segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Náutica/Vela: Do Bujurú ao Farol de Itapuã

Nascer do sol na barra falsa do Bujurú. Um abrigo seguro para embarcações na costa leste da Lagoa dos Patos.

2º DIA.

Quando o sol nasceu às 6h45 eu já estava esperando para captar algumas imagens dos primeiros raios do dia. Aos poucos os demais tripulantes foram acordando e, na sequência, como não poderia deixar de ser, banho de lagoa obrigatório para todo mundo...


Diferente do dia anterior, não havia vento pela manhã e a jornada a vencer ainda era mais longa: 80 milhas (148 Km) até o Farol de Itapuã, marco geográfico que separa a Lagoa dos Patos do estuário do Rio Guaíba, em cujas margens já está Porto Alegre.

Não é muito se a gente pensar em deslocamento terrestre, mas em um barco que navega em média a 5 nós com o motor (10 Km/h) e 7 a 8 nós com vento (15 Km/h) , é fácil ver que tínhamos pela frente uma previsão de pelo menos 12 a 15 horas de navegação.

Em "árvore seca" no linguajar náutico (sem velas), partimos do Bujurú rumo norte, até o Farol Capão da Marca, uma torre de metal de 1849, marco histórico da região e ainda em pleno funcionamento junto à margem leste da Lagoa dos Patos.

Farol Capão da Marca, de 1849, o mais antigo da Lagoa dos Patos.

Ali fundeamos a 300 metros da praia, numa paisagem de quilômetros e quilômetros de praias de dunas brancas e água doce, entremeando a vegetação nativa de restinga e centenárias figueiras com florestamentos de Pinus eliottis para exploração de madeira e resina.

A restinga nativa...
... sendo substituída pelos florestamentos de pinheiro para exploração de madeira e resina...
O dia estava claro, com nuvens esparsas no céu, sol forte e bastante calor. As margens da lagoa são muito rasas, permitindo ao banhista que avance até mais de uma centena de metros com a água pelos joelhos. Por outro lado isto representa um perigo para a navegação e as embarcações precisam manter uma distância segura ao fundear na costa para evitar o encalhe nos bancos de areia.

Novo banho para refrescar e intervalo para o almoço. No menú, desta vez, espaguetti com camarão e legumes, sendo o Chef do dia o autor deste blog...

O marinheiro Demosthenes não perde tempo para se refrescar na lagoa...
Seguimos rumo norte ainda costeando a península que separa a Lagoa dos Patos do Oceano Atlântico até outro farol histórico, o segundo a ser construído na lagoa: o Cristóvão Pereira, uma torre maciça de alvenaria erguida em 1886 e que desde muito longe se ressalta na paisagem com a sua silhueta esguia e caiada de branco.

Farol Cristóvão Pereira
O belo Cristóvão Pereira, cujo nome homeageia o tropeiro que pela primeira vez abriu o caminho entre São Paulo e o Rio Grande do Sul e que foi dono das terras onde hoje está este marco da navegação.

A profusão de faróis à margem leste da Lagoa dos Patos não se dá por acaso. Bem pelo contrário, confirma o grande perigo existente para a sua navegação, unindo-se aos faróis Capão da Marca e Cristóvão Pereira ainda outros marcos luminosos como o do Bujurú e o da Barra, construído em São José do Norte em 1896.

Durante toda a viagem o Comandante João Baptista vai repassando ao atento filho Francisco a sua experiência marinheira e também os segredos da "Costa Doce". Aprender a navegar com bússola e cartas náuticas ainda é um conhecimento indispensável para o velejador, mesmo após o advento dos instrumentos eletrônicos como o GPS.


No meio da tarde o vento retorna com força, permitindo ao Arraia Manta trocar o motor pelas velas, aumentando a velocidade para uma média de 8 nós e antecipando um pouco a previsão de chegada no próximo ponto de parada: a pequena Praia do Sítio, junto ao Farol de Itapuã.

Agora velejando de "rédeas soltas" na Lagoa dos Patos perdemos de todo a visibilidade da terra, trocada por um infinito horizonte de água doce e um céu salpicado de pequenas nuvens que prenunciam possibilidade de chuva para mais tarde.




A movimentação à bordo com o vento e a rota constantes se resume a estar atento às velas, cuidar para não cair ou bater em algo com o balanço do barco, apreciar a natureza e jogar muita, mas muita conversa fora...

E também chega meu turno de pilotar o Arraia Manta. Apesar do conforto do piloto automático, nada substitui o intenso prazer de conduzir uma embarcação à vela, integrando como um elo a água e o vento... Foto: Ana Karina Belegantt
E mais um espetacular pôr-do-sol para ir fechando o dia com chave de ouro...



"Eu entendo a noite como um oceano

Que banha de sombras o mundo de sol
Aurora que luta por um arrebol
Em cores vibrantes e ar soberano
Um olho que mira nunca o engano
Durante o instante que vou contemplar"

(Beira-Mar, Zé Ramalho)
Logo que começa a escurecer passamos por um dos mais famosos naufrágios da Lagoa dos Patos, o navio "Álvaro Alberto". Conta-se que incendiou e afundou no canal de navegação em 1992. Foi então arrastado por rebocadores pelo fundo da lagoa até ser retirado da rota dos navios.

Hoje sua ponte metálica e parte da chaminé podem ser avistados perfeitamente à tona da àgua, dando um certo toque surrealista a este deserto líquido. A história do Álvaro Alberto está descrita no Popa.Com, do meu caro amigo Danilo Ribeiro.

O "Álvaro Alberto" como era antes de sossobrar na Lagoa dos Patos. Fonte: Popa.com

A ponte e chaminé do naufrágio "Álvaro Alberto" como hoje pode ser visto pelos navegantes.

E sempre de olho nos instrumentos para não perder a rota...
Cansados depois de 13 horas de viagem vislubramos as luzes do Farol de Itapuã dando as boas-vindas aos que adentram no estuário do Rio Guaíba. Já é noite alta, estamos próximos da meia-noite e a lua nos ajuda a encontrar um bom lugar para fundear o Arraia Manta.

A Praia do Sítio é nossa velha conhecida e, para mim, o mais belo fundeadouro do Rio Guaíba. Cansados todos da viagem, da exposição ao sol e ao vento e do manejo das velas, fazemos um lanche leve e a tripulação se divide. Metade vai direto para a cama e o resto sobe ao convés para apreciar a noite e "a fresca", termo carinhoso pelo qual o gaúcho do interior costuma chamar a brisa leve...


P.S.: Desde a saída do Canal da Feitoria não mais obtive conexão com internet, apesar de haver sinal de celular por boa parte do caminho. A conexão 3G somente voltou na Praia do Sítio, já no Rio Guaíba.


IMAGENS: Fotos por João Paulo Lucena e Ana Karina Belegantt.

2 comentários:

  1. Não foi uma colisão, e sim um incêndio fora de controle que pos fim à curta carreira desse navio na Marinha do Brasil. Mais informnações podem ser encontradas em:
    http://www.popa.com.br/diversos/alvaro_alberto/alvaro_alberto.htm e
    http://www.naviosbrasileiros.com.br/ngb/A/A033/A033.htm.

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    1. Rover, muito obrigado pela informação. Vou atualizar a postagem! Abraço, João Paulo Lucena

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