidíssimo "Velejando Solitário ao Redor do Mundo" (Porto Alegre: Mercado Aberto, 1991, ISBN 8528001709), um dos grandes clássicos da literatura náutica.

Poucos sabem que Slocum, o primeiro homem a circunavegar o mundo velejando em solitário, antes da sua histórica proeza naufragou no litoral do Paraná, no ano de 1887.

Em fevereiro de 1886 o Capitão Slocum comandava o Aquidneck e partiu em viagem comercial de Nova York rumo ao Uruguai, trazendo consigo a esposa os filhos, Victor e Garfield, de 14 e 5 anos.

Ocorre que o Aquidneck naufragou na Baía de Paranaguá, no Brasil, no Natal de 1887.

Com a perda total do navio mercante que comandava, sem meios financeiros e completamente isolado,  com a família abrigada na cidade de Paranaguá, Joshua Slocum construiu com as próprias mãos e a duríssimas penas o Liberdade, pouco mais do que uma canoa de 11 metros, a qual foi lançada ao mar no dia da liberação dos escravos no Brasil.

Com ela transportou a esposa e seus filhos em uma viagem de 5.000 milhas e 55 dias de volta aos Estados Unidos. O feito foi tamanho que o Liberdade foi entregue ao Smithsonian Institution, onde ficou exposto e foi visitado por milhares de pessoas.

O Liberdade, fruto da mescla de várias técnicas de construção náutica

A tripulação do Liberdade: Joshua Slocum e a sua pequena família

Completamente arruinado depois da perda do seu barco, o Capitão Slocum publicou este livro em 1890 mas não obteve muito sucesso junto ao público, obrigando-o a trabalhar em arsenais e estaleiros até que ganhasse de um amigo o Spray, o pequeno veleiro com o qual realizou em 1906 a primeira circunavegação em solitário do globo, aos 54 anos de idade, um dos maiores feitos individuais que sem tem notícia na história da navegação.

Mais tarde Slocum construiu o Spray, no qual foi o primeiro homem a circunavegar o globo em solitário
 Para a felicidade dos leitores brasileiros as curiosas (des)venturas do Capitão Slocum no Brasil, as suas dificuldades com as autoridades, as lutas contra motins, o cólera e a varíola a bordo foram publicadas no mercado nacional e pode ser encontrada nas boas livrarias do ramo (SLOCUM, Joshua, "A Viagem do Liberdade". São Paulo: Ed. Planeta, 2004 - ISBN 857665010x).

Se estiver difícil encontrar, vale uma conferida na ótima Livraria Moana  especializada em temas náuticos, viagens e aventuras e que possui uma edição especial em português de lavra da Aventura Editorial.

Para quem ainda quiser complementar seu conhecimento sobre o assunto sugiro ler a interessante crônica "Guaraqueçaba, o Comandante Slocum e a Proeza do Barco "Liberdade", de Newton Carneiro, garipada pelo Danilo do site popa.com.br e que relata alguns aspectos folclóricos da passagem do grande capitão Joshua pelo Brasil.

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Cone Sul/Argentina: A Mítica Ruta 40


A mítica Ruta 40 na Patagônia é para os amantes da aventura o equivalente à Rota 66 nos EUA para a tribo beatnik, embora a supere em quase mil quilômetros. Ao longo de 5.224 Km ligando paralelamente aos Andes o sul com o norte do país, por ela se descortinam paisagens grandiosas onde os superlativos são um lugar-comum.

Um dos muitos aspectos que justificam o seu rótulo de rota de aventura são os longos trechos sem absolutamente qualquer recurso e pavimentação, o que serve como uma espécie de repelente do turismo convencional.


O preço do privilégio para percorrê-la não é pequeno: despreendimento dos confortos básicos, pneus furados, pára-brisas quebrados, panes secas e milhares de quilômetros de muita, mas muita poeira.


As estatísticas da Ruta 40 são impressionantes:
  • a estrada liga o Farol de Cabo Vírgenes no extremo sul do litoral da Província de Santa Cruz na Patagônia a La Quiaca no norte, divisa com Bolívia, ao longo de mais de 5 mil quilômetros;
  • sua altitude varia do nível do mar a quase 5 mil metros, contando com 27 passos cordilheiranos, cruzando 11 províncias argentinas e atravessando paralelos de mais de 30 latitudes;
  • em seu traçado podem ser visitados 20 reservas naturais e parques nacionais, sendo 5 deles patrimônio da humanidade;
  • a estrada construída pela Vialidad Nacional a partir de 1935 atravessa dezoito rios importantes, cruza duzentas e trinta e duas pontes, passa por sessenta localidades e treze grandes lagos e salinas, variando do frio extremo ao calor abrasador dos desertos;
  • a estrada une três regiões geográficas: o Norte ( províncias de Jujuy, Salta, Tucumán e Catamarca), Cuyo (La Rioja, San Juan e Mendoza) e a Patagônia ( Neuquén, Rio Negro, Chubut e Santa Cruz);
  • desde o Alto Vale do Rio Negro até Cachi (Salta), a Ruta 40 comunica 132 vinícolas (das cento e trinta e cinco existentes na Argentina em dez/2008) abertas ao turismo na denominada Rota do Vinho;
  • os órgãos de turismo na Argentina costumam sugerir aos que pretendem conhecer a Ruta 40 em toda a sua extensão, uma viagem de quarenta dias (“La 40 en 40 dias"); a melhor época de viajar pelo norte é durante o inverno, que é mais seco; e na temporada de outubro a abril, menos fria, pela região patagônica;
  • parte em rípio (cascalho) e parte asfaltada, em 2008 dos 5.224 quilômetros da estrada cerca de 2.700 – norte da Patagônia, quase todo Cuyo e Catamarca, todo Tucumán e o sul de Salta - estavam asfaltados. A Previsão da Vialidad para o término dos trabalhos de pavimentação é no ano de 2010;
  • 0 quilômetro Zero da Ruta 40 esteve, até fins de 2004, no cruzamento das ruas San Martin e Garibaldi, em pleno centro da cidade de Mendoza. Desse ponto partia o trecho Norte - 1551 km - até Abra Pampa, Jujuy e o trecho Sul – 3115 km - até Punta Loyola, Santa Cruz.

Em viagens diferentes já percorri aproximadamente 5 mil quilômetros da Ruta 40, parte ao sul de Mendoza, então 80% em rípio e o resto em asfalto precário, e mais um trecho maravilhosamente pavimentado ao norte de Salta.

O percurso retratado nestas imagens está mais ao sul, na Patagônia, onde apesar da claridade de verão as latitudes baixas garantem uma luz bonita, atravessada, deixando as fotografias com as cores quentes e aveludadas.


Se a viagem compensa? Evidente que sim! Experimente para ver e me conte na volta...


As fotos desta postagem foram captadas em fevereiro de 2000 durante a Expedição Terra Australis com uma câmera Canon EOS 5 e negativos Fuji. A digitalização foi feita a partir das cópias em papel com scanner comum em baixa resolução. Prometo mais adiante providenciar digitalizações melhores diretamente dos negativos. Todas as fotografias foram tomadas pelo autor deste blog na Patagônia.

Copyright © 2000 João Paulo Lucena. Proibida reprodução sem a permissão expressa do autor.

*** Complementando estas imagens, descobri no YouTube um video promocional muito bacana sobre a Ruta 40. Confiram diretamente aqui no blog!