quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Crônica: Fabrício Carpinejar e a paternidade em todos nós

Pois é. A paternidade - tal qual a sua condição equivalente, a maternidade - nos deixa literalmente bobos, no melhor sentido da expressão. Independente da idade, profissão, origem, condição social, idéias políticas, time de futebol, posição frente ao mundo...

Nesta hora somos todos iguais e, em bom português isto quer dizer que ficamos mais sensíveis, atentos a alguns aspectos da vida que tempos antes nos passariam totalmente despercebidos.

Assim, nesta semana, lendo o jornal durante meu intervalo de almoço, deparei quase por acaso com uma crônica do meu conterrâneo Fabrício Carpinejar, poeta e escritor, escrevendo justamente sobre este tema.

Ali, durante uma viagem, de repente ele se descobre vendo o filho de oito anos crescer, rememorando ao mesmo tempo sua relação com o pai durante a infância, num processo contínuo que se repete entre as gerações desde o começo dos tempos...

Em uma condição idêntica à do Fabrício me permito escapar um pouco dos assuntos tradicionais do blog e replico aí para vocês esta sensível crônica deste talentoso escritor.


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"OITO ANOS

Vivo uma maratona de viagens, descanso numa cidade e acordo noutra. Como durmo pouco, a namorada insistiu para que pelo menos aproveitasse o travesseiro e adquirisse abrigos e camisetas brancas. Dolorido gastar com o sono, sair com uma sacola do shopping para desaparecer, anônimo, entre os lençóis. Eu me via como um idiota, a quantia deveria ter sido direcionada a melhorar o visual no trabalho.

O homem tem pavor do acessório. Não costuma inaugurar roupas na hora de deitar. Usa a que for mais folgada, e não pensa mais nisso. Da mesma forma não se preocupa com cuecas e meias. Nunca repara na cama, nas colchas e edredons, a não ser no início do casamento. Não sei como nossa espécie não foi extinta até hoje. Depois que aceitamos o pijama, também não precisamos mais pagar ônibus – é que ficamos velhos. Aliás, macho não compra pijama, somente recebe de sua mãe ou de sua mulher.

Mas atendi a mudança de costumes e separei as peças para testar no hotel de Torres. Vencido o compromisso, de banho tomado, sossegado no quarto, abri a mala para colocar a calça. Ela murchou, não entrava. Estranhamente encolheu. Parecia grande, mas não o suficiente. Confundi o número na loja? Botei a perna esquerda e trancou mesmo. Observei que não era minha, mas de Vicente.

A possibilidade do engano é que me transtornava. Como meu filho amadureceu tanto a ponto de confundir minha calça com a dele? Cético, pasmo, estendi o abrigo na cama para comprovar sua altura, assim como meu pai conferia meu crescimento com a fita métrica – lembro que ria todo orgulhoso com o veredito. Às vezes, o pai mentia o avanço (não podia crescer três centímetros todo dia), porém acreditava, não desconfiava das boas notícias.

Acariciei cada linha do pano e imaginei o peso, o tamanho, a envergadura atual do meu Vicente. Não é que sou distraído, é que ele me surpreende sempre. Fui tocando em seu tempo, nos fios costurados de seu tempo, revendo suas gargalhadas na banheira azul, o espanto com o vaivém do balanço, as corridas vacilantes de cisne, o andar firme e decidido ao atravessar a rua, a concentração na primeira aula, o temperamento de virar a cabeça quando apanhado no colo, os cabelos compridos de roqueiro. Seus oito anos deslizaram pelos dedos. Transformei as mãos num ferro elétrico, desamassando os vincos, desfazendo as dobras. O rio subia os muros, avançava as marcas. Já havia uma enchente na minha respiração.

Ai,Vicente, você cresceu e nem me avisou."

Por Fabrício Carpinejar.

Publicado no blog Carpinejar em 25/10/2010
Publicado no Jornal Zero Hora
Interino de Luis Fernando Verissimo, p. 2, 25/10/2010
Porto Alegre (RS), Edição N° 16499

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